Vigésimo segundo andar. Um casal de idosos entra no elevador.
- .... aí eu disse para ela que neste Natal eu não vou ficar me matando na cozinha enquanto a belezoca da Zumira fica na sala como se fosse uma visita muito importante! Eu, não. Nunca mais.
O marido abre a boca, mas logo é interrompido pela mulher.
- Onde já se viu! Lembra do ano passado, quando a Ruth foi fazer as compras para a ceia às seis horas da tarde?! O peru ficou um horror, com gosto de sangue na boca, lembra?! – olha para o marido com impaciência – Você nunca lembra de nada mesmo, né, Adamastor? – diz bufando.
Adamastor mais uma vez tenta responder, mas é interrompido novamente pela mulher.
- A palhaça aqui este ano está aposentada, isso eu garanto! – diz indignada.
O marido dá um longo suspiro. A mulher olha para ele com raiva.
- Não acredita, não?! Pois eu garanto que este ano serei visita na casa da Ruth, não moverei uma palha. E não adianta você querer chegar mais cedo para ver o jogo na TV a cabo, que só sairemos de casa depois das nove horas da noite, talvez só depois da novela! Onde já se viu! Todo ano é assim, eu e Isabel nos matamos na cozinha, a Ruth correndo igual a uma barata tonta, deixando para comprar tudo na última hora, e a lindeza da Zumira lá no bem-bom! O pior é que traz aquelas pragas de netos, filhos e noras que não têm nenhuma educação!
O marido olha para visor e nota que estão na metade do caminho. A mulher continua com sua metralhadora giratória.
- Lembra que no ano passado a neta da Zumira chegou para a ceia com um tipo mal encarado? Lembra? O rapaz era todo tatuado e cheio de… como é mesmo o nome daqueles negócios que as pessoas dependuram na orelha, nariz, colocam na boca? Como é o nome, Adamastor?!
Adamastor arrisca falar, mas é mais interrompido pela mulher:
- Você não sabe de nada mesmo, né, Adamastor?! – diz, bufando – Bem, não importa. Você sabe do que estou falando. Sinceramente, eu não sei por que hoje isso 'tá na moda. Uma perdição, isso sim. Artista faz isso porque é artista, quer chocar, e aí vem um Zé Ninguém e faz o mesmo. Ridículo, isso sim! Todo mundo agora quer ser artista hoje em dia.
O marido olha para o relógio e depois confere o visor do elevador. Faltam quatro andares. Dois segundos de silêncio.
- Ah, não me deixa esquecer de comprar as passas para a farofa e o arroz à grega, viu, Adamastor?! Não vai esquecer, 'tá? No ano passado você não me lembrou e ficou faltando a ameixa preta e a dondoca da Zumira logo disse que…
O elevador chega ao térreo e o marido sai rapidamente, sendo seguido pela mulher, que apressadamente anda atrás dele.
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
Par perfeito
Ele vivia com sono. Desde que nasceu, era um ser adorava dormir. Os pais, inicialmente, ficaram maravilhados com aquele bebê rosinha, que só queria saber de dormir e comer. Dormia a noite inteirinha, e esse negócio de dizer que, tendo criança nova em casa, a mãe pode esquecer o sossego do travesseiro não aconteceu com a genitora do pequeno Augusto Manoel Oliveira Sampaio Brito. Sim, esse era o seu nome de batismo, que logo foi esquecido. Por ser tão dorminhoco, rapidamente ganhou a alcunha, ainda no berço, de Morfeu. Até entrar para o colégio, o menino Morfeu pensava que esse era na realidade o seu nome. Seus pais, inicialmente, não ligavam muito por ver o guri dormindo tanto. “Antes dormir do que ficar fazendo arte e aprendendo o que não deve”, diziam. Contudo, com o passar do tempo, eles começaram a ficar preocupados. Morfeu só queria saber de dormir. Dormia, dormia, dormia, e a preocupação dos pais crescia, crescia, crescia. O médico constatou: Augusto Manoel Oliveira Sampaio Brito não tinha nada. Apenas gostava de dormir, ponto final.
Com o laudo médico em mãos, os pais de Morfeu se acostumaram com a ideia de que tinham um filho preguiçoso. O único filho – diga-se de passagem – era muito preguiçoso. “Fazer o quê, né mesmo? Pior seria se fosse marginal”, argumentavam aos amigos e parentes que sempre comentavam, admirados, o quanto Morfeu dormia.
Morfeu crescia e continuava a dormir. Era um custo fazê-lo levantar para ir ao colégio. O problema era tão sério, que ele chegou a repetir alguns anos porque não conseguia levantar cedo para ir às aulas na parte da manhã. Resultado: tiveram que matriculá-lo no curso da tarde. Não que isso melhorasse muito coisa, não; não melhorou, mas pelo menos ninguém começava o dia estressado ao tentar fazê-lo levantar da cama.
O problema percorreu todo primário, ginásio e segundo grau. Quando arrumou o primeiro emprego, os pais desistiram de sonhar com uma faculdade. O problema continuou, mas, aí, como ele já era adulto, entregaram a situação para Deus. Só Ele mesmo é que daria jeito na preguiça do filho, falavam, conformados.
A vida de Morfeu se resumia, então, a dormir a maior parte do tempo, ficando acordado o suficiente para ir bater o ponto de oito horas no trabalho. Mas, mesmo lá, na hora do almoço, ele dava o seu cochilinho, porque, afinal, ninguém de ferro!
Contudo, a vida de Morfeu se transformou quando chegou ao escritório uma nova funcionária: Sonia Terezinha Madeira de Carvalho Brandão. Era uma menina tímida, que tinha olhos enormes, meio arregalados, e olhavam para o mundo como se tivesse acabado de receber um susto de algum engraçadinho. Não era bonita, mas também não se poderia dizer que fosse feia; isso certamente ela não era. Talvez faltasse um pouco de cor na face, um batom mais vermelho, uns dez centímetros a mais no quadril, uns 25 no busto, uma atitude mais... como direi?... uma atitude mais firme na vida. Sim, é isso. Faltava a Sonia uma atitude pró-ativa na vida. Muito magra, muito pálida e com aqueles dois olhões, não era uma figura feminina que despertasse interesse imediatamente. Não, não era. Contudo, entre uma cochilada e outra, Morfeu a notou. Na verdade, o dorminhoco de plantão não notou Sonia primeiramente, não. Ele ouviu comentários sobre ela, para depois notar sua presença. Uma tarde, logo depois do almoço, quando ele estendeu tanto a siesta que seu chefe lhe chamou a atenção, Morfeu estava tomando o seu cafezinho básico, para ver se espantava o sono, quando ouviu a maledicência entre as fofoqueiras da rádio corredor, envolvendo o nome da mais nova contratada da firma. O que mais chamou a atenção de Morfeu foi quando ouviu que Sonia sofria de um grande mal, a insônia. As comadres atribuíam sua fragilidade física e emocional – por isso sua aparência, seus grandes olhos arregalados, sua constante tensão – à doença crônica que a quase beldade tinha.
Morfeu ficou curioso e começou a olhar Sonia com olhos mais... como direi?... compridos. Contudo, o rapaz era muito tímido. Ele tinha pouca experiência no trato com o sexo oposto, já que passava a maior parte do tempo dormindo. Morfeu não trocava sua cama por hipótese nenhuma para ir se balançar numa balada. Não! A cama era seu lugar predileto, sempre. Porém os colegas de trabalho começaram a notar os olhares de Morfeu, já que Sonia, com aquele jeitão estressado, nunca notaria mesmo. Notaram e incentivaram que o dorminhoco de plantão se aproximasse da quase beldade. Mas sempre que surgia uma oportunidade, Morfeu rateava, saía de escanteio, pulava fora, sartava de banda, enfim, escapulia mesmo. Um amarelão, era o que diziam os homens do escritório.
Mas o final de ano estava chegando, e os funcionários se arregimentaram para planejar uma estratégia de guerra para juntar o casal de quase pombinhos. Sim, porque, com aqueles dois, só mesmo um detalhado plano de combate para derrubar a artilharia inimiga. Sabe como é, final de ano, em festa de escritório, as pessoas sempre ficam... como direi?... mais soltas, mais livres, mais desinibidas, mais... ah, você já entendeu o que estou falando, né ? Pois é.
Então, resolveram oferecer várias opções de bebidas na festinha do escritório. Sonia já dizia para Deus e o mundo que não gostava de bebida alcoólica e que a única exceção era um ponche de maçã, bem fraquinho, a que ela se aventurava uma vez por ano, normalmente no Natal. Sabendo desta fraqueza, os colegas dos dois pombinhos logo incluíram na carta de bebidas o drink preferido da quase beldade. Detalhe: a bebida da moça estava devidamente batizada. Morfeu também nada bebia, pois imagine uma pessoa com tanta facilidade para dormir bebendo? No primeiro gole já cairia para trás. Contudo, os colegas do escritório – mal intencionados – colocaram um energético no seu vinho tinto e aí... Nas primeiras cinco horas, o dorminhoco de plantão ficou mais aceso do que fogueira de São João. Com essas duas estratégias de guerra, juntar o casal poderia parecer aos desavisados uma coisa fácil. Não foi, ambos ratearam, ratearam, cada um num canto do escritório. Mais soltinhos, é bem verdade, mas ainda sem coragem suficiente para se aproximarem.
Você já viu história de amor de filme romântico sem trilha sonora? Não, certo? Pois é. Algum romântico de plantão decidiu escolher uma trilha sonora para incentivar a aproximação. Quando os primeiros acordes de Roberto Carlos começaram a ecoar no salão, os olhares de Morfeu e Sonia se encontraram e aí, meu amigo, o Cupido fez o seu trabalho, direitinho, direitinho.
Bem, para encurtar esta prosa, pois estou me estendendo muito: em menos de seis meses estavam os dois subindo ao altar. Claro que o escritório foi em peso e cada funcionário atribuía a si mesmo a ideia de juntar o mais novo casal.
Resumo da ópera: depois que Sonia caiu nos braços de Morfeu, nunca mais sofreu de insônia. Por sua vez, Morfeu, desde que beijou Sonia, não conseguiu dormir com tanta facilidade assim. Hoje ele continua na firma, só que no cargo de chefia. Fez faculdade de Administração de Empresa, pós-graduação em marketing e MBA em gerência. Sonia saiu do escritório. Optou por cuidar dos pimpolhos: Soninha e Júnior.
E foram felizes para sempre, acredite.
Com o laudo médico em mãos, os pais de Morfeu se acostumaram com a ideia de que tinham um filho preguiçoso. O único filho – diga-se de passagem – era muito preguiçoso. “Fazer o quê, né mesmo? Pior seria se fosse marginal”, argumentavam aos amigos e parentes que sempre comentavam, admirados, o quanto Morfeu dormia.
Morfeu crescia e continuava a dormir. Era um custo fazê-lo levantar para ir ao colégio. O problema era tão sério, que ele chegou a repetir alguns anos porque não conseguia levantar cedo para ir às aulas na parte da manhã. Resultado: tiveram que matriculá-lo no curso da tarde. Não que isso melhorasse muito coisa, não; não melhorou, mas pelo menos ninguém começava o dia estressado ao tentar fazê-lo levantar da cama.
O problema percorreu todo primário, ginásio e segundo grau. Quando arrumou o primeiro emprego, os pais desistiram de sonhar com uma faculdade. O problema continuou, mas, aí, como ele já era adulto, entregaram a situação para Deus. Só Ele mesmo é que daria jeito na preguiça do filho, falavam, conformados.
A vida de Morfeu se resumia, então, a dormir a maior parte do tempo, ficando acordado o suficiente para ir bater o ponto de oito horas no trabalho. Mas, mesmo lá, na hora do almoço, ele dava o seu cochilinho, porque, afinal, ninguém de ferro!
Contudo, a vida de Morfeu se transformou quando chegou ao escritório uma nova funcionária: Sonia Terezinha Madeira de Carvalho Brandão. Era uma menina tímida, que tinha olhos enormes, meio arregalados, e olhavam para o mundo como se tivesse acabado de receber um susto de algum engraçadinho. Não era bonita, mas também não se poderia dizer que fosse feia; isso certamente ela não era. Talvez faltasse um pouco de cor na face, um batom mais vermelho, uns dez centímetros a mais no quadril, uns 25 no busto, uma atitude mais... como direi?... uma atitude mais firme na vida. Sim, é isso. Faltava a Sonia uma atitude pró-ativa na vida. Muito magra, muito pálida e com aqueles dois olhões, não era uma figura feminina que despertasse interesse imediatamente. Não, não era. Contudo, entre uma cochilada e outra, Morfeu a notou. Na verdade, o dorminhoco de plantão não notou Sonia primeiramente, não. Ele ouviu comentários sobre ela, para depois notar sua presença. Uma tarde, logo depois do almoço, quando ele estendeu tanto a siesta que seu chefe lhe chamou a atenção, Morfeu estava tomando o seu cafezinho básico, para ver se espantava o sono, quando ouviu a maledicência entre as fofoqueiras da rádio corredor, envolvendo o nome da mais nova contratada da firma. O que mais chamou a atenção de Morfeu foi quando ouviu que Sonia sofria de um grande mal, a insônia. As comadres atribuíam sua fragilidade física e emocional – por isso sua aparência, seus grandes olhos arregalados, sua constante tensão – à doença crônica que a quase beldade tinha.
Morfeu ficou curioso e começou a olhar Sonia com olhos mais... como direi?... compridos. Contudo, o rapaz era muito tímido. Ele tinha pouca experiência no trato com o sexo oposto, já que passava a maior parte do tempo dormindo. Morfeu não trocava sua cama por hipótese nenhuma para ir se balançar numa balada. Não! A cama era seu lugar predileto, sempre. Porém os colegas de trabalho começaram a notar os olhares de Morfeu, já que Sonia, com aquele jeitão estressado, nunca notaria mesmo. Notaram e incentivaram que o dorminhoco de plantão se aproximasse da quase beldade. Mas sempre que surgia uma oportunidade, Morfeu rateava, saía de escanteio, pulava fora, sartava de banda, enfim, escapulia mesmo. Um amarelão, era o que diziam os homens do escritório.
Mas o final de ano estava chegando, e os funcionários se arregimentaram para planejar uma estratégia de guerra para juntar o casal de quase pombinhos. Sim, porque, com aqueles dois, só mesmo um detalhado plano de combate para derrubar a artilharia inimiga. Sabe como é, final de ano, em festa de escritório, as pessoas sempre ficam... como direi?... mais soltas, mais livres, mais desinibidas, mais... ah, você já entendeu o que estou falando, né ? Pois é.
Então, resolveram oferecer várias opções de bebidas na festinha do escritório. Sonia já dizia para Deus e o mundo que não gostava de bebida alcoólica e que a única exceção era um ponche de maçã, bem fraquinho, a que ela se aventurava uma vez por ano, normalmente no Natal. Sabendo desta fraqueza, os colegas dos dois pombinhos logo incluíram na carta de bebidas o drink preferido da quase beldade. Detalhe: a bebida da moça estava devidamente batizada. Morfeu também nada bebia, pois imagine uma pessoa com tanta facilidade para dormir bebendo? No primeiro gole já cairia para trás. Contudo, os colegas do escritório – mal intencionados – colocaram um energético no seu vinho tinto e aí... Nas primeiras cinco horas, o dorminhoco de plantão ficou mais aceso do que fogueira de São João. Com essas duas estratégias de guerra, juntar o casal poderia parecer aos desavisados uma coisa fácil. Não foi, ambos ratearam, ratearam, cada um num canto do escritório. Mais soltinhos, é bem verdade, mas ainda sem coragem suficiente para se aproximarem.
Você já viu história de amor de filme romântico sem trilha sonora? Não, certo? Pois é. Algum romântico de plantão decidiu escolher uma trilha sonora para incentivar a aproximação. Quando os primeiros acordes de Roberto Carlos começaram a ecoar no salão, os olhares de Morfeu e Sonia se encontraram e aí, meu amigo, o Cupido fez o seu trabalho, direitinho, direitinho.
Bem, para encurtar esta prosa, pois estou me estendendo muito: em menos de seis meses estavam os dois subindo ao altar. Claro que o escritório foi em peso e cada funcionário atribuía a si mesmo a ideia de juntar o mais novo casal.
Resumo da ópera: depois que Sonia caiu nos braços de Morfeu, nunca mais sofreu de insônia. Por sua vez, Morfeu, desde que beijou Sonia, não conseguiu dormir com tanta facilidade assim. Hoje ele continua na firma, só que no cargo de chefia. Fez faculdade de Administração de Empresa, pós-graduação em marketing e MBA em gerência. Sonia saiu do escritório. Optou por cuidar dos pimpolhos: Soninha e Júnior.
E foram felizes para sempre, acredite.
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Herança
Mariinha ganhou um par de brincos de água marinha quando completou 15 anos. Desde então, o acessório fez parte de sua longa existência. A delicada peça, uma pedra de límpido azul num engaste de prata artisticamente trabalhado, foi presente que o pai lhe deu pelo rito de passagem, num tempo em que o acessório era usado exclusivamente pelas representantes do sexo frágil. Não havia as modernidades de hoje.
O brinco foi testemunha de sua vida. Em vários momentos – se não em todos – esteve presente: foi assim quando se formou no Curso Normal. Depois, quando concluiu a Universidade de Geografia. Ela o usava quando foi ao enterro do irmão, morto de repente num acidente na Dutra. Depois, no falecimento dos pais. Sempre em alguma data especial, estava lá o penduricalho sendo usado por ela.
O brinco foi presença também em várias fases de sua vida, desde mocinha até hoje, quando ela se olha no espelho e não reconhece aquela senhora enrugada que já não traz nos olhos o brilho de outrora. Ah… o brinco de pedra azul combinava tantos com seus olhos verdes! Os rapazes diziam que pareciam duas esmeraldas. A pedra mais preciosa, a mais pura que a natureza foi capaz de criar! Agora são duas gemas opacas que ela só enxerga colocando os óculos. A vida é assim e ela já se conformou.
Quer dizer, nem sempre. Há momentos em que Mariinha olha para os brincos e também para sua existência e vê o que foi capaz de fazer, ou melhor, o que não fez. Sente raiva. Sente ressentimento, e ressentir é sentir novamente, numa dor eterna.
Se houvesse um Deus lá em cima não deixaria que todos fossem embora para bem longe. Muito longe. Mas aí o momento passa, é apenas um instante de rebeldia.
Normalmente, depois do acesso de raiva e ressentimento, vem uma grande tristeza. Sim, tristeza por não ter para quem deixar os brincos, os lindos brincos que a acompanharam e que poderiam se eternizar nas orelhas de outrem. Uma neta, quem sabe até uma bisneta, talvez? Mas a vida não lhe agraciou com descendentes. Foi estéril de emoções.
O brinco foi testemunha de sua vida. Em vários momentos – se não em todos – esteve presente: foi assim quando se formou no Curso Normal. Depois, quando concluiu a Universidade de Geografia. Ela o usava quando foi ao enterro do irmão, morto de repente num acidente na Dutra. Depois, no falecimento dos pais. Sempre em alguma data especial, estava lá o penduricalho sendo usado por ela.
O brinco foi presença também em várias fases de sua vida, desde mocinha até hoje, quando ela se olha no espelho e não reconhece aquela senhora enrugada que já não traz nos olhos o brilho de outrora. Ah… o brinco de pedra azul combinava tantos com seus olhos verdes! Os rapazes diziam que pareciam duas esmeraldas. A pedra mais preciosa, a mais pura que a natureza foi capaz de criar! Agora são duas gemas opacas que ela só enxerga colocando os óculos. A vida é assim e ela já se conformou.
Quer dizer, nem sempre. Há momentos em que Mariinha olha para os brincos e também para sua existência e vê o que foi capaz de fazer, ou melhor, o que não fez. Sente raiva. Sente ressentimento, e ressentir é sentir novamente, numa dor eterna.
Se houvesse um Deus lá em cima não deixaria que todos fossem embora para bem longe. Muito longe. Mas aí o momento passa, é apenas um instante de rebeldia.
Normalmente, depois do acesso de raiva e ressentimento, vem uma grande tristeza. Sim, tristeza por não ter para quem deixar os brincos, os lindos brincos que a acompanharam e que poderiam se eternizar nas orelhas de outrem. Uma neta, quem sabe até uma bisneta, talvez? Mas a vida não lhe agraciou com descendentes. Foi estéril de emoções.
Postado por
Carla Giffoni
às
Segunda-feira, Novembro 02, 2009
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segunda-feira, 19 de outubro de 2009
Unha
Era um homem comum. Quem o visse à primeira vista poderia até dizer: “É um homem comum”. E era mesmo. Quer dizer, era comum até o momento em que tirasse os sapatos fechados. Ele usava um daqueles que são amarrados com cadarços, sabe?
No momento em que tirava os sapatos, meu amigo!, não havia quem não virasse o rosto ou fizesse uma cara de espanto. O motivo? As grandes unhas dos seus pés. Imagine uma unha grande. Imaginou? Pois posso garantir: era maior. Muito maior. Maior do que possa imaginar sua vã filosofia! Isso eu garanto.
Mas a unha não era apenas grande. Era grande, imensa, curvada e… como direi?… não quero ferir temperamentos mais sensíveis… mas, vamos dizer, esbanjando eufemismo, que a unha do dito cujo não primava pela limpeza. Não que ele fosse parente de algum mamífero suíno, não, de jeito nenhum, posso garantir. Contudo, a unha era tão grande que não havia condição de ele próprio cuidar. Procurar um podólogo? Ele sequer era capaz de levar o pensamento em consideração. Tinha medo de o profissional querer lixar, cortar ou fazer sei lá o quê com aquelas garras, que ele tanto amava. Sim, porque era um grande amor o que o homem sentia por suas garras. É verdade, acredite. O aspecto era esse mesmo. Grandes garras agarradas nos seus pequeninos pés. Sim, porque ele não era um homem alto, mas também não poderíamos dizer que era um anão. Não, isso ele não era. Contudo, seus pés eram pequenos, diminutos até, poderíamos dizer que mais pareciam pés infantis, eram pés delicados como aquelas mulheres japonesas que usam lindos quimonos e têm de usar sapatos de madeira, para disciplinar as duas extremidades inferiores. Ele se sentia mal por ter pés tão femininos. Afinal, era macho sim, senhor, e ai de quem duvidasse! Não dizem que todo baixinho é invocado? Pois é. Ele confirmava a regra.
Ter as unhas dos pés tão grandes não era fácil. Ele penava e pagava muitas vezes um alto preço por isso. Namoradas? Eram poucas as que se sujeitavam em ir para a cama com uma figura tão exótica. Se quisesse manter um relacionamento mais duradouro tinha que usar meias ou então abrir mão de sexo, porque invariavelmente, quando a garota olhava para os seus dois pés com aquelas garras enormes, o tesão ia para o ralo. Não havia chamego que fizesse a dita cuja esquecer as garras e se entregar aos prazeres de Vênus. Mas o homem seguia sua vida, conformado com sua condição e pagando o preço por ser um humano com garras. Mas aí um dia ele encontrou Zuleide. Sim, Zuleide era uma linda cabocla, de olhos negros, ligeiramente puxados, que faziam lembrar a noite sem lua. Uma nordestina arretada, um pouco acima do peso, é bem verdade, mas o homem não se importava. Ele gostava de pegar em carnes, esse negócio de mulher magrela demais não o agradava. Ao ver Zuleide, logo raciocinou: “Isso sim é que é mulher!” Gostou do seu sorriso fácil, sua gargalhada espalhafatosa, mas o que o fez apaixonar-se verdadeiramente foi o tamanho de suas unhas. Sim, Zuzu – ele logo chegou cheio de intimidade com a cabocla – tinha umas senhoras unhas, destas de fazer inveja a qualquer mulher que se preze. Eram unhas enormes e muito bem cuidadas. Quando a cabocla disse sua profissão, o homem logo atinou com seus botões: “É ela! Sim, Zuleide é a mulher da minha vida! Tinha que ser ela!” Sabe qual era a profissão da morena sestrosa? Acertou: manicure. Sim, manicure. Zuleide logo deu trela para o homem e foi lhe contando toda sua trajetória; como saiu de uma cidadezinha do interior da Paraíba e veio parar no Sudeste em busca de seu sonho e fugindo da miséria. Ao ser elogiada por sua beleza de unha, toda garbosa e sem um pingo de modéstia, disse: “É bonita mesmo, não? Eu não tenho uma maior porque a profissão não deixa. Mas o meu sonho era ter uma unha tão grande como garras de uma poderosa águia. Sou portelense roxa! Adoro unha grande!” – confidenciou, dando uma risada escandalosa.
Resultado: em menos de três meses estavam os dois subindo ao altar, na frente do padre e também do juiz.
Não dizem que todo pé cansado tem seu chinelo velho aí perdido no mundo, pronto para ser encontrado? Pois é. O homem encontrou seu par, e hoje suas unhas dos pés continuam grandes, imensas, só que muito bem cuidadas.
No momento em que tirava os sapatos, meu amigo!, não havia quem não virasse o rosto ou fizesse uma cara de espanto. O motivo? As grandes unhas dos seus pés. Imagine uma unha grande. Imaginou? Pois posso garantir: era maior. Muito maior. Maior do que possa imaginar sua vã filosofia! Isso eu garanto.
Mas a unha não era apenas grande. Era grande, imensa, curvada e… como direi?… não quero ferir temperamentos mais sensíveis… mas, vamos dizer, esbanjando eufemismo, que a unha do dito cujo não primava pela limpeza. Não que ele fosse parente de algum mamífero suíno, não, de jeito nenhum, posso garantir. Contudo, a unha era tão grande que não havia condição de ele próprio cuidar. Procurar um podólogo? Ele sequer era capaz de levar o pensamento em consideração. Tinha medo de o profissional querer lixar, cortar ou fazer sei lá o quê com aquelas garras, que ele tanto amava. Sim, porque era um grande amor o que o homem sentia por suas garras. É verdade, acredite. O aspecto era esse mesmo. Grandes garras agarradas nos seus pequeninos pés. Sim, porque ele não era um homem alto, mas também não poderíamos dizer que era um anão. Não, isso ele não era. Contudo, seus pés eram pequenos, diminutos até, poderíamos dizer que mais pareciam pés infantis, eram pés delicados como aquelas mulheres japonesas que usam lindos quimonos e têm de usar sapatos de madeira, para disciplinar as duas extremidades inferiores. Ele se sentia mal por ter pés tão femininos. Afinal, era macho sim, senhor, e ai de quem duvidasse! Não dizem que todo baixinho é invocado? Pois é. Ele confirmava a regra.
Ter as unhas dos pés tão grandes não era fácil. Ele penava e pagava muitas vezes um alto preço por isso. Namoradas? Eram poucas as que se sujeitavam em ir para a cama com uma figura tão exótica. Se quisesse manter um relacionamento mais duradouro tinha que usar meias ou então abrir mão de sexo, porque invariavelmente, quando a garota olhava para os seus dois pés com aquelas garras enormes, o tesão ia para o ralo. Não havia chamego que fizesse a dita cuja esquecer as garras e se entregar aos prazeres de Vênus. Mas o homem seguia sua vida, conformado com sua condição e pagando o preço por ser um humano com garras. Mas aí um dia ele encontrou Zuleide. Sim, Zuleide era uma linda cabocla, de olhos negros, ligeiramente puxados, que faziam lembrar a noite sem lua. Uma nordestina arretada, um pouco acima do peso, é bem verdade, mas o homem não se importava. Ele gostava de pegar em carnes, esse negócio de mulher magrela demais não o agradava. Ao ver Zuleide, logo raciocinou: “Isso sim é que é mulher!” Gostou do seu sorriso fácil, sua gargalhada espalhafatosa, mas o que o fez apaixonar-se verdadeiramente foi o tamanho de suas unhas. Sim, Zuzu – ele logo chegou cheio de intimidade com a cabocla – tinha umas senhoras unhas, destas de fazer inveja a qualquer mulher que se preze. Eram unhas enormes e muito bem cuidadas. Quando a cabocla disse sua profissão, o homem logo atinou com seus botões: “É ela! Sim, Zuleide é a mulher da minha vida! Tinha que ser ela!” Sabe qual era a profissão da morena sestrosa? Acertou: manicure. Sim, manicure. Zuleide logo deu trela para o homem e foi lhe contando toda sua trajetória; como saiu de uma cidadezinha do interior da Paraíba e veio parar no Sudeste em busca de seu sonho e fugindo da miséria. Ao ser elogiada por sua beleza de unha, toda garbosa e sem um pingo de modéstia, disse: “É bonita mesmo, não? Eu não tenho uma maior porque a profissão não deixa. Mas o meu sonho era ter uma unha tão grande como garras de uma poderosa águia. Sou portelense roxa! Adoro unha grande!” – confidenciou, dando uma risada escandalosa.
Resultado: em menos de três meses estavam os dois subindo ao altar, na frente do padre e também do juiz.
Não dizem que todo pé cansado tem seu chinelo velho aí perdido no mundo, pronto para ser encontrado? Pois é. O homem encontrou seu par, e hoje suas unhas dos pés continuam grandes, imensas, só que muito bem cuidadas.
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
A menina de saia xadrez
Sempre de tarde, quando era um jovem mancebo – e isso já faz muito tempo! – via uma menina passar por mim vestindo uma graciosa saia xadrez. A moleca, sim porque era uma garotinha que sempre desfilava sorrindo de um jeito de quem iria dar muito trabalho aos pais dali a uns dez ou quinze anos, caminhava – lembro-me bem – com os cabelos negros balançando. Eram duas tranças artisticamente trabalhadas, que sempre terminavam com laços de fitas coloridas. Ela andava pela calçada, pisando como se o longo passeio público tivesse se transformado em um grande jogo de amarelinha.
Não me pergunte o seu nome. Não sei. Não me pergunte onde morava, também não poderei dizer. Só sei do sorriso largo que ela me dava quando passava saltitando em frente à farmácia onde eu trabalhava. Um sorriso infantil, com uma charmosa ausência de dois dentinhos frontais. A saia xadrez fazia parte fazia parte do uniforme que ela usava para ir ao colégio, também não sei onde.
Passados tantos anos, pergunto-me: Onde andará aquela menininha? Será que casou? Teve filhos? Encontrou um grande amor? Ou será que a vida – sempre ela – a tragou, a levou para as correntezas da desilusão?
Não sei, não sei. Como posso saber, não é mesmo ?!
O que sei é que eu não sou mais aquele mancebo, hoje sou um velho ancião. Eu sei… eu sei, estou me repetindo, pois ancião quer dizer que sou velho. Mas permita-me intensificar a minha idade. Demonstrar para você, que me lê – e não me vê –, o quanto de peso do tempo tenho acumulado nos ossos…
O tempo passa como se fosse areia a se perder entre os dedos. Quando jovem, não tinha noção da rapidez e do poder de Cronos: um dia nasci e, sem saber o porquê, me vejo velho, tendo saudade de uma menininha de quem nem sei sequer o nome.
Hoje vejo que meu menino interno, aquele que a vida volta e meia quis matar, queria sair e brincar com aquela menininha, como se fossem dois irmãos, dois primos, dois (quem sabe?) futuros amantes. Todavia, a vida me tragou e o menino que habitava em mim teve que crescer muito rápido, teve que sair, pagar contas, batalhar por um espaço na vida – docemente amarga vida. Com isso, a menininha ficou sem par. Hoje, lembro-me daquela garotinha de tranças negras com laços de fitas combinando com a graciosa saia colegial. Faço uma prece para que ela tenha sido feliz.
Não me pergunte o seu nome. Não sei. Não me pergunte onde morava, também não poderei dizer. Só sei do sorriso largo que ela me dava quando passava saltitando em frente à farmácia onde eu trabalhava. Um sorriso infantil, com uma charmosa ausência de dois dentinhos frontais. A saia xadrez fazia parte fazia parte do uniforme que ela usava para ir ao colégio, também não sei onde.
Passados tantos anos, pergunto-me: Onde andará aquela menininha? Será que casou? Teve filhos? Encontrou um grande amor? Ou será que a vida – sempre ela – a tragou, a levou para as correntezas da desilusão?
Não sei, não sei. Como posso saber, não é mesmo ?!
O que sei é que eu não sou mais aquele mancebo, hoje sou um velho ancião. Eu sei… eu sei, estou me repetindo, pois ancião quer dizer que sou velho. Mas permita-me intensificar a minha idade. Demonstrar para você, que me lê – e não me vê –, o quanto de peso do tempo tenho acumulado nos ossos…
O tempo passa como se fosse areia a se perder entre os dedos. Quando jovem, não tinha noção da rapidez e do poder de Cronos: um dia nasci e, sem saber o porquê, me vejo velho, tendo saudade de uma menininha de quem nem sei sequer o nome.
Hoje vejo que meu menino interno, aquele que a vida volta e meia quis matar, queria sair e brincar com aquela menininha, como se fossem dois irmãos, dois primos, dois (quem sabe?) futuros amantes. Todavia, a vida me tragou e o menino que habitava em mim teve que crescer muito rápido, teve que sair, pagar contas, batalhar por um espaço na vida – docemente amarga vida. Com isso, a menininha ficou sem par. Hoje, lembro-me daquela garotinha de tranças negras com laços de fitas combinando com a graciosa saia colegial. Faço uma prece para que ela tenha sido feliz.
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Carla Giffoni
às
Segunda-feira, Setembro 28, 2009
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terça-feira, 22 de setembro de 2009
O par de brincos
O brinco largado na mesinha de cabeceira do quarto. Foi isso o que ela deixou. Saiu apressada, sem escrever sequer uma despedida de batom no espelho. Foi embora, largando tudo, largando todos, largando o mundo… se largando. Nem do cachorro se despediu. Eles, o Poeta e Sérgio, ficaram lá, vendo-a sair com olhar perdido, de cão que caiu da mudança. Os dois. Órfãos.
Sérgio não soube o que dizer, o que falar, como argumentar que ela não fosse embora. Diante do fato consumado, não houve argumentação possível. Não adianta argumentar com uma pessoa que não quer ser convencida, que não está aberta a possibilidades. É triste, mas é a pura verdade, ele constatou.
Poeta ficou lá, olhando com aqueles dois olhos negros, de cachorro pidão, carente de afeto. Ele não teve força para abanar o rabo. A letargia de Sérgio contagiou o Poeta e sequer um tímido latido saiu de sua garganta. Ele não pensou nem ao menos em fazer alguma gracinha, recém-aprendida com ela, para elevar o moral do seu dono. Dono? Ele nem sabia quem era o seu dono. Poeta não se lembrava de quem ele elegeu para ser seu dono. Dizem que os animais é que elegem seus proprietários. Foi sempre assim, desde que o mundo é mundo, mas Poeta não se lembrava. A dor de vê-la sair era maior do que qualquer memória. Cachorro sente, caso você não saiba.
E o apartamento ficou em silêncio. Se houvesse um relógio daqueles tic-tac na sala eles poderiam ouvi-lo em seu esplendor, mas marcador de tempo não havia. Ela levou também o rádio-relógio que estava sobre a cabeceira da cama. Com isso, o tempo estacionou. Ficou um hiato pairando no ar.
Ela levou quase tudo, mas esqueceu o brinco. E o silêncio da tarde se estendeu para a noite, passando pela madrugada e chegando ao amanhecer de um esplendido dia. Contudo, a tristeza pairava pelo apartamento no Catete. Os carros e a vida se movimentam lá fora. Mas no apartamento não havia vida, não havia esperança, não havia ela. Apenas o brinco. E o Poeta chorou.
Sérgio não soube o que dizer, o que falar, como argumentar que ela não fosse embora. Diante do fato consumado, não houve argumentação possível. Não adianta argumentar com uma pessoa que não quer ser convencida, que não está aberta a possibilidades. É triste, mas é a pura verdade, ele constatou.
Poeta ficou lá, olhando com aqueles dois olhos negros, de cachorro pidão, carente de afeto. Ele não teve força para abanar o rabo. A letargia de Sérgio contagiou o Poeta e sequer um tímido latido saiu de sua garganta. Ele não pensou nem ao menos em fazer alguma gracinha, recém-aprendida com ela, para elevar o moral do seu dono. Dono? Ele nem sabia quem era o seu dono. Poeta não se lembrava de quem ele elegeu para ser seu dono. Dizem que os animais é que elegem seus proprietários. Foi sempre assim, desde que o mundo é mundo, mas Poeta não se lembrava. A dor de vê-la sair era maior do que qualquer memória. Cachorro sente, caso você não saiba.
E o apartamento ficou em silêncio. Se houvesse um relógio daqueles tic-tac na sala eles poderiam ouvi-lo em seu esplendor, mas marcador de tempo não havia. Ela levou também o rádio-relógio que estava sobre a cabeceira da cama. Com isso, o tempo estacionou. Ficou um hiato pairando no ar.
Ela levou quase tudo, mas esqueceu o brinco. E o silêncio da tarde se estendeu para a noite, passando pela madrugada e chegando ao amanhecer de um esplendido dia. Contudo, a tristeza pairava pelo apartamento no Catete. Os carros e a vida se movimentam lá fora. Mas no apartamento não havia vida, não havia esperança, não havia ela. Apenas o brinco. E o Poeta chorou.
quarta-feira, 20 de maio de 2009
Boa de cama
Sou boa de cama. Calma. Não vá pensar, leitor(a) amigo(a), que neste texto falarei sobre minhas intimidades na alcova. Não! Sou uma garota do interior e nascida no século passado. Tenho pudores.
O que quero dizer é que na maioria das vezes durmo com facilidade. Ás vezes até aparece uma insoniazinha aqui, outra ali… Mas nada que me apoquente. Não perco o sono com a falta de sono. Por isso, na minha farmacinha, localizada numa gaveta do banheiro, não consta nenhum remédio que possa jogar-me nos braços de Morfeu.
Contudo, dias atrás, não consegui dormir. O pior é que não havia motivo aparente para a insônia. As contas estavam em dia, a TPM já tinha sido concluída e o filho metaleiro da vizinha do 702 tinha viajado… Ou seja: tudo normal. Normalíssimo. Então por que não dormia?
Sei lá!
Não dormia, ora!
E o que se faz numa hora dessas? Eu, normalmente, leio. Caso não adiante, vejo TV. Detalhe: com o som baixo para não incomodar o soninho do pimpolho do 702. Normalmente esses dois instrumentos sempre me levam para os braços do Morfeu rapidamente.
Escrever não é bom, já descobri, porque senão me empolgo e só paro às 13hs do dia seguinte.
Mas e quando tudo falha? Meditar pode ajudar, mas tenho muita dificuldade de não pensar em nada. Fico sete segundos com a mente envolta numa tela branca e aí penso: “Que bom! Não tô pensando!” Ou seja, já pensei!
Sair e caminhar pelas ruas de madrugada poderia ser inspirador, mas a violência que impera faz com que não me empolgue com a ideia.
Ligar para alguém, nem pensar! Telefone quando toca fora de hora é desgraça na certa. Olha o susto que poderia dar no(a) amigo(a) infeliz! Nem pensar. Fora de cogitação. Fico com a insônia, mas não perco a amizade.
Outra coisa que pra mim não adianta: navegar pela internet. Fico entusiasmada e viro a noite, facinho, facinho.
Então o que fiz neste momento crucial? Bem, lembrei do conselho de uma ex-ministra: relaxei e gozei. Fui dormir depois das 5hs da manhã. Sem culpa, sem remorso, sem neura. Foi difícil, porque tenho um relógio interno que funciona pontualmente entre 6h15 e, no máximo, 6h30, e que me faz acordar. Mas nesse dia, no horário esperado, despertei, olhei para o relógio, virei para o canto e voltei a dormir. E ponto final.
OBS.: Agora, aos(às) insistentemente curiosos(as) para saberem se sou ou não boa de cama: a modéstia faz com que fique calada.
hehehehehehehehehe…
O que quero dizer é que na maioria das vezes durmo com facilidade. Ás vezes até aparece uma insoniazinha aqui, outra ali… Mas nada que me apoquente. Não perco o sono com a falta de sono. Por isso, na minha farmacinha, localizada numa gaveta do banheiro, não consta nenhum remédio que possa jogar-me nos braços de Morfeu.
Contudo, dias atrás, não consegui dormir. O pior é que não havia motivo aparente para a insônia. As contas estavam em dia, a TPM já tinha sido concluída e o filho metaleiro da vizinha do 702 tinha viajado… Ou seja: tudo normal. Normalíssimo. Então por que não dormia?
Sei lá!
Não dormia, ora!
E o que se faz numa hora dessas? Eu, normalmente, leio. Caso não adiante, vejo TV. Detalhe: com o som baixo para não incomodar o soninho do pimpolho do 702. Normalmente esses dois instrumentos sempre me levam para os braços do Morfeu rapidamente.
Escrever não é bom, já descobri, porque senão me empolgo e só paro às 13hs do dia seguinte.
Mas e quando tudo falha? Meditar pode ajudar, mas tenho muita dificuldade de não pensar em nada. Fico sete segundos com a mente envolta numa tela branca e aí penso: “Que bom! Não tô pensando!” Ou seja, já pensei!
Sair e caminhar pelas ruas de madrugada poderia ser inspirador, mas a violência que impera faz com que não me empolgue com a ideia.
Ligar para alguém, nem pensar! Telefone quando toca fora de hora é desgraça na certa. Olha o susto que poderia dar no(a) amigo(a) infeliz! Nem pensar. Fora de cogitação. Fico com a insônia, mas não perco a amizade.
Outra coisa que pra mim não adianta: navegar pela internet. Fico entusiasmada e viro a noite, facinho, facinho.
Então o que fiz neste momento crucial? Bem, lembrei do conselho de uma ex-ministra: relaxei e gozei. Fui dormir depois das 5hs da manhã. Sem culpa, sem remorso, sem neura. Foi difícil, porque tenho um relógio interno que funciona pontualmente entre 6h15 e, no máximo, 6h30, e que me faz acordar. Mas nesse dia, no horário esperado, despertei, olhei para o relógio, virei para o canto e voltei a dormir. E ponto final.
OBS.: Agora, aos(às) insistentemente curiosos(as) para saberem se sou ou não boa de cama: a modéstia faz com que fique calada.
hehehehehehehehehe…
quarta-feira, 29 de abril de 2009
O minuto eternizado
Domingo: o sol de abril brilhava como se fosse uma primavera européia e eu andava pela Rua do Catete quando me deparei com uma situação curiosa. Vi um pequeno aglomerado de pessoas olhando uma série de fotografias em preto e branco. Um camelô as vendia e gente de variadas idades circulava ao redor das araras onde estavam dependuradas. Tinha velhos (melhor dizendo, em época do politicamente correto, “pessoas da melhor idade” ou “gente da Terceira Idade”); havia adolescentes e também homens e mulheres nem tão novos, nem tão velhos. Mãe empurrando um carrinho de bebê também olhava para as imagens do passado, assim como donas de casa, turistas, domésticas, surfistas e gatinhas douradas pelo “sol que resplandecia no firmamento”. Ou seja: um amontoado de gente interessada naquelas fotografias do Rio antigo. O passado chegou aos olhos das pessoas que olhavam os instantâneos de uma realidade que não volta mais.
A fotografia tem essa capacidade mesmo. Sempre fui apaixonada por foto em preto e branco, porque ela traz em seu bojo uma dramaticidade que a colorida não tem. As cores distraem a visão do que vemos da vida, o preto e branco não.
Mas não era isso que queria contar. O interessante foi ver a fisionomia e a reação de cada um. Pouco mirei as fotos, porém o que fiz mais foi o exercício de apreciar a alma humana.
Havia um senhor (com cerca de 80 anos) que olhava os Arcos da Lapa como se tivesse saudade do quintal de sua casa, com um olhar serenamente triste.
Um turista espiava as fotos sem entender direito e ria, comentando (em inglês) com o colega as cenas curiosas que via. Nada muda. Nós sempre fomos encarados - e ainda continuamos sendo - pelos europeus como algo estranho, uma espécie que merece ser estudada e analisada perante a grande cultura do Velho Mundo.
Uma jovem sorria ao ver a imagem dos transeuntes caminhando na Avenida Rio Branco. Era outro tempo, um tempo em que as mulheres vestiam elegantemente chapéus e os homens cerimoniosamente usavam gravata e terno, como se fossem para algum evento formal. A vida era mais formal. Havia o certo e o errado apenas, a teoria da relatividade ainda não tinha chegado ao convívio social. Bons tempos, bons tempos...
Fui para casa e peguei minhas próprias fotos. Busquei o álbum amarelado, esquecido numa caixa qualquer, e revi gente querida, pessoas que se foram de uma maneira ou de outra. Vininha (perdoe-me a intimidade como trato o poeta Vinícius de Morais) sempre disse que a vida é a arte dos encontros e desencontros. É verdade, poeta amado. E a foto tem esta capacidade de trazer o que passou. O abstrato e o imponderável se concretizam no minuto eternizado.
A fotografia tem essa capacidade mesmo. Sempre fui apaixonada por foto em preto e branco, porque ela traz em seu bojo uma dramaticidade que a colorida não tem. As cores distraem a visão do que vemos da vida, o preto e branco não.
Mas não era isso que queria contar. O interessante foi ver a fisionomia e a reação de cada um. Pouco mirei as fotos, porém o que fiz mais foi o exercício de apreciar a alma humana.
Havia um senhor (com cerca de 80 anos) que olhava os Arcos da Lapa como se tivesse saudade do quintal de sua casa, com um olhar serenamente triste.
Um turista espiava as fotos sem entender direito e ria, comentando (em inglês) com o colega as cenas curiosas que via. Nada muda. Nós sempre fomos encarados - e ainda continuamos sendo - pelos europeus como algo estranho, uma espécie que merece ser estudada e analisada perante a grande cultura do Velho Mundo.
Uma jovem sorria ao ver a imagem dos transeuntes caminhando na Avenida Rio Branco. Era outro tempo, um tempo em que as mulheres vestiam elegantemente chapéus e os homens cerimoniosamente usavam gravata e terno, como se fossem para algum evento formal. A vida era mais formal. Havia o certo e o errado apenas, a teoria da relatividade ainda não tinha chegado ao convívio social. Bons tempos, bons tempos...
Fui para casa e peguei minhas próprias fotos. Busquei o álbum amarelado, esquecido numa caixa qualquer, e revi gente querida, pessoas que se foram de uma maneira ou de outra. Vininha (perdoe-me a intimidade como trato o poeta Vinícius de Morais) sempre disse que a vida é a arte dos encontros e desencontros. É verdade, poeta amado. E a foto tem esta capacidade de trazer o que passou. O abstrato e o imponderável se concretizam no minuto eternizado.
quarta-feira, 15 de abril de 2009
Mãe (*)
O tempo passou, o mato cresceu e hoje sequer preciso fechar os olhos para ver sua figura risonha a abrir os braços para que pudesse aconchegar-me. Eu sabia ser o feliz proprietário de um abrigo seguro e reconfortante, onde podia esconder-me do mundo. Sim, porque, diferente de outros meninos, fui muito temeroso da vida, desde pequeno. O mundo parecia - aos meus olhos infantis - um lugar assustador. Ficar no escuro era motivo de temor, porque o bicho papão se escondia dentro do guarda-roupa, esperando que você saísse para me atazanar, logo depois de sua figura maternal dar-me o último beijo da noite.
Eu dizia, rotineiramente, que nunca cresceria, nunca, nunca, nunca! Que ficaria sempre assim, infante, um eterno Peter Pan na Terra do Nunca, para que você estivesse ao meu lado sempre, sempre e sempre. Você lembra? Pois é...
Era também categórico ao afirmar que você sempre estaria aqui comigo, dizia apontando o lado do coração. Nunca fui bom em distinguir o lado direito do esquerdo, por isso invariavelmente apontava o esquerdo quando na verdade queria dizer o direito – ou vice-versa. Lembra? Você ria e explicava o lado certo, mas não tinha jeito: eu errava, sempre.
Agora mesmo sou capaz de ouvir seu riso, suave, parecendo aqueles sininhos que ficam dependurados nas árvores de Natal e a brisa faz balançar suavemente.
Pois é, mamãe, o tempo passou e eu cresci, mas continuo tendo você no meu coração, na minha mente, em minha alma. O amor permeia nossa relação até hoje e nos une como se fosse cola feita no céu, que nenhuma ação humana pode separar.
Sinto saudades, muitas saudades.
Há momentos em que sou ainda aquele menino temeroso do mundo, do vasto mundo que é grande, muito grande, maior do que eu ou você. Mas, hoje, tenho que tomar decisões, trabalhar, competir e viver nesse planeta chamado Terra. Contudo, se hoje me tornei este ser capaz de lidar minimamente com a vida, foi por sua causa, por seu carinho, por seu incentivo. Eu, que fui um menino temeroso, amedrontado pelo bicho papão que morou escondido no armário, conheci o mundo, cidades, países… O mundo se abriu, e hoje sei que posso derrotar o bicho papão, porque tenho certeza de que sua força, carinho e amor estão aparando-me. Sou um adulto feliz e seguro, cresci, mas uma coisa não mudou: eu nunca, nunca, nunca vou me afastar de você, mãe. Você está sempre aqui e aqui – do lado esquerdo e também do direito –, a me inundar o peito, sua doçura me forra a alma.
(*) Texto inspirado na obra “Nazarenas e Matrioskas”, de Margarida Rebelo Pinto.
Eu dizia, rotineiramente, que nunca cresceria, nunca, nunca, nunca! Que ficaria sempre assim, infante, um eterno Peter Pan na Terra do Nunca, para que você estivesse ao meu lado sempre, sempre e sempre. Você lembra? Pois é...
Era também categórico ao afirmar que você sempre estaria aqui comigo, dizia apontando o lado do coração. Nunca fui bom em distinguir o lado direito do esquerdo, por isso invariavelmente apontava o esquerdo quando na verdade queria dizer o direito – ou vice-versa. Lembra? Você ria e explicava o lado certo, mas não tinha jeito: eu errava, sempre.
Agora mesmo sou capaz de ouvir seu riso, suave, parecendo aqueles sininhos que ficam dependurados nas árvores de Natal e a brisa faz balançar suavemente.
Pois é, mamãe, o tempo passou e eu cresci, mas continuo tendo você no meu coração, na minha mente, em minha alma. O amor permeia nossa relação até hoje e nos une como se fosse cola feita no céu, que nenhuma ação humana pode separar.
Sinto saudades, muitas saudades.
Há momentos em que sou ainda aquele menino temeroso do mundo, do vasto mundo que é grande, muito grande, maior do que eu ou você. Mas, hoje, tenho que tomar decisões, trabalhar, competir e viver nesse planeta chamado Terra. Contudo, se hoje me tornei este ser capaz de lidar minimamente com a vida, foi por sua causa, por seu carinho, por seu incentivo. Eu, que fui um menino temeroso, amedrontado pelo bicho papão que morou escondido no armário, conheci o mundo, cidades, países… O mundo se abriu, e hoje sei que posso derrotar o bicho papão, porque tenho certeza de que sua força, carinho e amor estão aparando-me. Sou um adulto feliz e seguro, cresci, mas uma coisa não mudou: eu nunca, nunca, nunca vou me afastar de você, mãe. Você está sempre aqui e aqui – do lado esquerdo e também do direito –, a me inundar o peito, sua doçura me forra a alma.
(*) Texto inspirado na obra “Nazarenas e Matrioskas”, de Margarida Rebelo Pinto.
segunda-feira, 30 de março de 2009
Cena de Ciúme
SEQ. 01 – QUARTO DE LÚCIA/INTERIOR/NOITE
No vão da porta, Laís, 20 anos, olha demoradamente Lúcia, 42 anos, se arrumando. Lúcia veste minissaia de couro preto, blusa rosa-choque transparente e sutiã de renda preto; nos pés, sapatos Luiz XV, pretos.
LAÍS
Vai sair?
LÚCIA
Querida (irônica), em plena sexta-feira VOCÊ acha que ficaria em casa curtindo novelinha de TV? Ah, fala sério! (passa o batom e ajeita o cabelo). E você? Não vai sair com a Paulinha e a Bárbara?
LAÍS
Não! (desanimada)
LÚCIA
Brigaram? (indo ao guarda-roupa e trocando o cinto que usa na minissaia)
LAÍS
Não, não brigamos. Não vou sair porque amanhã tenho prova de inglês.
LÚCIA
Graças a Deus, já passei por esta etapa na vida! Há vantagens em não ter mais 20 anos! (diz, sorrindo)
LAÍS
Mãe, você não acha que esta saia está muito curta?
LÚCIA
(olhando para as pernas) Curta? Você acha?
LAÍS
Sim, acho.
LÚCIA
Por quê? Tá vendo varizes? Tô com celulite? (olhando com atenção em frente ao espelho, na frente e por trás).
LAÍS
Não, mãe. Não tem varizes ou celulite. (suspirando) Só acho que não fica bem você nesta idade usar uma roupa tão curta. (diz, desgostosa)
LÚCIA
(olha para Laís por alguns instantes) Eu não acredito que ouvi isso de você, Laís. Estamos em pleno século XXI! Se fossem meus avós que estivessem vivos ainda falando isso, podia até ser… Mas VOCÊ?! Ah, fala sério, Laís! Tem dó. Mi mira, mas me erra!
LAÍS
Tá vendo, mãe? (indignada) Até seu palavreado é adolescente! Eu é que deveria estar dizendo “fala sério”. Você tem idade para ser avó e fica aí usando minissaia como se tivesse 15 anos! Mãe, você já passou dos 40! (indignada)
LÚCIA
Amada filhinha do meu coração, no tempo de Balzac uma mulher de 30 poderia ser considerada velha. Mas hoje, uma mulher de 50 anos é ainda uma gatona, convidada pra pousar para a Playboy e tudo mais. Desencarna, Laís. Vai curtir sua vida e me deixa em paz, curtindo a minha!
LAÍS
Você faz isso porque papai não está mais aqui. Se ele estivesse, duvido que fizesse metade do que tá fazendo agora. Daqui a pouco vai me apresentar um garoto de 18 anos como seu namorado! (gritando)
Laís sai do vão da porta do quarto de Lúcia e caminha pelo corredor até a sala. Lúcia a segue. Câmera deriva.
LÚCIA
Só que seu querido paizinho não está mais aqui, Laís! (gritando) Tá ouvindo??! (gritando mais alto) Tá ouvindo??!
LAÍS
É claro que ele não tá mais aqui! Por que ficaria aqui tendo uma megera indomada como mulher? (diz, se atirando no sofá)
LÚCIA
Sabe qual é o seu problema? Você tem ciúme de mim, Laís! Ciúme e inveja, porque eu não morri quando o seu pai saiu desta casa! A opção foi dele, não minha! Foi ele que nos deixou para viver uma crise de meia-idade com uma ninfeta de 18 anos! Foi ELE que colocou uma garota de 18 anos aqui nesta casa, não eu.
LAÍS
Ah, faz favor, mãe! Se meu pai foi embora foi porque você não era boa esposa. Você pensa que eu não escutava as brigas de vocês de madrugada, falando baixinho? A quem você pensa que engana? A mim?! (revoltada) Sabe qual é o seu problema?! O seu problema é que você não aceita que não tem mais 18 anos, que já passou.
LÚCIA
Eu sei que não tenho 18 anos, tá ouvindo, Laís?! (revoltada) Eu SEI, VIU ? Só que eu sou uma mulher bonita e cheia de vida. Se SUA vida é uma merda, não venha descontar em mim! TÁ ouvindo? Cresça, Laís. Cresça!
LAÍS
Se tô com dificuldade para crescer deve ser por herança genética! (irônica)
LÚCIA
Qual é o seu problema, hein? (um grande suspiro de desanimo) Por que você não pode me ver feliz, hein, minha filha?
Lúcia e Laís se olham demoradamente, até que Laís sai correndo da sala, chorando. Lúcia faz um movimento de seguir Laís, mas desiste.
CORTA PARA
No vão da porta, Laís, 20 anos, olha demoradamente Lúcia, 42 anos, se arrumando. Lúcia veste minissaia de couro preto, blusa rosa-choque transparente e sutiã de renda preto; nos pés, sapatos Luiz XV, pretos.
LAÍS
Vai sair?
LÚCIA
Querida (irônica), em plena sexta-feira VOCÊ acha que ficaria em casa curtindo novelinha de TV? Ah, fala sério! (passa o batom e ajeita o cabelo). E você? Não vai sair com a Paulinha e a Bárbara?
LAÍS
Não! (desanimada)
LÚCIA
Brigaram? (indo ao guarda-roupa e trocando o cinto que usa na minissaia)
LAÍS
Não, não brigamos. Não vou sair porque amanhã tenho prova de inglês.
LÚCIA
Graças a Deus, já passei por esta etapa na vida! Há vantagens em não ter mais 20 anos! (diz, sorrindo)
LAÍS
Mãe, você não acha que esta saia está muito curta?
LÚCIA
(olhando para as pernas) Curta? Você acha?
LAÍS
Sim, acho.
LÚCIA
Por quê? Tá vendo varizes? Tô com celulite? (olhando com atenção em frente ao espelho, na frente e por trás).
LAÍS
Não, mãe. Não tem varizes ou celulite. (suspirando) Só acho que não fica bem você nesta idade usar uma roupa tão curta. (diz, desgostosa)
LÚCIA
(olha para Laís por alguns instantes) Eu não acredito que ouvi isso de você, Laís. Estamos em pleno século XXI! Se fossem meus avós que estivessem vivos ainda falando isso, podia até ser… Mas VOCÊ?! Ah, fala sério, Laís! Tem dó. Mi mira, mas me erra!
LAÍS
Tá vendo, mãe? (indignada) Até seu palavreado é adolescente! Eu é que deveria estar dizendo “fala sério”. Você tem idade para ser avó e fica aí usando minissaia como se tivesse 15 anos! Mãe, você já passou dos 40! (indignada)
LÚCIA
Amada filhinha do meu coração, no tempo de Balzac uma mulher de 30 poderia ser considerada velha. Mas hoje, uma mulher de 50 anos é ainda uma gatona, convidada pra pousar para a Playboy e tudo mais. Desencarna, Laís. Vai curtir sua vida e me deixa em paz, curtindo a minha!
LAÍS
Você faz isso porque papai não está mais aqui. Se ele estivesse, duvido que fizesse metade do que tá fazendo agora. Daqui a pouco vai me apresentar um garoto de 18 anos como seu namorado! (gritando)
Laís sai do vão da porta do quarto de Lúcia e caminha pelo corredor até a sala. Lúcia a segue. Câmera deriva.
LÚCIA
Só que seu querido paizinho não está mais aqui, Laís! (gritando) Tá ouvindo??! (gritando mais alto) Tá ouvindo??!
LAÍS
É claro que ele não tá mais aqui! Por que ficaria aqui tendo uma megera indomada como mulher? (diz, se atirando no sofá)
LÚCIA
Sabe qual é o seu problema? Você tem ciúme de mim, Laís! Ciúme e inveja, porque eu não morri quando o seu pai saiu desta casa! A opção foi dele, não minha! Foi ele que nos deixou para viver uma crise de meia-idade com uma ninfeta de 18 anos! Foi ELE que colocou uma garota de 18 anos aqui nesta casa, não eu.
LAÍS
Ah, faz favor, mãe! Se meu pai foi embora foi porque você não era boa esposa. Você pensa que eu não escutava as brigas de vocês de madrugada, falando baixinho? A quem você pensa que engana? A mim?! (revoltada) Sabe qual é o seu problema?! O seu problema é que você não aceita que não tem mais 18 anos, que já passou.
LÚCIA
Eu sei que não tenho 18 anos, tá ouvindo, Laís?! (revoltada) Eu SEI, VIU ? Só que eu sou uma mulher bonita e cheia de vida. Se SUA vida é uma merda, não venha descontar em mim! TÁ ouvindo? Cresça, Laís. Cresça!
LAÍS
Se tô com dificuldade para crescer deve ser por herança genética! (irônica)
LÚCIA
Qual é o seu problema, hein? (um grande suspiro de desanimo) Por que você não pode me ver feliz, hein, minha filha?
Lúcia e Laís se olham demoradamente, até que Laís sai correndo da sala, chorando. Lúcia faz um movimento de seguir Laís, mas desiste.
CORTA PARA
terça-feira, 17 de março de 2009
Procura-se uma viúva
Interior da Capela Mortuária São José Carpinteiro. Matilde e Donana, duas senhoras de 80 e 82 anos, respectivamente, entram ao local e percorrem os olhos no ambiente, como se procurassem alguém.
- Donana, quem é a viúva? – sussurra Matilde.
- Você sabe que não sei, Matilde – diz Donana, mal disfarçando a irritação. – Só sei que é uma mulher muito jovem. Não sei onde Osvaldo estava com a cabeça de casar com uma garota que tem idade para ser sua neta!
- Neta?! Você está sendo muito generosa, Donana! Pelo que ouvi falar, a garota tem idade para ser bisneta dele. Realmente, homem não pensa com a cabeça de cima! Onde já se viu uma coisa dessa?! – diz ironicamente indignada.
- É claro que ela deu o golpe do baú, porque convenhamos, ninguém é capaz de se apaixonar por um velho de 87 anos!
- Mas como vamos descobrir a viúva no meio de tanta gente? – indaga Matilde.
- Ah, basta ver uma garota que seja nova e que esteja chorando – argumenta Donana.
- Chorando de mentirinha, né? Pois com a polpuda pensão que receberá do Exército, ela deve estar mesmo é soltando rojões! – diz invejosamente Matilde.
- Venha, vamos olhar as pessoas. Precisamos dar os pêsames à viúva. – diz Donana, puxando a amiga na direção do caixão.
No caminho, ficam observando para ver se encontram a jovem viúva do amigo de infância. Há pessoas de todas as idades no velório do general Osvaldo Viana. Há, inclusive, uma mulher jovem, com piercing e tatuagens, fumando e soltando gargalhadas que chamam a atenção de Matilde e Donana. Elas se olham, questionando se a tal figura poderia ser a viúva do general, mas desistem da ideia. Osvaldo não estava tão senil assim.
As duas velhinhas caminham e, ao se aproximarem do caixão, veem uma bela jovem pálida, de óculos escuros, com um vestido sóbrio e fisionomia triste. Olham entre si e concordam simultaneamente, sem falar nada: “É ela!”
Penalizadas com a dor da viúva, as amigas do general esquecem as maledicências de há pouco e tentam consolar a jovem.
- Minha filha, não fique assim! – diz Matilde.
- Você tem uma vida pela frente! – emenda Donana.
A jovem tira os óculos escuros e olha para as duas com espanto. Tenta falar alguma coisa, explicar, mas nenhuma das velhinhas deixa que ela emita qualquer palavra.
- Você é jovem, encontrará um homem bom! Osvaldo certamente abençoará a nova união! Você vai ver, Nosso Senhor Jesus Cristo vai ajudar. Faça uma novena para São Benedito que logo, logo, você arranjará outro amor.
A jovem ainda tenta explicar, mas é interrompida por Donana:
- Não precisa falar nada, nós entendemos a sua dor. Eu também fiquei desolada quando perdi meu marido, há quase 20 anos. Mas a vida continua. Você vai ver. Vai passar – diz a velhinha, dando dois tapinhas amigáveis na mão da jovem.
A garota faz uma cara esquisita, entre choro e riso e, pegando um lenço da bolsa, segura-o em frente à boca e começa e emitir sons como se estivesse soluçando. Matilde e Donana, desoladas, não sabem o que fazer com a jovem. Cada vez que elas tentam consolá-la, a garota soluça mais e mais forte. Donana sai em busca de um copo de água para dar à garota. No meio do caminho, encontra o irmão do general, Paulo, e diz aflita:
- Arrume um copo de água para a viúva, ela está desesperada ali no caixão!
- Mas aquela ali não é a viúva de Osvaldinho! – diz espantado Paulo – A viúva de meu irmão é aquela ali, perto da saída – e mostra a moça com piercing e tatuagens, que fumava e gargalhava a plenos pulmões.
- Quê?! Mas então quem é aquela jovem ali no caixão, com cara de desolada? – indaga espantada Donana.
- Aquela é a Glorinha, filha do general Roberto Duval, que morreu há poucos dias. Ela está assim triste pela morte do pai. Duval era muito ligado ao meu irmão.
- Donana, quem é a viúva? – sussurra Matilde.
- Você sabe que não sei, Matilde – diz Donana, mal disfarçando a irritação. – Só sei que é uma mulher muito jovem. Não sei onde Osvaldo estava com a cabeça de casar com uma garota que tem idade para ser sua neta!
- Neta?! Você está sendo muito generosa, Donana! Pelo que ouvi falar, a garota tem idade para ser bisneta dele. Realmente, homem não pensa com a cabeça de cima! Onde já se viu uma coisa dessa?! – diz ironicamente indignada.
- É claro que ela deu o golpe do baú, porque convenhamos, ninguém é capaz de se apaixonar por um velho de 87 anos!
- Mas como vamos descobrir a viúva no meio de tanta gente? – indaga Matilde.
- Ah, basta ver uma garota que seja nova e que esteja chorando – argumenta Donana.
- Chorando de mentirinha, né? Pois com a polpuda pensão que receberá do Exército, ela deve estar mesmo é soltando rojões! – diz invejosamente Matilde.
- Venha, vamos olhar as pessoas. Precisamos dar os pêsames à viúva. – diz Donana, puxando a amiga na direção do caixão.
No caminho, ficam observando para ver se encontram a jovem viúva do amigo de infância. Há pessoas de todas as idades no velório do general Osvaldo Viana. Há, inclusive, uma mulher jovem, com piercing e tatuagens, fumando e soltando gargalhadas que chamam a atenção de Matilde e Donana. Elas se olham, questionando se a tal figura poderia ser a viúva do general, mas desistem da ideia. Osvaldo não estava tão senil assim.
As duas velhinhas caminham e, ao se aproximarem do caixão, veem uma bela jovem pálida, de óculos escuros, com um vestido sóbrio e fisionomia triste. Olham entre si e concordam simultaneamente, sem falar nada: “É ela!”
Penalizadas com a dor da viúva, as amigas do general esquecem as maledicências de há pouco e tentam consolar a jovem.
- Minha filha, não fique assim! – diz Matilde.
- Você tem uma vida pela frente! – emenda Donana.
A jovem tira os óculos escuros e olha para as duas com espanto. Tenta falar alguma coisa, explicar, mas nenhuma das velhinhas deixa que ela emita qualquer palavra.
- Você é jovem, encontrará um homem bom! Osvaldo certamente abençoará a nova união! Você vai ver, Nosso Senhor Jesus Cristo vai ajudar. Faça uma novena para São Benedito que logo, logo, você arranjará outro amor.
A jovem ainda tenta explicar, mas é interrompida por Donana:
- Não precisa falar nada, nós entendemos a sua dor. Eu também fiquei desolada quando perdi meu marido, há quase 20 anos. Mas a vida continua. Você vai ver. Vai passar – diz a velhinha, dando dois tapinhas amigáveis na mão da jovem.
A garota faz uma cara esquisita, entre choro e riso e, pegando um lenço da bolsa, segura-o em frente à boca e começa e emitir sons como se estivesse soluçando. Matilde e Donana, desoladas, não sabem o que fazer com a jovem. Cada vez que elas tentam consolá-la, a garota soluça mais e mais forte. Donana sai em busca de um copo de água para dar à garota. No meio do caminho, encontra o irmão do general, Paulo, e diz aflita:
- Arrume um copo de água para a viúva, ela está desesperada ali no caixão!
- Mas aquela ali não é a viúva de Osvaldinho! – diz espantado Paulo – A viúva de meu irmão é aquela ali, perto da saída – e mostra a moça com piercing e tatuagens, que fumava e gargalhava a plenos pulmões.
- Quê?! Mas então quem é aquela jovem ali no caixão, com cara de desolada? – indaga espantada Donana.
- Aquela é a Glorinha, filha do general Roberto Duval, que morreu há poucos dias. Ela está assim triste pela morte do pai. Duval era muito ligado ao meu irmão.
sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
Além da porta (*)
Uma porta que não se abre nunca nunca nunca nunca nunca nunca nunca nunca nunca nunca nunca nunca… nunca. Nunca é um tempo muito longo e eu estava lá em frente desta porta e continuava a chover, chover, chover e eu parado dentro da chuva. O maço de cigarro que antes estava molhado agora se encontrava encharcado de dar dó, irremediavelmente molhado e tudo o que eu queria era entrar para podermos juntos tomar o conhaque e assim, em algum momento da noite esta friagem úmida - que me entorpecia a alma e os ossos - parasse de me castigar, esta era a minha esperança. Mas a porta continuava lá, impávida e colosso e eu insistia batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo e ela parada minando a minha esperança sem nunca abrir nunca nunca nunca nunca nunca nunca nunca nunca nunca nunca nunca nunca… nunca. Os pulsos castigados pela ação insana mostravam já sinais de fadiga, a pele delicada se tornara vermelha e dói uma dor que não vem do corpo, mas um sofrimento que vem do ser antes do ego, numa pré-existência. Chovia, chovia, chovia e eu lá parado, dentro da chuva esperando que a porta se abrisse. Sou insano, pensei num momento de lucidez. E fui pensando que ele iria pensar que sou insano e não queria que ele pensasse que sou, mas sou. De nada adianta saber tantas coisas, de nada adianta, nada nada nada nada nada… minha vida é um nada, pensei com o coração condoído. Não quero que ele pense que minha vida é um nada, apesar de ser. Não quero, não quero, mas ela é. Chovia, chovia, chovia e eu lá parado. Escurecia e a porta continuava o que sempre foi, quieta, impossibilitando de concretizar a minha esperança de afinal sair do sofrimento e da dor. Chovia e parecia que estava vivenciando um sonho um pesadelo uma experiência metafísica, sei lá. Não sei de nada e não quero que ele pense que não sei nada mesmo sabendo que não sei. O breu da noite me envolveu completamente enquanto chovia. Será que estou vivendo um pesadelo? Será que esta porta realmente existe? Será que morri? E se morri não sei onde estou. Ah, pensei encostando com a cabeça na porta sem deixar de continuar a bater, seria tão bom se ele estivesse ali para abrir aquela bendita porta! Minhas pernas entorpecidas pelo frio pela chuva pela umidade pela friagem e pela vida não eram confiáveis, não se confia em que não merece confiança. Não quero que ele pense que minhas pernas não são confiáveis e elas não são. Não sei o que quero, quero – talvez – que ele me veja mas não muito profundamente apenas na superfície de um prato raso onde se possa colocar um morno leite para se dar a um gato.
(*) Inspirado no texto de Caio Fernando Abreu: Além do ponto. Este texto é o resultado de um exercício que fiz. A professora pediu que continuássemos o texto do Caio e o resultado foi a história acima.
(*) Inspirado no texto de Caio Fernando Abreu: Além do ponto. Este texto é o resultado de um exercício que fiz. A professora pediu que continuássemos o texto do Caio e o resultado foi a história acima.
sexta-feira, 28 de novembro de 2008
João Valentão (*)
João Valentão. Este era o seu nome. Conhecido pelas redondezas e também pelas bandas de lá e de cá, sua fama corria estrada, chegando até onde a vista não alcança. Desde pequeno, quando ajudava o portuga do armazém a descarregar sacos de batata e de farinha, já mostrava seu dom para a briga. Com a lida de carregar peso, os músculos cresceram e também sua valentia, tornando-o uma figura notória. Bastava ele chegar para que a conversa diminuísse, quem estivesse por perto logo ficava pianinho, não importava se era doutor, juiz, padre ou sacristão. Qualquer mortal tremia na base quando aquele negro, de quase dois metros de altura e com um peito de remador, concentrava seu olhar avermelhado e penetrante em cima do dito cujo.
Moça de família não se atrevia a olhar mais do que duas vezes para sua figura lendária. Mesmo as meninas da Luz Vermelha tinham medo quando ele chegava à casa da polaca Madame Fifi, que tinha um falso sotaque francês. Elas temiam ir para cama com ele e fazer alguma coisa que desagradasse, mas também tinham medo de recusar carinhos e padecer pela ofensa praticada. Quando ele ia ao local uma tensão pairava no ar e quem fosse a escolhida era olhada com compaixão pelas outras. Afinal, a infeliz teria que se deitar com o diabo em forma de gente.
Contudo, vida de valentão não é fácil não, seu moço. Posso garantir. Não é sem esforço. É como minha avó sempre dizia: Cria fama, deita na cama. Fazer sucesso não é simples, mas se manter no topo, ah, isso sim é muito difícil. Volta e meia aparecia algum filho de uma boa mãe querendo medir força com ele. Com seus bíceps de aço, que tinham a circunferência de três palmos de mão de um homem adulto, João sempre conseguia uns trocados extras em disputa de queda de braço. Isso enchia de coragem aqueles que não tinham valentia suficiente para xingar o valentão, chamando para uma briga, tendo uma atitude de homem. Então apostavam com ele uma queda de braço. João sabia que quando perdesse uma queda de braço, seria o início do fim do seu reinado naquelas bandas de meu Deus. João Valentão não tinha ilusão de que se não fosse por sua força e cara de anjo caído, seria apenas mais um João, pobre, analfabeto de pai e mãe, comendo quando Deus quisesse e padecendo de frio. Um esquecido. Por isso, quando algum homem aparecia querendo enfrentá-lo, João Valentão logo sentia o peito oprimir, não importando se o cabra em questão fosse parrudo ou não. João tinha medo de perder o poder e se transformar em apenas um simples João.
Como tudo aquilo de que se tem um grande medo normalmente se concretiza, materializando os mais temidos pesadelos, um dia surgiu um adversário para o valentão das redondezas. Mas não era um adversário comum não, conforme esperava o João. Na verdade era uma adversária. Isso mesmo, uma mulher de saia esvoaçante e com nome de mar: Marina. Realmente, seu moço, a mãe da pequena estava inspirada pelo Padim Ciço ao escolher o nome da filha, pois os olhos da mulata eram tão verdes como o mar de Itapuã em dia ensolarado, sem nenhuma nuvem. Uma belezura de fazer gosto a qualquer poeta de botequim ou mesmo àqueles que apareciam com versos na Gazeta.
João logo quis se aproximar de tão bela formosura, mas a moça, de família, não lhe dava bola e de nada adiantavam os agrados que enviava por moleques. João tinha interesse sério pela mulata brejeira, do tipo fazer promessa em frente ao juiz e do padre. Mas Marina não se comovia e certa vez mandou recado dizendo que parasse de enviar tantos agrados, que os presentes de nada valiam, pois ela não queria acabar a vida sendo viúva antes do tempo por ter casado com o valentão daquelas bandas. Se ele realmente a quisesse, teria que largar a vida de valentia e se tornar um homem comum, um João qualquer. O amor, seu moço, é capaz disso. De transformar a sina de um valentão em um João como tantos os outros Joões. O Valentão deixou a valentia de lado, pegou a morena e sumiu num galope, neste mundo de meu Deus. Hoje ninguém sabe mais que fim levou. Há quem diga que eles moram lá depois da Mata Seca, num fim de mundo de Padim Ciço, com um bando de filhos de olhos verdes. João planta e colhe apenas macaxeira, vivendo da terra com a valentia do seu suor.
(*) Inspirado na música de Dorival Caymmi: “João Valentão”.
Moça de família não se atrevia a olhar mais do que duas vezes para sua figura lendária. Mesmo as meninas da Luz Vermelha tinham medo quando ele chegava à casa da polaca Madame Fifi, que tinha um falso sotaque francês. Elas temiam ir para cama com ele e fazer alguma coisa que desagradasse, mas também tinham medo de recusar carinhos e padecer pela ofensa praticada. Quando ele ia ao local uma tensão pairava no ar e quem fosse a escolhida era olhada com compaixão pelas outras. Afinal, a infeliz teria que se deitar com o diabo em forma de gente.
Contudo, vida de valentão não é fácil não, seu moço. Posso garantir. Não é sem esforço. É como minha avó sempre dizia: Cria fama, deita na cama. Fazer sucesso não é simples, mas se manter no topo, ah, isso sim é muito difícil. Volta e meia aparecia algum filho de uma boa mãe querendo medir força com ele. Com seus bíceps de aço, que tinham a circunferência de três palmos de mão de um homem adulto, João sempre conseguia uns trocados extras em disputa de queda de braço. Isso enchia de coragem aqueles que não tinham valentia suficiente para xingar o valentão, chamando para uma briga, tendo uma atitude de homem. Então apostavam com ele uma queda de braço. João sabia que quando perdesse uma queda de braço, seria o início do fim do seu reinado naquelas bandas de meu Deus. João Valentão não tinha ilusão de que se não fosse por sua força e cara de anjo caído, seria apenas mais um João, pobre, analfabeto de pai e mãe, comendo quando Deus quisesse e padecendo de frio. Um esquecido. Por isso, quando algum homem aparecia querendo enfrentá-lo, João Valentão logo sentia o peito oprimir, não importando se o cabra em questão fosse parrudo ou não. João tinha medo de perder o poder e se transformar em apenas um simples João.
Como tudo aquilo de que se tem um grande medo normalmente se concretiza, materializando os mais temidos pesadelos, um dia surgiu um adversário para o valentão das redondezas. Mas não era um adversário comum não, conforme esperava o João. Na verdade era uma adversária. Isso mesmo, uma mulher de saia esvoaçante e com nome de mar: Marina. Realmente, seu moço, a mãe da pequena estava inspirada pelo Padim Ciço ao escolher o nome da filha, pois os olhos da mulata eram tão verdes como o mar de Itapuã em dia ensolarado, sem nenhuma nuvem. Uma belezura de fazer gosto a qualquer poeta de botequim ou mesmo àqueles que apareciam com versos na Gazeta.
João logo quis se aproximar de tão bela formosura, mas a moça, de família, não lhe dava bola e de nada adiantavam os agrados que enviava por moleques. João tinha interesse sério pela mulata brejeira, do tipo fazer promessa em frente ao juiz e do padre. Mas Marina não se comovia e certa vez mandou recado dizendo que parasse de enviar tantos agrados, que os presentes de nada valiam, pois ela não queria acabar a vida sendo viúva antes do tempo por ter casado com o valentão daquelas bandas. Se ele realmente a quisesse, teria que largar a vida de valentia e se tornar um homem comum, um João qualquer. O amor, seu moço, é capaz disso. De transformar a sina de um valentão em um João como tantos os outros Joões. O Valentão deixou a valentia de lado, pegou a morena e sumiu num galope, neste mundo de meu Deus. Hoje ninguém sabe mais que fim levou. Há quem diga que eles moram lá depois da Mata Seca, num fim de mundo de Padim Ciço, com um bando de filhos de olhos verdes. João planta e colhe apenas macaxeira, vivendo da terra com a valentia do seu suor.
(*) Inspirado na música de Dorival Caymmi: “João Valentão”.
sexta-feira, 21 de novembro de 2008
Aniversário (*)
A vida passa e, na soma dos anos, as lembranças vão-se acumulando nas dobras do coração. Não sei quando comecei a sentir-me velha. Talvez nunca tenha me dado conta de que estava envelhecendo, até ouvir os outros começarem a me chamar de senhora. Hoje completo 78 anos, e mais uma velinha colocarei em cima do bolo – se houver, é claro… se alguém lembrar que hoje é a data em que nasci.
Desde a hora em que acordei, o gosto do bolo de aniversário que mamãe fazia –quando eu era pequena – surgiu na boca. Adorava seu bolo. Ele era feito – a cobertura - com glacê de açúcar, e não de manteiga, no estilo de receita de suspiro, só que sem levar ao forno. A cobertura do bolo era com este glacê e coco ralado. Uma delícia! Melhor alquimia não há. O recheio? Doce de leite cremoso comprado da dona Ritinha, uma sitiante que vivia aparecendo lá em casa para vender coisas da roça. Bons tempos, bons tempos.
Hoje, aniversário de criança já começa no primeiro ano. No meu tempo só se fazia festa para comemorar os anos quando o pequeno, ou a pequena, podia desfrutar, ou seja: depois dos cinco anos. Comigo foi assim, com meu irmão Otavinho também e do mesmo jeito aconteceu com meus primos e primas.
Minha festa era muito simples, mas a alegria imperava e vejo, com os olhos do coração, hoje, aqueles momentos com muita saudade. No meu aniversário tinha bolo, ponche de maçã - sem álcool - com pedacinhos da fruta boiando e bala de coco enrolada em papel cor de rosa. Naquele tempo não tinha bola ou enfeites de festa temática com personagens do mundo infantil. Contudo, havia o cuidado ao se escolher a melhor toalha. Minha mãe usava uma bordada, da Ilha da Madeira, que ela sempre dizia que ficaria para o meu enxoval. Nas festas, os talheres e pratos que não se usavam no dia-a-dia saíam das gavetas e armários e os utilizávamos com toda a cerimônia que o ritual exigia. A casa ficava completamente iluminada e não havia quem não fosse convidado.
Os anos passaram, e estou aqui a relembrar o poema de Fernando Pessoa: “Hoje já não faço anos. Somam-se-me dias. Serei velho quando o for. Raiva de não ter trazido o passado guardado na algibeira.”
(*) Texto inspirado no poema "Aniversário" de Fernando Pessoa.
Desde a hora em que acordei, o gosto do bolo de aniversário que mamãe fazia –quando eu era pequena – surgiu na boca. Adorava seu bolo. Ele era feito – a cobertura - com glacê de açúcar, e não de manteiga, no estilo de receita de suspiro, só que sem levar ao forno. A cobertura do bolo era com este glacê e coco ralado. Uma delícia! Melhor alquimia não há. O recheio? Doce de leite cremoso comprado da dona Ritinha, uma sitiante que vivia aparecendo lá em casa para vender coisas da roça. Bons tempos, bons tempos.
Hoje, aniversário de criança já começa no primeiro ano. No meu tempo só se fazia festa para comemorar os anos quando o pequeno, ou a pequena, podia desfrutar, ou seja: depois dos cinco anos. Comigo foi assim, com meu irmão Otavinho também e do mesmo jeito aconteceu com meus primos e primas.
Minha festa era muito simples, mas a alegria imperava e vejo, com os olhos do coração, hoje, aqueles momentos com muita saudade. No meu aniversário tinha bolo, ponche de maçã - sem álcool - com pedacinhos da fruta boiando e bala de coco enrolada em papel cor de rosa. Naquele tempo não tinha bola ou enfeites de festa temática com personagens do mundo infantil. Contudo, havia o cuidado ao se escolher a melhor toalha. Minha mãe usava uma bordada, da Ilha da Madeira, que ela sempre dizia que ficaria para o meu enxoval. Nas festas, os talheres e pratos que não se usavam no dia-a-dia saíam das gavetas e armários e os utilizávamos com toda a cerimônia que o ritual exigia. A casa ficava completamente iluminada e não havia quem não fosse convidado.
Os anos passaram, e estou aqui a relembrar o poema de Fernando Pessoa: “Hoje já não faço anos. Somam-se-me dias. Serei velho quando o for. Raiva de não ter trazido o passado guardado na algibeira.”
(*) Texto inspirado no poema "Aniversário" de Fernando Pessoa.
sexta-feira, 12 de setembro de 2008
O amor (*)
Mas o que é o amor? Disse o poeta que "o amor é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói e não se sente, é um contentamento descontente entre a gente". Mas somos todos capazes de amar? Existe amor incondicional neste mundo, onde o mal parece imperar dos dois lados do hemisfério?
Ah, você dirá que sim! Afinal as mães estão aí mesmo para provar o quanto se pode amar.
Disse outro poeta (como você pode notar, eu adoro poesia) que amar é um verbo que se conjuga no intransitivo. É verdade. O amor, o verdadeiro amor, é intransigente, não se negocia, tão obstinado que às vezes vira burro.
Tantos poetas, filósofos e bebuns podem dizer coisas tão mais bonitas do que esta que lhe escreve!
Sinceramente, meu querido, não sei o que é o amor. Sei que ele mora no meu coração quando vejo uma foto dos meus pais, quando recebo algum e-mail de um amigo ou mesmo quando leio um texto de Shakespeare – não importa se tragédia ou comédia. Nesse momento, sinto o amor pulsando em meu ser. Ah, o amor me invade, quando vou ao cinema, e lá na escuridão da sala, aquela tela imensa me absorve! E olha que nem precisa ser filme romântico para sentir tal sentimento!
Vou repetir o que meu tio Plínio sempre me disse: o amor não se explica, se sente, e quem o abriga no coração tem a existência mais rica, é feliz, mesmo enfrentando todos os entraves que a vida traga – e ela, acredite, sempre traz.
(*) Texto inspirado no poema de "Claro enigma" de Carlos Drummond de Andrade
Ah, você dirá que sim! Afinal as mães estão aí mesmo para provar o quanto se pode amar.
Disse outro poeta (como você pode notar, eu adoro poesia) que amar é um verbo que se conjuga no intransitivo. É verdade. O amor, o verdadeiro amor, é intransigente, não se negocia, tão obstinado que às vezes vira burro.
Tantos poetas, filósofos e bebuns podem dizer coisas tão mais bonitas do que esta que lhe escreve!
Sinceramente, meu querido, não sei o que é o amor. Sei que ele mora no meu coração quando vejo uma foto dos meus pais, quando recebo algum e-mail de um amigo ou mesmo quando leio um texto de Shakespeare – não importa se tragédia ou comédia. Nesse momento, sinto o amor pulsando em meu ser. Ah, o amor me invade, quando vou ao cinema, e lá na escuridão da sala, aquela tela imensa me absorve! E olha que nem precisa ser filme romântico para sentir tal sentimento!
Vou repetir o que meu tio Plínio sempre me disse: o amor não se explica, se sente, e quem o abriga no coração tem a existência mais rica, é feliz, mesmo enfrentando todos os entraves que a vida traga – e ela, acredite, sempre traz.
(*) Texto inspirado no poema de "Claro enigma" de Carlos Drummond de Andrade
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
Carta de exoneração
Rio de Janeiro, 15 de agosto de 2008
Ilmª. Sra. Dra. minha juíza-generala
Venho por meio desta comunicar-lhe que a partir de hoje a senhora está exonerada do cargo de minha juíza-generala. A justificativa para o desligamento em minha vida se dá pelo simples fato de que seus trabalhos não são mais necessários. Durante muitos anos, sua presença foi fundamental para formar o caráter que tenho hoje e lhe agradeço por isso. Contudo, os tempos são outros. É desnecessário lembrar que hoje sou uma mulher adulta, vacinada, dona do meu próprio nariz e que tenho discernimento para decidir o que é melhor ou não.
Nossa convivência diária fez com que me tornasse uma pessoa detalhista, preocupada em apresentar o meu melhor sempre. Tal aprendizagem tem seu caráter positivo. Problemas começaram a ocorrer quando esta qualidade ultrapassou seus limites e não ser perfeita se transformou em uma grande dor. A cada pequeno erro, a vergonha e a decepção se acumulavam no peito, tornando a vida difícil. Ora, a senhora e eu sabemos que não existe perfeição absoluta na Terra. Mesmo os objetos, pensamentos ou seres humanos que podem ser considerados perfeitos em determinada época, não o são para posteriores gerações. A vida é um moinho, como já disse o poeta, e na boca do tempo tudo se acaba, tudo se desestrutura e o pó se faz presente, transformando a existência em dunas e desertos.
Mesmo sabendo que nenhum ser humano é perfeito, paradoxalmente teimo em sofrer por não sê-lo. Atribuo minha insana insistência ao convívio diário com a senhora. É bem verdade, e isso preciso admitir, que nossa relação hoje não é mais a mesma. O tecido social de nosso convívio, sinto-o desgastado. Convém lembrar que antes a senhora era dada a gritos, exaltações, berros que atordoavam minha alma juvenil e insegura, própria de adolescente que busca a aprovação do outro. Hoje, nosso convívio é diferente: a Ilmª. senhora já não mais grita e muito menos berra, apenas sussurra. Porém, quero lhe falar que muitas vezes sua voz sussurrante e delicada atinge minha couraça mais profundamente do que seus berros do pretérito. Com o passar dos anos, a senhora – que é extremamente inteligente, admito – aprendeu a lidar com meu crescimento e utiliza como arma a sutileza nas colocações. Sua acidez e ironia, muitas vezes, maltratam meu coração, apesar da idade acumulada na roda da vida. Por tudo isso, acredito que nosso relacionamento se tornou insuportável e não convém mais insistir numa relação tão saturada.
Creio que uma separação amigável é sempre mais conveniente do que brigas litigiosas de qualquer espécie. Que cada uma vá para o seu lado e desfrute das lembranças dos momentos bons que vivemos. O resto é resto e não vale a pena ressenti-se dele eternamente.
Por isso, venho lhe comunicar o caráter definitivo desta exoneração. Convém ressaltar que a senhora não poderá apelar para nenhuma instância superior, seja neste planeta Terra ou mesmo fora da órbita solar.
Seja feliz, eu estou sendo.
Atenciosamente,
Carla Giffoni
Cumpra-se!
Ilmª. Sra. Dra. minha juíza-generala
Venho por meio desta comunicar-lhe que a partir de hoje a senhora está exonerada do cargo de minha juíza-generala. A justificativa para o desligamento em minha vida se dá pelo simples fato de que seus trabalhos não são mais necessários. Durante muitos anos, sua presença foi fundamental para formar o caráter que tenho hoje e lhe agradeço por isso. Contudo, os tempos são outros. É desnecessário lembrar que hoje sou uma mulher adulta, vacinada, dona do meu próprio nariz e que tenho discernimento para decidir o que é melhor ou não.
Nossa convivência diária fez com que me tornasse uma pessoa detalhista, preocupada em apresentar o meu melhor sempre. Tal aprendizagem tem seu caráter positivo. Problemas começaram a ocorrer quando esta qualidade ultrapassou seus limites e não ser perfeita se transformou em uma grande dor. A cada pequeno erro, a vergonha e a decepção se acumulavam no peito, tornando a vida difícil. Ora, a senhora e eu sabemos que não existe perfeição absoluta na Terra. Mesmo os objetos, pensamentos ou seres humanos que podem ser considerados perfeitos em determinada época, não o são para posteriores gerações. A vida é um moinho, como já disse o poeta, e na boca do tempo tudo se acaba, tudo se desestrutura e o pó se faz presente, transformando a existência em dunas e desertos.
Mesmo sabendo que nenhum ser humano é perfeito, paradoxalmente teimo em sofrer por não sê-lo. Atribuo minha insana insistência ao convívio diário com a senhora. É bem verdade, e isso preciso admitir, que nossa relação hoje não é mais a mesma. O tecido social de nosso convívio, sinto-o desgastado. Convém lembrar que antes a senhora era dada a gritos, exaltações, berros que atordoavam minha alma juvenil e insegura, própria de adolescente que busca a aprovação do outro. Hoje, nosso convívio é diferente: a Ilmª. senhora já não mais grita e muito menos berra, apenas sussurra. Porém, quero lhe falar que muitas vezes sua voz sussurrante e delicada atinge minha couraça mais profundamente do que seus berros do pretérito. Com o passar dos anos, a senhora – que é extremamente inteligente, admito – aprendeu a lidar com meu crescimento e utiliza como arma a sutileza nas colocações. Sua acidez e ironia, muitas vezes, maltratam meu coração, apesar da idade acumulada na roda da vida. Por tudo isso, acredito que nosso relacionamento se tornou insuportável e não convém mais insistir numa relação tão saturada.
Creio que uma separação amigável é sempre mais conveniente do que brigas litigiosas de qualquer espécie. Que cada uma vá para o seu lado e desfrute das lembranças dos momentos bons que vivemos. O resto é resto e não vale a pena ressenti-se dele eternamente.
Por isso, venho lhe comunicar o caráter definitivo desta exoneração. Convém ressaltar que a senhora não poderá apelar para nenhuma instância superior, seja neste planeta Terra ou mesmo fora da órbita solar.
Seja feliz, eu estou sendo.
Atenciosamente,
Carla Giffoni
Cumpra-se!
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Carla Giffoni
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Segunda-feira, Setembro 01, 2008
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segunda-feira, 25 de agosto de 2008
Diário de bordo - IX parte
ATENÇÃO: Esse é diário que elaborei para a aula de Formação do Leitor da Faculdade de Letras. Adorei cada minuto que tive estudando esse assunto e gostaria de compartilhar com você, pois além de ser um diário de bordo, há também uma reflexão sobre vários assuntos.
Rio de Janeiro, 2 de abril de 2008.
Na décima aula de Formação do Leitor, analisamos as versões dos textos de Antonio Callado e Lygia Fagundes Telles para a história de Machado de Assis.
No texto do Callado, minha interpretação foi correta. Consegui ver que no texto há um narrador onisciente, e que a sogra entra em alguns momentos; que o autor sai do texto do Machado, e ao fazer isso, descortina esta personagem, abrindo um universo não desbravado pelo autor.
A visão não mais tão moralizante da sogra humaniza o personagem. Callado reconta o universo de Machado, num desejo de fidelidade Machadiana.
Durante a aula, levantou-se a hipótese da velha ser como se fosse uma voz arcaica de Capitu. Achei isso muito interessante.
Consegui ver tudo isso na narrativa de Callado, mas no texto da Lygia foi um grande fiasco! Entendi tudo errado, e me senti uma grande burra! A Ana ainda tentou consolar-me, dizendo que não existe errado em interpretação. Pode ser. Mas o correto é que me senti uma grande burralda.
Entendi que a autora tinha colocado as empregadas para fofocarem sobre as questões familiares dos patrões. Acho que isso aconteceu porque me deixei contaminar com a situação. Quando comecei a ler as versões pensei: “Se tivesse que escrever um ponto de vista seria o da mulher, ou então colocaria alguém de fora, como uma empregada para abordar o assunto”. Acredito que tal pensamento tenha contribuído de alguma forma para que minha visão ficasse contaminada, e assim não pudesse ler da maneira correta. Essa é a minha única justificativa para ter errado tanto.
Ok, admito: sou perfeccionista!
Tenho uma amiga que garante que não há mal nenhum em buscar a perfeição. O mundo chegou onde está porque as pessoas quiseram a perfeição da roda, com isso inventaram o pneu e o homem já chegou à lua. O meu problema é que sofro por não ser perfeita. Tenho trabalhado essa questão, estou melhor, mas ainda sofro por não ser perfeita.
Esta amiga, muito querida, disse: “Não busque a perfeição, e sim o progresso”, ela aconselhou. Desde então, estou tentando.
Rio de Janeiro, 2 de abril de 2008.
Na décima aula de Formação do Leitor, analisamos as versões dos textos de Antonio Callado e Lygia Fagundes Telles para a história de Machado de Assis.
No texto do Callado, minha interpretação foi correta. Consegui ver que no texto há um narrador onisciente, e que a sogra entra em alguns momentos; que o autor sai do texto do Machado, e ao fazer isso, descortina esta personagem, abrindo um universo não desbravado pelo autor.
A visão não mais tão moralizante da sogra humaniza o personagem. Callado reconta o universo de Machado, num desejo de fidelidade Machadiana.
Durante a aula, levantou-se a hipótese da velha ser como se fosse uma voz arcaica de Capitu. Achei isso muito interessante.
Consegui ver tudo isso na narrativa de Callado, mas no texto da Lygia foi um grande fiasco! Entendi tudo errado, e me senti uma grande burra! A Ana ainda tentou consolar-me, dizendo que não existe errado em interpretação. Pode ser. Mas o correto é que me senti uma grande burralda.
Entendi que a autora tinha colocado as empregadas para fofocarem sobre as questões familiares dos patrões. Acho que isso aconteceu porque me deixei contaminar com a situação. Quando comecei a ler as versões pensei: “Se tivesse que escrever um ponto de vista seria o da mulher, ou então colocaria alguém de fora, como uma empregada para abordar o assunto”. Acredito que tal pensamento tenha contribuído de alguma forma para que minha visão ficasse contaminada, e assim não pudesse ler da maneira correta. Essa é a minha única justificativa para ter errado tanto.
Ok, admito: sou perfeccionista!
Tenho uma amiga que garante que não há mal nenhum em buscar a perfeição. O mundo chegou onde está porque as pessoas quiseram a perfeição da roda, com isso inventaram o pneu e o homem já chegou à lua. O meu problema é que sofro por não ser perfeita. Tenho trabalhado essa questão, estou melhor, mas ainda sofro por não ser perfeita.
Esta amiga, muito querida, disse: “Não busque a perfeição, e sim o progresso”, ela aconselhou. Desde então, estou tentando.
sexta-feira, 15 de agosto de 2008
Diário de bordo - VIII parte
ATENÇÃO: Esse é diário que elaborei para a aula de Formação do Leitor da Faculdade de Letras. Adorei cada minuto que tive estudando esse assunto e gostaria de compartilhar com você, pois além de ser um diário de bordo, há também uma reflexão sobre vários assuntos.
Rio de Janeiro, 31 de março de 2008.
Na nona aula do curso de Formação do Leitor, a Ana falou sobre a prova G1. A data foi modificada, passou a ser no dia 5 de maio. Estou preocupada, pois também terei que fazer as provas da Miriam (Teatro antigo) e da Marília (Produção de Texto Acadêmico) na mesma ocasião. No dia seguinte, tem a Heidrun. Queria ter mais tempo para estudar e conseguir uma boa nota. Tenho me dedicado com afinco ao curso de Letras e baixar o meu CR, não é legal. No semestre passado consegui CR de 9,2. O CR global foi de 8,8.
Depois de alterar o calendário, os grupos começaram a falar sobre os textos do livro Missa do Galo e as variações feitas por diversos escritores. Gostei muito do livro. Ver como se desenvolveu o enfoque de cada autor foi muito interessante. Os textos que mais apreciei foram o da Julieta e da Lygia. Uma coisa aconteceu comigo quando li a obra: o primeiro texto que li foi o do Machado, o segundo o da Julieta já que este era a história que meu grupo analisaria. Antes de começar a ler os outros pensei que se tivesse que fazer uma história, escolhendo um personagem para escrever seu enfoque, seria sobre Conceição ou inseriria um outro personagem que não tivesse na história original. Pensei numa escrava que falasse sobre a questão. Aí, leio o texto, e vejo que alguém já tinha tido pensamento semelhante. Foi legal. Demonstra que estou na sintonia do escritor, e isso é muito bom.
Apenas dois grupos apresentaram suas análises. O primeiro foi sobre o texto do Osman Lins que tratava sobre a experiência do jovem, e o segundo, o meu grupo que apresentou, a visão da Conceição escrita por Julieta.
No texto de Lins, o jovem endeusa a figura de Conceição. O amor romântico tem este aspecto: é um sentimento que não pode se realizar. Basta lembrar-se do livro de Goethe, O sofrimento do jovem Werther, que trata de um amor impossível de se concretizar.
Rio de Janeiro, 31 de março de 2008.
Na nona aula do curso de Formação do Leitor, a Ana falou sobre a prova G1. A data foi modificada, passou a ser no dia 5 de maio. Estou preocupada, pois também terei que fazer as provas da Miriam (Teatro antigo) e da Marília (Produção de Texto Acadêmico) na mesma ocasião. No dia seguinte, tem a Heidrun. Queria ter mais tempo para estudar e conseguir uma boa nota. Tenho me dedicado com afinco ao curso de Letras e baixar o meu CR, não é legal. No semestre passado consegui CR de 9,2. O CR global foi de 8,8.
Depois de alterar o calendário, os grupos começaram a falar sobre os textos do livro Missa do Galo e as variações feitas por diversos escritores. Gostei muito do livro. Ver como se desenvolveu o enfoque de cada autor foi muito interessante. Os textos que mais apreciei foram o da Julieta e da Lygia. Uma coisa aconteceu comigo quando li a obra: o primeiro texto que li foi o do Machado, o segundo o da Julieta já que este era a história que meu grupo analisaria. Antes de começar a ler os outros pensei que se tivesse que fazer uma história, escolhendo um personagem para escrever seu enfoque, seria sobre Conceição ou inseriria um outro personagem que não tivesse na história original. Pensei numa escrava que falasse sobre a questão. Aí, leio o texto, e vejo que alguém já tinha tido pensamento semelhante. Foi legal. Demonstra que estou na sintonia do escritor, e isso é muito bom.
Apenas dois grupos apresentaram suas análises. O primeiro foi sobre o texto do Osman Lins que tratava sobre a experiência do jovem, e o segundo, o meu grupo que apresentou, a visão da Conceição escrita por Julieta.
No texto de Lins, o jovem endeusa a figura de Conceição. O amor romântico tem este aspecto: é um sentimento que não pode se realizar. Basta lembrar-se do livro de Goethe, O sofrimento do jovem Werther, que trata de um amor impossível de se concretizar.
quinta-feira, 7 de agosto de 2008
Diário de bordo - VII parte
ATENÇÃO: Esse é diário que elaborei para a aula de Formação do Leitor da Faculdade de Letras. Adorei cada minuto que tive estudando esse assunto e gostaria de compartilhar com você, pois além de ser um diário de bordo, há também uma reflexão sobre vários assuntos.
Rio de Janeiro, 24 de março de 2008.
Na sétima aula de Formação do Escritor, quer dizer, do Leitor...É sempre assim quando vou escrever esse diário, digito escritor ao invés de leitor, em 99,99% dos casos. Eu sei que a matéria é para estudar o leitor, mas na minha cabeça este é um curso que trata diretamente de minha escrita como escritora (perdoe a redundância). Estudo a mim mesmo, e não o leitor que está sendo formado.
Tenho adorado as aulas. Tem sido apaixonante, e não escrevo isso para ganhar dois pontos de conceito. Quando estava no ginásio, uma de minhas professoras, a Dona Ifigênia, dava dois pontos de conceitos para o aluno que fosse dedicado. Isso tudo ajudava na média geral de sua matéria. Sempre tenho medo de que qualquer professor pense que estou elogiando sua aula porque quero ficar bem na foto. Sofri perseguição dos alunos quando estava no ginásio, que me acusaram de estar querendo puxar o saco da professora para ganhar os conceitos. Foi inclusive com essa professora que... Bem, não se trata disso este diário, apesar da Ana ter dado a oportunidade da gente divagar um pouco. Contudo, estou divagando demais.
Voltando então à vaca fria: Na sétima aula da Ana Paula, estudamos dois textos do Luiz Fernando Veríssimo e as cartas que os leitores enviaram ao jornal O Globo referentes aos textos. Já escrevi isso e torno a repetir: O talento de Veríssimo é superlativo, o cara é o cara. Quando vejo gente assim, a vontade que tenho é de pegar um canudinho, abrir um pequeno orifício no crânio e chupar avidamente. Ele é demais!
Bem, depois desta tietagem retorno à questão da aula (hoje estou divagando muito, né?! Desculpe. Tentarei me comportar). No texto, Veríssimo utiliza a ironia como mote para o desenvolvimento de sua história, que foi baseada num fato real: Lula tomou um gole de um vinho carésimo, justo ele, um pau-de-arara, um Zé Ninguém, um torneiro mecânico nordestino semi-analfabeto, praticamente. Veríssimo expõe a ferida ao mostrar como a elite reagiu a essa questão, externando todos seus preconceitos enraizados e mesquinhos. Só que do outro lado tem o receptor, e se há um ruído qualquer a comunicação não se concretiza, segundo teoria de comunicação que estudei lá atrás, quando fiz a faculdade de jornalismo.
Já senti isso na pele. Em minha cidade, Barra Mansa, trabalhava na editoria de Política, minhas maiores experiências profissionais sempre foram nessa editoria e na de Cultura. Porém, também, atuei em outras como Cidades, Internacional, Economia Popular, Polícia (eu odiava trabalhar nesta área com toda a força do meu ser!). Bem, então, tinha uma coluna política chamada Registrando, e, como era repórter setorista, cobria a Câmara Municipal, sempre que tinha notícias. No dia 31 de março, sugeri ao meu amado, idolatrado, salve, salve, então, editor Antonio Carlos, que me autorizasse a escrever uma coluna falando de coisas impossíveis de acontecer, já que o dia seguinte seria 1º de Abril. Ele topou, e o prazer que senti ao escrever essa coluna foi inenarrável. Disse que a prefeita tinha se encontrado com os dois piores inimigos políticos que atuavam no Legislativo para fazer um tratado de paz; depois contei que o BNDES iria investir a fundo perdido uma quantia absurda, tipo 250 milhões de dólares, para a retirada do pátio de manobras – um problema que assola a cidade há mais de 50 anos, mas que antes disso o Spilberg iria filmar a saga da remoção do pátio para um filme em Hollywoody; disse também que a cidade de Barra do Piraí estava recebendo geógrafos para analisar o solo, pois havia a suspeita de que o município teria no seu subsolo uma bacia de petróleo inexorável, mas que o governo da cidade ao ser questionado negava tudo.... enfim, fiz a festa.
No final do texto, dizia que o Jornal A Voz da Cidade lamentava a perda de dois dos seus melhores profissionais: o editor Antonio Carlos, que tinha sido convidado para trabalhar na Central Globo de Jornalismo e de Carla Giffoni, que foi contratada pela Veja de São Paulo. Para terminar, eu explicava ao leitor o seguinte: Tudo como antes no quartel de Abrantes. É primeiro de abril e tudo que você leu... E assim terminava.
Algumas pessoas ligaram indignadas porque elas tinham a certeza que a reunião que aconteceu numa fazenda da prefeita nunca teria sido realizada, já que no final de semana quando aconteceu o suposto encontro, ela estava participando de outro evento e a pessoa era testemunha do ocorrido. Outros leitores se mostraram temerosos. O ex-prefeito da cidade, inimigo político da então prefeita, veio me perguntar à boca pequena se era realmente verdade que o BNDES iria investir aquela fortuna na cidade para a retirada do pátio de manobras. Se isso acontecesse, seus projetos políticos naufragariam. Eu e o meu editor fomos parados na rua em diversas ocasiões para recebermos parabéns da nossa suposta contratação. Outros ligaram elogiando, dizendo que o texto era muito bom e bem sacado. Enfim, a controvérsia foi criada e quem cria a fama, deita na cama.
Esse foi um dos textos que mais tive prazer em escrever, como disse. Ria muito na hora que estava redigindo. Fiz inclusive uma pesquisa para ver como o petróleo poderia se formar, e disse na matéria que o indício de petróleo ocorria porque os cientistas tinham encontrado ossos de dinossauros na cidade.
A força da palavra impressa é muito grande porque quando alguém fala, dá-se a inflexão que se quiser, mas quando o outro é que lê, ele que impõe sua inflexão, e este leitor pode não ter acordado de bom humor porque sua mulher dormiu de calça jeans.
É um risco que todo escritor corre. Eu e Veríssimo temos alguma coisa em comum (nem que seja o branco do olho). Chique, né?!
Rio de Janeiro, 24 de março de 2008.
Na sétima aula de Formação do Escritor, quer dizer, do Leitor...É sempre assim quando vou escrever esse diário, digito escritor ao invés de leitor, em 99,99% dos casos. Eu sei que a matéria é para estudar o leitor, mas na minha cabeça este é um curso que trata diretamente de minha escrita como escritora (perdoe a redundância). Estudo a mim mesmo, e não o leitor que está sendo formado.
Tenho adorado as aulas. Tem sido apaixonante, e não escrevo isso para ganhar dois pontos de conceito. Quando estava no ginásio, uma de minhas professoras, a Dona Ifigênia, dava dois pontos de conceitos para o aluno que fosse dedicado. Isso tudo ajudava na média geral de sua matéria. Sempre tenho medo de que qualquer professor pense que estou elogiando sua aula porque quero ficar bem na foto. Sofri perseguição dos alunos quando estava no ginásio, que me acusaram de estar querendo puxar o saco da professora para ganhar os conceitos. Foi inclusive com essa professora que... Bem, não se trata disso este diário, apesar da Ana ter dado a oportunidade da gente divagar um pouco. Contudo, estou divagando demais.
Voltando então à vaca fria: Na sétima aula da Ana Paula, estudamos dois textos do Luiz Fernando Veríssimo e as cartas que os leitores enviaram ao jornal O Globo referentes aos textos. Já escrevi isso e torno a repetir: O talento de Veríssimo é superlativo, o cara é o cara. Quando vejo gente assim, a vontade que tenho é de pegar um canudinho, abrir um pequeno orifício no crânio e chupar avidamente. Ele é demais!
Bem, depois desta tietagem retorno à questão da aula (hoje estou divagando muito, né?! Desculpe. Tentarei me comportar). No texto, Veríssimo utiliza a ironia como mote para o desenvolvimento de sua história, que foi baseada num fato real: Lula tomou um gole de um vinho carésimo, justo ele, um pau-de-arara, um Zé Ninguém, um torneiro mecânico nordestino semi-analfabeto, praticamente. Veríssimo expõe a ferida ao mostrar como a elite reagiu a essa questão, externando todos seus preconceitos enraizados e mesquinhos. Só que do outro lado tem o receptor, e se há um ruído qualquer a comunicação não se concretiza, segundo teoria de comunicação que estudei lá atrás, quando fiz a faculdade de jornalismo.
Já senti isso na pele. Em minha cidade, Barra Mansa, trabalhava na editoria de Política, minhas maiores experiências profissionais sempre foram nessa editoria e na de Cultura. Porém, também, atuei em outras como Cidades, Internacional, Economia Popular, Polícia (eu odiava trabalhar nesta área com toda a força do meu ser!). Bem, então, tinha uma coluna política chamada Registrando, e, como era repórter setorista, cobria a Câmara Municipal, sempre que tinha notícias. No dia 31 de março, sugeri ao meu amado, idolatrado, salve, salve, então, editor Antonio Carlos, que me autorizasse a escrever uma coluna falando de coisas impossíveis de acontecer, já que o dia seguinte seria 1º de Abril. Ele topou, e o prazer que senti ao escrever essa coluna foi inenarrável. Disse que a prefeita tinha se encontrado com os dois piores inimigos políticos que atuavam no Legislativo para fazer um tratado de paz; depois contei que o BNDES iria investir a fundo perdido uma quantia absurda, tipo 250 milhões de dólares, para a retirada do pátio de manobras – um problema que assola a cidade há mais de 50 anos, mas que antes disso o Spilberg iria filmar a saga da remoção do pátio para um filme em Hollywoody; disse também que a cidade de Barra do Piraí estava recebendo geógrafos para analisar o solo, pois havia a suspeita de que o município teria no seu subsolo uma bacia de petróleo inexorável, mas que o governo da cidade ao ser questionado negava tudo.... enfim, fiz a festa.
No final do texto, dizia que o Jornal A Voz da Cidade lamentava a perda de dois dos seus melhores profissionais: o editor Antonio Carlos, que tinha sido convidado para trabalhar na Central Globo de Jornalismo e de Carla Giffoni, que foi contratada pela Veja de São Paulo. Para terminar, eu explicava ao leitor o seguinte: Tudo como antes no quartel de Abrantes. É primeiro de abril e tudo que você leu... E assim terminava.
Algumas pessoas ligaram indignadas porque elas tinham a certeza que a reunião que aconteceu numa fazenda da prefeita nunca teria sido realizada, já que no final de semana quando aconteceu o suposto encontro, ela estava participando de outro evento e a pessoa era testemunha do ocorrido. Outros leitores se mostraram temerosos. O ex-prefeito da cidade, inimigo político da então prefeita, veio me perguntar à boca pequena se era realmente verdade que o BNDES iria investir aquela fortuna na cidade para a retirada do pátio de manobras. Se isso acontecesse, seus projetos políticos naufragariam. Eu e o meu editor fomos parados na rua em diversas ocasiões para recebermos parabéns da nossa suposta contratação. Outros ligaram elogiando, dizendo que o texto era muito bom e bem sacado. Enfim, a controvérsia foi criada e quem cria a fama, deita na cama.
Esse foi um dos textos que mais tive prazer em escrever, como disse. Ria muito na hora que estava redigindo. Fiz inclusive uma pesquisa para ver como o petróleo poderia se formar, e disse na matéria que o indício de petróleo ocorria porque os cientistas tinham encontrado ossos de dinossauros na cidade.
A força da palavra impressa é muito grande porque quando alguém fala, dá-se a inflexão que se quiser, mas quando o outro é que lê, ele que impõe sua inflexão, e este leitor pode não ter acordado de bom humor porque sua mulher dormiu de calça jeans.
É um risco que todo escritor corre. Eu e Veríssimo temos alguma coisa em comum (nem que seja o branco do olho). Chique, né?!
sábado, 2 de agosto de 2008
Diário de bordo - VI parte
Rio de Janeiro, 19 de março de 2008.
Na sexta aula, tratamos sobre a realidade ao trabalharmos o texto O príncipe e o mago de John Fowles. Gostei muito deste texto, mas entre a história da Marina e este, prefiro o primeiro. Na verdade, os dois são excelentes, mas se tivesse que escolher um seria o da Moça Tecelã.
O texto do Príncipe trata sobre os limites da palavra e da ficção. Realmente, a linha divisória destes dois mundos é muito tênue, no meu caso. Meu pacto com a fantasia é grande. Isso não quer dizer que não funcione na realidade. Sou uma mulher adulta, vacinada, pago as minhas dívidas, trabalho, lavo minha calcinha, faço minha comida e arrumo a casa. Tudo que uma pessoa adulta é capaz de fazer. Contudo, mesmo assim meu pacto com a fantasia ainda é grande, isso não me torna uma pessoa irresponsável, mas sim uma escritora. Sempre quando vejo algo interessante, anoto no meu caderninho. Eu tenho um caderninho, e não é de hoje.
Quando entrei para a faculdade, uma das primeiras aulas que tive foi com a Pina e ela falava sobre a necessidade de se ter um caderninho para anotar as idéias, e que o aluno deveria carregar o objeto para cima e para baixo. Eu já tinha o meu antes mesmo dela falar. O engraçado é que nunca me toquei que ter aquele caderno era uma atitude positiva e própria de alguém que escreve. Tal atitude era tão natural que não conseguia validar a iniciativa.
Outra coisa que me chamou a atenção no texto de Fowles foi a temática da verdade e mentira. Sempre fui fascinada por este tipo de assunto: verdade X mentira; beleza X feiúra; bom X mau ... Sempre. São temas apaixonantes, e isso sempre me levou à reflexão.
Ao longo dos séculos, muitas das verdades que antes se acreditavam piamente vêm sendo derrubadas uma a uma, como, por exemplo, a verdade que a Terra é o centro do universo; que o coração é o órgão mais importante do corpo. Muito já foi descoberto, e outras verdades nos serão ainda reveladas, e isso é o que dá o tempero da vida. É assustador, tenho que admitir, mas a possibilidade de se ser surpreendida num virar da esquina é que faz com que cresça emocional e espiritualmente, e com isso minha escrita tende a se aprimorar. Minha mãe sempre dizia: crescer é ter opção de escolha e ser responsável por aquilo que se escolheu. Sábia dona Carla (tenho o seu nome)! Não é fácil se manter fiel no que se acredita. Muitas vezes se paga um preço alto por isso, mas não tem jeito. Quando se vai contra aquilo em que se acredita, uma parte da pessoa morre, fica semelhante a um zumbi, caminhando pelo mundo. Não quero isso.
Na sexta aula, tratamos sobre a realidade ao trabalharmos o texto O príncipe e o mago de John Fowles. Gostei muito deste texto, mas entre a história da Marina e este, prefiro o primeiro. Na verdade, os dois são excelentes, mas se tivesse que escolher um seria o da Moça Tecelã.
O texto do Príncipe trata sobre os limites da palavra e da ficção. Realmente, a linha divisória destes dois mundos é muito tênue, no meu caso. Meu pacto com a fantasia é grande. Isso não quer dizer que não funcione na realidade. Sou uma mulher adulta, vacinada, pago as minhas dívidas, trabalho, lavo minha calcinha, faço minha comida e arrumo a casa. Tudo que uma pessoa adulta é capaz de fazer. Contudo, mesmo assim meu pacto com a fantasia ainda é grande, isso não me torna uma pessoa irresponsável, mas sim uma escritora. Sempre quando vejo algo interessante, anoto no meu caderninho. Eu tenho um caderninho, e não é de hoje.
Quando entrei para a faculdade, uma das primeiras aulas que tive foi com a Pina e ela falava sobre a necessidade de se ter um caderninho para anotar as idéias, e que o aluno deveria carregar o objeto para cima e para baixo. Eu já tinha o meu antes mesmo dela falar. O engraçado é que nunca me toquei que ter aquele caderno era uma atitude positiva e própria de alguém que escreve. Tal atitude era tão natural que não conseguia validar a iniciativa.
Outra coisa que me chamou a atenção no texto de Fowles foi a temática da verdade e mentira. Sempre fui fascinada por este tipo de assunto: verdade X mentira; beleza X feiúra; bom X mau ... Sempre. São temas apaixonantes, e isso sempre me levou à reflexão.
Ao longo dos séculos, muitas das verdades que antes se acreditavam piamente vêm sendo derrubadas uma a uma, como, por exemplo, a verdade que a Terra é o centro do universo; que o coração é o órgão mais importante do corpo. Muito já foi descoberto, e outras verdades nos serão ainda reveladas, e isso é o que dá o tempero da vida. É assustador, tenho que admitir, mas a possibilidade de se ser surpreendida num virar da esquina é que faz com que cresça emocional e espiritualmente, e com isso minha escrita tende a se aprimorar. Minha mãe sempre dizia: crescer é ter opção de escolha e ser responsável por aquilo que se escolheu. Sábia dona Carla (tenho o seu nome)! Não é fácil se manter fiel no que se acredita. Muitas vezes se paga um preço alto por isso, mas não tem jeito. Quando se vai contra aquilo em que se acredita, uma parte da pessoa morre, fica semelhante a um zumbi, caminhando pelo mundo. Não quero isso.
quinta-feira, 31 de julho de 2008
Diário de bordo - V parte
Rio de Janeiro, 17 de março de 2008.
Na quinta aula, a Ana falou sobre várias coisas que fizeram com que refletisse sobre a questão do autor. Ela ainda utilizou o texto da Marina Colassanti. Como é interessante olhar a escrita desta autora com outros olhos, ver a possibilidade de várias interpretações como, por exemplo, analisar o texto pela ótica feminista ou marxista!
É isso que quero fazer! Poder ver as várias nuances de uma interpretação, e para isso acontecer preciso treinar o meu olhar, instrumentalizando-o com o conhecimento teórico.
Hoje, um pouco mais cedo, tive aula com o (meu amado, idolatrado, salve, salve!!!) professor Zé Carvalho e lhe falei que ao ver o Je vous salue, Marie interpretei de modo diferente a temática da obra de Jean-Luc Godard, diferente do que ele falou em sala.
Vi que Godard estava tratando ali não a temática da mulher, mas sim a questão do sensório e a espiritualidade. Aí chega a aula da Ana, e falamos de várias interpretações que se pode ter sobre determinada obra. Tal possibilidade é enriquecedora, é desler e reler de outro jeito. Quando consigo fazer esse tipo de interpretação, sinto que minha escrita ganha.
Na hora que a Ana estava falando sobre essas questões, fiquei pensando sobre a trilogia que escrevi sobre as Margaridas. São três contos infanto-juvenis que têm como temática estas flores:
A Margarida que sonhava em ser Rosa
A Margarida que se pintou de Paixão
A revolução das Margaridas
Fiquei pensando em como as pessoas poderiam ler esses textos que escrevi. Deu vontade de pedir para ler em sala, mas depois recolhi a viola no saco e fiquei quieta.
Como escritora, tenho essa necessidade der ser lida. Drummond retratou muito bem isso ao escrever: Por isso me dispo, por isso me exponho nas livrarias. Preciso de todos (vai escrever bem assim, lá em casa!!!!).
Na quinta aula, a Ana falou sobre várias coisas que fizeram com que refletisse sobre a questão do autor. Ela ainda utilizou o texto da Marina Colassanti. Como é interessante olhar a escrita desta autora com outros olhos, ver a possibilidade de várias interpretações como, por exemplo, analisar o texto pela ótica feminista ou marxista!
É isso que quero fazer! Poder ver as várias nuances de uma interpretação, e para isso acontecer preciso treinar o meu olhar, instrumentalizando-o com o conhecimento teórico.
Hoje, um pouco mais cedo, tive aula com o (meu amado, idolatrado, salve, salve!!!) professor Zé Carvalho e lhe falei que ao ver o Je vous salue, Marie interpretei de modo diferente a temática da obra de Jean-Luc Godard, diferente do que ele falou em sala.
Vi que Godard estava tratando ali não a temática da mulher, mas sim a questão do sensório e a espiritualidade. Aí chega a aula da Ana, e falamos de várias interpretações que se pode ter sobre determinada obra. Tal possibilidade é enriquecedora, é desler e reler de outro jeito. Quando consigo fazer esse tipo de interpretação, sinto que minha escrita ganha.
Na hora que a Ana estava falando sobre essas questões, fiquei pensando sobre a trilogia que escrevi sobre as Margaridas. São três contos infanto-juvenis que têm como temática estas flores:
A Margarida que sonhava em ser Rosa
A Margarida que se pintou de Paixão
A revolução das Margaridas
Fiquei pensando em como as pessoas poderiam ler esses textos que escrevi. Deu vontade de pedir para ler em sala, mas depois recolhi a viola no saco e fiquei quieta.
Como escritora, tenho essa necessidade der ser lida. Drummond retratou muito bem isso ao escrever: Por isso me dispo, por isso me exponho nas livrarias. Preciso de todos (vai escrever bem assim, lá em casa!!!!).
sábado, 26 de julho de 2008
Diário de bordo - IV parte
Rio de Janeiro, 12 de março de 2008.
No quarto dia de aula, tive a oportunidade de ler o meu diário. Parece que a Ana e os alunos gostaram. Fiquei feliz porque assim pude sanar a dúvida se estava ou não escrevendo certo. Seria ruim se estivesse fazendo errado e só descobrisse isso lá na frente.
Durante a aula, os grupos falaram das suas interpretações das imagens, aquelas que na aula anterior tinham mensagens em hebraico e japonês, lembra? Pois é.
Foi interessante o exercício porque os grupos mais ou menos tiveram conclusões semelhantes. Só senti falta de uma coisa: pensei que depois a Ana fosse apresentar as traduções. Isso não aconteceu. Uma pena.
Depois a professora falou sobre a leitura descritiva, projetiva, contexto, estranhamento e reconhecimento. Tudo isso ainda baseado nas imagens que tinham textos hebraicos e em japonês.
Ana falou também sobre o dicionário ser apelidado no Brasil de Pai dos burros. Ela está certa ao dizer que tal alcunha é uma maneira de brecar a literatura. Realmente, a falta de incentivo à educação no Brasil é algo que assola o país desde que Cabral desceu na Terra de Santa Cruz. Tivemos que esperar cerca de 300 anos para termos o direito de imprimir qualquer coisa. Porque o rei de Portugal saiu de fininho por causa de Napoleão é que conseguimos ter a primeira imprensa (máquina de imprimir).
O Brasil tem autores maravilhosos, e isso aconteceu pela obra e graça de Deus, porque se fosse para os homens aqui olharem (lê-se autoridades)...estaríamos perdidos. Quando estava no ginásio, o professor Afonso dizia que deveríamos estudar inglês para poder ler Shakespeare no original. Pois eu digo aos gringos: aprendam português para poderem ler Nelson, Drummond, Leminski, Bilac, Alencar, Macedo e Rosa, para citar apenas alguns. O que não falta no Brasil é talento, apesar dos pesares e da falta de incentivo das autoridades.
No quarto dia de aula, tive a oportunidade de ler o meu diário. Parece que a Ana e os alunos gostaram. Fiquei feliz porque assim pude sanar a dúvida se estava ou não escrevendo certo. Seria ruim se estivesse fazendo errado e só descobrisse isso lá na frente.
Durante a aula, os grupos falaram das suas interpretações das imagens, aquelas que na aula anterior tinham mensagens em hebraico e japonês, lembra? Pois é.
Foi interessante o exercício porque os grupos mais ou menos tiveram conclusões semelhantes. Só senti falta de uma coisa: pensei que depois a Ana fosse apresentar as traduções. Isso não aconteceu. Uma pena.
Depois a professora falou sobre a leitura descritiva, projetiva, contexto, estranhamento e reconhecimento. Tudo isso ainda baseado nas imagens que tinham textos hebraicos e em japonês.
Ana falou também sobre o dicionário ser apelidado no Brasil de Pai dos burros. Ela está certa ao dizer que tal alcunha é uma maneira de brecar a literatura. Realmente, a falta de incentivo à educação no Brasil é algo que assola o país desde que Cabral desceu na Terra de Santa Cruz. Tivemos que esperar cerca de 300 anos para termos o direito de imprimir qualquer coisa. Porque o rei de Portugal saiu de fininho por causa de Napoleão é que conseguimos ter a primeira imprensa (máquina de imprimir).
O Brasil tem autores maravilhosos, e isso aconteceu pela obra e graça de Deus, porque se fosse para os homens aqui olharem (lê-se autoridades)...estaríamos perdidos. Quando estava no ginásio, o professor Afonso dizia que deveríamos estudar inglês para poder ler Shakespeare no original. Pois eu digo aos gringos: aprendam português para poderem ler Nelson, Drummond, Leminski, Bilac, Alencar, Macedo e Rosa, para citar apenas alguns. O que não falta no Brasil é talento, apesar dos pesares e da falta de incentivo das autoridades.
segunda-feira, 21 de julho de 2008
Diário de bordo - III parte
Rio, 10 de março de 2008.
Tive o terceiro dia de aula de Formação de Leitor hoje. Foi bom. Pela primeira vez, um aluno leu seu diário de bordo sobre as aulas. Foi legal. Mas fiquei na dúvida se estou ou não fazendo a coisa certa. Acho que estou, sim, elaborando o diário corretamente, mas, sinceramente, não tenho certeza.
Outros dois estudantes também leram os seus textos. Adoro isso. Gosto muito de ouvir o que o outro escreve. Isso me inspira e sinto-me renovada com a escrita do outro. Vejo ângulos que não tinha notado anteriormente.
Também fizemos um exercício em grupo sobre imagens que tinham textos em japonês e hebraico, línguas que ninguém dominava. Então, tivemos que pensar o que seria aqueles símbolos que não podíamos ler. Ao fazer este exercício, senti na pele o que pensa um analfabeto que não entende ou decifra aquele código de leitura. Acho que meu grupo deslizou na maionese ao pensar que a figura de um garotinho chorando seria porque ele estaria supostamente perdido. Pode até ser isso mesmo, mas..... sei lá! Japonês pensa tão diferente de ocidental, ainda mais ocidental latino-americano! Vamos ver no que vai dar na próxima aula.
Ana também iniciou uma explanação sobre opinião e interpretação. Tenho que confessar: senti-me altamente ignorante! Há certas construções de linguagens que sinto como se fosse um tipo de pegadinha teórico-lingüístico-literário. É como se alguém ficasse horas e horas pensando em como pegar o outro para embaralhá-lo e confundi-lo. Sei, intelectualmente, que não é assim, mas emocionalmente sinto que é. Afinal: Tostines está sempre fresquinho porque vende mais, ou vende mais porque está sempre fresquinho? Oh, dúvida cruel!
Além disso, a professora Ana deu o texto de Luiz Fernando Veríssimo, adoro esse homem! Seu talento pode ser classificado em superlativo: talentosíssimo, engraçadíssimo, ironíssimo, e assim vai. Quando crescer, quero escrever como ele. Na verdade, não só como ele, mas uma mistura de todos aqueles a quem admiro: porções generosas de Nelson, com a construção de imagens de Josué, com a subjetividade e a poesia de um Drummond misturado homogeneamente com Vinhinha. Sem esquecer aqui e ali de pitadas de Raquel, Balzac, Machado e Pessoa, fazendo nascer bolhas proustianas ao colocar no forno para assar. Esse é meu desejo. Esse é meu objetivo. Pretensão? Não sei. Só sei que canto e a canção é tudo. Tem sangue eterno e a asa é ritmada. Um dia sei que estarei mudo e mais nada. Salve, salve, Santa Cecília!
Tive o terceiro dia de aula de Formação de Leitor hoje. Foi bom. Pela primeira vez, um aluno leu seu diário de bordo sobre as aulas. Foi legal. Mas fiquei na dúvida se estou ou não fazendo a coisa certa. Acho que estou, sim, elaborando o diário corretamente, mas, sinceramente, não tenho certeza.
Outros dois estudantes também leram os seus textos. Adoro isso. Gosto muito de ouvir o que o outro escreve. Isso me inspira e sinto-me renovada com a escrita do outro. Vejo ângulos que não tinha notado anteriormente.
Também fizemos um exercício em grupo sobre imagens que tinham textos em japonês e hebraico, línguas que ninguém dominava. Então, tivemos que pensar o que seria aqueles símbolos que não podíamos ler. Ao fazer este exercício, senti na pele o que pensa um analfabeto que não entende ou decifra aquele código de leitura. Acho que meu grupo deslizou na maionese ao pensar que a figura de um garotinho chorando seria porque ele estaria supostamente perdido. Pode até ser isso mesmo, mas..... sei lá! Japonês pensa tão diferente de ocidental, ainda mais ocidental latino-americano! Vamos ver no que vai dar na próxima aula.
Ana também iniciou uma explanação sobre opinião e interpretação. Tenho que confessar: senti-me altamente ignorante! Há certas construções de linguagens que sinto como se fosse um tipo de pegadinha teórico-lingüístico-literário. É como se alguém ficasse horas e horas pensando em como pegar o outro para embaralhá-lo e confundi-lo. Sei, intelectualmente, que não é assim, mas emocionalmente sinto que é. Afinal: Tostines está sempre fresquinho porque vende mais, ou vende mais porque está sempre fresquinho? Oh, dúvida cruel!
Além disso, a professora Ana deu o texto de Luiz Fernando Veríssimo, adoro esse homem! Seu talento pode ser classificado em superlativo: talentosíssimo, engraçadíssimo, ironíssimo, e assim vai. Quando crescer, quero escrever como ele. Na verdade, não só como ele, mas uma mistura de todos aqueles a quem admiro: porções generosas de Nelson, com a construção de imagens de Josué, com a subjetividade e a poesia de um Drummond misturado homogeneamente com Vinhinha. Sem esquecer aqui e ali de pitadas de Raquel, Balzac, Machado e Pessoa, fazendo nascer bolhas proustianas ao colocar no forno para assar. Esse é meu desejo. Esse é meu objetivo. Pretensão? Não sei. Só sei que canto e a canção é tudo. Tem sangue eterno e a asa é ritmada. Um dia sei que estarei mudo e mais nada. Salve, salve, Santa Cecília!
quarta-feira, 16 de julho de 2008
Diário de bordo - II parte
Rio, 5 de março de 2008.
Hoje foi a segunda aula da Ana. Foi boa. Ela apresentou o calendário do curso e disse que não haverá aula no dia 7 de abril. Para os dias 14 e 16 de abril, a professora está programando que suas alunas de mestrado estejam nos dando aula.
A professora também pediu que lêssemos os textos referentes ao diário das aulas, conforme já havia solicitado na primeira aula dizendo que a cada encontro um aluno seria sorteado para ler o seu diário. Alguns colegas levaram textos referentes a diário. Teve uma menina que leu o seu, um rapaz leu um texto que se referia ao livro de Bernardo Carvalho (acho que era esse o nome do autor). Eu também participei. Falei sobre minha experiência de escrever diários na oficina que fiz com a Pina, e li o texto que escrevi sobre o diário de uma mulher de 78 anos. Foi bom, mas fiquei nervosa. É difícil eu ficar nervosa lendo alguma coisa, mas fiquei e nem sei o porquê. Deve ser porque ainda não me acostumei com a turma.
Depois, Ana falou sobre as características do leitor, lemos o folheto Direito imprescindível do leitor, gostei muito. Interessante os tópicos divididos pelo autor, como o direito de pular páginas, de ler qualquer coisa, de ler em qualquer lugar. Desses tópicos o que mais me chamou atenção foi o de ler qualquer coisa. Como leitora, nem todo dia estou disposta a refletir sobre a profundeza do instante da leveza do ser. Há momentos que leio apenas para entretenimento, para distrair, para passar o tempo... sei lá. Pego um gibi do Donald, da Mônica e Cebolinha, ou mesmo uma revistinha Júlia e leio. Isso me torna uma leitora menos requintada?Afinal, que critério é este que torna uma pessoa mais ou menos requintada? Leitora é leitora, e quem diz o contrário vejo que está aí imbuído é de uma grande carga de preconceito. Tudo bem, até admito que quem ler mais traz em sua bagagem janelas de entendimentos que um leitor menos freqüente não tem. Mas isso não torna ninguém superior ou inferior ao outro. Tive a sorte de ter tido a oportunidade de ler desde muito cedo. Nasci num ambiente em que os livros eram presenças constantes. Presenciei meu pai, minha mãe e tios lendo muito, diariamente, e isso tudo contribuiu para que me tornasse uma leitora voraz. Pelo menos é assim que me classificam. Eu não me taxo como uma leitora tão voraz assim, na verdade gostaria de poder ler mais do que normalmente leio. Mas, enfim, essa é apenas uma opinião.
Outro tópico que gostei muito foi o de ler em qualquer lugar. Adoro ler no banheiro. Não estou sozinha. Tenho algumas amigas e também amigos que têm em seus banheiros um kit leitura, com livros, gibis e revistas. A Janete, por exemplo, que tem o banheiro grande, chega ao cúmulo de ter um pequeno armário com livros. Quando vou à sua casa, faço a festa, sinto-me uma rainha. Esqueço da vida e nem preciso estar utilizando propriamente o vaso sanitário. É muito bom.
Ela brinca dizendo que dependendo do seu estado intestinal é que faz a escolha da obra
para ser lida enquanto estiver no trono. A variedade de sua biblioteca é grande. Se pode encontrar romances sentimentais, de polícia, históricos, livros de reflexões diárias, de auto-ajuda, Shakespeare, Voltaire, Drummond, Bilac, Cecília, além, é claro, das revistinhas como Tio Patinhas, Donald, Cebolina e Mônica, Superman, entre outros .... a lista é grande. Um verdadeiro paraíso. O melhor de tudo é que a família toda já aderiu à sua proposta: os dois filhos em idade escolar, ela e o novo marido lêem naquele ambiente. O problema é quando os dois banheiros (sim, há dois. É preciso) estão ocupados. A porta quase é derrubada na ânsia de utilizar o trono.
Hoje foi a segunda aula da Ana. Foi boa. Ela apresentou o calendário do curso e disse que não haverá aula no dia 7 de abril. Para os dias 14 e 16 de abril, a professora está programando que suas alunas de mestrado estejam nos dando aula.
A professora também pediu que lêssemos os textos referentes ao diário das aulas, conforme já havia solicitado na primeira aula dizendo que a cada encontro um aluno seria sorteado para ler o seu diário. Alguns colegas levaram textos referentes a diário. Teve uma menina que leu o seu, um rapaz leu um texto que se referia ao livro de Bernardo Carvalho (acho que era esse o nome do autor). Eu também participei. Falei sobre minha experiência de escrever diários na oficina que fiz com a Pina, e li o texto que escrevi sobre o diário de uma mulher de 78 anos. Foi bom, mas fiquei nervosa. É difícil eu ficar nervosa lendo alguma coisa, mas fiquei e nem sei o porquê. Deve ser porque ainda não me acostumei com a turma.
Depois, Ana falou sobre as características do leitor, lemos o folheto Direito imprescindível do leitor, gostei muito. Interessante os tópicos divididos pelo autor, como o direito de pular páginas, de ler qualquer coisa, de ler em qualquer lugar. Desses tópicos o que mais me chamou atenção foi o de ler qualquer coisa. Como leitora, nem todo dia estou disposta a refletir sobre a profundeza do instante da leveza do ser. Há momentos que leio apenas para entretenimento, para distrair, para passar o tempo... sei lá. Pego um gibi do Donald, da Mônica e Cebolinha, ou mesmo uma revistinha Júlia e leio. Isso me torna uma leitora menos requintada?Afinal, que critério é este que torna uma pessoa mais ou menos requintada? Leitora é leitora, e quem diz o contrário vejo que está aí imbuído é de uma grande carga de preconceito. Tudo bem, até admito que quem ler mais traz em sua bagagem janelas de entendimentos que um leitor menos freqüente não tem. Mas isso não torna ninguém superior ou inferior ao outro. Tive a sorte de ter tido a oportunidade de ler desde muito cedo. Nasci num ambiente em que os livros eram presenças constantes. Presenciei meu pai, minha mãe e tios lendo muito, diariamente, e isso tudo contribuiu para que me tornasse uma leitora voraz. Pelo menos é assim que me classificam. Eu não me taxo como uma leitora tão voraz assim, na verdade gostaria de poder ler mais do que normalmente leio. Mas, enfim, essa é apenas uma opinião.
Outro tópico que gostei muito foi o de ler em qualquer lugar. Adoro ler no banheiro. Não estou sozinha. Tenho algumas amigas e também amigos que têm em seus banheiros um kit leitura, com livros, gibis e revistas. A Janete, por exemplo, que tem o banheiro grande, chega ao cúmulo de ter um pequeno armário com livros. Quando vou à sua casa, faço a festa, sinto-me uma rainha. Esqueço da vida e nem preciso estar utilizando propriamente o vaso sanitário. É muito bom.
Ela brinca dizendo que dependendo do seu estado intestinal é que faz a escolha da obra
para ser lida enquanto estiver no trono. A variedade de sua biblioteca é grande. Se pode encontrar romances sentimentais, de polícia, históricos, livros de reflexões diárias, de auto-ajuda, Shakespeare, Voltaire, Drummond, Bilac, Cecília, além, é claro, das revistinhas como Tio Patinhas, Donald, Cebolina e Mônica, Superman, entre outros .... a lista é grande. Um verdadeiro paraíso. O melhor de tudo é que a família toda já aderiu à sua proposta: os dois filhos em idade escolar, ela e o novo marido lêem naquele ambiente. O problema é quando os dois banheiros (sim, há dois. É preciso) estão ocupados. A porta quase é derrubada na ânsia de utilizar o trono.
domingo, 13 de julho de 2008
Diário de bordo - I parte
ATENÇÃO: Esse é diário que elaborei para a aula de Formação do Leitor da Faculdade de Letras. Adorei cada minuto que tive estudando esse assunto e gostaria de compartilhar com você, pois além de ser um diário de bordo, há também uma reflexão sobre vários assuntos.
Rio, 3 de março de 2008
Hoje foi o primeiro dia da aula Formação do Leitor. Tudo correu bem. A professora é a Ana Paula, minha conhecida. No último semestre do ano passado, ela me deu aula de Literatura e Cultura Brasileira em que se falava sobre a identidade nacional.
Como hoje foi o primeiro dia, Ana conversou apenas sobre a ementa do curso, a bibliografia que será usada e explicou que precisávamos fazer um diário, e que quem não fizesse o texto e seu nome fosse sorteado, ela tiraria meio ponto na prova.
A turma é composta de estudantes muito novos, acho que deve ter apenas umas três ou quatro pessoas na minha faixa etária. Mas foi legal. Não me importo de estudar com gente nova, aprendo muito. Gosto da diversidade cultural.
Estou cheia de entusiasmo com esse curso, pois desde que entrei na Faculdade de Letras, no início de 2007, fiquei aflita para ter essa matéria. Naquela ocasião, a Manú havia se matriculado na disciplina, e ela me mostrou um texto que falava sobre um conto de fada politicamente correto. Um texto leve, engraçado, espirituoso e tudo de bom. Fiquei apaixonada pela narrativa, mas o De-Para já tinha terminado, e não pude me inscrever. Tive que esperar um ano para poder me matricular na disciplina. Vamos ver!
A bibliografia parece ser interessante. Se a matéria trilhar o mesmo caminho da Literatura e Cultura Brasileira, as aulas serão ótimas. Adorei ler no outro semestre textos como os de Andrade (Mário e Osvald), Zuenir Ventura, Heloísa Buarque de Holanda, Josué de Castro... foram muitos e não teve nenhum texto que desgostasse. Talvez gostasse mais de uns do que de outros, mas todos foram de alto nível e me levaram à reflexão.
Porém, o que mais gostei foram os seminários que a professora propôs. O meu grupo escolheu o tema Violência e literatura e amei pesquisar sobre o assunto. Acredito que todos do grupo se saíram bem, e foi muito bom!
Será que no curso de Formação do Leitor haverá seminário? Ela disse que dividirá a turma em pequenos grupos. Não sei como será a dinâmica. Vamos ver. Quem viver, verá.
Rio, 3 de março de 2008
Hoje foi o primeiro dia da aula Formação do Leitor. Tudo correu bem. A professora é a Ana Paula, minha conhecida. No último semestre do ano passado, ela me deu aula de Literatura e Cultura Brasileira em que se falava sobre a identidade nacional.
Como hoje foi o primeiro dia, Ana conversou apenas sobre a ementa do curso, a bibliografia que será usada e explicou que precisávamos fazer um diário, e que quem não fizesse o texto e seu nome fosse sorteado, ela tiraria meio ponto na prova.
A turma é composta de estudantes muito novos, acho que deve ter apenas umas três ou quatro pessoas na minha faixa etária. Mas foi legal. Não me importo de estudar com gente nova, aprendo muito. Gosto da diversidade cultural.
Estou cheia de entusiasmo com esse curso, pois desde que entrei na Faculdade de Letras, no início de 2007, fiquei aflita para ter essa matéria. Naquela ocasião, a Manú havia se matriculado na disciplina, e ela me mostrou um texto que falava sobre um conto de fada politicamente correto. Um texto leve, engraçado, espirituoso e tudo de bom. Fiquei apaixonada pela narrativa, mas o De-Para já tinha terminado, e não pude me inscrever. Tive que esperar um ano para poder me matricular na disciplina. Vamos ver!
A bibliografia parece ser interessante. Se a matéria trilhar o mesmo caminho da Literatura e Cultura Brasileira, as aulas serão ótimas. Adorei ler no outro semestre textos como os de Andrade (Mário e Osvald), Zuenir Ventura, Heloísa Buarque de Holanda, Josué de Castro... foram muitos e não teve nenhum texto que desgostasse. Talvez gostasse mais de uns do que de outros, mas todos foram de alto nível e me levaram à reflexão.
Porém, o que mais gostei foram os seminários que a professora propôs. O meu grupo escolheu o tema Violência e literatura e amei pesquisar sobre o assunto. Acredito que todos do grupo se saíram bem, e foi muito bom!
Será que no curso de Formação do Leitor haverá seminário? Ela disse que dividirá a turma em pequenos grupos. Não sei como será a dinâmica. Vamos ver. Quem viver, verá.
quinta-feira, 10 de julho de 2008
“A mancha do pecado no nosso amor” - um drama burguês no tempo de Édipo Rei (parte final)
(SOM DE MÚSICA INCIDENTAL – DE SUSPENSE. DURANTE TODO O DIÁLOGO, A MÚSICA SOBE E ABAIXA CONFORME A GRADAÇÃO DAS EMOÇÕES E TENSÕES DOS PERSONAGENS)
Jocasta
Por que razão, senhor meu marido, permites que esta raiva feroz o domine?
Édipo
Por muito estimá-la, minha senhora, é que vou dizer, apesar de temer que se volte contra mim ao falar mal de seu irmão: a raiva que sinto vem da acusação feita por Creonte!
Jocasta
(ENTRE CURIOSA E COMEÇANDO A FICAR AFLITA)
Mas o que ele falou de tal vil, senhor meu marido?!
(MÚSICA DRAMÁTICA, CRIANDO UM CLIMA TENSO)
Édipo
Creonte me acusa de ter matado Laio, seu primeiro marido.
Jocasta
Mas senhor, por que Creonte acusa você de ter matado Laio? Ele ouviu falar ou presenciou o fato? Por que meu irmão o acusa de tamanho crime?
Édipo
Creonte diz que foi um pai de santo que leu nos búzios que eu era o assassino de Laio...
Jocasta
Mas é isso?! Ora, meu marido, fique sabendo que nosso Senhor Jesus Cristo não concedeu o dom de adivinhação a nenhum dos cristãos. Veja: meu primeiro marido dizia ter sido amaldiçoado por uma escrava que falou que ele seria morto pelo filho. Nada disso aconteceu. No início, Laio não deu ouvidos à maldição da preta velha, contudo com a aproximação do parto, Laio começou a ficar obsessivo, e, no final, quando dei à luz, ele pegou o menino e mandou que o capataz sumisse com a criança. Chorei muito, quando soube o que ele tinha feito com o nosso filho. Laio confessou o crime, pois estava carregado de culpa. Meu ex-marido disse que o capataz amarrou a criança pelos pés, dependurando-a numa árvore para que os bichos comessem. Nosso casamento nunca mais foi o mesmo, nem ele quis mais ter nenhum filho. Como vê, as maldições da escrava de nada valeram. A criança morreu, e Laio foi assassinado numa encruzilhada, por um assaltante, e a praga não se concretizou. Não acredite e nem tema as palavras do pai-de-santo ou de meu irmão Creonte.
(TEMA DE TENSÃO CRESCENTE)
SILÊNIO POR ALGUNS INSTANTE, AUMENTANDO A TENSÃO
Édipo
O que me dizes, mulher! Suas palavras me enchem de temor e medo (DIZ AFLITO)
Jocasta
Mas.... por que, senhor meu marido?
Édipo
É verdade mesmo que Laio foi morto numa encruzilhada? Confirmas isso? (FALA COM DESESPERO) Confirma?!!!
Jocasta
Sim, (SEM ENTENDER ONDE ÉDIPO QUER CHEGAR, HESITANTE), sim... sim, senhor meu marido.
Édipo
Onde? (AFLITO) Onde??!!!
(JOCASTA FALA COMO SE ÉDIPO TIVESSE SEGURADO ELA PELOS OMBROS E SACUDIDO SEU CORPO)
Jocasta
Calma... o senhor está me machucando, segurando-me assim.... (HESITANTE E DESCONFIADA RESPONDE):
Laio foi morto na região da Serra de Petrópolis, na estrada que liga Petrópolis e Teresópolis, foi lá que o crime aconteceu.
Édipo
(EM DESESPERO CRESCENTE)
Não! Deus!!!!! (GRITA DESESPERADAMENTE DRAMÁTICO) Jesus, onde estavas?!!!
(INCIDENTE MUSICAL CRESCE ÀS ALTURAS)
CORTE PARA COMERCIAL:
COMERCIAL 1 (principal anunciante da novela)
Jingle do sabão em pó Fada Madrinha:
VOZ DO LOCUTOR 1:
Sabão em pó Fada Madrinha, aquele que faz com que sua roupa fique mais branca e suas mãos mais macias, e você continua reinando como a Rainha do seu lar.
Jingle do sabão.
COMERCIAL 2
VOZ DE LOCUTOR 2:
Você que é uma mulher moderna não pode deixar de ter em sua cozinha o revolucionário liquidificador Walita Plus Master. Em poucos minutos, você faz sucos para o lanche das crianças, bate a papinha para o bebê e oferece um delicioso drink para o marido que chega em casa depois do trabalho. Mostre que é uma mulher moderna e inteligente, pense: WALITA PLUS MASTER.
Coral repetindo o nome em forma de jingle.
COMERCIAL 3
VOZ DE MENINO
“Ah, mamãe, não quero comer”.
VOZ DO LOCUTOR 3:
“Se seu filho se recusa a comer, se está fraco e magro não se desespere, já há uma solução: Biotônico Fontoura para o garotão!
Dê uma colher de sopa três vezes ao dia e notará a diferença. Biotônico Fontoura, o único que deixa seu filho forte como um leão”!
COMERCIAL 4
VOZ DE LOCUTORA 1, VOZ SUAVEMENTE ESTRIDENTE:
Dicas para o lar!
Você que não sabe como fazer para tirar aquela mancha de tinta na camisa do marido, basta pingar três gotas de vinagre que aquela mancha na camisa branca sumirá imediatamente.
VOZ DO LOCUTOR 4
Dicas para o lar é um oferecimento das Drogarias Pacheco, aberta até as vinte e duas horas, todos os dias.
VOLTA PARA A NOVELA:
REPETINDO A ÚLTIMA FALA DE ÉDIPO:
Édipo
(EM DESESPERO CRESCENTE)
Não! Deus!!!!! (GRITA DESESPERADAMENTE DRAMÁTICO) Jesus, onde estavas?!!!
(INCIDENTE MUSICAL DÁ UMA LIGEIRA CRESCIDA E CORTA LOGO EM SEGUIDA NA HORA QUE JOCASTA INDAGA. SOM DE VIDRO QUEBRANDO, DOIS OU TRÊS JARROS)
SOM DE VIDRO QUEBRANDO E JOCASTA FALANDO POR CIMA:
Jocasta
O que aconteceu, senhor meu marido?! (AFLITA) Por que quebras estes vasos, que fúria é esta translouca que o acomete? Por que, meu santo Deus?!!! (EM DESESPERO, SEM SABER O QUE FAZER)
(SOM DE MAIS DOIS JARROS QUEBRANDO)
Édipo
(AFLITO E DESESPERADO)
Responde-me mulher! Não minta! Diga agora: Como era Laio, e quantos anos tinha, então, quando morreu? Responde já, mulher!
Jocasta
Laio era alto, seus cabelos eram brancos e até parecia fisicamente com você, senhor meu marido. Ele estava junto com alguns escravos e o antigo capataz. Eles foram atacados na encruzilhada, e apenas um escravo sobreviveu.
Édipo
(DRAMATICAMENTE DESESPERADO)
Não!!!!! Não pode ser!!! Deus não seria tão vil, tão impiedoso! Não, mil vezes não!!!
Jocasta
(NUM DESESPERO CRESCENTE, SEM SABER O QUE FAZER, COM VOZ CHOROSA)
Édipo, senhor meu marido, o que houve?
Édipo
(ENQUANTO JOCASTA FALA, EDIPO VAI REPETINDO A PALAVRA “NÃO” DRAMATICAMENTE, COM DESESPERO, INTERCALANDO A FALA DE SUA MULHER)
Não!
Jocasta
Por Deus, diga-me o que o aflige?
Édipo
Não!
Jocasta
Diga, me diga, por favor!
Édipo
Não!
Jocasta
Que desespero é esse? Fala-me, pelos Céus!!!!
Édipo:
Que horror, meu Deus! Agora me responde, diga-me a verdade, agora, não minta: o grupo que estava acompanhando Laio era grande ou reduzido?
Jocasta:
Eram cinco pessoas ao todo, incluindo meu ex-marido. Como lhe disse, apenas um escravo conseguiu fugir e não foi morto.
Édipo
(HORRORIZADO E COM VOZ ANGUSTIADA, BAIXA, DENSA, COMO SE FALASSE CONSIGO MESMO – SOM INCIDENTAL DRAMÁTICO)
Tudo está claro agora! Agora entendo tudo! Vejo tudo, e antes fosse cego para não enxergar esta triste realidade, a grande tragédia que se abateu sobre nossa vida, nossa família, nossos filhos!
Jocasta
Mas, dize-me, senhor meu marido, o que aconteceu? Por que vejo tanto horror no seu rosto? Que olhar de desespero é este? Por Deus, o senhor está me deixando com medo, o pavor toma-me a alma, e não sei mais o que pensar! Diga-me por Deus, o que houve?
(SOM DE PASSOS, DELA INDO EM SUA DIREÇÃO E TENTA TOCÁ-LO. COMO É RÁDIO ISSO NÃO PODE SER VISUALIZADO, MAS ÉDIPO FALARÁ REFERINDO-SE A ISSO)
Édipo
Não tente me tocar, mulher! Nunca mais se aproxime de mim (PAUSA). Mas fala-me: onde está esse escravo? Ele ainda mora nesta casa? Conseguiu sobreviver?
Jocasta
Esse escravo, o Bento, vivia aqui até nos casarmos, mas, logo depois do anúncio de nosso noivado, ele veio pedir-me encarecidamente que o enviasse para a casa do meu pai, onde vivia antes de unir-me a Laio. Como Bento sempre foi um servo fiel, atendi-lhe o pedido e, desde então, ele vive na casa de papai. Hoje, Bento continua lá, apesar da idade avançada. (PAUSA) Mas, dize-me, vejo o senhor falar, falar e a cada palavra demonstra um desespero crescente, e com isso um sentimento idêntico se concretiza no meu coração, e faz nascer uma amargura atroz no meu peito porque o senhor não explica o porquê de tanto desespero, o porquê de tanta dor! Não me escondas nada, senhor meu marido, dize-me sem demora o que lhe causa tanta dor.
Édipo
(SEM DAR ATENÇÃO AO SEU PEDIDO, MANDA IMPERATIVAMENTE BRUSCO)
Mande chamar já esse Bento! Mande um escravo ir à fazenda do seu pai agora! Dê-lhe o cavalo mais veloz, e diga que volte até amanhã com esse negro velho. Quero Bento aqui, o mais rápido possível. (PAUSA)Vá, mulher! Não fique aí parada, chame qualquer escravo agora!
(SOM DE PASSOS SE AFASTANDO. ÉDIPO FALA SOZINHO)
Queira Deus que todos meus presságios não se concretizem. Que Nossa Senhora dos Aflitos nos protejam, e que não deixe que a desgraça caia sobre esta casa!
(PAUSA, SOM DE PASSOS VOLTANDO, ÉDIPO COMEÇA A CONTAR PARA A MULHER SUA ORIGEM)
Édipo
(HESITANTE)
Senhora, minha mulher, nunca antes tinha lhe contado sobre o meu passado, minha origem, de onde vim, e qual era a minha família. Senta aqui para que possa lhe contar. Tentemos manter a serenidade neste momento tão difícil de nossa vida. (Pausa)
Meu pai se chama Vicente e minha mãe tem o nome de Maria Amélia. Ambos nasceram em Minas Gerais, Diamantina, e lá vivíamos. Meus pais são fazendeiros e desfrutávamos de um certo prestígio na cidade, pois o senhor meu pai tinha uma pequena fazenda que foi crescendo, e conseguimos abrir na cidade um estabelecimento de secos e molhados com o que produzíamos na fazenda. Tudo seguia bem, trabalhávamos na fazenda e abastecendo o mercado, até que um dia, numa festa no mês de maio, consagrado à Virgem Maria, o ferreiro da cidade que tinha se embebedado de maneira vil, me revelou uma drástica verdade (INCIDENTE MUSICAL TENSO): que não era filho de Vicente e Maria Amélia. (SOM INCIDENTAL DRAMÁTICO)
Jocasta
Mas, como???... (É INTERROMPIDA POR ÉDIPO, QUE CONTINUA A FALAR)
Édipo
Escuta. Não me interrompa! Ouça minha história, e tire suas próprias conclusões. Quem sabe Deus ajuda, e coloque em sua boca palavras que me façam ver que tudo não passa de uma grande coincidência, e que nenhum dos fatos que vou narrar tem a ver com a morte de seu ex-marido Laio. Escuta-me gentil e amada esposa. Ouça seu marido que traz o coração atravessado de dúvidas e temores.
Jocasta
Está bem, senhor meu marido. Ouvirei tudo que quiseres falar. Nossa Senhora há de nos proteger de todo mal, e ainda vamos rir da dor e do desespero que vejo em seu rosto. Tenhamos fé!
CORTE PARA COMERCIAL
COMERCIAL 1
Jingle do sabão em pó Fada Madrinha:
VOZ DO LOCUTOR 1:
Sabão em pó Fada Madrinha, aquele que faz com que sua roupa fique mais branca e suas mãos mais macias, e você continue reinando como a Rainha do seu lar.
Jingle do sabão.
COMERCIAL 2
VOZ DE LOCUTOR 2:
Você que é uma mulher moderna não pode deixar de ter em sua cozinha o revolucionário liquidificador Walita Plus Master. Em poucos minutos, você faz sucos para o lanche das crianças, bate a papinha para o bebê, e oferece um delicioso drink para o marido ao chegar em casa. Mostre que é uma mulher moderna e inteligente, pense: WALITA PLUS MASTER.
Coral repetindo o nome em forma de jingle.
COMERCIAL 3
VOZ DE MENINO
“Ah, mamãe, não quero comer”.
VOZ DO LOCUTOR 3:
“Se seu filho se recusa a comer, se está fraco e magro não se desespere, já há uma solução: Biotônico Fontoura para o garotão!
Dê uma colher de sopa três vezes ao dia, e notará a diferença. Biotônico Fontoura, o único que deixa seu filho forte como um leão!
COMERCIAL 4
VOZ DE LOCUTORA 1, VOZ SUAVEMENTE ESTRIDENTE:
Dicas para o lar!
Você que não sabe como fazer para tirar aquela mancha de tinta na camisa do marido, basta pingar três gotas de vinagre que aquela mancha na camisa branca sumirá imediatamente.
VOZ DO LOCUTOR 4
Dicas para o lar é um oferecimento das Drogarias Pacheco, aberta até as vinte e duas horas, todos os dias.
VOLTA PARA A NOVELA:
Jocasta
Vamos, senhor meu marido. Não fique calado. Continue a contar sua história antes de nos casarmos. Meu coração continua apertado, e a angústia se faz presente em minha alma. Conta-me, continue agora sua história. Não pare.
Édipo
(PAUSA, SUSPIRO, E ÉDIPO RECOMEÇA A FALAR)
Ao escutar as palavras do ferreiro, logo busquei meu pai e mãe para saber o que era verdade. Eles negaram, mas no olhar de minha mãe, havia um desespero, uma dor, um sentimento que não sei explicar. A dúvida assolou meu coração, e não houve nada que me convencesse de que eles estavam falando a verdade.
(PAUSA) A dúvida fez morada no meu ser e não conseguia mais dormir com o tormento de que não era filho de meus pais. Um amigo de longa data, vendo a minha angústia, disse que havia uma vidente pelas bandas de Bom Jardim, que era capaz de dizer sobre passado, presente e futuro. Eu, que nunca fui crente destas coisas, busquei o búzio desta negra liberta que atendia por duas moedas de pratas. Considerei que o valor era baixo para que acabasse a minha aflição. Mal sabia eu, grande ingenuidade! Ao deparar-me com a escrava liberta, de vez, meus medos acabaram, foi como se jogasse vinho sobre o fogo. Um incêndio se formou em minh’alma quando a ex-escrava me disse com todas as palavras que uma maldição pairava sobre meu espírito: que mataria meu pai e me uniria carnalmente à minha mãe.
(SOM DE INCIDENTE DRAMÁTICO)
Jocasta
Oh!!!!!!! Não é possível senhor meu marido... (É INTERROMPIDA PELO MARIDO)
Édipo
Não, não me interrompa, minha senhora. Se guardas no teu coração algum carinho por quem vos fala, não me interrompa. Guarde o silêncio até que termine toda minha narrativa. Acredite-me: só assim terei a coragem necessária para continuar. Peço a Oxalá que não deixe que as forças me faltem ao lhe relatar a minha história. Sossega e escute. Acalme seu coração feminino e ouça seu marido, que lhe devota um especial amor.
Jocasta
Está bem. Guardarei silêncio, conforme o pedido do senhor, meu marido.
Édipo
Ao sair da casa da ex-escrava, a dor e o desespero cegavam meu coração. Cavalguei sem rumo, viajando por dias,léguas e léguas distantes, pouco comendo, pouco dormindo, pouco tendo consciência de meu corpo, só o sofrimento e a dor habitavam minha alma. Acredite-me senhora, era uma figura dilacerada pelas dúvidas e incertezas plantadas pelas profecias da negra vidente. Meu objetivo era exilar-me e nunca mais voltar a Diamantina.
Jocasta
(VOZ DE COMPAIXAO)
Causa-me uma imensa dor ao ouvir seu relato, senhor meu marido. (PAUSA) Mas me calarei para escutar o resto de sua história. (SUSPIRO).
Édipo
Quando me dei conta estava na capital da Corte, seguindo o caminho da residência de inverno do imperador. Numa encruzilhada, entre Petrópolis e Teresópolis, deparei-me com um homem branco, que tinha aparência de um capataz que liderava uma comitiva onde havia uma carruagem.
(MÚSICA INCIDENTAL DRAMÁTICA QUE VAI AUMENTANDO CONFORME ÉDIPO CONTA A HISTÓRIA)
Eram cinco homens, três negros e dois brancos, um homem que tinha aparência de capataz, e, outro, com jeito de fidalgo. No caminho estreito, não me deixaram passar, empurrando-me para fora da estrada. Eu, possuído por uma cólera diabólica, reagi e, cego de raiva, matei quatro num só golpe, apenas um negro conseguiu fugir.
(MÚSICA INCIDENTAL DRAMÁTICA QUE VAI AUMENTANDO CONFORME ÉDIPO VAI CONTANDO A HISTÓRIA)
Jocasta
Oh!!!!! Mas, senhor meu marido...
Édipo
Silêncio, mulher. Escuta-me! (PAUSA) Se aquele homem era Laio? Não sei dizer (TOM DE AFLITO). Imploro para que Deus seja generoso conosco e nos proteja de qualquer maldição, que nossa família não seja refém da desgraça, e que possamos viver dias felizes depois de tudo isso que lhe contei, minha senhora. Agora, só nos resta esperar para que o fiel escravo chegue o mais rápido possível da casa de seu pai, e, com isso, meu coração seja uma terra de paz e serenidade novamente, desfazendo todas as angústias que me encobrem a alma. (TERMINA DE FORMA DRAMÁTICA A ÚLTIMA SENTENÇA)
ENCERRAMENTO
SOM COM TEMA DA NOVELA, AS VALQUÍRIAS, A MÚSICA VAI CRESCENDO E DEPOIS DIMINUI, ATÉ QUE SURJA A...
VOZ DRAMÁTICA DO LOCUTOR 5
Será que Édipo terá paz? O que dirá o escravo de Jocasta quando chegar da fazenda?
Como ficará Jocasta ao saber da verdade? Será o amor de Édipo e Jocasta capaz de quebrar a força da maldição que paira sobre a família Guimarães Brito?
Não perca amanhã mais um capítulo desta eletrizante história: “A mancha do pecado no nosso amor”, num oferecimento do sabão em pó Fada Madrinha.
Jingle do sabão.
Jocasta
Por que razão, senhor meu marido, permites que esta raiva feroz o domine?
Édipo
Por muito estimá-la, minha senhora, é que vou dizer, apesar de temer que se volte contra mim ao falar mal de seu irmão: a raiva que sinto vem da acusação feita por Creonte!
Jocasta
(ENTRE CURIOSA E COMEÇANDO A FICAR AFLITA)
Mas o que ele falou de tal vil, senhor meu marido?!
(MÚSICA DRAMÁTICA, CRIANDO UM CLIMA TENSO)
Édipo
Creonte me acusa de ter matado Laio, seu primeiro marido.
Jocasta
Mas senhor, por que Creonte acusa você de ter matado Laio? Ele ouviu falar ou presenciou o fato? Por que meu irmão o acusa de tamanho crime?
Édipo
Creonte diz que foi um pai de santo que leu nos búzios que eu era o assassino de Laio...
Jocasta
Mas é isso?! Ora, meu marido, fique sabendo que nosso Senhor Jesus Cristo não concedeu o dom de adivinhação a nenhum dos cristãos. Veja: meu primeiro marido dizia ter sido amaldiçoado por uma escrava que falou que ele seria morto pelo filho. Nada disso aconteceu. No início, Laio não deu ouvidos à maldição da preta velha, contudo com a aproximação do parto, Laio começou a ficar obsessivo, e, no final, quando dei à luz, ele pegou o menino e mandou que o capataz sumisse com a criança. Chorei muito, quando soube o que ele tinha feito com o nosso filho. Laio confessou o crime, pois estava carregado de culpa. Meu ex-marido disse que o capataz amarrou a criança pelos pés, dependurando-a numa árvore para que os bichos comessem. Nosso casamento nunca mais foi o mesmo, nem ele quis mais ter nenhum filho. Como vê, as maldições da escrava de nada valeram. A criança morreu, e Laio foi assassinado numa encruzilhada, por um assaltante, e a praga não se concretizou. Não acredite e nem tema as palavras do pai-de-santo ou de meu irmão Creonte.
(TEMA DE TENSÃO CRESCENTE)
SILÊNIO POR ALGUNS INSTANTE, AUMENTANDO A TENSÃO
Édipo
O que me dizes, mulher! Suas palavras me enchem de temor e medo (DIZ AFLITO)
Jocasta
Mas.... por que, senhor meu marido?
Édipo
É verdade mesmo que Laio foi morto numa encruzilhada? Confirmas isso? (FALA COM DESESPERO) Confirma?!!!
Jocasta
Sim, (SEM ENTENDER ONDE ÉDIPO QUER CHEGAR, HESITANTE), sim... sim, senhor meu marido.
Édipo
Onde? (AFLITO) Onde??!!!
(JOCASTA FALA COMO SE ÉDIPO TIVESSE SEGURADO ELA PELOS OMBROS E SACUDIDO SEU CORPO)
Jocasta
Calma... o senhor está me machucando, segurando-me assim.... (HESITANTE E DESCONFIADA RESPONDE):
Laio foi morto na região da Serra de Petrópolis, na estrada que liga Petrópolis e Teresópolis, foi lá que o crime aconteceu.
Édipo
(EM DESESPERO CRESCENTE)
Não! Deus!!!!! (GRITA DESESPERADAMENTE DRAMÁTICO) Jesus, onde estavas?!!!
(INCIDENTE MUSICAL CRESCE ÀS ALTURAS)
CORTE PARA COMERCIAL:
COMERCIAL 1 (principal anunciante da novela)
Jingle do sabão em pó Fada Madrinha:
VOZ DO LOCUTOR 1:
Sabão em pó Fada Madrinha, aquele que faz com que sua roupa fique mais branca e suas mãos mais macias, e você continua reinando como a Rainha do seu lar.
Jingle do sabão.
COMERCIAL 2
VOZ DE LOCUTOR 2:
Você que é uma mulher moderna não pode deixar de ter em sua cozinha o revolucionário liquidificador Walita Plus Master. Em poucos minutos, você faz sucos para o lanche das crianças, bate a papinha para o bebê e oferece um delicioso drink para o marido que chega em casa depois do trabalho. Mostre que é uma mulher moderna e inteligente, pense: WALITA PLUS MASTER.
Coral repetindo o nome em forma de jingle.
COMERCIAL 3
VOZ DE MENINO
“Ah, mamãe, não quero comer”.
VOZ DO LOCUTOR 3:
“Se seu filho se recusa a comer, se está fraco e magro não se desespere, já há uma solução: Biotônico Fontoura para o garotão!
Dê uma colher de sopa três vezes ao dia e notará a diferença. Biotônico Fontoura, o único que deixa seu filho forte como um leão”!
COMERCIAL 4
VOZ DE LOCUTORA 1, VOZ SUAVEMENTE ESTRIDENTE:
Dicas para o lar!
Você que não sabe como fazer para tirar aquela mancha de tinta na camisa do marido, basta pingar três gotas de vinagre que aquela mancha na camisa branca sumirá imediatamente.
VOZ DO LOCUTOR 4
Dicas para o lar é um oferecimento das Drogarias Pacheco, aberta até as vinte e duas horas, todos os dias.
VOLTA PARA A NOVELA:
REPETINDO A ÚLTIMA FALA DE ÉDIPO:
Édipo
(EM DESESPERO CRESCENTE)
Não! Deus!!!!! (GRITA DESESPERADAMENTE DRAMÁTICO) Jesus, onde estavas?!!!
(INCIDENTE MUSICAL DÁ UMA LIGEIRA CRESCIDA E CORTA LOGO EM SEGUIDA NA HORA QUE JOCASTA INDAGA. SOM DE VIDRO QUEBRANDO, DOIS OU TRÊS JARROS)
SOM DE VIDRO QUEBRANDO E JOCASTA FALANDO POR CIMA:
Jocasta
O que aconteceu, senhor meu marido?! (AFLITA) Por que quebras estes vasos, que fúria é esta translouca que o acomete? Por que, meu santo Deus?!!! (EM DESESPERO, SEM SABER O QUE FAZER)
(SOM DE MAIS DOIS JARROS QUEBRANDO)
Édipo
(AFLITO E DESESPERADO)
Responde-me mulher! Não minta! Diga agora: Como era Laio, e quantos anos tinha, então, quando morreu? Responde já, mulher!
Jocasta
Laio era alto, seus cabelos eram brancos e até parecia fisicamente com você, senhor meu marido. Ele estava junto com alguns escravos e o antigo capataz. Eles foram atacados na encruzilhada, e apenas um escravo sobreviveu.
Édipo
(DRAMATICAMENTE DESESPERADO)
Não!!!!! Não pode ser!!! Deus não seria tão vil, tão impiedoso! Não, mil vezes não!!!
Jocasta
(NUM DESESPERO CRESCENTE, SEM SABER O QUE FAZER, COM VOZ CHOROSA)
Édipo, senhor meu marido, o que houve?
Édipo
(ENQUANTO JOCASTA FALA, EDIPO VAI REPETINDO A PALAVRA “NÃO” DRAMATICAMENTE, COM DESESPERO, INTERCALANDO A FALA DE SUA MULHER)
Não!
Jocasta
Por Deus, diga-me o que o aflige?
Édipo
Não!
Jocasta
Diga, me diga, por favor!
Édipo
Não!
Jocasta
Que desespero é esse? Fala-me, pelos Céus!!!!
Édipo:
Que horror, meu Deus! Agora me responde, diga-me a verdade, agora, não minta: o grupo que estava acompanhando Laio era grande ou reduzido?
Jocasta:
Eram cinco pessoas ao todo, incluindo meu ex-marido. Como lhe disse, apenas um escravo conseguiu fugir e não foi morto.
Édipo
(HORRORIZADO E COM VOZ ANGUSTIADA, BAIXA, DENSA, COMO SE FALASSE CONSIGO MESMO – SOM INCIDENTAL DRAMÁTICO)
Tudo está claro agora! Agora entendo tudo! Vejo tudo, e antes fosse cego para não enxergar esta triste realidade, a grande tragédia que se abateu sobre nossa vida, nossa família, nossos filhos!
Jocasta
Mas, dize-me, senhor meu marido, o que aconteceu? Por que vejo tanto horror no seu rosto? Que olhar de desespero é este? Por Deus, o senhor está me deixando com medo, o pavor toma-me a alma, e não sei mais o que pensar! Diga-me por Deus, o que houve?
(SOM DE PASSOS, DELA INDO EM SUA DIREÇÃO E TENTA TOCÁ-LO. COMO É RÁDIO ISSO NÃO PODE SER VISUALIZADO, MAS ÉDIPO FALARÁ REFERINDO-SE A ISSO)
Édipo
Não tente me tocar, mulher! Nunca mais se aproxime de mim (PAUSA). Mas fala-me: onde está esse escravo? Ele ainda mora nesta casa? Conseguiu sobreviver?
Jocasta
Esse escravo, o Bento, vivia aqui até nos casarmos, mas, logo depois do anúncio de nosso noivado, ele veio pedir-me encarecidamente que o enviasse para a casa do meu pai, onde vivia antes de unir-me a Laio. Como Bento sempre foi um servo fiel, atendi-lhe o pedido e, desde então, ele vive na casa de papai. Hoje, Bento continua lá, apesar da idade avançada. (PAUSA) Mas, dize-me, vejo o senhor falar, falar e a cada palavra demonstra um desespero crescente, e com isso um sentimento idêntico se concretiza no meu coração, e faz nascer uma amargura atroz no meu peito porque o senhor não explica o porquê de tanto desespero, o porquê de tanta dor! Não me escondas nada, senhor meu marido, dize-me sem demora o que lhe causa tanta dor.
Édipo
(SEM DAR ATENÇÃO AO SEU PEDIDO, MANDA IMPERATIVAMENTE BRUSCO)
Mande chamar já esse Bento! Mande um escravo ir à fazenda do seu pai agora! Dê-lhe o cavalo mais veloz, e diga que volte até amanhã com esse negro velho. Quero Bento aqui, o mais rápido possível. (PAUSA)Vá, mulher! Não fique aí parada, chame qualquer escravo agora!
(SOM DE PASSOS SE AFASTANDO. ÉDIPO FALA SOZINHO)
Queira Deus que todos meus presságios não se concretizem. Que Nossa Senhora dos Aflitos nos protejam, e que não deixe que a desgraça caia sobre esta casa!
(PAUSA, SOM DE PASSOS VOLTANDO, ÉDIPO COMEÇA A CONTAR PARA A MULHER SUA ORIGEM)
Édipo
(HESITANTE)
Senhora, minha mulher, nunca antes tinha lhe contado sobre o meu passado, minha origem, de onde vim, e qual era a minha família. Senta aqui para que possa lhe contar. Tentemos manter a serenidade neste momento tão difícil de nossa vida. (Pausa)
Meu pai se chama Vicente e minha mãe tem o nome de Maria Amélia. Ambos nasceram em Minas Gerais, Diamantina, e lá vivíamos. Meus pais são fazendeiros e desfrutávamos de um certo prestígio na cidade, pois o senhor meu pai tinha uma pequena fazenda que foi crescendo, e conseguimos abrir na cidade um estabelecimento de secos e molhados com o que produzíamos na fazenda. Tudo seguia bem, trabalhávamos na fazenda e abastecendo o mercado, até que um dia, numa festa no mês de maio, consagrado à Virgem Maria, o ferreiro da cidade que tinha se embebedado de maneira vil, me revelou uma drástica verdade (INCIDENTE MUSICAL TENSO): que não era filho de Vicente e Maria Amélia. (SOM INCIDENTAL DRAMÁTICO)
Jocasta
Mas, como???... (É INTERROMPIDA POR ÉDIPO, QUE CONTINUA A FALAR)
Édipo
Escuta. Não me interrompa! Ouça minha história, e tire suas próprias conclusões. Quem sabe Deus ajuda, e coloque em sua boca palavras que me façam ver que tudo não passa de uma grande coincidência, e que nenhum dos fatos que vou narrar tem a ver com a morte de seu ex-marido Laio. Escuta-me gentil e amada esposa. Ouça seu marido que traz o coração atravessado de dúvidas e temores.
Jocasta
Está bem, senhor meu marido. Ouvirei tudo que quiseres falar. Nossa Senhora há de nos proteger de todo mal, e ainda vamos rir da dor e do desespero que vejo em seu rosto. Tenhamos fé!
CORTE PARA COMERCIAL
COMERCIAL 1
Jingle do sabão em pó Fada Madrinha:
VOZ DO LOCUTOR 1:
Sabão em pó Fada Madrinha, aquele que faz com que sua roupa fique mais branca e suas mãos mais macias, e você continue reinando como a Rainha do seu lar.
Jingle do sabão.
COMERCIAL 2
VOZ DE LOCUTOR 2:
Você que é uma mulher moderna não pode deixar de ter em sua cozinha o revolucionário liquidificador Walita Plus Master. Em poucos minutos, você faz sucos para o lanche das crianças, bate a papinha para o bebê, e oferece um delicioso drink para o marido ao chegar em casa. Mostre que é uma mulher moderna e inteligente, pense: WALITA PLUS MASTER.
Coral repetindo o nome em forma de jingle.
COMERCIAL 3
VOZ DE MENINO
“Ah, mamãe, não quero comer”.
VOZ DO LOCUTOR 3:
“Se seu filho se recusa a comer, se está fraco e magro não se desespere, já há uma solução: Biotônico Fontoura para o garotão!
Dê uma colher de sopa três vezes ao dia, e notará a diferença. Biotônico Fontoura, o único que deixa seu filho forte como um leão!
COMERCIAL 4
VOZ DE LOCUTORA 1, VOZ SUAVEMENTE ESTRIDENTE:
Dicas para o lar!
Você que não sabe como fazer para tirar aquela mancha de tinta na camisa do marido, basta pingar três gotas de vinagre que aquela mancha na camisa branca sumirá imediatamente.
VOZ DO LOCUTOR 4
Dicas para o lar é um oferecimento das Drogarias Pacheco, aberta até as vinte e duas horas, todos os dias.
VOLTA PARA A NOVELA:
Jocasta
Vamos, senhor meu marido. Não fique calado. Continue a contar sua história antes de nos casarmos. Meu coração continua apertado, e a angústia se faz presente em minha alma. Conta-me, continue agora sua história. Não pare.
Édipo
(PAUSA, SUSPIRO, E ÉDIPO RECOMEÇA A FALAR)
Ao escutar as palavras do ferreiro, logo busquei meu pai e mãe para saber o que era verdade. Eles negaram, mas no olhar de minha mãe, havia um desespero, uma dor, um sentimento que não sei explicar. A dúvida assolou meu coração, e não houve nada que me convencesse de que eles estavam falando a verdade.
(PAUSA) A dúvida fez morada no meu ser e não conseguia mais dormir com o tormento de que não era filho de meus pais. Um amigo de longa data, vendo a minha angústia, disse que havia uma vidente pelas bandas de Bom Jardim, que era capaz de dizer sobre passado, presente e futuro. Eu, que nunca fui crente destas coisas, busquei o búzio desta negra liberta que atendia por duas moedas de pratas. Considerei que o valor era baixo para que acabasse a minha aflição. Mal sabia eu, grande ingenuidade! Ao deparar-me com a escrava liberta, de vez, meus medos acabaram, foi como se jogasse vinho sobre o fogo. Um incêndio se formou em minh’alma quando a ex-escrava me disse com todas as palavras que uma maldição pairava sobre meu espírito: que mataria meu pai e me uniria carnalmente à minha mãe.
(SOM DE INCIDENTE DRAMÁTICO)
Jocasta
Oh!!!!!!! Não é possível senhor meu marido... (É INTERROMPIDA PELO MARIDO)
Édipo
Não, não me interrompa, minha senhora. Se guardas no teu coração algum carinho por quem vos fala, não me interrompa. Guarde o silêncio até que termine toda minha narrativa. Acredite-me: só assim terei a coragem necessária para continuar. Peço a Oxalá que não deixe que as forças me faltem ao lhe relatar a minha história. Sossega e escute. Acalme seu coração feminino e ouça seu marido, que lhe devota um especial amor.
Jocasta
Está bem. Guardarei silêncio, conforme o pedido do senhor, meu marido.
Édipo
Ao sair da casa da ex-escrava, a dor e o desespero cegavam meu coração. Cavalguei sem rumo, viajando por dias,léguas e léguas distantes, pouco comendo, pouco dormindo, pouco tendo consciência de meu corpo, só o sofrimento e a dor habitavam minha alma. Acredite-me senhora, era uma figura dilacerada pelas dúvidas e incertezas plantadas pelas profecias da negra vidente. Meu objetivo era exilar-me e nunca mais voltar a Diamantina.
Jocasta
(VOZ DE COMPAIXAO)
Causa-me uma imensa dor ao ouvir seu relato, senhor meu marido. (PAUSA) Mas me calarei para escutar o resto de sua história. (SUSPIRO).
Édipo
Quando me dei conta estava na capital da Corte, seguindo o caminho da residência de inverno do imperador. Numa encruzilhada, entre Petrópolis e Teresópolis, deparei-me com um homem branco, que tinha aparência de um capataz que liderava uma comitiva onde havia uma carruagem.
(MÚSICA INCIDENTAL DRAMÁTICA QUE VAI AUMENTANDO CONFORME ÉDIPO CONTA A HISTÓRIA)
Eram cinco homens, três negros e dois brancos, um homem que tinha aparência de capataz, e, outro, com jeito de fidalgo. No caminho estreito, não me deixaram passar, empurrando-me para fora da estrada. Eu, possuído por uma cólera diabólica, reagi e, cego de raiva, matei quatro num só golpe, apenas um negro conseguiu fugir.
(MÚSICA INCIDENTAL DRAMÁTICA QUE VAI AUMENTANDO CONFORME ÉDIPO VAI CONTANDO A HISTÓRIA)
Jocasta
Oh!!!!! Mas, senhor meu marido...
Édipo
Silêncio, mulher. Escuta-me! (PAUSA) Se aquele homem era Laio? Não sei dizer (TOM DE AFLITO). Imploro para que Deus seja generoso conosco e nos proteja de qualquer maldição, que nossa família não seja refém da desgraça, e que possamos viver dias felizes depois de tudo isso que lhe contei, minha senhora. Agora, só nos resta esperar para que o fiel escravo chegue o mais rápido possível da casa de seu pai, e, com isso, meu coração seja uma terra de paz e serenidade novamente, desfazendo todas as angústias que me encobrem a alma. (TERMINA DE FORMA DRAMÁTICA A ÚLTIMA SENTENÇA)
ENCERRAMENTO
SOM COM TEMA DA NOVELA, AS VALQUÍRIAS, A MÚSICA VAI CRESCENDO E DEPOIS DIMINUI, ATÉ QUE SURJA A...
VOZ DRAMÁTICA DO LOCUTOR 5
Será que Édipo terá paz? O que dirá o escravo de Jocasta quando chegar da fazenda?
Como ficará Jocasta ao saber da verdade? Será o amor de Édipo e Jocasta capaz de quebrar a força da maldição que paira sobre a família Guimarães Brito?
Não perca amanhã mais um capítulo desta eletrizante história: “A mancha do pecado no nosso amor”, num oferecimento do sabão em pó Fada Madrinha.
Jingle do sabão.
domingo, 6 de julho de 2008
“A mancha do pecado no nosso amor” - um drama burguês no tempo de Édipo Rei (1ª parte)
ATENÇÃO: Este texto é uma adaptação que fiz sobre a peça Édipo Rei para a faculdade. O professor solicitou que usássemos a temática do drama burguês. Espero que você goste. Tirei a nota máxima, 10.
A história de Édipo e Jocasta será transformada em uma novela de rádio em 1950: “A mancha do pecado no nosso amor”. Na nova adaptação, a história se passa no final do século XVIII, na capital da Corte. Jocasta é filha de um fazendeiro que está à beira da falência, e que para salvar os bens da família casa sua filha de 12 anos com um rico comerciante, Laio, que tem idade para ser seu avô. Eles se casam e a menina um ano depois fica grávida. Laio é um senhor de escravo muito severo, e uma preta velha joga-lhe uma maldição dizendo que seu filho, se algum conseguir sobreviver, o matará.
Por um ano consecutivo, Laio tenta, mas em toda gestação Jocasta perde o feto. Ele tem obsessão por ter um filho para poder deixar a grande fortuna. Após várias tentativas, Jocasta consegue “segurar” uma criança na barriga. No início, Laio não leva a sério a maldição da preta velha, mas conforme o tempo passa, e o nascimento da criança se aproxima, ele fica apavorado, tendo pesadelos de que é assassinado, e o comerciante vai surtando, surtando, até que chega um momento que surta completamente: quando sua mulher dá à luz. Laio - com a ajuda do capataz - se desfaz do menino, mandando que o empregado suma com o rebento, que o mate de qualquer maneira.
Édipo é dado como morto, mas, na verdade, um caixeiro-viajante o vê jogado no mato para ser devorado pelos animais e o salva, levando-o para um casal de fazendeiro léguas e léguas distantes da propriedade onde morava o comerciante Laio.
O tempo passou, o mato cresceu e a história segue semelhante à tragédia grega de Sófocles.
O recorte que este trabalho fará será o momento em que Jocasta conta para Édipo que ele não pode ser filho de Laio, que os deuses africanos erraram ao prever a desgraça.
A música de abertura e encerramento da novela de rádio é da ópera As Valquírias, de Wagner.
A história de Édipo e Jocasta será transformada em uma novela de rádio em 1950: “A mancha do pecado no nosso amor”. Na nova adaptação, a história se passa no final do século XVIII, na capital da Corte. Jocasta é filha de um fazendeiro que está à beira da falência, e que para salvar os bens da família casa sua filha de 12 anos com um rico comerciante, Laio, que tem idade para ser seu avô. Eles se casam e a menina um ano depois fica grávida. Laio é um senhor de escravo muito severo, e uma preta velha joga-lhe uma maldição dizendo que seu filho, se algum conseguir sobreviver, o matará.
Por um ano consecutivo, Laio tenta, mas em toda gestação Jocasta perde o feto. Ele tem obsessão por ter um filho para poder deixar a grande fortuna. Após várias tentativas, Jocasta consegue “segurar” uma criança na barriga. No início, Laio não leva a sério a maldição da preta velha, mas conforme o tempo passa, e o nascimento da criança se aproxima, ele fica apavorado, tendo pesadelos de que é assassinado, e o comerciante vai surtando, surtando, até que chega um momento que surta completamente: quando sua mulher dá à luz. Laio - com a ajuda do capataz - se desfaz do menino, mandando que o empregado suma com o rebento, que o mate de qualquer maneira.
Édipo é dado como morto, mas, na verdade, um caixeiro-viajante o vê jogado no mato para ser devorado pelos animais e o salva, levando-o para um casal de fazendeiro léguas e léguas distantes da propriedade onde morava o comerciante Laio.
O tempo passou, o mato cresceu e a história segue semelhante à tragédia grega de Sófocles.
O recorte que este trabalho fará será o momento em que Jocasta conta para Édipo que ele não pode ser filho de Laio, que os deuses africanos erraram ao prever a desgraça.
A música de abertura e encerramento da novela de rádio é da ópera As Valquírias, de Wagner.
terça-feira, 10 de junho de 2008
A Solidão que buscava o Amor (Capítulo 2)
Solidão ficou encantada por aquele ser que lhe tocava tão profundamente o coração. Notava todo seu aspecto, desde os cabelos loiros que pareciam que o sol havia ido visitá-lo logo pela manhã, até os olhos de um cinza azulado que a fizera ver o mundo numa nova dimensão. O sorriso do rapaz era largo e branco como as nuvens. Solidão demonstrou tanto encantamento que uma colega, notando seu entusiasmo, falou-lhe baixinho: “Eu conheço ele...chama-se Amor”.
Solidão coloriu-se de um vermelho rubro ao sentir que sua colega havia notado o entusiasmo. Mas também uma alegria enorme encheu sua alma ao saber que aquele, cuja presença inspirou tanta quentura em seu coração, era o Amor e pela primeira vez na vida, de sua longa e solitária existência, Solidão sorriu. Um sorriso largo, profundo, envolvente e cheio de luz que iluminou o ambiente e todos a notaram e a olharam admirados.
Mas o Amor não estava perto. Solidão teve que se contentar de ficar longe do Amor, sem poder lhe dizer ao menos algumas palavras.
Quando chegou ao trabalho, Solidão procurou a colega e quis saber de todos os detalhes do Amor: como era, onde morava, do que gostava... queria saber de tudo, os menores detalhes e a cada resposta outras indagações surgiam, pois ela nunca tinha encontrado o Amor e agora, maravilhada perante a situação, não sabia o que fazer.
Ao voltar para casa rezou para que o Amor estivesse no ponto de ônibus e assim pudesse se aproximar ... mesmo sem saber o que lhe dizer. “Sei lá...pergunto as horas.... comento sobre o tempo...”, pensava Solidão que queria a companhia do Amor.
Mas de nada adiantou, Solidão não encontrou o Amor... O Amor não veio, foi embora... e isso a entristeceu muito. Mas Solidão não perdeu a esperança e no dia seguinte se arrumou ...colocou a melhor roupa, uma blusa presenteada há séculos, mas que nunca havia usado.... penteou-se e foi em busca do Amor.
Nova decepção...mais uma vez o Amor não veio. Nem sinal do seu cabelo de sol, de seus olhos de céu... nada, e Solidão pesarosamente foi trabalhar. Arrastou-se até a empresa, pois o que ela queria realmente era estar perto do Amor... sentir seus braços em volta do corpo, ouvir sua voz, que ela imaginava rouca...mas o Amor mais uma vez não apareceu.
E assim foram todos os dias seguintes. Solidão se arrumava, colocava a melhor roupa, rezava, ficava cheia de expectativas e esperança ... e mais uma vez o Amor não aparecia.
Teve até uma vez que ela olhou e pareceu avistá-lo; ledo engano...não era... o Amor deveria estar longe...bem longe dali e ela, que sonhava tanto com sua presença, havia tido apenas uma visão ilusória do Amor.
O tempo passou... os dias foram se somando e até hoje Solidão ainda procura o Amor...sem nunca mais tê-lo encontrado. Mas Solidão não perdeu a esperança, todo dia passa pelo ponto de ônibus, olha se o Amor está presente e ela já se prometeu: quando isso acontecer, ela descerá e se entregará para o Amor de corpo e alma.
Solidão coloriu-se de um vermelho rubro ao sentir que sua colega havia notado o entusiasmo. Mas também uma alegria enorme encheu sua alma ao saber que aquele, cuja presença inspirou tanta quentura em seu coração, era o Amor e pela primeira vez na vida, de sua longa e solitária existência, Solidão sorriu. Um sorriso largo, profundo, envolvente e cheio de luz que iluminou o ambiente e todos a notaram e a olharam admirados.
Mas o Amor não estava perto. Solidão teve que se contentar de ficar longe do Amor, sem poder lhe dizer ao menos algumas palavras.
Quando chegou ao trabalho, Solidão procurou a colega e quis saber de todos os detalhes do Amor: como era, onde morava, do que gostava... queria saber de tudo, os menores detalhes e a cada resposta outras indagações surgiam, pois ela nunca tinha encontrado o Amor e agora, maravilhada perante a situação, não sabia o que fazer.
Ao voltar para casa rezou para que o Amor estivesse no ponto de ônibus e assim pudesse se aproximar ... mesmo sem saber o que lhe dizer. “Sei lá...pergunto as horas.... comento sobre o tempo...”, pensava Solidão que queria a companhia do Amor.
Mas de nada adiantou, Solidão não encontrou o Amor... O Amor não veio, foi embora... e isso a entristeceu muito. Mas Solidão não perdeu a esperança e no dia seguinte se arrumou ...colocou a melhor roupa, uma blusa presenteada há séculos, mas que nunca havia usado.... penteou-se e foi em busca do Amor.
Nova decepção...mais uma vez o Amor não veio. Nem sinal do seu cabelo de sol, de seus olhos de céu... nada, e Solidão pesarosamente foi trabalhar. Arrastou-se até a empresa, pois o que ela queria realmente era estar perto do Amor... sentir seus braços em volta do corpo, ouvir sua voz, que ela imaginava rouca...mas o Amor mais uma vez não apareceu.
E assim foram todos os dias seguintes. Solidão se arrumava, colocava a melhor roupa, rezava, ficava cheia de expectativas e esperança ... e mais uma vez o Amor não aparecia.
Teve até uma vez que ela olhou e pareceu avistá-lo; ledo engano...não era... o Amor deveria estar longe...bem longe dali e ela, que sonhava tanto com sua presença, havia tido apenas uma visão ilusória do Amor.
O tempo passou... os dias foram se somando e até hoje Solidão ainda procura o Amor...sem nunca mais tê-lo encontrado. Mas Solidão não perdeu a esperança, todo dia passa pelo ponto de ônibus, olha se o Amor está presente e ela já se prometeu: quando isso acontecer, ela descerá e se entregará para o Amor de corpo e alma.
quinta-feira, 5 de junho de 2008
A Solidão que buscava o Amor (Capítulo 1)
Há muito tempo, numa pequena aldeia perdida neste planeta, nasceu uma menina que logo recebeu o nome de Solidão. Ao sair das entranhas de sua mãe, não chorou, apenas olhou o mundo com os olhos marejados de lágrimas, tristemente. Na verdade, desde o início, em sua mais tenra infância, Solidão se mostrou uma criança triste. Minguada, corpo franzino, grandes olhos negros , cabelos escuros e lisos... a boca parecia querer aprender a sorrir, mas nunca concretizando a ação. Esse era o seu aspecto.
Enquanto outras crianças se reuniam para as brincadeiras infantis, Solidão, triste em seu canto, apenas olhava sem nada dizer.
Na adolescência o problema continuou. Ao ir aos bailes e festas, Solidão continuava sozinha, apesar da agitação reinante no ambiente.
A garota se transformou em mulher, mas nada mudou no seu cotidiano. Até que um dia, ao ir para o trabalho, viu um rapaz pela janela de um ônibus, num ponto onde os coletivos paravam. Seu coração, pela primeira vez na vida se aqueceu, e sua face, normalmente pálida, ficou rosada, tamanha a emoção.
Enquanto outras crianças se reuniam para as brincadeiras infantis, Solidão, triste em seu canto, apenas olhava sem nada dizer.
Na adolescência o problema continuou. Ao ir aos bailes e festas, Solidão continuava sozinha, apesar da agitação reinante no ambiente.
A garota se transformou em mulher, mas nada mudou no seu cotidiano. Até que um dia, ao ir para o trabalho, viu um rapaz pela janela de um ônibus, num ponto onde os coletivos paravam. Seu coração, pela primeira vez na vida se aqueceu, e sua face, normalmente pálida, ficou rosada, tamanha a emoção.
sábado, 31 de maio de 2008
A Borboleta Invisível (Capítulo 17)
Mais uma vez, o garoto foi para a floresta encontrar sua amiga, aceitando que talvez ela nunca lhe desse o tesouro por que tanto ansiava. Ao chegar na mata, logo encontrou a Borboleta. Contudo, em seguida, uma multidão de outras borboletas, primas de sua amiga, apareceram, e todos juntos começaram a brincar de pique-esconde. O menino ria feliz. Ele sentia o seu coração se expandir ao ter tantas amigas brincando com ele. Uma chuva fininha, destas que caem do céu para fazer orvalho nas folhas brilhantes das árvores, surgiu, e o guri gargalhava feliz, feliz como nunca foi na vida. É bem verdade que o moleque era feliz em sua casa, na sua escola, tendo seus pais e o avô a lhe amparar sempre. Porém aquela felicidade era diferente. Era como se um sol brilhasse dentro do peito. O mesmo Astro Rei que irradiava do lado de fora, apesar da chuva fininha que despencava. Uma chuva própria para se fazer arco-íris.
E foi ali, naquela mata perdida neste mundão de meu Deus, no meio do planalto central, que o moleque foi agraciado com um verdadeiro tesouro. Ele se lembrou de uma história que seu nono volta e meia lhe contava. Era uma história de um menino que vivia num mundo muito pequeno e que ouvira certa vez de uma raposa: "Somente com o coração enxergamos com clareza, porque o essencial é invisível aos olhos." Ele havia encontrado seu tesouro e nem se dera conta disso. A amizade com a fraterna Borboleta, que não lhe era mais invisível, o amor pela floresta e pelos bichinhos que ali habitavam, tudo isso era um tesouro que ele carregaria por toda a vida. Ao se dar conta disso, o moleque ria feliz debaixo da chuva fininha, tendo o sol e os amigos daquela mata por testemunhas.
Não é uma linda história? Pois é… Eu também gostei de contar. Ah, você quer saber o que aconteceu com o menino? Tudo bem, eu conto: o garoto cresceu, virou homem. Ficou tão alto e sábio como o avô. Seu amor pela natureza, e principalmente pelas borboletas, levou-o a conhecer outras terras, muitas pessoas e até sentir na pele como era a neve. Ele virou doutor, com diploma na parede e tudo mais: o orgulho dos pais e da família inteira. Mas o guri não ficou besta, não. Apesar do sucesso, dos títulos e dos livros que escreveu, ele continua gostando de ir às matas e florestas deste mundo inteiro para encontrar outros bichinhos e fazer novos amigos.
Hoje, ele já não é um menino, destes que correm pelas ruas assustando beatas. Transformou-se num senhor de cabelos brancos, e todos os que olham a fotografia do avô pensam que ele é vestido com roupas do passado. Hoje, ele tem quatro netos: dois meninos e duas meninas. Todos com olhos azuis e sardas no nariz. A cada período de férias, eles vão à floresta procurar também a sua Borboleta Invisível.
E você? Já encontrou a sua?
E foi ali, naquela mata perdida neste mundão de meu Deus, no meio do planalto central, que o moleque foi agraciado com um verdadeiro tesouro. Ele se lembrou de uma história que seu nono volta e meia lhe contava. Era uma história de um menino que vivia num mundo muito pequeno e que ouvira certa vez de uma raposa: "Somente com o coração enxergamos com clareza, porque o essencial é invisível aos olhos." Ele havia encontrado seu tesouro e nem se dera conta disso. A amizade com a fraterna Borboleta, que não lhe era mais invisível, o amor pela floresta e pelos bichinhos que ali habitavam, tudo isso era um tesouro que ele carregaria por toda a vida. Ao se dar conta disso, o moleque ria feliz debaixo da chuva fininha, tendo o sol e os amigos daquela mata por testemunhas.
Não é uma linda história? Pois é… Eu também gostei de contar. Ah, você quer saber o que aconteceu com o menino? Tudo bem, eu conto: o garoto cresceu, virou homem. Ficou tão alto e sábio como o avô. Seu amor pela natureza, e principalmente pelas borboletas, levou-o a conhecer outras terras, muitas pessoas e até sentir na pele como era a neve. Ele virou doutor, com diploma na parede e tudo mais: o orgulho dos pais e da família inteira. Mas o guri não ficou besta, não. Apesar do sucesso, dos títulos e dos livros que escreveu, ele continua gostando de ir às matas e florestas deste mundo inteiro para encontrar outros bichinhos e fazer novos amigos.
Hoje, ele já não é um menino, destes que correm pelas ruas assustando beatas. Transformou-se num senhor de cabelos brancos, e todos os que olham a fotografia do avô pensam que ele é vestido com roupas do passado. Hoje, ele tem quatro netos: dois meninos e duas meninas. Todos com olhos azuis e sardas no nariz. A cada período de férias, eles vão à floresta procurar também a sua Borboleta Invisível.
E você? Já encontrou a sua?
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