Licínio nasceu careca.
Nada de mais nascer careca, poderão argumentar os mais desavisados.
É verdade.
A beleza de um bebê está em, muitas das vezes, ele nascer careca, vermelho e sem dente.
Contudo, ele realmente nasceu careca e, com a passagem dos meses, que se acumularam em anos, não nasceram sequer alguns fiozinhos de cabelo.
Nada.
Nadica de nada.
Era só testa, sem um mísero fio de cabelo para lhe voar aos olhos. Era portador de uma testa obsessiva, lustrosa e fluorescente.
Pergunte a um homem se ele gosta de ser careca: a maioria esmagadora dirá um sonoro e retumbante ‘não’. Mesmo os que sobram podem não querer admitir, mas, lá no fundo de suas calvas generosas, dirão que a resposta também é um ruidoso e ressonante ‘não’!
Veja você, então: se é difícil para um homem adulto ser portador de um crânio desprovido de tufos capilares, imagine uma criança em formação, tendo que brincar com outros pequenos na escolinha, ir ao parque e participar das festinhas infantis, que sempre existiram e sempre existirão, para desespero de alguns pais.
Não há quem não se emocione com crianças, mas estes anjinhos que os Céus enviam podem muitas vezes se transformar em pestinhas a infernizar a vida de algum coleguinha. Hoje tem até nome científico para isso, o tal do bullying, mas no tempo de Licínio não tinha não, e o pobre sofria, porque criança careca não era muito frequente na aurora de sua vida.
Hoje criança desfila com penteado de tudo que é maneira: os últimos dos moicanos, pajens, Mauricinhos etc., etc., etc.… Vai conforme a moda e o gosto do freguês.
Mas no tempo dele não era assim que a banda tocava. Todas as crianças deveriam ter cabelos comportados e cortados conforme mandavam os bons modos e costumes.
Menino de cabelo grande?
Nem pensar!
Menina de cabelo curto?
Fora de cogitação!
Com isso, o pobrezinho do Licínio não se encaixava em nenhuma das regras.
O pior era que em sua família todos tinham uma vasta cabeleira, homens, mulheres, crianças e velhos. Da parte tanto da mãe como do pai nenhum careca se via nas reuniões familiares. Só ele é que sofria do mal da ‘carequice’ na família.
Com isso, as crianças da própria família começaram a lhe dar os mais terríveis apelidos, que o constrangiam e irritavam: aeroporto de mosquito, pouca telha, bola de sinuca, cabeça de ovo – só para lembrar alguns.
Como sofria!
'Tadinho dele!, era o que diziam as almas caridosas.
Me dá um medo de gente assim… nem é bom falar! Gente que começa a frase dizendo que o outro é 'tadinho… sei não… este é um tipo de compaixão que humilha, e gente que tem prazer em humilhar o outro, sei não… pode até se revestir de cristão, mas na verdade…
Bem, voltemos ao coitado… quer dizer, voltemos a sua careca lustrosa, que começou desde que nasceu e o acompanhou quando chegou à puberdade e juventude.
Nos bailinhos… hiiiiiiiiii… era um desacerto, porque nenhuma garota, por mais mal-ajambrada, queria dançar com a criatura.
Corria à boca pequena que Licínio tinha uma doença contagiosa no couro cabeludo.
Esclareço desde já que tudo não passava de fofoca. Nenhum médico, especialista, pai de santo, padre ou pastor diagnosticaram qualquer problema físico que pudesse gerar a falta de cabelos, muito menos a presença de qualquer tipo de doença contagiosa.
Teve um psicólogo, muito renomado em sua época, que disse que seu problema poderia ser de ordem emocional.
Não descarto esta possibilidade, nós, seres humanos, somos um feixe enorme de emoções, certo? Mas acho que também há um pouco de exagero, porque, afinal de contas, pode ter sido apenas um karma (ou destino ou então má sorte…) que ele teria que viver, sei lá!
O que sei é que Licínio chegou à juventude e só deu seu primeiro beijo aos vinte e sete anos.
Imagine você! Um virgem!
Sim, porque nem as prostitutas aceitavam sua companhia, com medo de pegar a decantada doença que a rádio corredor tratou de anunciar para toda a cidade. Elas aceitavam pegar sífilis, gonorreia, mas ficar careca, ah, isso não!
Nem cantar perto dele o famigerado refrão “É dos carecas que elas gostam mais” se podia. Licínio logo dizia, revoltado, para quem quisesse ouvir:
– Mentira!
Também, pensa bem, ele comeu a vida inteira o pão que o diabo amassou por três dias! Então era natural o tom de revolta.
Mas quem pensa que sua vida começou a melhorar, a se normalizar, após o primeiro beijo da amada, pode perder a esperança. Licínio beijou e, logo em seguida, já tratou meio de casar com a única moça que lhe aceitou os afagos pueris.
Carminha era uns cinco anos mais velha (na verdade, oito; mas ela diminuía a idade entre os familiares), não era bonita, mas também não era feia. Era comum. Muito comum. Extremamente comum. Um tanto quanto seca no trato, é bem verdade. Mas o enamorado não se importou.
Licínio mal sabia a fria em que estava entrando. Com medo de ficar sozinho, acabou se casando com a primeira que apareceu, literalmente, e que se mostrou uma megera que mais parecia a união de todas as madrastas das histórias infantis. Desde que pôs a aliança no dedo, em frente a padre e juiz, ela fez da vida de Licínio um pequeno inferno, humilhando-o de todas as maneiras.
Desculpe o palavreado, mas era ela quem “colocava o pau” em cima da mesa, mandava e desmandava em casa e na vida do infeliz. Como sofreu, o bendito!
Ela o fazia de gato e sapato, não importando se tinha gente perto ou não. Já na lua de mel, a recém-casada botou suas manguinhas de fora. Conta-se à boca pequena que Carminha só esperou a aliança no dedo para mostrar como era realmente o seu caráter. Dizem também as más línguas que ela já não era menina-moça e que se casou com ele só por medo de ficar para titia, porque, convenhamos, idade ela já tinha.
Quando chegou o primeiro e único filho, a situação já tinha piorado muito. Ela só cumpriu o que mandavam os bons costumes do tempo: mulher tinha que casar e gerar, pelo menos, um filho. Ser mãe amantíssima era o que mais lhe convinha, e Carminha apenas utilizou o pobre para que seu objetivo de vida se concretizasse.
Agora, veja você, além de ser careca num tempo em que os carecas não estavam na moda nem nada, ainda tinha que aguentar a esposa megera e o insuportável filho. Que via crucis, não é mesmo? Sim, porque Carminha casou na verdade com o filho.
Era uma agarração para cá, uma agarração para lá, que só Freud explica.
Nem Jung explica, nem Jung!
O garoto recebeu o nome de Eusébio. Eusebiozinho, como era chamado por todos. O diminutivo já demonstra a falta de caráter da criatura. Nem sempre o diminutivo quer dizer falta de caráter, mas no caso dele era. Era alguém menor, com o ego inflado graças à figura materna.
- Graças a Deus - dizia Carminha em alto e bom som para quem quisesse ouvir - Eusebiozinho tem uma vasta cabeleira e não é careca como o imprestável do pai - clamava, humilhando ainda mais o marido.
Era ou não um inferno a vida do infeliz?
Pois é.
E comparada ao inferno em que vivia, a ‘carequice’ às vezes até era esquecida.
Quer dizer, só um pouco. Porque, na verdade, Licínio, sempre que se via no espelho ou tinha sua imagem refletida em algum lugar, lembrava-se do seu grande infortúnio e que toda desgraça acontecida em sua existência tinha o selo da ‘carequice’ a lhe imputar a falta de cabelos.
E assim os anos foram passando, passando… passando… passando… Licínio se acomodou com as humilhações no sacrossanto lar e com a vidinha sem sal no trabalho; virou aquele homem bonachão, funcionário público de baixo escalão, que ia da casa para o trabalho e do trabalho para casa, usava pijama e chinelas e via pela TV uma vida que nunca teve e que nunca teria.
Certo dia, já com idade avançada, morreu dormindo em frente ao aparelho de televisão. Carminha e o filho sequer choraram, afinal se livraram do traste do imprestável.
Seu enterro se deu numa tarde fria e chuvosa, e apenas a mulher, o filho e meia dúzia de parentes distantes e vizinhos apareceram para acompanhar o corpo até sua última morada.
Contudo, um fato estranho aconteceu tempos depois. Sobre seu túmulo nasceu um pé de milho, apenas um pé. Um único e exclusivo pé. A espiga era muito pequena, raquítica mesmo, mas o cabelo do milho era grande, vistoso, parecendo uma trança de Rapunzel.
Um exagero, diziam alguns.
O administrador do cemitério mandou cortá-lo umas três vezes, mas o pé de milho sempre voltava a crescer do mesmo jeito, e o cabelo se tornava lustroso, forte, encorpado.
Uma belezura!
Tempos depois, começou a ocorrer uma romaria ao seu túmulo. Desde o momento em que um homem começou a tomar o chá daquele cabelo de milho, os próprios cabelos começaram a crescer e as entradas que tinha pronunciadas sumiram completamente. Imagine a confusão que houve no cemitério quando a notícia se espalhou!
Pois é. O que teve de homem querendo um chumaço de cabelo do moribundo careca não está no gibi!
Virou santo para o povo: São Licínio, o protetor dos calvos e carecas.
Amém!
quarta-feira, 4 de abril de 2012
sábado, 17 de março de 2012
Aeroporto
A claridade surge no horizonte, e Valdomiro ainda se encontra no aeroporto, esperando o voo.
É sexta-feira de Carnaval, e ele se junta a um elenco de rostos. Seu olhar vagueia pelo salão, procurando distrair-se. Algumas pessoas estão deitadas no chão, outras nas cadeiras cochilam.
Um homem e uma mulher parecem recém-casados, tal a ‘melação’. Valdomiro lembra-se da ‘patroa’ em casa e de que no início do namoro e do casamento era aquela mesma paixão, aquela efervescência de hormônios; talvez fosse até mais intensa do que o casal que agora espia. Mas o tempo passou, o mato cresceu, e a rotina, a presença das crianças e depois dos netos chegados precocemente fizeram o fogo se extinguir, deixando só um espectro do que fora.
Valdomiro olha para o relógio com impaciência. Cada ponteiro caminha tão lentamente, que parece não se mexer. Uma lentidão de operários em greve branca.
Uma mulher senta-se do seu lado. Ela empurra um carrinho de bebê de dois lugares, e os gêmeos choram desafinadamente. Valdomiro suspira porque prevê que o dia será longo, compassivamente longo.
O garotinho de verde faz birra, não querendo a chupeta que a mãe tenta lhe impingir, enquanto o outro, de azul, bate as perninhas, chora e berra ainda mais alto. Ambos parecem estar num concurso para medir quem ultrapassa o limite de decibéis que os ouvidos humanos conseguem aguentar.
Ele pensa em tomar um cafezinho para ver se fica mais animado, mas, dando mostras de sua presença, a úlcera expele fogo, tal qual uma dragoa com TPM, e ele desiste da ideia.
Uma velhota, com acompanhante, senta-se à sua esquerda. A idosa não para de falar um só minuto, e a outra, provavelmente a empregada, olha placidamente em volta. Deve estar acostumada ao falatório de metralhadora giratória da patroa. O pior é que a voz da anciã é horrível, fina, penetrando nos ouvidos como um punhal estreito, frio e afiado.
Valdomiro não aguenta. Está no meio de dois fogos cruzados. Levanta-se e busca distração na loja de revistas e jornais. Procura o setor dos jornais, mas seu olhar é atraído pelas mulheres peladas das revistas masculinas.
Cada pose!
No tempo em que era moleque, ver mulher pelada era uma dificuldade. Tinha todo um esquema para comprar as revistinhas proibidas de Carlos Zéfiro. Teve uma vez em que ele e seu primo Betinho encontraram nas revistas de sua mãe um anúncio de sutiã e meias no qual as modelos – nem eram mulheres reais, mas desenhos – usavam espartilhos e meias sete oitavos. Foi o suficiente para ambos passarem horas e horas no banheiro.
Hoje tudo é diferente. As fotos mostram cada posição que parece ter sido feita durante uma consulta de médico de senhoras!
“Os tempos são outros”, pensa, conformado.
Compra o jornal e uma revistinha de palavras cruzadas. Não tem coragem de adquirir as revistas masculinas. Afinal, chegar em casa com aquelas publicações despertará a indignação de Isaura, sua ‘patroa’. O ciúme já não lhe visitava a vida matrimonial havia algumas décadas, mas, sabe como é, melhor não facilitar.
Além do mais, ele não tem mais idade para ficar levando revistas escondido para o banheiro, não cai bem a um senhor de sua faixa etária, por isso desistiu de concretizar a compra. Mas que ficou tentado, ah, isso ficou!
Procura um lugar para sentar-se, bem longe dos gêmeos e da matraca giratória da velhinha. O aeroporto está cheio, mas encontra um assento vago perto dos banheiros. Da porta do lavabo feminino sai uma mulher super alta. Um mulherão de mais de metro e noventa. Valdomiro sabe que existem mulheres altas, cada vez mais isso é uma realidade, mas ele fica na dúvida.
“Será mulher mesmo?” – questiona-se.
Roupa chamativa, muito maquiada, cílios que devem ter sido comprados em alguma loja especializada em maquiagem feminina para o Carnaval, um perfume forte que lhe causa uma crise de espirros, Valdomiro questiona-se mais uma vez se realmente é mulher a criatura. Na bolsa que ela usa dá para carregar o bairro de Vila Isabel inteiro e ainda sobra espaço para o Parque do Aterro do Flamengo.
“Muito exagero, muito exagero para ser uma mulher”, argumenta Valdomiro consigo mesmo.
Mas, como hoje tudo é normal, ele abre a revistinha de palavras cruzadas, procura uma caneta no bolso interno do paletó e começa a buscar as palavras certas para preencher aqueles quadradinhos.
Valdomiro gosta muito de fazer palavras cruzadas. Dizem os médicos que isso é bom para pessoas que têm a sua idade, mas não é por isso que ele faz o joguinho. É por prazer mesmo, e não para evitar aquelas doenças que afetam o cérebro e que acompanham a velhice.
Durante algum tempo, Valdomiro não prestou atenção ao burburinho natural do aeroporto, de tão concentrado que estava em encontrar as palavras certas; às vezes ele olha atrás da revista, para conferir se a sentença em que pensou estava correta; ou então espia quando não sabe mesmo que vocábulo deve escrever. Isaura diz que ele trapaceia no jogo.
– Mentira! Calúnia! – nega, indignado, sempre, para quem quiser ouvir; nunca deixou de olhar as respostas de vez em quando, porém agora sempre faz isso escondido dos olhares da esposa e dos outros.
Uma voz de mulher de aeroporto se ouve nos alto-falantes. Valdomiro sempre teve vontade de conhecer aquela voz, que dá a impressão de acompanhar uma figura feminina muito bonita.
“Deve ser um tribufu!” – pensa – “Quem vê cara não vê coração, já dizia minha vó Dorinda”, lembra-se.
A voz diz que o check-in está sendo iniciado e que os passageiros devem encaminhar-se ao balcão da companhia aérea.
Quando Valdomiro faz o movimento de levantar-se da cadeira, parece que uma manada de elefantes é liberada. A empregada arrasta a velha pela mão ao mesmo tempo em que tenta levar as duas malas; a mãe com o carrinho dos gêmeos grita que tem prioridade, o casal recém-casado vai atropelando qualquer um à sua frente. Desespero total.
Valdomiro é levado naquela onda e nem sabe como sair do tumulto. A asma ataca e a úlcera dá pinotes de cavalo xucro. Ele é arrastado pela multidão insana. Ainda tenta resistir, mas é espremido entre um homenzarrão e um rapazote. O homem, que mais parece um armário, de tão largo, impede a visão de Valdomiro. Já o rapaz parece ter saído de um filme de terror, destes atuais, tal a quantidade de piercings e tatuagens que carrega, além do cabelo arrepiado, pintado de preto e roxo.
Outro homem, pesando uns cento e oitenta, pisa no pé de Valdomiro, justamente naquele pé em que joanete e unha encravada fazem parceria de Batman e Robin. Valdomiro solta um grito de dor, mas no meio daquela manada destrambelhada não é ouvido e o seu urro se perde no meio do tumulto.
Quando consegue chegar ao balcão, Valdomiro se sente triturado por uma máquina de moer carne: camisa fora da calça, cabelo despenteado, rosto vermelho, olho rútilo, boca seca como se tivesse atravessado três desertos, e mancando devido à pisada no joanete e na unha encravada dada pelo gordo.
Valdomiro pensa: “Agora, sim! Vou sair desta loucura. No avião tudo se resolverá, e logo estarei em casa!”.
De posse dos documentos necessários para entrar no avião, Valdomiro caminha pela passarela que leva ao transporte, que é mais pesado que o ar, com a certeza de que o pior já passou.
Procura seu lugar na fileira e constata que não há ninguém dos lados direito e esquerdo. Valdomiro suspira de felicidade, senta-se na poltrona estreita e fecha os olhos, esperando o momento em que o aeroplano (sim, no tempo dele avião era chamado de aeroplano) decolará.
A temperatura ambiente é agradável, e Valdomiro quase cochila, mas é acordado com um toque insistente no ombro. Abre os olhos e depara-se com o rosto vermelho e redondo do homem de cento e oitenta quilos que havia pisado ao mesmo tempo no seu joanete e na unha encravada.
E pensa: “Oh, não!”.
Sim, desgraça pouca é bobagem, Valdomiro! Acredite.
O gordo senta-se à sua direita, do lado da janelinha, e Valdomiro vê-se espremido entre o homem e sua senhora, tão gorda quanto ele.
É Carnaval, e Valdomiro sente as agruras da carne.
É sexta-feira de Carnaval, e ele se junta a um elenco de rostos. Seu olhar vagueia pelo salão, procurando distrair-se. Algumas pessoas estão deitadas no chão, outras nas cadeiras cochilam.
Um homem e uma mulher parecem recém-casados, tal a ‘melação’. Valdomiro lembra-se da ‘patroa’ em casa e de que no início do namoro e do casamento era aquela mesma paixão, aquela efervescência de hormônios; talvez fosse até mais intensa do que o casal que agora espia. Mas o tempo passou, o mato cresceu, e a rotina, a presença das crianças e depois dos netos chegados precocemente fizeram o fogo se extinguir, deixando só um espectro do que fora.
Valdomiro olha para o relógio com impaciência. Cada ponteiro caminha tão lentamente, que parece não se mexer. Uma lentidão de operários em greve branca.
Uma mulher senta-se do seu lado. Ela empurra um carrinho de bebê de dois lugares, e os gêmeos choram desafinadamente. Valdomiro suspira porque prevê que o dia será longo, compassivamente longo.
O garotinho de verde faz birra, não querendo a chupeta que a mãe tenta lhe impingir, enquanto o outro, de azul, bate as perninhas, chora e berra ainda mais alto. Ambos parecem estar num concurso para medir quem ultrapassa o limite de decibéis que os ouvidos humanos conseguem aguentar.
Ele pensa em tomar um cafezinho para ver se fica mais animado, mas, dando mostras de sua presença, a úlcera expele fogo, tal qual uma dragoa com TPM, e ele desiste da ideia.
Uma velhota, com acompanhante, senta-se à sua esquerda. A idosa não para de falar um só minuto, e a outra, provavelmente a empregada, olha placidamente em volta. Deve estar acostumada ao falatório de metralhadora giratória da patroa. O pior é que a voz da anciã é horrível, fina, penetrando nos ouvidos como um punhal estreito, frio e afiado.
Valdomiro não aguenta. Está no meio de dois fogos cruzados. Levanta-se e busca distração na loja de revistas e jornais. Procura o setor dos jornais, mas seu olhar é atraído pelas mulheres peladas das revistas masculinas.
Cada pose!
No tempo em que era moleque, ver mulher pelada era uma dificuldade. Tinha todo um esquema para comprar as revistinhas proibidas de Carlos Zéfiro. Teve uma vez em que ele e seu primo Betinho encontraram nas revistas de sua mãe um anúncio de sutiã e meias no qual as modelos – nem eram mulheres reais, mas desenhos – usavam espartilhos e meias sete oitavos. Foi o suficiente para ambos passarem horas e horas no banheiro.
Hoje tudo é diferente. As fotos mostram cada posição que parece ter sido feita durante uma consulta de médico de senhoras!
“Os tempos são outros”, pensa, conformado.
Compra o jornal e uma revistinha de palavras cruzadas. Não tem coragem de adquirir as revistas masculinas. Afinal, chegar em casa com aquelas publicações despertará a indignação de Isaura, sua ‘patroa’. O ciúme já não lhe visitava a vida matrimonial havia algumas décadas, mas, sabe como é, melhor não facilitar.
Além do mais, ele não tem mais idade para ficar levando revistas escondido para o banheiro, não cai bem a um senhor de sua faixa etária, por isso desistiu de concretizar a compra. Mas que ficou tentado, ah, isso ficou!
Procura um lugar para sentar-se, bem longe dos gêmeos e da matraca giratória da velhinha. O aeroporto está cheio, mas encontra um assento vago perto dos banheiros. Da porta do lavabo feminino sai uma mulher super alta. Um mulherão de mais de metro e noventa. Valdomiro sabe que existem mulheres altas, cada vez mais isso é uma realidade, mas ele fica na dúvida.
“Será mulher mesmo?” – questiona-se.
Roupa chamativa, muito maquiada, cílios que devem ter sido comprados em alguma loja especializada em maquiagem feminina para o Carnaval, um perfume forte que lhe causa uma crise de espirros, Valdomiro questiona-se mais uma vez se realmente é mulher a criatura. Na bolsa que ela usa dá para carregar o bairro de Vila Isabel inteiro e ainda sobra espaço para o Parque do Aterro do Flamengo.
“Muito exagero, muito exagero para ser uma mulher”, argumenta Valdomiro consigo mesmo.
Mas, como hoje tudo é normal, ele abre a revistinha de palavras cruzadas, procura uma caneta no bolso interno do paletó e começa a buscar as palavras certas para preencher aqueles quadradinhos.
Valdomiro gosta muito de fazer palavras cruzadas. Dizem os médicos que isso é bom para pessoas que têm a sua idade, mas não é por isso que ele faz o joguinho. É por prazer mesmo, e não para evitar aquelas doenças que afetam o cérebro e que acompanham a velhice.
Durante algum tempo, Valdomiro não prestou atenção ao burburinho natural do aeroporto, de tão concentrado que estava em encontrar as palavras certas; às vezes ele olha atrás da revista, para conferir se a sentença em que pensou estava correta; ou então espia quando não sabe mesmo que vocábulo deve escrever. Isaura diz que ele trapaceia no jogo.
– Mentira! Calúnia! – nega, indignado, sempre, para quem quiser ouvir; nunca deixou de olhar as respostas de vez em quando, porém agora sempre faz isso escondido dos olhares da esposa e dos outros.
Uma voz de mulher de aeroporto se ouve nos alto-falantes. Valdomiro sempre teve vontade de conhecer aquela voz, que dá a impressão de acompanhar uma figura feminina muito bonita.
“Deve ser um tribufu!” – pensa – “Quem vê cara não vê coração, já dizia minha vó Dorinda”, lembra-se.
A voz diz que o check-in está sendo iniciado e que os passageiros devem encaminhar-se ao balcão da companhia aérea.
Quando Valdomiro faz o movimento de levantar-se da cadeira, parece que uma manada de elefantes é liberada. A empregada arrasta a velha pela mão ao mesmo tempo em que tenta levar as duas malas; a mãe com o carrinho dos gêmeos grita que tem prioridade, o casal recém-casado vai atropelando qualquer um à sua frente. Desespero total.
Valdomiro é levado naquela onda e nem sabe como sair do tumulto. A asma ataca e a úlcera dá pinotes de cavalo xucro. Ele é arrastado pela multidão insana. Ainda tenta resistir, mas é espremido entre um homenzarrão e um rapazote. O homem, que mais parece um armário, de tão largo, impede a visão de Valdomiro. Já o rapaz parece ter saído de um filme de terror, destes atuais, tal a quantidade de piercings e tatuagens que carrega, além do cabelo arrepiado, pintado de preto e roxo.
Outro homem, pesando uns cento e oitenta, pisa no pé de Valdomiro, justamente naquele pé em que joanete e unha encravada fazem parceria de Batman e Robin. Valdomiro solta um grito de dor, mas no meio daquela manada destrambelhada não é ouvido e o seu urro se perde no meio do tumulto.
Quando consegue chegar ao balcão, Valdomiro se sente triturado por uma máquina de moer carne: camisa fora da calça, cabelo despenteado, rosto vermelho, olho rútilo, boca seca como se tivesse atravessado três desertos, e mancando devido à pisada no joanete e na unha encravada dada pelo gordo.
Valdomiro pensa: “Agora, sim! Vou sair desta loucura. No avião tudo se resolverá, e logo estarei em casa!”.
De posse dos documentos necessários para entrar no avião, Valdomiro caminha pela passarela que leva ao transporte, que é mais pesado que o ar, com a certeza de que o pior já passou.
Procura seu lugar na fileira e constata que não há ninguém dos lados direito e esquerdo. Valdomiro suspira de felicidade, senta-se na poltrona estreita e fecha os olhos, esperando o momento em que o aeroplano (sim, no tempo dele avião era chamado de aeroplano) decolará.
A temperatura ambiente é agradável, e Valdomiro quase cochila, mas é acordado com um toque insistente no ombro. Abre os olhos e depara-se com o rosto vermelho e redondo do homem de cento e oitenta quilos que havia pisado ao mesmo tempo no seu joanete e na unha encravada.
E pensa: “Oh, não!”.
Sim, desgraça pouca é bobagem, Valdomiro! Acredite.
O gordo senta-se à sua direita, do lado da janelinha, e Valdomiro vê-se espremido entre o homem e sua senhora, tão gorda quanto ele.
É Carnaval, e Valdomiro sente as agruras da carne.
terça-feira, 13 de março de 2012
Carnaval
De repente, a sala foi invadida de fantasias.
Eram baianas, Supermans, Colombinas e Carlitos de diversas cores. Cada um buscava remédio para sanar suas próprias dores no Pronto-Socorro. Médicos e enfermeiras mostraram-se perdidos naquela confusão inesperada de paetês e serpentinas.
Uma baiana em crise de nervos, histericamente desesperada, gritava pela perda de seu tabuleiro, e outras, solidárias, choravam junto, tal um coro grego.
Dois Supermans em coma alcoólico precisavam, com urgência, tomar soro glicosado.
Sete Colombinas, nas cores do arco-íris, zanzavam para cima e para baixo. A van em que elas estavam tinha capotado, mas (graças a Deus!) ninguém se feriu gravemente. Apenas sofreram escoriações diversas, mas como nenhum Arlequim as acompanhasse, batiam as cabeças uma às outras, mais parecendo baratas tontas.
Um Carlito alto, magro e negro apoiava outro Carlito, baixo, gordo e branco, que tinha ferido o pé numa garrafa quebrada e sentia os cacos de vidros tragicamente penetrarem sua pele.
Uma mulher titanicamente gorda era carregada – com dificuldade – por cinco homens parrudos e um anão. A maquiagem dos olhos pintados em branco e preto derretia gota a gota, formando lágrimas cinzentas a escorrer sobre a papada flácida, até se estilhaçarem no chão. De sua boca saia uma gosma amarelada, como se tivesse comido pão com ovo mole.
Um velho trajando fralda de bebê gigante e de toquinha de babadinho mal respirava, em crise asmática. A chupeta do neném quem segurava era uma jovem fantasiada de babá sexy, que tentava consolá-lo, enquanto exigia que a enfermeira o atendesse, dando prioridade aos maiores de sessenta e cinco anos, conforme determina a lei.
Ainda não era meia-noite, e a sala do Pronto-Socorro já estava empilhada de fantasias, dores e aflições.
– Será uma longa noite adentro – profetizou, sentado num canto perto da porta do banheiro, um Pierrô roto, agarrado à sua garrafa.
Eram baianas, Supermans, Colombinas e Carlitos de diversas cores. Cada um buscava remédio para sanar suas próprias dores no Pronto-Socorro. Médicos e enfermeiras mostraram-se perdidos naquela confusão inesperada de paetês e serpentinas.
Uma baiana em crise de nervos, histericamente desesperada, gritava pela perda de seu tabuleiro, e outras, solidárias, choravam junto, tal um coro grego.
Dois Supermans em coma alcoólico precisavam, com urgência, tomar soro glicosado.
Sete Colombinas, nas cores do arco-íris, zanzavam para cima e para baixo. A van em que elas estavam tinha capotado, mas (graças a Deus!) ninguém se feriu gravemente. Apenas sofreram escoriações diversas, mas como nenhum Arlequim as acompanhasse, batiam as cabeças uma às outras, mais parecendo baratas tontas.
Um Carlito alto, magro e negro apoiava outro Carlito, baixo, gordo e branco, que tinha ferido o pé numa garrafa quebrada e sentia os cacos de vidros tragicamente penetrarem sua pele.
Uma mulher titanicamente gorda era carregada – com dificuldade – por cinco homens parrudos e um anão. A maquiagem dos olhos pintados em branco e preto derretia gota a gota, formando lágrimas cinzentas a escorrer sobre a papada flácida, até se estilhaçarem no chão. De sua boca saia uma gosma amarelada, como se tivesse comido pão com ovo mole.
Um velho trajando fralda de bebê gigante e de toquinha de babadinho mal respirava, em crise asmática. A chupeta do neném quem segurava era uma jovem fantasiada de babá sexy, que tentava consolá-lo, enquanto exigia que a enfermeira o atendesse, dando prioridade aos maiores de sessenta e cinco anos, conforme determina a lei.
Ainda não era meia-noite, e a sala do Pronto-Socorro já estava empilhada de fantasias, dores e aflições.
– Será uma longa noite adentro – profetizou, sentado num canto perto da porta do banheiro, um Pierrô roto, agarrado à sua garrafa.
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
Canalha
Ela se casou com um canalha.
Não aquele canalha rodriguiano por quem a gente se apaixona à primeira baforada de Continental sem filtro nos cornos.
Não.
Era um canalha vulgar, encontrado em qualquer definição de dicionário. Estava lá: conjunto de pessoas desprezíveis. Era assim. Assim era ele.
Desde o início do flerte (no tempo dela, era flerte mesmo) ele já mostrava a que veio. Mas ela, carente e já quase passando da idade de arrumar matrimônio, resolveu aceitar, como se ele fosse a última coca-cola do deserto.
Ela detestava coca-cola, preferia mil vezes um guaraná ou suco de caju, mas mesmo assim resolveu aceitar e investir no que ela achava que poderia tornar-se um namoro firme, com vistas a um casamento de véu, grinalda, flores de laranjeiras e caminhada pela nave do Outeiro da Glória.
Ele passava em frente à sua casa, diariamente, e ficava por alguns minutos sob o poste, com a desculpa de acender e fumar um cigarro.
Ela, como toda boa moça de família que se preza, sempre no mesmo horário tinha por costume estar ‘casualmente’ na janela vendo a vida passar, tal qual uma musa à espera de um poeta para eternizá-la.
Não era feia. Mas dizer que era bonita seria exagero. Estava ali entre a linha tênue do quase belo com uma pitada de ‘normalidade’. Mas a juventude (ah, a juventude!) é capaz de trazer em si qualquer tipo de beleza, elevando-a a um patamar onde a pele firme, os olhos vivos e a boca rósea fazem qualquer mulher transformar-se numa quase Ava Gardner tropical.
Ela sondou entre a vizinhança e ficou sabendo que ele morava nas redondezas, numa pensão barata, bem mixuruca mesmo, que ficava três quarteirões abaixo da rua onde ela residia. Sua casa ficava numa ladeira, um casarão antiquado precisando de reformas urgentes, mas que trazia em si a opulência de um passado machadiano que ficou lá atrás, no pretérito bem longe.
Aquele chove-não-molha durou quase três semanas. O tempo era outro, e as horas passavam numa lenta morbidez de filmes ‘cabeça’, aqueles que só intelectuais sabem entender.
Até que um dia o mancebo encontrou ‘ao acaso’ sua – nem tão jovem – Julieta na quermesse de uma festa de Santo Antonio, na igreja do bairro. Galante, ofereceu-lhe uma maçã do amor, que ela aceitou imediatamente.
Antes não tivesse aceitado o mimo, porque a guloseima açucarada lhe custou a quebra do roach que tinha colocado havia pouco menos de três dias. Uma pequena fortuna que deveria ser paga em seis suaves prestações pela prótese parcial.
Para esconder a quebra, ela, durante todo colóquio, abria a boca o mínimo necessário e só dava um sorriso um tanto ou quanto amarelado, sem mostrar os dentes, para qualquer gracejo que o jovem fazia.
Gracejo sem graça, devo dizer, mas como o interesse mútuo era visível, o jovem se esforçava para parecer inteligente e bem-humorado, e ela se esforçava por acreditar que ele era realmente inteligente e bem-humorado.
O que não faz uma mulher carente!
Mas não era disso que estava falando, e sim contando história da pobrezinha.
A quermesse durou uma semana, e durante sete dias ele e ela se encontravam em diferentes barracas para não despertar suspeita na família, que a vigiava com uma fidelidade de cachorro pequinês.
Um dia encontraram-se na barraca de tiro ao alvo, onde ela ganhou de presente uma feia boneca de pano depois que ele acertou meia dúzia de garrafas; no outro, encontraram-se na barraca do leilão, e desta vez ela foi agraciada com um buquê de flores de plástico, que ele arrematou por alguns trocados.
No terceiro dia, o dinheiro dele já tinha acabado e foi ela quem acabou pagando o sorvete de morango para os dois. Ele fingiu esquecer a carteira em casa. Como ela já tinha dado duas lambidas na casquinha, não poderia devolvê-la ao sorveteiro. Teve então que desembolsar os trocados para quitar a dívida e não passar vergonha. Aquilo já deveria tê-la alertado sobre o caráter canalha do mancebo, mas ela fingiu não ouvir a intuição – ou mesmo o anjo da guarda, sei lá! – que lhe gritava sinais de alerta.
No tempo dela, não havia essas normalidades de hoje, em que mulher paga a conta e tudo bem. Não. O tempo dela era outro; um tempo em que o cavalheirismo era tão comum quanto usar guardanapo de pano na mesa do almoço e do jantar de qualquer família remediada.
Bons tempos, bons tempos…
Mas não era disso que estava falando. Não quero aqui ficar emitindo nenhum juízo de valor. Meu desejo é apenas contar a história de uma mulher que se casou com um canalha no tempo em que a palavra canalha não podia ser dita na sala de visita de uma família.
Após se encontrarem em uma barraca diferente a cada dia, ele lhe pediu para namorar.
Ruborizada como uma virgem austeniana, ela aceitou, mas impôs a condição de que o jovem galante fosse pedir permissão à mãe viúva e aos três irmãos mais velhos, que moravam no casarão machadiano com ela.
Ele foi.
Foi e enfrentou a nobre papada de bócio da viúva e as caras amarradas dos irmãos mais velhos, que mais pareciam três mosqueteiros retirados de um cais de porto qualquer, maltrapilhos e cheirando a peixe.
Depois de um interminável interrogatório, os quatro decidiram que ele não era digno que ter a mão (e as outras partes do corpo muito menos!) da nobre donzela.
O mancebo saiu de lá humilhado como contínuo de repartição pública quando vai pegar o salário no caixa.
A Julieta tropical esperneou.
Chorou.
Gritou.
Ameaçou que se jogaria na frente do primeiro bonde que aparecesse (sim, no tempo dela os bondes ainda circulavam) e que também atearia fogo ao corpo, tal qual uma passional viúva italiana.
De nada adiantou.
Nadica de nada.
Os quatro juraram – solenemente – que ela só sairia de casa com aquele indivíduo por cima do cadáver de cada um.
Eram quatro.
Ela apenas uma.
A enamorada fingiu se conformar, mas só depois de ter ficado quatro dias tomando água e comendo pão dormido como uma forma de autoflagelo indignado.
Os irmãos e a mãe fingiram não ligar para os maus modos.
Depois de quatro dias, já enjoada de pão seco e água de bica, largou o papel de mártir incompreendida e se atracou com um frango com quiabo e angu que a mãe havia preparado para o almoço. Fartou-se até lamber as pontas dos dedos.
De bucho cheio, o pensamento é mais desanuviado, e ela começou a bolar uma maneira de ficar com o mancebo de quinta. Agora ficar com ele tinha um caráter de honradez, porque se eles, irmãos e mãe, pensavam que ela ficaria em casa limpando a baba de cada um até que a velhice se apresentasse, pois sim! Eles veriam do que ela era capaz!
A escravidão do ego é a perdição da raça humana, já disse… quem mesmo? Ah, sei lá! Não importa.
Mas onde estava mesmo? Ah, sim, lembrei!
Pois foi assim que ela e o jovem Romeu decidiram marcar encontros na igreja, velha conhecida de todos os amantes incompreendidos por séculos e séculos, não é mesmo? É verdade… é verdade…
Não foi diferente entre a quase madura donzela e o amásio. Lá se encontravam e arquitetavam um plano de fuga para que pudessem vivenciar aquele grande amor que se iniciou com a quebra de um roach.
Cá entre nós, longe querer recriminá-la, mas ela bem que deveria ter se mancado de que uma pretensa história de amor que começa com a quebra de um roach – ah, vai me desculpar! – não poderia dar boa coisa não,
Você não acha que estou certa? Pois sim!
Se ele era bonito?
Assim, assim…
Se você acha bonito galã de filme B mudo, tudo bem.
É como já dizia minha avó Cotinha: o que é de gosto é o regalo da vida.
Agora tenho que confessar que o danado tinha lá seu quinhão de charme. Todo canalha tem charme, faz parte da genética do camarada ter um quê de charme. Ele era um Clark Gable fajuto. Usava um bigodinho que, para quem gostasse, tinha lá o seu encanto. Eu, particularmente, sempre fui mais um Gary Cooper ou então um John Wayne.
Mas não sou eu a personagem da história, e sim ela, a pobre iludida que numa madrugada de garoa fina e constante fugiu pela janela do quarto levando três vestidos, duas meias, duas anáguas e um paletozinho de lã já desbotado, que já vira dias melhores.
Ele jurou de pé junto que iriam casar-se etc. etc. etc.
Juras de amor para cá, juras de amor para lá, e em menos de vinte e quatro horas a enamorada já não era mais moça-donzela.
Naquele tempo não era como hoje, não! Mulher direita tinha que permanecer direita até o último suspiro de vida, caso não arrumasse um pobre coitado para descansar o pé cansado e cheio de joanete.
Mas sabe como é, a carne é fraca, a carência é grande e a pobrezinha caiu na lábia do canalha. Todo canalha tem uma lábia de que nem é bom falar, pode ter criança por perto nos ouvindo.
Durante uma semana, os amantes desfrutaram do paraíso sem pensar que a serpente poderia aparecer a qualquer momento. No final do sétimo dia apareceu uma, aliás, apareceram três cobras-corais machos peçonhentas para desmanchar o ninho de amor e pecado dos pombinhos.
Os irmãos parrudos, mal encarados e fedendo a peixe apareceram com garruchas em punho, exigindo reparação do rapto da ex-donzela. Não se sabe como eles conseguiram o endereço da pensão de quinta em que o jovem casal se hospedara em Petrópolis, mas conseguiram, e foi o maior fuzuê quando apareceram lá arrombando a porta e encontrando-os em trajes menores.
Quer dizer, na verdade já sem traje nenhum, mas isso não é para a gente ficar falando em público porque não fica nem bem…
Ao ver o casal tal qual Adão e Eva, os irmãos enfurecidos os levaram embrulhados em lençóis até a delegacia mais próxima e os forçaram a casarem-se na marra.
O escrevente ainda tentou argumentar que a garota já não era menor, mas o delegado, pai de quatro filhas, resolveu aceitar as queixas e casou-os enrolados em lençóis baratos mesmo.
Este foi o início martírio da pobrezinha. Sim, porque se fosse hoje em dia cada um desfrutaria dos pecados com outro e, depois, beijinho e tchauzinho.
Uma pouca vergonha, é o que acho.
Você não acha?
Mas, no tempo dela, casamento era para sempre, ou pelo menos até que a morte os separasse. Um tinha que aguentar o outro até o final, e a coitadinha ficou atrelada àquele canalha por anos e anos.
Você precisava ver. Foram morar numa pocilga destas bem infectadas mesmo. Os irmãos não os aceitaram, mesmo tendo eles casados perante a Justiça. Não, não aceitaram, e os recém-casados foram morar numa cabeça de porco.
Tudo bem que ela não vivia na abastança na casa antiga, mas também não estava acostumada à penúria que encontrou.
Coitada… tsiu, tsiu, tsiu…
Ela, justamente ela, que esperava casar de véu, grinalda, flores de laranjeiras e caminhada pela nave do Outeiro da Glória, acabou em Irajá.
Por favor, não estou aqui desprezando Irajá. Não é isso. Nestes tempos em que tudo tem que ser politicamente correto, não quero meu nome em bocas de Matilde, dizendo que estou menosprezando o charmoso bairro carioca.
Não, não é isso.
O que estou tentando dizer é que ela foi morar muito longe e em condições precárias porque, naquela época, Irajá era longe para dedéu e as condições de vida dos moradores eram uma vergonha para qualquer político com um mínimo de ética e responsabilidade.
Entendeu?
Ah, então ‘tá.
É preciso explicar mesmo porque senão a gente é logo acusada de …
Calma, eu vou contar. Vou contar tudinho. Também você fica me interrompendo toda hora! Já disse que vou contar.
Onde estava mesmo?
Ah, sim, lembrei! Estava dizendo que ela casou e foi morar numa pocilga.
Precisa ver… tsiu… tsiu… tsiu… Não é à toa que se chama aquilo de joelho de porco.
Como? Ué, eu disse cabeça de porco, não disse? Disse joelho, é? Ah, mas você fica me interrompendo a toda hora, que fico atrapalhada! Afinal, você quer ou não quer escutar?! Então cale a boca e escute.
Bem, voltando: ela foi morar na cabeça de porco e lá encontrou todo tipo de miséria e podridão. Ela era uma moça pobre, mas muito limpinha, e ir para aquele lugar fez com que ela envelhecesse em seis meses o que levaria dez anos se tivesse ficado na casa da mãe, em companhia dos irmãos mosqueteiros do cais.
Logo embuchou. Acho que na primeira noite com o ainda não marido já pegou filho.
Também pudera, você já viu canalha estéril?
Eu nunca vi.
Em todos estes anos de vida, nunca vi um canalha que não deixasse atrás de si uma penca de filhos pela cidade inteira e, quiçá!, até em outros estados e países.
Uma fertilidade a toda prova, isso sim!
Depois de casado, já na primeira semana morando na pocilga, o canalha colocou as manguinhas de fora, e ela conheceu sua verdadeira face, que, apesar do charme, não era nada bonita. Só saía da cama depois do meio-dia, só chegava da rua com o dia claro, cheirando a bebida e a perfume feminino barato. Ela, que nunca precisou lavar uma meia, teve agora que virar lavadeira de roupa de cama, mesa e banho.
O pouco dinheiro que conseguia, ele levava tudo para a farra e o jóquei. Ela no início até acreditou em suas palavras de que a sorte estava lhe sorrindo naquele dia e que ele acertaria o milhar na cabeça e eles iriam mudar-se e morar na rua principal do bairro, num sobrado que ele compraria e reformaria com a bolada.
Mas os dias foram passando, e o grande amanhecer não chegava. As pernas inchavam cada vez mais, e as varizes começaram a aparecer. Quando o rebento nasceu, ela só tinha a companhia de outras lavadeiras na beira do córrego onde lhe fizeram o parto. Na verdade, era não um rebento, mas uma menina.
Não gosto de falar mal de ninguém, cruz-credo de pecar contra um anjinho, porque afinal de contas toda criança é um anjinho com aquela carinha de joelho, né mesmo? Mas cá entre nós, que ninguém nos ouça, que criança feia aquela menina que ela pariu, hem?
Cruz-credo!… Feia como a fome e a miséria que aquela pobre criaturinha teve que enfrentar, porque o canalha sequer deu uma olhada para a criança, que foi colocada num caixote de feira que lhe serviu de berço.
E não é que a mulher ainda defendia o canalha no início? Dizia que ele era um incompreendido, que passou fome, que foi largado pela mãe quando criança etc. etc. etc.
Agora me diga você: quantas pessoas você conhece que tiveram uma vida desgraçada na infância e mesmo assim se tornaram pessoas de bem?!
Uma porção, não é?
Eu mesma tenho um primo de segundo grau que…
Está bem, está bem, vou voltar à história dela, mas depois não me deixe esquecer de contar-lhe a história do meu primo Valdemar, tá?
Eu tenho a impressão de que ela o defendia assim porque ele era bom de cama. Só pode ser! Talvez ele nem fosse lá estas coisas, sabe-se lá! Mas uma mulher que conheceu os prazeres da carne tão tarde perde a cabeça quando descobre as doçuras de um chamego. Só isso pode explicar aquela defesa toda e ela se matar de trabalhar para sustentar a feia filha e o traste do canalha.
Se digo que ela o defendia provavelmente por estar envolvida nos prazeres da carne é porque, nem bem pariu a feiazinha, ainda de resguardo, embuchou de outra.
Para encurtar esta prosa, posso lhe dizer que foram cinco filhas, sim, tudo um bando de menina-mulher feia como a fome; uma seguidinha da outra, não dava nem tempo nem de respirar direito. Já embuchava no resguardo mesmo. Uma calamidade. Naquele tempo não havia estes remédios que o médico receita para evitar de as mulheres emprenharem, não. Mas sempre teve jeito de se evitar, né mesmo?
Não estou dizendo que era para tirar o anjinho, mas que ele pelo menos não fizesse filha uma atrás da outra, ainda nem bem acabado o resguardo. Ah, isso ele não devia fazer não. Isso chega até ser pecado! É o que eu acho.
Mas depois de quase quatro anos de casamento, quando estava nos últimos dias de dar à luz a caçula, a ficha dela caiu, como se diz hoje em dia, e ela viu que realmente tinha casado com um canalha, e a fantasia de que ainda viveria com ele um final feliz de filme de Hollywood foi por terra. Ela descobriu que tinha se casado com um bígamo e que não era sua primeira mulher.
Você não acredita?
Pensa que estou enfeitando a história e transformando a vida dela num dramalhão de novela mexicana?
Pois sim! Antes fosse.
A coitadinha sofreu o pão que o diabo amassou por três dias com o rabo. Passava fome, trabalhava igual a um burro de carga com as filhas agarradas à saia, tudo para não faltar o cigarro, o conhaque e o dinheiro do jóquei de Sua Alteza, o marido.
E tudo isso por quê?!
Por quê? – pergunto eu.
Porque – eu mesma respondo – o canalha era bom de cama, ou melhor, ela é que nunca tinha desfrutado de uma boa f… quer dizer, não fica bem uma mulher, uma dama como eu, ainda mais na minha idade, ficar falando palavrão.
Sou uma mãe de família, mãe amantíssima, segundo meu finado marido. Sim, aquilo é que era homem! Alfredinho chegava pontualmente todos os dias às seis horas da noite, tomava banho, comia uma papinha de batata com carne moída passada três vezes na máquina que eu lhe preparava e ficava vendo televisão até o sono chegar. Antes das dez horas da noite, já ia para a cama, onde sempre encontrava seu leitinho morno para acalmar a úlcera, que lhe escravizava a vida. Sua úlcera era tratada como gato siamês de grã-fina, tais eram o carinho e a atenção que ele lhe dedicava.
Aquilo, sim, é que era marido! Não aquele canalha com quem ela se casou e que a fez parir cinco filhas feias como a miséria humana. Eu não estou aqui para julgar ninguém, afinal de contas nem é cristã tal atitude, mas… sabe que eu acho que ela bem mereceu? É triste dizer isso, mas quem mandou sair da casa materna? Quem mandou enfrentar os irmãos? Quando a cabeça não pensa, quem paga é o corpo, já dizia minha vó Mariinha.
Ué, eu não posso ter duas avós não, é? Tinha uma que se chamava Cotinha e outra, Mariinha, dá licença, viu?
Depois que ela ficou sabendo que era a segunda mulher do bígamo e que o canalha ainda se casou outras três vezes durante os anos que eles permaneceram juntos – em sua porta apareceram as outras mulheres mostrando as certidões de casamento fajutas, mas que todas acreditavam ter alguma validade perante a lei, os homens e Deus –, ela não se separou da criatura, apesar dos pesares.
Uma decepção atrás da outra a fez envelhecer muito rapidamente. Ela, que nunca foi um primor de beleza, envelheceu em dez anos meio século, pareceu um maracujá de gaveta de tão murcho que nem valia a pena descasar e voltar para casa.
Não quero falar nada não, mas acho que ela não voltou para a casa materna por orgulho. Sim, porque só o orgulho é que deve tê-la impedido de dar o braço a torcer perante a família. Ficaram velhos juntos, viram a filha mais velha morrer atropelada por um ônibus, três casarem com estivadores do porto e uma cair na vida. Quando ele morreu, no enterro não chorou. Não demonstrou nenhuma emoção por enterrar o pai de suas filhas e o genitor de tantos outros filhos que ela nem sabia quantos.
Antes de descer o caixão, ao invés de jogar uma flor, como assim o fazem muitas viúvas, ela apenas juntou saliva na boca e lhe deu uma grande cusparada na portinha do caixão, onde fica o rosto, e disse em voz alta para todos ouvirem:
– Vá para o quinto dos infernos, canalha!
Uma triste história, não? Esta é a vida… A vida como ela é.
Nem todo mundo tem a sorte que tive em encontrar um marido como o meu Alfredinho. Aquilo, sim, é que era homem!
Mas aonde você vai?
Ainda é cedo. Eu ainda não contei o caso do meu primo Valdemar! Este, sim, teve uma história triste, mas com um final feliz! Sabe, quando meu primo Valdemar nasceu…
Não aquele canalha rodriguiano por quem a gente se apaixona à primeira baforada de Continental sem filtro nos cornos.
Não.
Era um canalha vulgar, encontrado em qualquer definição de dicionário. Estava lá: conjunto de pessoas desprezíveis. Era assim. Assim era ele.
Desde o início do flerte (no tempo dela, era flerte mesmo) ele já mostrava a que veio. Mas ela, carente e já quase passando da idade de arrumar matrimônio, resolveu aceitar, como se ele fosse a última coca-cola do deserto.
Ela detestava coca-cola, preferia mil vezes um guaraná ou suco de caju, mas mesmo assim resolveu aceitar e investir no que ela achava que poderia tornar-se um namoro firme, com vistas a um casamento de véu, grinalda, flores de laranjeiras e caminhada pela nave do Outeiro da Glória.
Ele passava em frente à sua casa, diariamente, e ficava por alguns minutos sob o poste, com a desculpa de acender e fumar um cigarro.
Ela, como toda boa moça de família que se preza, sempre no mesmo horário tinha por costume estar ‘casualmente’ na janela vendo a vida passar, tal qual uma musa à espera de um poeta para eternizá-la.
Não era feia. Mas dizer que era bonita seria exagero. Estava ali entre a linha tênue do quase belo com uma pitada de ‘normalidade’. Mas a juventude (ah, a juventude!) é capaz de trazer em si qualquer tipo de beleza, elevando-a a um patamar onde a pele firme, os olhos vivos e a boca rósea fazem qualquer mulher transformar-se numa quase Ava Gardner tropical.
Ela sondou entre a vizinhança e ficou sabendo que ele morava nas redondezas, numa pensão barata, bem mixuruca mesmo, que ficava três quarteirões abaixo da rua onde ela residia. Sua casa ficava numa ladeira, um casarão antiquado precisando de reformas urgentes, mas que trazia em si a opulência de um passado machadiano que ficou lá atrás, no pretérito bem longe.
Aquele chove-não-molha durou quase três semanas. O tempo era outro, e as horas passavam numa lenta morbidez de filmes ‘cabeça’, aqueles que só intelectuais sabem entender.
Até que um dia o mancebo encontrou ‘ao acaso’ sua – nem tão jovem – Julieta na quermesse de uma festa de Santo Antonio, na igreja do bairro. Galante, ofereceu-lhe uma maçã do amor, que ela aceitou imediatamente.
Antes não tivesse aceitado o mimo, porque a guloseima açucarada lhe custou a quebra do roach que tinha colocado havia pouco menos de três dias. Uma pequena fortuna que deveria ser paga em seis suaves prestações pela prótese parcial.
Para esconder a quebra, ela, durante todo colóquio, abria a boca o mínimo necessário e só dava um sorriso um tanto ou quanto amarelado, sem mostrar os dentes, para qualquer gracejo que o jovem fazia.
Gracejo sem graça, devo dizer, mas como o interesse mútuo era visível, o jovem se esforçava para parecer inteligente e bem-humorado, e ela se esforçava por acreditar que ele era realmente inteligente e bem-humorado.
O que não faz uma mulher carente!
Mas não era disso que estava falando, e sim contando história da pobrezinha.
A quermesse durou uma semana, e durante sete dias ele e ela se encontravam em diferentes barracas para não despertar suspeita na família, que a vigiava com uma fidelidade de cachorro pequinês.
Um dia encontraram-se na barraca de tiro ao alvo, onde ela ganhou de presente uma feia boneca de pano depois que ele acertou meia dúzia de garrafas; no outro, encontraram-se na barraca do leilão, e desta vez ela foi agraciada com um buquê de flores de plástico, que ele arrematou por alguns trocados.
No terceiro dia, o dinheiro dele já tinha acabado e foi ela quem acabou pagando o sorvete de morango para os dois. Ele fingiu esquecer a carteira em casa. Como ela já tinha dado duas lambidas na casquinha, não poderia devolvê-la ao sorveteiro. Teve então que desembolsar os trocados para quitar a dívida e não passar vergonha. Aquilo já deveria tê-la alertado sobre o caráter canalha do mancebo, mas ela fingiu não ouvir a intuição – ou mesmo o anjo da guarda, sei lá! – que lhe gritava sinais de alerta.
No tempo dela, não havia essas normalidades de hoje, em que mulher paga a conta e tudo bem. Não. O tempo dela era outro; um tempo em que o cavalheirismo era tão comum quanto usar guardanapo de pano na mesa do almoço e do jantar de qualquer família remediada.
Bons tempos, bons tempos…
Mas não era disso que estava falando. Não quero aqui ficar emitindo nenhum juízo de valor. Meu desejo é apenas contar a história de uma mulher que se casou com um canalha no tempo em que a palavra canalha não podia ser dita na sala de visita de uma família.
Após se encontrarem em uma barraca diferente a cada dia, ele lhe pediu para namorar.
Ruborizada como uma virgem austeniana, ela aceitou, mas impôs a condição de que o jovem galante fosse pedir permissão à mãe viúva e aos três irmãos mais velhos, que moravam no casarão machadiano com ela.
Ele foi.
Foi e enfrentou a nobre papada de bócio da viúva e as caras amarradas dos irmãos mais velhos, que mais pareciam três mosqueteiros retirados de um cais de porto qualquer, maltrapilhos e cheirando a peixe.
Depois de um interminável interrogatório, os quatro decidiram que ele não era digno que ter a mão (e as outras partes do corpo muito menos!) da nobre donzela.
O mancebo saiu de lá humilhado como contínuo de repartição pública quando vai pegar o salário no caixa.
A Julieta tropical esperneou.
Chorou.
Gritou.
Ameaçou que se jogaria na frente do primeiro bonde que aparecesse (sim, no tempo dela os bondes ainda circulavam) e que também atearia fogo ao corpo, tal qual uma passional viúva italiana.
De nada adiantou.
Nadica de nada.
Os quatro juraram – solenemente – que ela só sairia de casa com aquele indivíduo por cima do cadáver de cada um.
Eram quatro.
Ela apenas uma.
A enamorada fingiu se conformar, mas só depois de ter ficado quatro dias tomando água e comendo pão dormido como uma forma de autoflagelo indignado.
Os irmãos e a mãe fingiram não ligar para os maus modos.
Depois de quatro dias, já enjoada de pão seco e água de bica, largou o papel de mártir incompreendida e se atracou com um frango com quiabo e angu que a mãe havia preparado para o almoço. Fartou-se até lamber as pontas dos dedos.
De bucho cheio, o pensamento é mais desanuviado, e ela começou a bolar uma maneira de ficar com o mancebo de quinta. Agora ficar com ele tinha um caráter de honradez, porque se eles, irmãos e mãe, pensavam que ela ficaria em casa limpando a baba de cada um até que a velhice se apresentasse, pois sim! Eles veriam do que ela era capaz!
A escravidão do ego é a perdição da raça humana, já disse… quem mesmo? Ah, sei lá! Não importa.
Mas onde estava mesmo? Ah, sim, lembrei!
Pois foi assim que ela e o jovem Romeu decidiram marcar encontros na igreja, velha conhecida de todos os amantes incompreendidos por séculos e séculos, não é mesmo? É verdade… é verdade…
Não foi diferente entre a quase madura donzela e o amásio. Lá se encontravam e arquitetavam um plano de fuga para que pudessem vivenciar aquele grande amor que se iniciou com a quebra de um roach.
Cá entre nós, longe querer recriminá-la, mas ela bem que deveria ter se mancado de que uma pretensa história de amor que começa com a quebra de um roach – ah, vai me desculpar! – não poderia dar boa coisa não,
Você não acha que estou certa? Pois sim!
Se ele era bonito?
Assim, assim…
Se você acha bonito galã de filme B mudo, tudo bem.
É como já dizia minha avó Cotinha: o que é de gosto é o regalo da vida.
Agora tenho que confessar que o danado tinha lá seu quinhão de charme. Todo canalha tem charme, faz parte da genética do camarada ter um quê de charme. Ele era um Clark Gable fajuto. Usava um bigodinho que, para quem gostasse, tinha lá o seu encanto. Eu, particularmente, sempre fui mais um Gary Cooper ou então um John Wayne.
Mas não sou eu a personagem da história, e sim ela, a pobre iludida que numa madrugada de garoa fina e constante fugiu pela janela do quarto levando três vestidos, duas meias, duas anáguas e um paletozinho de lã já desbotado, que já vira dias melhores.
Ele jurou de pé junto que iriam casar-se etc. etc. etc.
Juras de amor para cá, juras de amor para lá, e em menos de vinte e quatro horas a enamorada já não era mais moça-donzela.
Naquele tempo não era como hoje, não! Mulher direita tinha que permanecer direita até o último suspiro de vida, caso não arrumasse um pobre coitado para descansar o pé cansado e cheio de joanete.
Mas sabe como é, a carne é fraca, a carência é grande e a pobrezinha caiu na lábia do canalha. Todo canalha tem uma lábia de que nem é bom falar, pode ter criança por perto nos ouvindo.
Durante uma semana, os amantes desfrutaram do paraíso sem pensar que a serpente poderia aparecer a qualquer momento. No final do sétimo dia apareceu uma, aliás, apareceram três cobras-corais machos peçonhentas para desmanchar o ninho de amor e pecado dos pombinhos.
Os irmãos parrudos, mal encarados e fedendo a peixe apareceram com garruchas em punho, exigindo reparação do rapto da ex-donzela. Não se sabe como eles conseguiram o endereço da pensão de quinta em que o jovem casal se hospedara em Petrópolis, mas conseguiram, e foi o maior fuzuê quando apareceram lá arrombando a porta e encontrando-os em trajes menores.
Quer dizer, na verdade já sem traje nenhum, mas isso não é para a gente ficar falando em público porque não fica nem bem…
Ao ver o casal tal qual Adão e Eva, os irmãos enfurecidos os levaram embrulhados em lençóis até a delegacia mais próxima e os forçaram a casarem-se na marra.
O escrevente ainda tentou argumentar que a garota já não era menor, mas o delegado, pai de quatro filhas, resolveu aceitar as queixas e casou-os enrolados em lençóis baratos mesmo.
Este foi o início martírio da pobrezinha. Sim, porque se fosse hoje em dia cada um desfrutaria dos pecados com outro e, depois, beijinho e tchauzinho.
Uma pouca vergonha, é o que acho.
Você não acha?
Mas, no tempo dela, casamento era para sempre, ou pelo menos até que a morte os separasse. Um tinha que aguentar o outro até o final, e a coitadinha ficou atrelada àquele canalha por anos e anos.
Você precisava ver. Foram morar numa pocilga destas bem infectadas mesmo. Os irmãos não os aceitaram, mesmo tendo eles casados perante a Justiça. Não, não aceitaram, e os recém-casados foram morar numa cabeça de porco.
Tudo bem que ela não vivia na abastança na casa antiga, mas também não estava acostumada à penúria que encontrou.
Coitada… tsiu, tsiu, tsiu…
Ela, justamente ela, que esperava casar de véu, grinalda, flores de laranjeiras e caminhada pela nave do Outeiro da Glória, acabou em Irajá.
Por favor, não estou aqui desprezando Irajá. Não é isso. Nestes tempos em que tudo tem que ser politicamente correto, não quero meu nome em bocas de Matilde, dizendo que estou menosprezando o charmoso bairro carioca.
Não, não é isso.
O que estou tentando dizer é que ela foi morar muito longe e em condições precárias porque, naquela época, Irajá era longe para dedéu e as condições de vida dos moradores eram uma vergonha para qualquer político com um mínimo de ética e responsabilidade.
Entendeu?
Ah, então ‘tá.
É preciso explicar mesmo porque senão a gente é logo acusada de …
Calma, eu vou contar. Vou contar tudinho. Também você fica me interrompendo toda hora! Já disse que vou contar.
Onde estava mesmo?
Ah, sim, lembrei! Estava dizendo que ela casou e foi morar numa pocilga.
Precisa ver… tsiu… tsiu… tsiu… Não é à toa que se chama aquilo de joelho de porco.
Como? Ué, eu disse cabeça de porco, não disse? Disse joelho, é? Ah, mas você fica me interrompendo a toda hora, que fico atrapalhada! Afinal, você quer ou não quer escutar?! Então cale a boca e escute.
Bem, voltando: ela foi morar na cabeça de porco e lá encontrou todo tipo de miséria e podridão. Ela era uma moça pobre, mas muito limpinha, e ir para aquele lugar fez com que ela envelhecesse em seis meses o que levaria dez anos se tivesse ficado na casa da mãe, em companhia dos irmãos mosqueteiros do cais.
Logo embuchou. Acho que na primeira noite com o ainda não marido já pegou filho.
Também pudera, você já viu canalha estéril?
Eu nunca vi.
Em todos estes anos de vida, nunca vi um canalha que não deixasse atrás de si uma penca de filhos pela cidade inteira e, quiçá!, até em outros estados e países.
Uma fertilidade a toda prova, isso sim!
Depois de casado, já na primeira semana morando na pocilga, o canalha colocou as manguinhas de fora, e ela conheceu sua verdadeira face, que, apesar do charme, não era nada bonita. Só saía da cama depois do meio-dia, só chegava da rua com o dia claro, cheirando a bebida e a perfume feminino barato. Ela, que nunca precisou lavar uma meia, teve agora que virar lavadeira de roupa de cama, mesa e banho.
O pouco dinheiro que conseguia, ele levava tudo para a farra e o jóquei. Ela no início até acreditou em suas palavras de que a sorte estava lhe sorrindo naquele dia e que ele acertaria o milhar na cabeça e eles iriam mudar-se e morar na rua principal do bairro, num sobrado que ele compraria e reformaria com a bolada.
Mas os dias foram passando, e o grande amanhecer não chegava. As pernas inchavam cada vez mais, e as varizes começaram a aparecer. Quando o rebento nasceu, ela só tinha a companhia de outras lavadeiras na beira do córrego onde lhe fizeram o parto. Na verdade, era não um rebento, mas uma menina.
Não gosto de falar mal de ninguém, cruz-credo de pecar contra um anjinho, porque afinal de contas toda criança é um anjinho com aquela carinha de joelho, né mesmo? Mas cá entre nós, que ninguém nos ouça, que criança feia aquela menina que ela pariu, hem?
Cruz-credo!… Feia como a fome e a miséria que aquela pobre criaturinha teve que enfrentar, porque o canalha sequer deu uma olhada para a criança, que foi colocada num caixote de feira que lhe serviu de berço.
E não é que a mulher ainda defendia o canalha no início? Dizia que ele era um incompreendido, que passou fome, que foi largado pela mãe quando criança etc. etc. etc.
Agora me diga você: quantas pessoas você conhece que tiveram uma vida desgraçada na infância e mesmo assim se tornaram pessoas de bem?!
Uma porção, não é?
Eu mesma tenho um primo de segundo grau que…
Está bem, está bem, vou voltar à história dela, mas depois não me deixe esquecer de contar-lhe a história do meu primo Valdemar, tá?
Eu tenho a impressão de que ela o defendia assim porque ele era bom de cama. Só pode ser! Talvez ele nem fosse lá estas coisas, sabe-se lá! Mas uma mulher que conheceu os prazeres da carne tão tarde perde a cabeça quando descobre as doçuras de um chamego. Só isso pode explicar aquela defesa toda e ela se matar de trabalhar para sustentar a feia filha e o traste do canalha.
Se digo que ela o defendia provavelmente por estar envolvida nos prazeres da carne é porque, nem bem pariu a feiazinha, ainda de resguardo, embuchou de outra.
Para encurtar esta prosa, posso lhe dizer que foram cinco filhas, sim, tudo um bando de menina-mulher feia como a fome; uma seguidinha da outra, não dava nem tempo nem de respirar direito. Já embuchava no resguardo mesmo. Uma calamidade. Naquele tempo não havia estes remédios que o médico receita para evitar de as mulheres emprenharem, não. Mas sempre teve jeito de se evitar, né mesmo?
Não estou dizendo que era para tirar o anjinho, mas que ele pelo menos não fizesse filha uma atrás da outra, ainda nem bem acabado o resguardo. Ah, isso ele não devia fazer não. Isso chega até ser pecado! É o que eu acho.
Mas depois de quase quatro anos de casamento, quando estava nos últimos dias de dar à luz a caçula, a ficha dela caiu, como se diz hoje em dia, e ela viu que realmente tinha casado com um canalha, e a fantasia de que ainda viveria com ele um final feliz de filme de Hollywood foi por terra. Ela descobriu que tinha se casado com um bígamo e que não era sua primeira mulher.
Você não acredita?
Pensa que estou enfeitando a história e transformando a vida dela num dramalhão de novela mexicana?
Pois sim! Antes fosse.
A coitadinha sofreu o pão que o diabo amassou por três dias com o rabo. Passava fome, trabalhava igual a um burro de carga com as filhas agarradas à saia, tudo para não faltar o cigarro, o conhaque e o dinheiro do jóquei de Sua Alteza, o marido.
E tudo isso por quê?!
Por quê? – pergunto eu.
Porque – eu mesma respondo – o canalha era bom de cama, ou melhor, ela é que nunca tinha desfrutado de uma boa f… quer dizer, não fica bem uma mulher, uma dama como eu, ainda mais na minha idade, ficar falando palavrão.
Sou uma mãe de família, mãe amantíssima, segundo meu finado marido. Sim, aquilo é que era homem! Alfredinho chegava pontualmente todos os dias às seis horas da noite, tomava banho, comia uma papinha de batata com carne moída passada três vezes na máquina que eu lhe preparava e ficava vendo televisão até o sono chegar. Antes das dez horas da noite, já ia para a cama, onde sempre encontrava seu leitinho morno para acalmar a úlcera, que lhe escravizava a vida. Sua úlcera era tratada como gato siamês de grã-fina, tais eram o carinho e a atenção que ele lhe dedicava.
Aquilo, sim, é que era marido! Não aquele canalha com quem ela se casou e que a fez parir cinco filhas feias como a miséria humana. Eu não estou aqui para julgar ninguém, afinal de contas nem é cristã tal atitude, mas… sabe que eu acho que ela bem mereceu? É triste dizer isso, mas quem mandou sair da casa materna? Quem mandou enfrentar os irmãos? Quando a cabeça não pensa, quem paga é o corpo, já dizia minha vó Mariinha.
Ué, eu não posso ter duas avós não, é? Tinha uma que se chamava Cotinha e outra, Mariinha, dá licença, viu?
Depois que ela ficou sabendo que era a segunda mulher do bígamo e que o canalha ainda se casou outras três vezes durante os anos que eles permaneceram juntos – em sua porta apareceram as outras mulheres mostrando as certidões de casamento fajutas, mas que todas acreditavam ter alguma validade perante a lei, os homens e Deus –, ela não se separou da criatura, apesar dos pesares.
Uma decepção atrás da outra a fez envelhecer muito rapidamente. Ela, que nunca foi um primor de beleza, envelheceu em dez anos meio século, pareceu um maracujá de gaveta de tão murcho que nem valia a pena descasar e voltar para casa.
Não quero falar nada não, mas acho que ela não voltou para a casa materna por orgulho. Sim, porque só o orgulho é que deve tê-la impedido de dar o braço a torcer perante a família. Ficaram velhos juntos, viram a filha mais velha morrer atropelada por um ônibus, três casarem com estivadores do porto e uma cair na vida. Quando ele morreu, no enterro não chorou. Não demonstrou nenhuma emoção por enterrar o pai de suas filhas e o genitor de tantos outros filhos que ela nem sabia quantos.
Antes de descer o caixão, ao invés de jogar uma flor, como assim o fazem muitas viúvas, ela apenas juntou saliva na boca e lhe deu uma grande cusparada na portinha do caixão, onde fica o rosto, e disse em voz alta para todos ouvirem:
– Vá para o quinto dos infernos, canalha!
Uma triste história, não? Esta é a vida… A vida como ela é.
Nem todo mundo tem a sorte que tive em encontrar um marido como o meu Alfredinho. Aquilo, sim, é que era homem!
Mas aonde você vai?
Ainda é cedo. Eu ainda não contei o caso do meu primo Valdemar! Este, sim, teve uma história triste, mas com um final feliz! Sabe, quando meu primo Valdemar nasceu…
sábado, 7 de janeiro de 2012
MACHO ALFA
As mulheres estão aí, mostrando para o que vieram: dinâmicas, independentes, senhoras de si e do mundo. Mas, no que diz respeito ao quesito relacionamento com homens, tudo como antes no quartel dos Abrantes. A maioria se queixa de que falta homem no pedaço, que só encontra homem casado, que casais monogâmicos só vemos em novelas ou entre os que são homossexuais etc., etc., etc..
Perfeitamente compreensível, já que as mulheres mudaram, mas os homens nem sempre. Acredito que os homens não sabem o que fazer com esta nova mulher. Afinal, foram milênios de comportamento feminino muito diferente do que vemos hoje. Não se iludam, meninos: as mulheres sempre comandaram o jogo, a diferença e que não era tão visível assim.
Por isso, aqui vão algumas dicas do que uma parcela significativa de mulheres procura num homem. Não digo todas as mulheres porque sempre encontraremos as do contra. Além disso, nem todas são fêmeas alfas, e também porque não quero ficar aqui ditando regras e dizendo que sei mais do que qualquer um.
Não é isso. São apenas – como direi? – sugestões para você encontrar uma garota legal e ser feliz para sempre, até que o massacre do dia a dia estremeça as bases do coração e chegue o tempo da famosa DROP – Discutindo a Relação Outra vez, Porra!
Tenho cá minhas teorias sobre casais que dão certo. São apenas teorias, e nenhuma grande universidade como Oxford comprovou minha tese. Mas vamos lá.
Na natureza temos os chamados machos alfas. A biologia diz que entre animais superiores – como leões, lobos, primatas – existe a figura do macho alfa, que é o líder. Segundo definição do site Wikipédia, este tipo de macho tem força, habilidade para caçar, facilidade de tomar decisões, personalidade marcante e bravura. O macho é acompanhado pela fêmea alfa e, juntos, demonstram sua autoridade. Ela é sua PARCEIRA.
O problema é que cada vez mais mulheres estão se transformando em fêmeas alfas, e os homens… bem, os homens andam um tanto ou quanto perdidos perante esta nova mulher. “O que fazer?” – indagam-se alguns.
Revisemos a definição encontrada no Wikipédia; também aproveitei para acrescentar alguns pontos que acho importantes:
Autêntico – Se você não é um macho alfa, tudo bem. Afinal, não existem só fêmeas alfas. Mas, por favor, queeeeerido, nunca se faça passar por aquilo que você não é. A mulher, qualquer que seja a fêmea em questão (Alfa, Ômega, Beta ou mesmo Gama), logo descobrirá, fácil, fácil. Nenhuma pessoa consegue manter o personagem com a vivência dos dias.
Eu não estou dizendo que por isso qualquer macho, de qualquer outra categoria, vá ter que amargar o resto dos seus dias sem uma fêmea do lado. Não. Cada chinelo velho encontrará o seu par num pé cansado. Você encontrará sua parceira. Acredite.
O que estou dizendo é que não dá para tentar ser macho alfa sem o ser. Isso os cafajestes é o que fazem e, COM CERTEZA, macho alfa não é cafajeste.
É o líder – Uma amiga disse que leu não sabia onde de que o macho alfa tem uma mão que guia. Sempre. É verdade. Se o casal sai, ele sutilmente guia a mulher com as mãos nas costas ou no cotovelo ou, melhor ainda, na nuca. Macho alfa não deixa sua fêmea solta por aí, não; ele cuida do que é dele e pronto. Não de forma possessiva, ciumenta, dando vexame. Cuida com firmeza. Ele demarca o território com pequenos gestos como este. Acredite.
Vaidade – Ok, macho é vaidoso. A natureza está aí para provar que o pavão tem toda aquela plumagem para atrair a fêmea. Certo. Concordo. Concordo, mas em parte. Estamos falando do macho alfa da espécie humana e como o homem não precisa mais comer como as mãos, semelhantemente aos demais primatas – já inventou os talheres e os pratos – poderá, por isso, demonstrar sua ‘plumagem’ de forma mais ‘amena’. O ‘homo erectus sapiens’ não precisa ser um pavão.
Macho alfa não disputa com a mulher espaço no espelho. Seu porta-joias não será do mesmo tamanho que o da sua fêmea; na verdade, ele não terá porta-joias. Não precisará, porque não usa brinco(s), anel(is), pulseira(s), colar(es), tudo isso junto.
Se ele usa creme, é por recomendação médica. Filtro solar, tudo bem; qualquer pessoa, de qualquer idade, deve usar desde o momento em que nasce. Gente com pele seca também, independente de ser macho ou fêmea.
O que estou tratando aqui é do macho alfa: sua mão não tem esmalte (base), ele não rói unha. A mão pode ser bem cuidada, assim como os pés, mas por um podólogo, e nunca por uma manicure.
Aí os vaidosos poderão dizer:
- Ah, mas se as mulheres conquistaram o direito de usar calças, os homens também podem usar joias e passar creme.
Tudo bem, também acredito nisso. Afinal, não é o buraco da orelha que dirá que um homem é macho ou não. Não é isso que estou dizendo, o que estou explanando é sobre o
MACHO ALFA, e macho alfa que se preza não usa isso não, vai me desculpar. Unhas grandes, nem pensar! E não adianta dizer que toca violão e por isso que as deixam grandes. Não. Macho alfa tem as unhas cortadas, limpas. Não precisam de mais nada.
Outra coisa, meninos, cuidado com o quesito perfume: tem mulher que gosta, tem mulher que não gosta e tem ainda as que são alérgicas.
A dica: se você não conhece bem a mulher em questão, melhor ir aos primeiros encontros usando uma boa loção pós-barba e um desodorante sem odor. Fêmea que é fêmea adora cheiro de macho, seja ele de qualquer espécie, por isso confie no que dizem os antigos: um homem prevenido vale por dois.
Força – Atenção, marombeiros de plantão: não se trata de força física exclusivamente, não, viram? Claro que é legal ter ao seu lado um macho que seja capaz de carregar uma escada para trocar a lâmpada da cozinha, mas não é apenas de força física que se trata aqui.
Tem um poema de Vinícius de Moraes chamado ‘Para viver um grande amor’, que é lindo e ensina direitinho. Vininha (perdoe-me a familiaridade com que trato o poeta, mas a mim ele é muito caro e vêm daí essas intimidades que tomo) já escrevia: “Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito – peito de remador.”
Antes de mais nada, quero dizer uma coisa ao mestre:
– A bênção, mestre, você faz uma falta danada!
Voltando:
O que é peito de remador? Quem faz remo ou já reparou no peito dos caras sabe que é um peito largo. Um peito prontinho para que a fêmea alfa descanse a cabeça depois de um dia agitado, de preferência deitados numa rede. Nem precisa ser uma tarde em Itapuã, basta ter aquele peito, que na verdade pode ser fisicamente estreito, mas deve ser acolhedor.
Entenderam, meninos?
Então tá.
Facilidade de tomar decisões – As mulheres estão cada vez mais independentes, após décadas e décadas de luta por isso. Quando se ventilou a primeira vez o voto feminino, já se tinham acumulado passado séculos e séculos antes que esta voz começasse a soar pelas cidades. Tantos anos de sofrimento não podem ser jogados ao ralo.
Elas são, SIM, capazes de tomar conta de si mesmas, mas é muito bom saber que o macho alfa é o tipo de homem que ‘faz’. Não fica lá, parado como um palerma, esperando que tudo caia em suas mãos. O macho alfa tem facilidade de tomar decisões e mesmo quando ela, a fêmea, não precisa, é sempre bom contar com uma pessoa que sabe fazer.
Personalidade marcante – O macho alfa não é palhaço, mas também não é aquele cara ranzinza para quem tudo está ruim: a cerveja, o perfume, a minissaia, o tempo, o time, o… a… São inúmeras as razões para o constante mau humor de certos homens.
Bravura – macho alfa não é covarde. Mas também não é aquele tipo valentão que briga por tudo. Pit bull não é macho alfa e nunca será. Por favor: não confundam agressividade com macheza. Gente agressiva tem mais é que se tratar, buscar ajuda psicológica e/ou psiquiátrica, e usar remédio de tarja preta. Não é disso que estamos falando.
Não ser covarde é muito mais do que simplesmente cair em qualquer briga de esquina. Na espécie humana, a bravura está em aceitar as suas próprias limitações e as dos outros também. É não se levar tão a sério, é ri de si mesmo.
Habilidade para caçar – Sabe por que o macho alfa tem habilidade para caçar? Porque ele tem ‘pegada’. Mas a tal decantada e famigerada ‘pegada’ de que tanto se fala é de difícil definição. É fácil sentir; facinho, facinho; mas é muito difícil definir. Se você não é mulher ou homossexual, não entenderá o que é uma verdadeira ‘pegada’, porque nunca sofreu uma. Pode ter até sentido uma ‘pegada feminina’, mas não é a mesma coisa, não.
‘Pegada’ é uma firmeza que faz com que… ai, meu Deus, de repente ficou tão quente aqui, você não sentiu, não?!
Bem, voltando – depois de tomar um litro de água gelada, apesar da baixa temperatura que vigora no céu –, a pegada é uma firmeza.
Você conhece quando um homem tem ‘pegada’, na maneira como ele segura a mulher para beijar, antes mesmo de beijar. Ele puxa o rosto da mulher com as mãos espalmadas nas laterais de sua face. É a maneira firme como ele puxa o corpo feminino para ir de encontro do seu.
Repito: não tem agressividade nessa puxada, tem firmeza, e a boca que vai ao seu encontro e beija é… ahhhhhhhhhhh, melhor deixar pra lá. Pode haver crianças por perto e não cai bem uma escritora como eu ficar descrevendo assim as intimidades próprias ou as das outras. Melhor deixar quieto.
É como já dizia o sábio Vininha: “Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva oscura e desvairada não se souber achar a bem-amada – para viver um grande amor”.
Perfeitamente compreensível, já que as mulheres mudaram, mas os homens nem sempre. Acredito que os homens não sabem o que fazer com esta nova mulher. Afinal, foram milênios de comportamento feminino muito diferente do que vemos hoje. Não se iludam, meninos: as mulheres sempre comandaram o jogo, a diferença e que não era tão visível assim.
Por isso, aqui vão algumas dicas do que uma parcela significativa de mulheres procura num homem. Não digo todas as mulheres porque sempre encontraremos as do contra. Além disso, nem todas são fêmeas alfas, e também porque não quero ficar aqui ditando regras e dizendo que sei mais do que qualquer um.
Não é isso. São apenas – como direi? – sugestões para você encontrar uma garota legal e ser feliz para sempre, até que o massacre do dia a dia estremeça as bases do coração e chegue o tempo da famosa DROP – Discutindo a Relação Outra vez, Porra!
Tenho cá minhas teorias sobre casais que dão certo. São apenas teorias, e nenhuma grande universidade como Oxford comprovou minha tese. Mas vamos lá.
Na natureza temos os chamados machos alfas. A biologia diz que entre animais superiores – como leões, lobos, primatas – existe a figura do macho alfa, que é o líder. Segundo definição do site Wikipédia, este tipo de macho tem força, habilidade para caçar, facilidade de tomar decisões, personalidade marcante e bravura. O macho é acompanhado pela fêmea alfa e, juntos, demonstram sua autoridade. Ela é sua PARCEIRA.
O problema é que cada vez mais mulheres estão se transformando em fêmeas alfas, e os homens… bem, os homens andam um tanto ou quanto perdidos perante esta nova mulher. “O que fazer?” – indagam-se alguns.
Revisemos a definição encontrada no Wikipédia; também aproveitei para acrescentar alguns pontos que acho importantes:
Autêntico – Se você não é um macho alfa, tudo bem. Afinal, não existem só fêmeas alfas. Mas, por favor, queeeeerido, nunca se faça passar por aquilo que você não é. A mulher, qualquer que seja a fêmea em questão (Alfa, Ômega, Beta ou mesmo Gama), logo descobrirá, fácil, fácil. Nenhuma pessoa consegue manter o personagem com a vivência dos dias.
Eu não estou dizendo que por isso qualquer macho, de qualquer outra categoria, vá ter que amargar o resto dos seus dias sem uma fêmea do lado. Não. Cada chinelo velho encontrará o seu par num pé cansado. Você encontrará sua parceira. Acredite.
O que estou dizendo é que não dá para tentar ser macho alfa sem o ser. Isso os cafajestes é o que fazem e, COM CERTEZA, macho alfa não é cafajeste.
É o líder – Uma amiga disse que leu não sabia onde de que o macho alfa tem uma mão que guia. Sempre. É verdade. Se o casal sai, ele sutilmente guia a mulher com as mãos nas costas ou no cotovelo ou, melhor ainda, na nuca. Macho alfa não deixa sua fêmea solta por aí, não; ele cuida do que é dele e pronto. Não de forma possessiva, ciumenta, dando vexame. Cuida com firmeza. Ele demarca o território com pequenos gestos como este. Acredite.
Vaidade – Ok, macho é vaidoso. A natureza está aí para provar que o pavão tem toda aquela plumagem para atrair a fêmea. Certo. Concordo. Concordo, mas em parte. Estamos falando do macho alfa da espécie humana e como o homem não precisa mais comer como as mãos, semelhantemente aos demais primatas – já inventou os talheres e os pratos – poderá, por isso, demonstrar sua ‘plumagem’ de forma mais ‘amena’. O ‘homo erectus sapiens’ não precisa ser um pavão.
Macho alfa não disputa com a mulher espaço no espelho. Seu porta-joias não será do mesmo tamanho que o da sua fêmea; na verdade, ele não terá porta-joias. Não precisará, porque não usa brinco(s), anel(is), pulseira(s), colar(es), tudo isso junto.
Se ele usa creme, é por recomendação médica. Filtro solar, tudo bem; qualquer pessoa, de qualquer idade, deve usar desde o momento em que nasce. Gente com pele seca também, independente de ser macho ou fêmea.
O que estou tratando aqui é do macho alfa: sua mão não tem esmalte (base), ele não rói unha. A mão pode ser bem cuidada, assim como os pés, mas por um podólogo, e nunca por uma manicure.
Aí os vaidosos poderão dizer:
- Ah, mas se as mulheres conquistaram o direito de usar calças, os homens também podem usar joias e passar creme.
Tudo bem, também acredito nisso. Afinal, não é o buraco da orelha que dirá que um homem é macho ou não. Não é isso que estou dizendo, o que estou explanando é sobre o
MACHO ALFA, e macho alfa que se preza não usa isso não, vai me desculpar. Unhas grandes, nem pensar! E não adianta dizer que toca violão e por isso que as deixam grandes. Não. Macho alfa tem as unhas cortadas, limpas. Não precisam de mais nada.
Outra coisa, meninos, cuidado com o quesito perfume: tem mulher que gosta, tem mulher que não gosta e tem ainda as que são alérgicas.
A dica: se você não conhece bem a mulher em questão, melhor ir aos primeiros encontros usando uma boa loção pós-barba e um desodorante sem odor. Fêmea que é fêmea adora cheiro de macho, seja ele de qualquer espécie, por isso confie no que dizem os antigos: um homem prevenido vale por dois.
Força – Atenção, marombeiros de plantão: não se trata de força física exclusivamente, não, viram? Claro que é legal ter ao seu lado um macho que seja capaz de carregar uma escada para trocar a lâmpada da cozinha, mas não é apenas de força física que se trata aqui.
Tem um poema de Vinícius de Moraes chamado ‘Para viver um grande amor’, que é lindo e ensina direitinho. Vininha (perdoe-me a familiaridade com que trato o poeta, mas a mim ele é muito caro e vêm daí essas intimidades que tomo) já escrevia: “Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito – peito de remador.”
Antes de mais nada, quero dizer uma coisa ao mestre:
– A bênção, mestre, você faz uma falta danada!
Voltando:
O que é peito de remador? Quem faz remo ou já reparou no peito dos caras sabe que é um peito largo. Um peito prontinho para que a fêmea alfa descanse a cabeça depois de um dia agitado, de preferência deitados numa rede. Nem precisa ser uma tarde em Itapuã, basta ter aquele peito, que na verdade pode ser fisicamente estreito, mas deve ser acolhedor.
Entenderam, meninos?
Então tá.
Facilidade de tomar decisões – As mulheres estão cada vez mais independentes, após décadas e décadas de luta por isso. Quando se ventilou a primeira vez o voto feminino, já se tinham acumulado passado séculos e séculos antes que esta voz começasse a soar pelas cidades. Tantos anos de sofrimento não podem ser jogados ao ralo.
Elas são, SIM, capazes de tomar conta de si mesmas, mas é muito bom saber que o macho alfa é o tipo de homem que ‘faz’. Não fica lá, parado como um palerma, esperando que tudo caia em suas mãos. O macho alfa tem facilidade de tomar decisões e mesmo quando ela, a fêmea, não precisa, é sempre bom contar com uma pessoa que sabe fazer.
Personalidade marcante – O macho alfa não é palhaço, mas também não é aquele cara ranzinza para quem tudo está ruim: a cerveja, o perfume, a minissaia, o tempo, o time, o… a… São inúmeras as razões para o constante mau humor de certos homens.
Bravura – macho alfa não é covarde. Mas também não é aquele tipo valentão que briga por tudo. Pit bull não é macho alfa e nunca será. Por favor: não confundam agressividade com macheza. Gente agressiva tem mais é que se tratar, buscar ajuda psicológica e/ou psiquiátrica, e usar remédio de tarja preta. Não é disso que estamos falando.
Não ser covarde é muito mais do que simplesmente cair em qualquer briga de esquina. Na espécie humana, a bravura está em aceitar as suas próprias limitações e as dos outros também. É não se levar tão a sério, é ri de si mesmo.
Habilidade para caçar – Sabe por que o macho alfa tem habilidade para caçar? Porque ele tem ‘pegada’. Mas a tal decantada e famigerada ‘pegada’ de que tanto se fala é de difícil definição. É fácil sentir; facinho, facinho; mas é muito difícil definir. Se você não é mulher ou homossexual, não entenderá o que é uma verdadeira ‘pegada’, porque nunca sofreu uma. Pode ter até sentido uma ‘pegada feminina’, mas não é a mesma coisa, não.
‘Pegada’ é uma firmeza que faz com que… ai, meu Deus, de repente ficou tão quente aqui, você não sentiu, não?!
Bem, voltando – depois de tomar um litro de água gelada, apesar da baixa temperatura que vigora no céu –, a pegada é uma firmeza.
Você conhece quando um homem tem ‘pegada’, na maneira como ele segura a mulher para beijar, antes mesmo de beijar. Ele puxa o rosto da mulher com as mãos espalmadas nas laterais de sua face. É a maneira firme como ele puxa o corpo feminino para ir de encontro do seu.
Repito: não tem agressividade nessa puxada, tem firmeza, e a boca que vai ao seu encontro e beija é… ahhhhhhhhhhh, melhor deixar pra lá. Pode haver crianças por perto e não cai bem uma escritora como eu ficar descrevendo assim as intimidades próprias ou as das outras. Melhor deixar quieto.
É como já dizia o sábio Vininha: “Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva oscura e desvairada não se souber achar a bem-amada – para viver um grande amor”.
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
Natal
Eu me lembro muito bem de um Natal. Foi o primeiro Natal de que tive consciência ser Natal. A árvore de plástico com algodão intercalado entre as folhas era armada na sala de visitas, as bolas coloridas dependuradas buscavam reproduzir alguma árvore de novela que minha mãe assistia na TV.
Em todos os Natais lá em casa sempre teve rabanada. Meu pai era um grande aficionado pela guloseima e esperava o ano todo para comer a iguaria. Não adiantava fazer rabanada fora do Natal, ele não comia, não gostava.
Só o Natal era capaz de temperar com fantasia, esperança e amor aquele pão com leite, açúcar e canela em pó.
Eu me lembro muito bem desse Natal porque foi nele que ganhei um Ferrorama. Sempre me encantaram os trenzinhos que via nos filmes americanos. Vida de americano é uma coisa, vida de brasileiro é outra, mas o Papai Noel foi generoso naquele ano, e ganhei uma enorme caixa com trenzinhos, vagões e trilhos infinitos.
Eu me lembro muito bem do contentamento que senti. Naquele momento compreendi a alegria que meu pai tinha por ser Natal e poder comer rabanada. Meu trenzinho também veio temperado com fantasia, esperança e amor, e eu sorria, sorria, sorria na fé infantil de acreditar que nunca deixaria de sorrir.
Outros Natais vieram. Mas nunca mais um como aquele consegui viver. O trenzinho me acompanhou a infância inteira, mesmo depois de meu pai ter partido.
Eu cresci.
Tive alegrias, tive tristezas.
A vida seguiu, e hoje quando no Natal tem rabanada lá em casa penso no pai. Penso na sua alegria infantil e sinto saudades.
“Raiva de não ter trazido o passado guardado na algibeira”.
O poeta estava certo.
Em todos os Natais lá em casa sempre teve rabanada. Meu pai era um grande aficionado pela guloseima e esperava o ano todo para comer a iguaria. Não adiantava fazer rabanada fora do Natal, ele não comia, não gostava.
Só o Natal era capaz de temperar com fantasia, esperança e amor aquele pão com leite, açúcar e canela em pó.
Eu me lembro muito bem desse Natal porque foi nele que ganhei um Ferrorama. Sempre me encantaram os trenzinhos que via nos filmes americanos. Vida de americano é uma coisa, vida de brasileiro é outra, mas o Papai Noel foi generoso naquele ano, e ganhei uma enorme caixa com trenzinhos, vagões e trilhos infinitos.
Eu me lembro muito bem do contentamento que senti. Naquele momento compreendi a alegria que meu pai tinha por ser Natal e poder comer rabanada. Meu trenzinho também veio temperado com fantasia, esperança e amor, e eu sorria, sorria, sorria na fé infantil de acreditar que nunca deixaria de sorrir.
Outros Natais vieram. Mas nunca mais um como aquele consegui viver. O trenzinho me acompanhou a infância inteira, mesmo depois de meu pai ter partido.
Eu cresci.
Tive alegrias, tive tristezas.
A vida seguiu, e hoje quando no Natal tem rabanada lá em casa penso no pai. Penso na sua alegria infantil e sinto saudades.
“Raiva de não ter trazido o passado guardado na algibeira”.
O poeta estava certo.
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
Jabuticabeira - Série Eu me lembro muito bem...
Eu me lembro muito bem de uma jabuticabeira que tinha no quintal do meu tio. Era uma árvore frondosa, de raízes profundas, copa alta, uma bela espécie, que era a alegria de todos nós, crianças.
Naquela jabuticabeira brinquei de Tarzan, aprendi a subir em árvore e fazer do balanço um belo trapézio. Foi lá que dei meu primeiro beijo, no vizinho do meu tio, de cujo nome já nem me lembro.
Contudo, eu me lembro muito bem do quanto aquela jabuticabeira ficava linda quando florescia, pintando o tronco inteiro com pequenas flores brancas, que depois caiam e faziam surgir jabuticabas doces como mel, como só a infância é capaz de produzir.
Como era bom colher cada fruta, chupando e me deliciando, até alcançar os frutos mais altos e mais doces. Doces como os sonhos e as despreocupações do meu mundo sem problemas e sem contas a pagar.
Hoje moro num apartamento perdido numa grande metrópole, mas trouxe minha infância guardada na algibeira: na sacada da sala, há um vaso de bonsai onde abrigo uma muda da jabuticabeira da casa do meu tio. A miniatura me traz lembranças e saudades armazenadas na memória.
Naquela jabuticabeira brinquei de Tarzan, aprendi a subir em árvore e fazer do balanço um belo trapézio. Foi lá que dei meu primeiro beijo, no vizinho do meu tio, de cujo nome já nem me lembro.
Contudo, eu me lembro muito bem do quanto aquela jabuticabeira ficava linda quando florescia, pintando o tronco inteiro com pequenas flores brancas, que depois caiam e faziam surgir jabuticabas doces como mel, como só a infância é capaz de produzir.
Como era bom colher cada fruta, chupando e me deliciando, até alcançar os frutos mais altos e mais doces. Doces como os sonhos e as despreocupações do meu mundo sem problemas e sem contas a pagar.
Hoje moro num apartamento perdido numa grande metrópole, mas trouxe minha infância guardada na algibeira: na sacada da sala, há um vaso de bonsai onde abrigo uma muda da jabuticabeira da casa do meu tio. A miniatura me traz lembranças e saudades armazenadas na memória.
segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
Perfil de personagem para conto policial
DETETIVE – Horácio, um senhor de 64 anos que trabalha no Departamento de Direito Autoral da Biblioteca Nacional. Apesar de já ter tempo para se aposentar, não cogita a ideia. Tem uma filha que mora no exterior, com a qual não tem nenhum contato.
Viúvo, não tem parentes próximos. Mora na Rua do Catete, num apartamento de dois quartos, de frente, num prédio antigo. É um leitor voraz. É um dos responsáveis por ler documentos e cotejá-los, para assim autorizar, ou não, o direito autoral da obra. Tem forte faro para descobrir sucessos literários. Se ele diz que um texto será sucesso, invariavelmente a obra se torna best-seller.
Tem o aspecto de um senhor de terceira idade. É vaidoso, mas não ao extremo. Pinta os cabelos e, constantemente, vai ao podólogo; tem uma unha encravada, que com frequência o persegue e “dá sinal” toda vez que algum fato “diferente” ocorre. Lê muitos contos policiais. Não é gordo, mas tem uma pequena “saliência” abdominal. Usa um casaquinho leve, ao estilo antigo; a calça é social; e tem um canivete suíço que só usa para descascar as frutas que compra na rua.
CENÁRIO – O crime ocorrerá na área do Catete, Largo do Machado, início do Flamengo. O assassino não terá hora para atacar. Tem assassinado pessoas como mendigos, meninos de rua, porteiros, empregados, camelôs, balconistas. Foram assassinadas quatro pessoas pela manhã, três na hora do almoço, duas à tarde, e cinco à noite (início da madrugada). Das catorze vítimas, oito eram mulheres, quatro crianças e dois homens, sendo estes pessoas da terceira idade.
Viúvo, não tem parentes próximos. Mora na Rua do Catete, num apartamento de dois quartos, de frente, num prédio antigo. É um leitor voraz. É um dos responsáveis por ler documentos e cotejá-los, para assim autorizar, ou não, o direito autoral da obra. Tem forte faro para descobrir sucessos literários. Se ele diz que um texto será sucesso, invariavelmente a obra se torna best-seller.
Tem o aspecto de um senhor de terceira idade. É vaidoso, mas não ao extremo. Pinta os cabelos e, constantemente, vai ao podólogo; tem uma unha encravada, que com frequência o persegue e “dá sinal” toda vez que algum fato “diferente” ocorre. Lê muitos contos policiais. Não é gordo, mas tem uma pequena “saliência” abdominal. Usa um casaquinho leve, ao estilo antigo; a calça é social; e tem um canivete suíço que só usa para descascar as frutas que compra na rua.
CENÁRIO – O crime ocorrerá na área do Catete, Largo do Machado, início do Flamengo. O assassino não terá hora para atacar. Tem assassinado pessoas como mendigos, meninos de rua, porteiros, empregados, camelôs, balconistas. Foram assassinadas quatro pessoas pela manhã, três na hora do almoço, duas à tarde, e cinco à noite (início da madrugada). Das catorze vítimas, oito eram mulheres, quatro crianças e dois homens, sendo estes pessoas da terceira idade.
domingo, 25 de dezembro de 2011
Perfil de personagem para conto policial II
DETETIVE = Marina, uma adolescente que mora em Copacabana. Tem quinze anos e vive lendo, uma CDF. Tem um amigo, Roberto, que ela chama de Betinho, um ano mais novo, que é seu vizinho.
Anda pelo bairro com facilidade. Conhece cada pedacinho do local: becos, ruelas e personagens. É filha de um bancário e uma professora de História.
Não tem irmãos. Passa a maior parte do dia sozinha. Tem uma empregada, que vai ao apartamento duas vezes na semana. Ela e seu amigo Betinho percorrem o bairro de bicicleta. A dela tem cestinha na frente. É uma adolescente atípica. Não sai para a night, não tem galera para frequentar. É uma pessoa sozinha. Mariana não tem cara de nerd.
CENÁRIO = O bairro de Copacabana. São cinco assassinatos. As vítimas são sempre senhoras, entre sessenta e setenta e cinco anos, e todas recebem, dias antes, orquídeas lilases.
CRIMINOSO = É um criminoso metódico. Antes de matar, procura conhecer o perfil de cada vítima, detalhes insignificantes, como o que gosta, que remédio toma, se tem parentes etc. Mora em Botafogo. É um homem de quarenta e dois anos. Trabalha como arquivista de um grande jornal carioca. Está sempre por dentro das notícias e frequenta constantemente as Editorias de Cidades e Polícia do veículo de comunicação. É capaz de citar cada evento, com data, dia etc. Tem memória fotográfica.
Anda pelo bairro com facilidade. Conhece cada pedacinho do local: becos, ruelas e personagens. É filha de um bancário e uma professora de História.
Não tem irmãos. Passa a maior parte do dia sozinha. Tem uma empregada, que vai ao apartamento duas vezes na semana. Ela e seu amigo Betinho percorrem o bairro de bicicleta. A dela tem cestinha na frente. É uma adolescente atípica. Não sai para a night, não tem galera para frequentar. É uma pessoa sozinha. Mariana não tem cara de nerd.
CENÁRIO = O bairro de Copacabana. São cinco assassinatos. As vítimas são sempre senhoras, entre sessenta e setenta e cinco anos, e todas recebem, dias antes, orquídeas lilases.
CRIMINOSO = É um criminoso metódico. Antes de matar, procura conhecer o perfil de cada vítima, detalhes insignificantes, como o que gosta, que remédio toma, se tem parentes etc. Mora em Botafogo. É um homem de quarenta e dois anos. Trabalha como arquivista de um grande jornal carioca. Está sempre por dentro das notícias e frequenta constantemente as Editorias de Cidades e Polícia do veículo de comunicação. É capaz de citar cada evento, com data, dia etc. Tem memória fotográfica.
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
Cumpadi Tonho
Cumpadi Tonho da Adorinda,
Qui Nosso Sinhô Jesuscristinho ti incontre na paz.
Eu tô meio assim, meio assado. Sabi como é, cumpadi, a veice chega dimodo qui a gente vai veiando e aí num tem nuvena pra Vigem qui dê conta dus osso.
Os minino tão bom, Milinha tá um tamanhão di moça-donzela, cê precisa espiá, os gavião já inté tão começando a rundar o sítio, mas cê cunhece o seu cumpadi, garrou mão da ispingada de chumbinho e uns três ou quatro saiu com o fiofó baliado.
Cumpadi, tô escrevinhando pro modi qui tu mi pidiu qui fosse lá falá com o cumpadi Zé pra ele modi dá nutíça pra vosmicê.
Eu fui, mas cê conheci o nosso cumpadi Zé, gradeceu o ricado e disse qui não caricia cê tê tanta preocupação, qui ele tá na paz di Nossa Sinhora das Dô.
O Paminondas continua o misminho di sempri, fedorento qui nem gambá, mas agente aperdoa pro modi qui ele é uma boa pessoa, tementi a Nosso Sinhô Jesuscristinho.
A Crô... bem, cumpadi, eu num caricia falá nada não, mas ela anda numa buniteza qui só espiando. Renovô, pintô de loro os cabelu pixaim e passa um batão virmeio qui nem romã. O ruge fica no meio das prega du rosto, mas ela acha buniteza, intão quem sou euzinha pra dizer qui não, né mermo, cumpadi?
Agora a Crô só anda di saia curta, aparicindo os cambito das perna. Tá bonita a danada, si ocê gosta de muié pintada assim e lora de famáça.
Teve um dia qui o meu marido ficô oiando pros cambito dela, mas aí eu dei biliscão e fui mi aqueixá com o padre Toninho da Pamonha. O padre inté falou com ele e agora ele zoia só cum o rabo do ói pros cambito da Crô.
É isso, cumpadi. O Zé tá bem, com saúde e amandou dizê qui não caricia pedi resposta pra carta qui vosmicê mandou qui eu tregasse prele.
O Zé Isidoro e o Chico da Gamela manda lembrança. O Nandu du Bodi, quando faiei di vosmicê, saiu de fininho, fininho, disconversando. É sim mermo esse vidão di meu Deus, né cumpadi?
A vó Ninha mandou dá a benção pro cê, viu? Lembraça pra cumadi.A bênção pros minino.De sua cumadi, Cremirda
* Este texto é uma parceria com o cumpadi Germano Ribeiro, que fez a história que está no link http://www.recantodasletras.com.br/humor/3378427Leia, comente, divulgue.
Qui Nosso Sinhô Jesuscristinho ti incontre na paz.
Eu tô meio assim, meio assado. Sabi como é, cumpadi, a veice chega dimodo qui a gente vai veiando e aí num tem nuvena pra Vigem qui dê conta dus osso.
Os minino tão bom, Milinha tá um tamanhão di moça-donzela, cê precisa espiá, os gavião já inté tão começando a rundar o sítio, mas cê cunhece o seu cumpadi, garrou mão da ispingada de chumbinho e uns três ou quatro saiu com o fiofó baliado.
Cumpadi, tô escrevinhando pro modi qui tu mi pidiu qui fosse lá falá com o cumpadi Zé pra ele modi dá nutíça pra vosmicê.
Eu fui, mas cê conheci o nosso cumpadi Zé, gradeceu o ricado e disse qui não caricia cê tê tanta preocupação, qui ele tá na paz di Nossa Sinhora das Dô.
O Paminondas continua o misminho di sempri, fedorento qui nem gambá, mas agente aperdoa pro modi qui ele é uma boa pessoa, tementi a Nosso Sinhô Jesuscristinho.
A Crô... bem, cumpadi, eu num caricia falá nada não, mas ela anda numa buniteza qui só espiando. Renovô, pintô de loro os cabelu pixaim e passa um batão virmeio qui nem romã. O ruge fica no meio das prega du rosto, mas ela acha buniteza, intão quem sou euzinha pra dizer qui não, né mermo, cumpadi?
Agora a Crô só anda di saia curta, aparicindo os cambito das perna. Tá bonita a danada, si ocê gosta de muié pintada assim e lora de famáça.
Teve um dia qui o meu marido ficô oiando pros cambito dela, mas aí eu dei biliscão e fui mi aqueixá com o padre Toninho da Pamonha. O padre inté falou com ele e agora ele zoia só cum o rabo do ói pros cambito da Crô.
É isso, cumpadi. O Zé tá bem, com saúde e amandou dizê qui não caricia pedi resposta pra carta qui vosmicê mandou qui eu tregasse prele.
O Zé Isidoro e o Chico da Gamela manda lembrança. O Nandu du Bodi, quando faiei di vosmicê, saiu de fininho, fininho, disconversando. É sim mermo esse vidão di meu Deus, né cumpadi?
A vó Ninha mandou dá a benção pro cê, viu? Lembraça pra cumadi.A bênção pros minino.De sua cumadi, Cremirda
* Este texto é uma parceria com o cumpadi Germano Ribeiro, que fez a história que está no link http://www.recantodasletras.com.br/humor/3378427Leia, comente, divulgue.
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
De onde vem a história?
Ás vezes, ouço alguém perguntar para quem escreve:
“De onde vem a história?”
Penso que cada escritor/roteirista/dramaturgo tenha seu 'modus operandis'.
Já participei de um curso com o escritor Raimundo Carrero – ganhador de prêmios como o Jabuti e o da Associação Paulista de Críticos de Arte – e ele disse que suas ideias vinham das experiências que ele viveu, de lembranças de criança.
Por isso, acredito que possa haver escritores que façam uma escrita confessional. Não tem nada de mais isso.
Erico Veríssimo já disse: “A verdade, porém, é que ninguém se livra de suas próprias lembranças, nem de velhas idiossincrasias, malquerença e desejos recalcados. E, quando se trata dum romancista, essas impurezas mais tarde ou mais cedo acabam aparecendo na face ou na alma de seus personagens”.
Outro que disse algo semelhante foi Fellini: “Toda arte é autobiográfica; a pérola é a autobiografia da ostra”.
Contudo, tal possibilidade (como já disse uma roteirista amiga minha) pode gerar uma catarse pública disfarçada, porque aí, sim, a pessoa torna-se autor de uma única história.
Mas acredito que seja possível escrever de maneira pessoal e com qualidade. Mas o sucesso, com essa prática, é mais complicado.
Já disseram (não me lembro quem) que existem no mundo ficcional apenas seis ou sete temas e o que o resto é apenas uma repetição desses. Trabalho, pois, com esta possibilidade de alguém fazer da escrita uma confissão, apesar de concordar com a advertência de minha amiga de que o escritor pode se tornar autor de uma única história.
Eu, particularmente, não faço da minha escrita um ato de confissão porque o que adoro mesmo é criar, encontrar uma solução para a questão que levantei e a palavra certa para desenvolver o texto até o seu grande final.
Muitas vezes escrevo algo e os amigos e conhecidos ficam procurando meus sentimentos e vivências no que escrevi. Se ‘tô num dia bom, relevo. Se não, devo confessar que fico um pouco irritada, porque 90% do que escrevo não é autoral/pessoal.
Não sou o tipo de pessoa que tem amor pela adrenalina, por isso nunca tive o desejo de fazer rapel ou praticar esportes radicais. Não é a minha praia. Odeio salto alto, porque não quero ficar longe do chão.
Contudo, no campo da criação, adoro quando alguém me dá um tema (na faculdade tive vários) e sou desafiada a construir em cima desse, sem ter grandes envolvimentos emocionais com a questão. Porque o “barato” é criar. Claro que às vezes tenho mais facilidade, e outras vezes não, para desenvolver o tema dado.
Então, “de onde vem a história” da Carla?
Normalmente, minhas ideias vêm da observação da vida ou mesmo de uma coisa que entendi errado.
Darei um exemplo: o texto que fiz chamado O peso do nome, que tenho a ideia de roteirizar, surgiu de uma reportagem que ouvi. Estava fazendo o meu almoço na cozinha e deixei a televisão ligada. Escutei que algum atleta – até hoje não sei qual a modalidade dele – estava oferecendo sua vitória aos filhos Yasmim e Yago. Pensei:
- Nossa, que nome pesado para dar a um filho, Yago!
Logo em seguida pensei:
- Não, não é pesado, porque nem todo mundo sabe que Yago é a personificação da maldade em Otelo de Shakespeare.
E continuei raciocinando:
- Mas se fosse Caim…
E assim nasceu a história dos gêmeos idênticos Caim e Abel, que são do interior do Nordeste. O misbehavior de Caim é provar que ele não é o lado negro da dupla.
Outra vez, estava vendo a propaganda política (AMOOOOOO ver a propaganda política!!!!!) e entendi errado o nome do candidato. Era alguma coisa terminada em “ão”, tipo Macedão, Robertão… e entendi Carnegão. Aí pensei:
- Ninguém merece ter um apelido deste!
Depois que tive a certeza de que o cara não tinha o apelido de Carnegão (aparece o nome da criatura em legenda embaixo, né?), pensei:
- Como seria um cara que tivesse o apelido de Carnegão?
Daí surgiu a ideia para outra história, que batizei com o nome de Carnegão.
Sou apaixonada pela palavra e não preciso de muito esforço para sentar e escrever.
Também a prática da minha profissão – sou jornalista – faz com que não fique esperando a “inspiração baixar” para sentar e escrever.
Tenho dezoito anos de graduação e, desde o primeiro ano da faculdade – na verdade, já no primeiro semestre – consegui meu primeiro estágio/emprego. Por isso, são vinte e dois anos de prática.
O jornalista não tem essa de esperar ficar “inspirado”.
Ao longo desses vinte e dois anos, a minha maior experiência tem sido na editoria de política. Amo escrever sobre política e entrevistar os políticos, porque vejo que tudo não passa de um grande teatro: tem o mocinho, o vilão, o cenário, o poderoso chefão, as peripécias, os desencontros, as intrigas; tem de tudo, e esses papéis não são fixos: quem hoje é mocinho amanhã poderá transformar-se num grande vilão.
Pois então, sempre escrevi para a editoria de política. Então imagine-se a situação: meu editor me manda cobrir um “pega pra capar” na câmara ou na assembleia legislativa. Vou, presencio toda a situação, entrevisto os personagens envolvidos, depois chego à redação e digo para o meu chefe:
- Ah, hoje não ‘tô inspirada, não!
É lógico que ele me mandará falar com o departamento pessoal, porque estou na profissão errada. Jornalista tem que sentar e escrever, independente de ter dor de dente, de ter brigado com a sogra, de a mulher/marido ter dormido de calça jeans e/ou tudo isso junto e misturado. Claro que há dias em que o texto “flui” com mais facilidade.
Tive um amado, idolatrado, salve, salve, editor que dizia:
- Na nossa profissão, nem todo dia dá pra inventar a pólvora, mas todo dia tem que ter explosão.
Assim, com esta prática nas costas, eu sento e escrevo.
Não pensem que estou aqui me “gabando”, mas sim constatando um fato de quem atua na área, jornalista que trabalha em veículo diário.
Há quem argumente ainda que se você não encontra um vínculo emocional com a história, a tarefa poderá tornar-se insuportável.
No meu caso, não preciso ter envolvimento emocional com o tema, porque tenho o envolvimento emocional com a criação.
Acabei de escrever meu romance, é a história de um velho chamado Leocardio, que conta sua vida, relembrando o passado. Levei quatro anos, quase quatro anos e meio, para terminá-lo e tenho que confessar que Leocardio se tornou um grande amor de minha vida.
Sou apaixonada pelo velhinho. Sentar-me à frente do micro e escrever sua história sempre foi motivo de alegria. Ele se transformou numa “entidade” real. Se alguém me perguntar qual é o tipo de cueca que ele usa, saberei dizer. Bem sei que pode parecer bobeira, mas aquele papo de que o personagem toma forma de tal maneira que é ele que conduz a história, e não o escritor, é verdade.
Barthes tem uma explicação para isso: “Mais tarde, o personagem, que até então não passava de um nome, de um agente de uma ação, ganhou uma consistência psicológica, tornou-se um indivíduo, uma pessoa, em resumo, um ser plenamente constituído, mesmo quando nada fizesse, e, bem entendido, mesmo antes de agir, o personagem deixou de estar subordinado à ação, encarnou imediatamente a essência psicológica”.
Acredito que Leocardio tenha-se tornado esta presença real em minha vida porque a criação dele foi baseada em premissas filosóficas, para que pudesse construir sua essência psicológica.
Tive um professor amado, o Zé Carvalho, que uma vez disse: “Todo texto que fica é porque tem um princípio filosófico por trás”.
Concordo com o genial Zé.
Ninguém precisa ter noções de filosofia, saber, por exemplo, que para os sofistas a verdade é ilusória, múltipla, mutável e relativa. Que, para eles, a verdade pode mudar com o tempo, e o consenso a sobrepõe, já que ela em si não existe. O que há é um consenso entre as pessoas, e por isso é preciso levar em conta as circunstâncias históricas, culturais e sociais. E que cada sociedade em cada época terá seu consenso, não existindo a verdade/a essência das coisas.
Não é preciso saber que os sofistas apresentam o embrião da visão pragmática do significado. Por exemplo: a palavra 'rosa' é aquilo que se convencionou chamar de 'rosa'. Ela poderia chamar-se pedregulho, ‘aspissim’ ou mesmo ‘cronolongodia’, pois o significado está no uso dentro de um contexto, não existindo em cada palavra um significado a ela associado que seja a essência daquilo que está na realidade, havendo um abismo entre o real e a linguagem, no qual esta é soberana.
Ninguém precisa compreender que, na visão dos sofistas, a linguagem é um brinquedo, ela faz ser o que diz, ainda que os sofistas não neguem efeitos do real; antes, sugerem que a convicção sobre o real é feita na linguagem.
Também não é preciso conhecer que para os socráticos a verdade é real, única, universal, fixa e eterna. Que eles acreditam que o consenso se subordina à verdade, já que esse pode estar errado. Que as opiniões são somente opiniões, que não alcançam a verdade, a essência das coisas e que, por isso, para eles, a linguagem tem como objetivo ser um sistema de representação.
Sim, você não precisa saber nada disso para ler Romeu e Julieta e se emocionar com a cena do balcão em que Julieta assim declara:
JULIETA:
Oh, Romeu, Romeu! Por que és Romeu?
Renega teu pai e recusa teu nome;
Ou, se não quiseres, jura-me somente que me amas,
E não mais serei uma Capuleto.
ROMEU [à parte]:
Continuarei a ouvi-la ou devo falar-lhe agora?
JULIETA:
Somente teu nome é meu inimigo.
Tu és tu mesmo, sejas ou não um Montecchio.
Que é um Montecchio? Não é mão, nem pé,
Nem braço, nem rosto. Oh! Sê qualquer outro nome
Pertencente a um homem.
Que há em um nome? O que chamamos rosa
Com qualquer outro nome exalaria o mesmo perfume.
Assim, Romeu, se Romeu não se chamasse,
Conservaria essa cara perfeição que possui
Sem o rótulo. Romeu, despoja-te de teu nome;
E pelo teu nome, que não faz parte de ti, toma-me toda inteira!
Reafirmo: ninguém precisa saber da esgrima intelectual entre sofistas e socráticos para apreciar esse texto. Mesmo sem saber nada disso, a pessoa poderá dizer:
- Soberbo! Maravilhoso!
Agora se souber, continuará dizendo:
- Soberbo! Maravilhoso! Esse tal de Shakespeare é realmente O cara!
Não sei se minha história do Leocardio ficará, como argumentou o Zé Carvalho, de que todo texto bom fica porque tem um fundo filosófico. Mas construí o meu personagem em cima de duas premissas, duas perguntas que fiz (e conforme aquela propaganda da TV que diz que o que move o mundo são as perguntas e não as respostas, tenho esperança de que meu texto fique).
Leocardio tem uma grande amiga, Mariinha, que diz que ele é um chuchu na vida: sem gosto, sem sal, sem tempero.
O nome de Leocardio surgiu quando esta personagem escrevia no seu diário a definição desse amigo de longa data. A definição de Mariinha ficou martelando em minha cabeça. Na mesma semana em que escrevi sobre ela, assisti a uma aula de Cultura Religiosa na PUC (todos os alunos têm que fazer essa matéria, independente da graduação que cursem) na qual a professora disse que o homem nasceu para encontrar Deus. Fiquei pensando:
- E quem não encontra Deus, como fica?
Afinal, a maioria das pessoas acredita em alguma coisa, mesmo que não seja nesse Deus constituído pela igreja. Existem pessoas que acreditam em Alá, Jeová, Buda, no Sol, na Lua, na Força Cósmica, no comunismo, no socialismo ou mesmo na força do homem. Mas acreditam. E quem não acredita em nada? Por que alguém se tornaria um chuchu na vida?
Em cima dessas duas premissas desenvolvi a história do Leocardio. O romance está pronto e são quase duzentas páginas. O tempo dirá se a história ficará ou não. Como já disse, tenho esperança.
Aí alguém poderá argumentar:
- Mas você está envolvida emocionalmente com a história que criou.
Sim, porque fiquei instigada com as duas perguntas que me fiz. Contudo, torno a dizer: meu primeiro envolvimento emocional é com a criação; o envolvimento com o tema se torna secundário, ele pode surgir (como neste caso, já que as perguntas são instigantes), ou não.
E você? De onde vem a sua história?
“De onde vem a história?”
Penso que cada escritor/roteirista/dramaturgo tenha seu 'modus operandis'.
Já participei de um curso com o escritor Raimundo Carrero – ganhador de prêmios como o Jabuti e o da Associação Paulista de Críticos de Arte – e ele disse que suas ideias vinham das experiências que ele viveu, de lembranças de criança.
Por isso, acredito que possa haver escritores que façam uma escrita confessional. Não tem nada de mais isso.
Erico Veríssimo já disse: “A verdade, porém, é que ninguém se livra de suas próprias lembranças, nem de velhas idiossincrasias, malquerença e desejos recalcados. E, quando se trata dum romancista, essas impurezas mais tarde ou mais cedo acabam aparecendo na face ou na alma de seus personagens”.
Outro que disse algo semelhante foi Fellini: “Toda arte é autobiográfica; a pérola é a autobiografia da ostra”.
Contudo, tal possibilidade (como já disse uma roteirista amiga minha) pode gerar uma catarse pública disfarçada, porque aí, sim, a pessoa torna-se autor de uma única história.
Mas acredito que seja possível escrever de maneira pessoal e com qualidade. Mas o sucesso, com essa prática, é mais complicado.
Já disseram (não me lembro quem) que existem no mundo ficcional apenas seis ou sete temas e o que o resto é apenas uma repetição desses. Trabalho, pois, com esta possibilidade de alguém fazer da escrita uma confissão, apesar de concordar com a advertência de minha amiga de que o escritor pode se tornar autor de uma única história.
Eu, particularmente, não faço da minha escrita um ato de confissão porque o que adoro mesmo é criar, encontrar uma solução para a questão que levantei e a palavra certa para desenvolver o texto até o seu grande final.
Muitas vezes escrevo algo e os amigos e conhecidos ficam procurando meus sentimentos e vivências no que escrevi. Se ‘tô num dia bom, relevo. Se não, devo confessar que fico um pouco irritada, porque 90% do que escrevo não é autoral/pessoal.
Não sou o tipo de pessoa que tem amor pela adrenalina, por isso nunca tive o desejo de fazer rapel ou praticar esportes radicais. Não é a minha praia. Odeio salto alto, porque não quero ficar longe do chão.
Contudo, no campo da criação, adoro quando alguém me dá um tema (na faculdade tive vários) e sou desafiada a construir em cima desse, sem ter grandes envolvimentos emocionais com a questão. Porque o “barato” é criar. Claro que às vezes tenho mais facilidade, e outras vezes não, para desenvolver o tema dado.
Então, “de onde vem a história” da Carla?
Normalmente, minhas ideias vêm da observação da vida ou mesmo de uma coisa que entendi errado.
Darei um exemplo: o texto que fiz chamado O peso do nome, que tenho a ideia de roteirizar, surgiu de uma reportagem que ouvi. Estava fazendo o meu almoço na cozinha e deixei a televisão ligada. Escutei que algum atleta – até hoje não sei qual a modalidade dele – estava oferecendo sua vitória aos filhos Yasmim e Yago. Pensei:
- Nossa, que nome pesado para dar a um filho, Yago!
Logo em seguida pensei:
- Não, não é pesado, porque nem todo mundo sabe que Yago é a personificação da maldade em Otelo de Shakespeare.
E continuei raciocinando:
- Mas se fosse Caim…
E assim nasceu a história dos gêmeos idênticos Caim e Abel, que são do interior do Nordeste. O misbehavior de Caim é provar que ele não é o lado negro da dupla.
Outra vez, estava vendo a propaganda política (AMOOOOOO ver a propaganda política!!!!!) e entendi errado o nome do candidato. Era alguma coisa terminada em “ão”, tipo Macedão, Robertão… e entendi Carnegão. Aí pensei:
- Ninguém merece ter um apelido deste!
Depois que tive a certeza de que o cara não tinha o apelido de Carnegão (aparece o nome da criatura em legenda embaixo, né?), pensei:
- Como seria um cara que tivesse o apelido de Carnegão?
Daí surgiu a ideia para outra história, que batizei com o nome de Carnegão.
Sou apaixonada pela palavra e não preciso de muito esforço para sentar e escrever.
Também a prática da minha profissão – sou jornalista – faz com que não fique esperando a “inspiração baixar” para sentar e escrever.
Tenho dezoito anos de graduação e, desde o primeiro ano da faculdade – na verdade, já no primeiro semestre – consegui meu primeiro estágio/emprego. Por isso, são vinte e dois anos de prática.
O jornalista não tem essa de esperar ficar “inspirado”.
Ao longo desses vinte e dois anos, a minha maior experiência tem sido na editoria de política. Amo escrever sobre política e entrevistar os políticos, porque vejo que tudo não passa de um grande teatro: tem o mocinho, o vilão, o cenário, o poderoso chefão, as peripécias, os desencontros, as intrigas; tem de tudo, e esses papéis não são fixos: quem hoje é mocinho amanhã poderá transformar-se num grande vilão.
Pois então, sempre escrevi para a editoria de política. Então imagine-se a situação: meu editor me manda cobrir um “pega pra capar” na câmara ou na assembleia legislativa. Vou, presencio toda a situação, entrevisto os personagens envolvidos, depois chego à redação e digo para o meu chefe:
- Ah, hoje não ‘tô inspirada, não!
É lógico que ele me mandará falar com o departamento pessoal, porque estou na profissão errada. Jornalista tem que sentar e escrever, independente de ter dor de dente, de ter brigado com a sogra, de a mulher/marido ter dormido de calça jeans e/ou tudo isso junto e misturado. Claro que há dias em que o texto “flui” com mais facilidade.
Tive um amado, idolatrado, salve, salve, editor que dizia:
- Na nossa profissão, nem todo dia dá pra inventar a pólvora, mas todo dia tem que ter explosão.
Assim, com esta prática nas costas, eu sento e escrevo.
Não pensem que estou aqui me “gabando”, mas sim constatando um fato de quem atua na área, jornalista que trabalha em veículo diário.
Há quem argumente ainda que se você não encontra um vínculo emocional com a história, a tarefa poderá tornar-se insuportável.
No meu caso, não preciso ter envolvimento emocional com o tema, porque tenho o envolvimento emocional com a criação.
Acabei de escrever meu romance, é a história de um velho chamado Leocardio, que conta sua vida, relembrando o passado. Levei quatro anos, quase quatro anos e meio, para terminá-lo e tenho que confessar que Leocardio se tornou um grande amor de minha vida.
Sou apaixonada pelo velhinho. Sentar-me à frente do micro e escrever sua história sempre foi motivo de alegria. Ele se transformou numa “entidade” real. Se alguém me perguntar qual é o tipo de cueca que ele usa, saberei dizer. Bem sei que pode parecer bobeira, mas aquele papo de que o personagem toma forma de tal maneira que é ele que conduz a história, e não o escritor, é verdade.
Barthes tem uma explicação para isso: “Mais tarde, o personagem, que até então não passava de um nome, de um agente de uma ação, ganhou uma consistência psicológica, tornou-se um indivíduo, uma pessoa, em resumo, um ser plenamente constituído, mesmo quando nada fizesse, e, bem entendido, mesmo antes de agir, o personagem deixou de estar subordinado à ação, encarnou imediatamente a essência psicológica”.
Acredito que Leocardio tenha-se tornado esta presença real em minha vida porque a criação dele foi baseada em premissas filosóficas, para que pudesse construir sua essência psicológica.
Tive um professor amado, o Zé Carvalho, que uma vez disse: “Todo texto que fica é porque tem um princípio filosófico por trás”.
Concordo com o genial Zé.
Ninguém precisa ter noções de filosofia, saber, por exemplo, que para os sofistas a verdade é ilusória, múltipla, mutável e relativa. Que, para eles, a verdade pode mudar com o tempo, e o consenso a sobrepõe, já que ela em si não existe. O que há é um consenso entre as pessoas, e por isso é preciso levar em conta as circunstâncias históricas, culturais e sociais. E que cada sociedade em cada época terá seu consenso, não existindo a verdade/a essência das coisas.
Não é preciso saber que os sofistas apresentam o embrião da visão pragmática do significado. Por exemplo: a palavra 'rosa' é aquilo que se convencionou chamar de 'rosa'. Ela poderia chamar-se pedregulho, ‘aspissim’ ou mesmo ‘cronolongodia’, pois o significado está no uso dentro de um contexto, não existindo em cada palavra um significado a ela associado que seja a essência daquilo que está na realidade, havendo um abismo entre o real e a linguagem, no qual esta é soberana.
Ninguém precisa compreender que, na visão dos sofistas, a linguagem é um brinquedo, ela faz ser o que diz, ainda que os sofistas não neguem efeitos do real; antes, sugerem que a convicção sobre o real é feita na linguagem.
Também não é preciso conhecer que para os socráticos a verdade é real, única, universal, fixa e eterna. Que eles acreditam que o consenso se subordina à verdade, já que esse pode estar errado. Que as opiniões são somente opiniões, que não alcançam a verdade, a essência das coisas e que, por isso, para eles, a linguagem tem como objetivo ser um sistema de representação.
Sim, você não precisa saber nada disso para ler Romeu e Julieta e se emocionar com a cena do balcão em que Julieta assim declara:
JULIETA:
Oh, Romeu, Romeu! Por que és Romeu?
Renega teu pai e recusa teu nome;
Ou, se não quiseres, jura-me somente que me amas,
E não mais serei uma Capuleto.
ROMEU [à parte]:
Continuarei a ouvi-la ou devo falar-lhe agora?
JULIETA:
Somente teu nome é meu inimigo.
Tu és tu mesmo, sejas ou não um Montecchio.
Que é um Montecchio? Não é mão, nem pé,
Nem braço, nem rosto. Oh! Sê qualquer outro nome
Pertencente a um homem.
Que há em um nome? O que chamamos rosa
Com qualquer outro nome exalaria o mesmo perfume.
Assim, Romeu, se Romeu não se chamasse,
Conservaria essa cara perfeição que possui
Sem o rótulo. Romeu, despoja-te de teu nome;
E pelo teu nome, que não faz parte de ti, toma-me toda inteira!
Reafirmo: ninguém precisa saber da esgrima intelectual entre sofistas e socráticos para apreciar esse texto. Mesmo sem saber nada disso, a pessoa poderá dizer:
- Soberbo! Maravilhoso!
Agora se souber, continuará dizendo:
- Soberbo! Maravilhoso! Esse tal de Shakespeare é realmente O cara!
Não sei se minha história do Leocardio ficará, como argumentou o Zé Carvalho, de que todo texto bom fica porque tem um fundo filosófico. Mas construí o meu personagem em cima de duas premissas, duas perguntas que fiz (e conforme aquela propaganda da TV que diz que o que move o mundo são as perguntas e não as respostas, tenho esperança de que meu texto fique).
Leocardio tem uma grande amiga, Mariinha, que diz que ele é um chuchu na vida: sem gosto, sem sal, sem tempero.
O nome de Leocardio surgiu quando esta personagem escrevia no seu diário a definição desse amigo de longa data. A definição de Mariinha ficou martelando em minha cabeça. Na mesma semana em que escrevi sobre ela, assisti a uma aula de Cultura Religiosa na PUC (todos os alunos têm que fazer essa matéria, independente da graduação que cursem) na qual a professora disse que o homem nasceu para encontrar Deus. Fiquei pensando:
- E quem não encontra Deus, como fica?
Afinal, a maioria das pessoas acredita em alguma coisa, mesmo que não seja nesse Deus constituído pela igreja. Existem pessoas que acreditam em Alá, Jeová, Buda, no Sol, na Lua, na Força Cósmica, no comunismo, no socialismo ou mesmo na força do homem. Mas acreditam. E quem não acredita em nada? Por que alguém se tornaria um chuchu na vida?
Em cima dessas duas premissas desenvolvi a história do Leocardio. O romance está pronto e são quase duzentas páginas. O tempo dirá se a história ficará ou não. Como já disse, tenho esperança.
Aí alguém poderá argumentar:
- Mas você está envolvida emocionalmente com a história que criou.
Sim, porque fiquei instigada com as duas perguntas que me fiz. Contudo, torno a dizer: meu primeiro envolvimento emocional é com a criação; o envolvimento com o tema se torna secundário, ele pode surgir (como neste caso, já que as perguntas são instigantes), ou não.
E você? De onde vem a sua história?
quarta-feira, 30 de novembro de 2011
Orelha
Jurandir nasceu sem a orelha esquerda. Isso fez com que desde moleque deixasse o cabelo mais longo do que os outros garotos. No tempo dele, não era comum menino ter cabelo comprido, mas Jurandir se conformava porque era melhor a gozação dos guris do que todos saberem da falta do órgão da audição.
Quando algum adulto perguntava o porquê do cabelo maior do que os outros, logo dizia que era promessa da mãe, que tinha morrido. O adulto anuía com a cabeça, como se compreendesse tudo, e o deixava em paz.
Mentira dele, é claro.
A pobre da mulher sequer teve tempo de dizer qualquer coisa, pois Jurandir mal acabou de nascer, sua genitora bateu as botas, indo desta para uma vida melhor, conforme dizem os antigos. Jurandir não acredita em vida melhor depois da morte, mas…
Bem, mas não era sobre isso que estava contando, e sim da falta da orelha esquerda do dito cujo: apesar de ter somente uma orelha, não havia no mundo quem escutasse melhor. Nunca houve na história deste país e jamais haverá outro que ouça tão bem quanto Jurandir.
Sabe aqueles cachorros de raça, que nascem pela mistura de um bravo com outro “ainda muito mais pior de ruim” e que faz nascer filhotes de raça pura? Pois é. Jurandir era assim. Quer dizer… não vá pensar que Jurandir fosse um cachorro.
Não, não é isso.
O que estou tentando explicar é que sua audição era supimpa. Se um cão desses é capaz de ouvir o tique-taque de um relógio numa noite estrelada a um quilômetro de distância, Jurandir era capaz de ouvir o mesmo barulho com dez quilômetros.
Não, não é mentira, não.
Eu juro pra você.
Juro mesmo.
Seu ouvido era tão potente, que parecia uma orelha biônica.
Teve uma vez que ele escutou dois malandros planejando roubar uma velhinha da Rua Barbosa Lima. Não é que Jurandir escutou e tratou de salvar a anciã dos pilantras? Digo e repito: audição como a de Jurandir nunca vi ou ouvi falar. E duvido que alguém possa garantir que outro tenha orelha mais potente do que a dele. Tenho certeza de que, se tivesse nascido americano, iria logo parar naquelas polícias deles lá, igual aos filmes que passam na TV.
Certa vez Jurandir encontrou uma menina muito bonitinha, de olhos grandes e sorriso fácil. Seu nome era Rosa, Rosinha para a maioria das pessoas que a conhecia. O jovem mancebo (perdoe-me a redundância) ficou encantado com tanta singeleza e belezura.
Rosinha só tinha um pequeno defeito: sua risada. Era capaz de rir fininho e estridente, uma risadinha comprida, como se fosse nadador olímpico, que não precisa tomar o ar e pode cruzar a piscina quase sem tomar fôlego. Aquilo calava (ou melhor, gritava) fundo no ouvido biônico de Jurandir. Realmente, era um desarranjo quando a amada ficava alegrinha.
Jurandir não queria fazer a amada chorar, mas também era impossível conviver com tamanha agressão ao seu potente ouvido. Resultado: o namoro com Rosinha foi para o beleléu.
Jurandir ficou um pouco chateado, afinal, mal de amor é um mal pesado. Mas o tempo passou, o mato cresceu, e o mancebo levou sua vidinha de sempre.
Aí um dia ele encontrou Isaura, uma mulata com um belo par de seios e unhas grandes. Parecia uma tigresa. Só que outra vez seus ouvidos foram agredidos. A criatura só vivia gritando, falava muito alto, e isso feria os tímpanos do seu pavilhão auricular (como você pode ver, hoje estou muito redundante).
Outra vez, o mesmo resultado: o romance não prosseguiu.
Mais uma vez Jurandir viu-se jogado ao vento, sem nenhum amor, sem poder receber ou dar nenhum cafuné.
Ô, vida!
Porém Jurandir, depois de lamber as feridas, resolveu investir em um novo amor, e a escolha pela paixão recaiu sobre Ruth, uma baita de uma loirona, uns trinta centímetros mais alta do que ele.
Só que não deu certo também.
Ruth parecia ser a mulher ideal para o incauto mancebo, mas na hora que abria a boca… Vixe! Parecia que a voz grossa de um retumbante trovão vibrava no ar.
Deu certo não, e ele mais uma vez saiu chamuscado.
Jurandir já estava vexado e achando que nunca encontraria uma amada para compartilhar a vida.
Mas aí, um dia, assim de repente, como de repente deve ser todo grande amor que aparece na vida da gente, Jurandir encontrou Maria Celeste.
Foi realmente um encontro planejado no céu, porque a menina era de uma delicadeza só: falava baixinho, olhos no chão, um primor.
Foi amor na primeira olhada, dele para com ela e dela para com ele. Bonito de se ver um amor assim. E o melhor de tudo: o ouvido de Jurandir não era agredido.
Maria parecia realmente ter caído da abóbada celeste direitinho pros braços do jovem mancebo.
Quando a viu, Jurandir logo tratou meio de casar e montar moradia com a guria. Nem quis conhecer a família da amada, que morava numa outra cidade. Foi conhecer a trupe de sogros, cunhados e cunhadas no dia do casório. O apaixonado estava tão aflito com a possibilidade – remota – de perder Maria Celeste, que tratou mão de ficar na frente do juiz e do padre logo, oficializando o amor.
O casório foi uma beleza. Dava gosto de ver Maria Celeste trajando um singelo vestido branco e o mancebo, todo garboso, esperando a amada no altar. Não teve quem não marejasse os olhos, ainda que discretamente.
Foi uma bela reunião, mas teve um contraponto: foi ali que Jurandir descobriu que a sogra tinha uma voz horrivelmente horripilante. Dona Carmencita era a junção das vozes de todas as namoradas que teve antes de encontrar sua Maria Celeste. A risada era fininha como a da Rosinha; falava alto e gritado como Isaura e quando abria a boca parecia um trovão retumbando como Ruth.
Pois é, o menino Cupido quando flecha, flecha, mas sempre mostra o tanto de ironia e sarcasmo que é capaz de aprontar.
Quando algum adulto perguntava o porquê do cabelo maior do que os outros, logo dizia que era promessa da mãe, que tinha morrido. O adulto anuía com a cabeça, como se compreendesse tudo, e o deixava em paz.
Mentira dele, é claro.
A pobre da mulher sequer teve tempo de dizer qualquer coisa, pois Jurandir mal acabou de nascer, sua genitora bateu as botas, indo desta para uma vida melhor, conforme dizem os antigos. Jurandir não acredita em vida melhor depois da morte, mas…
Bem, mas não era sobre isso que estava contando, e sim da falta da orelha esquerda do dito cujo: apesar de ter somente uma orelha, não havia no mundo quem escutasse melhor. Nunca houve na história deste país e jamais haverá outro que ouça tão bem quanto Jurandir.
Sabe aqueles cachorros de raça, que nascem pela mistura de um bravo com outro “ainda muito mais pior de ruim” e que faz nascer filhotes de raça pura? Pois é. Jurandir era assim. Quer dizer… não vá pensar que Jurandir fosse um cachorro.
Não, não é isso.
O que estou tentando explicar é que sua audição era supimpa. Se um cão desses é capaz de ouvir o tique-taque de um relógio numa noite estrelada a um quilômetro de distância, Jurandir era capaz de ouvir o mesmo barulho com dez quilômetros.
Não, não é mentira, não.
Eu juro pra você.
Juro mesmo.
Seu ouvido era tão potente, que parecia uma orelha biônica.
Teve uma vez que ele escutou dois malandros planejando roubar uma velhinha da Rua Barbosa Lima. Não é que Jurandir escutou e tratou de salvar a anciã dos pilantras? Digo e repito: audição como a de Jurandir nunca vi ou ouvi falar. E duvido que alguém possa garantir que outro tenha orelha mais potente do que a dele. Tenho certeza de que, se tivesse nascido americano, iria logo parar naquelas polícias deles lá, igual aos filmes que passam na TV.
Certa vez Jurandir encontrou uma menina muito bonitinha, de olhos grandes e sorriso fácil. Seu nome era Rosa, Rosinha para a maioria das pessoas que a conhecia. O jovem mancebo (perdoe-me a redundância) ficou encantado com tanta singeleza e belezura.
Rosinha só tinha um pequeno defeito: sua risada. Era capaz de rir fininho e estridente, uma risadinha comprida, como se fosse nadador olímpico, que não precisa tomar o ar e pode cruzar a piscina quase sem tomar fôlego. Aquilo calava (ou melhor, gritava) fundo no ouvido biônico de Jurandir. Realmente, era um desarranjo quando a amada ficava alegrinha.
Jurandir não queria fazer a amada chorar, mas também era impossível conviver com tamanha agressão ao seu potente ouvido. Resultado: o namoro com Rosinha foi para o beleléu.
Jurandir ficou um pouco chateado, afinal, mal de amor é um mal pesado. Mas o tempo passou, o mato cresceu, e o mancebo levou sua vidinha de sempre.
Aí um dia ele encontrou Isaura, uma mulata com um belo par de seios e unhas grandes. Parecia uma tigresa. Só que outra vez seus ouvidos foram agredidos. A criatura só vivia gritando, falava muito alto, e isso feria os tímpanos do seu pavilhão auricular (como você pode ver, hoje estou muito redundante).
Outra vez, o mesmo resultado: o romance não prosseguiu.
Mais uma vez Jurandir viu-se jogado ao vento, sem nenhum amor, sem poder receber ou dar nenhum cafuné.
Ô, vida!
Porém Jurandir, depois de lamber as feridas, resolveu investir em um novo amor, e a escolha pela paixão recaiu sobre Ruth, uma baita de uma loirona, uns trinta centímetros mais alta do que ele.
Só que não deu certo também.
Ruth parecia ser a mulher ideal para o incauto mancebo, mas na hora que abria a boca… Vixe! Parecia que a voz grossa de um retumbante trovão vibrava no ar.
Deu certo não, e ele mais uma vez saiu chamuscado.
Jurandir já estava vexado e achando que nunca encontraria uma amada para compartilhar a vida.
Mas aí, um dia, assim de repente, como de repente deve ser todo grande amor que aparece na vida da gente, Jurandir encontrou Maria Celeste.
Foi realmente um encontro planejado no céu, porque a menina era de uma delicadeza só: falava baixinho, olhos no chão, um primor.
Foi amor na primeira olhada, dele para com ela e dela para com ele. Bonito de se ver um amor assim. E o melhor de tudo: o ouvido de Jurandir não era agredido.
Maria parecia realmente ter caído da abóbada celeste direitinho pros braços do jovem mancebo.
Quando a viu, Jurandir logo tratou meio de casar e montar moradia com a guria. Nem quis conhecer a família da amada, que morava numa outra cidade. Foi conhecer a trupe de sogros, cunhados e cunhadas no dia do casório. O apaixonado estava tão aflito com a possibilidade – remota – de perder Maria Celeste, que tratou mão de ficar na frente do juiz e do padre logo, oficializando o amor.
O casório foi uma beleza. Dava gosto de ver Maria Celeste trajando um singelo vestido branco e o mancebo, todo garboso, esperando a amada no altar. Não teve quem não marejasse os olhos, ainda que discretamente.
Foi uma bela reunião, mas teve um contraponto: foi ali que Jurandir descobriu que a sogra tinha uma voz horrivelmente horripilante. Dona Carmencita era a junção das vozes de todas as namoradas que teve antes de encontrar sua Maria Celeste. A risada era fininha como a da Rosinha; falava alto e gritado como Isaura e quando abria a boca parecia um trovão retumbando como Ruth.
Pois é, o menino Cupido quando flecha, flecha, mas sempre mostra o tanto de ironia e sarcasmo que é capaz de aprontar.
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
Marvada sudade
O sor cresce, amadurece. A vida continua, e cumadi Gertrudi tá ali com os zoio di onti. Dia trás dia sua dor se lastra no corpanzim e cada tiquinho é preenchido com uma marvada sudade.
Sudade do desgraçado do cumpadi, qui se enrabou com uma mulata sestrosa e qui fugiu di casa pra modi muntá moradia com a pecadora di zoio verdi qui nem beija-fló.
Os minino tão di um jeito só, jogado no quintá, sem hora di banho, sem hora di cumê, sem hora di drumi.
Eu sabia qui num ia dá boa coisa não a chegada da mulata, muita boniteza pra ficá nesse fim di mundo di meu Deus sem rumá confusão.
Cumadi inté parece difunto, desses qui só pera a morte torizá pra modi morrer. Cara chupada, amarela di tanto ficá deitada na cama sem vê sor. Zoios desbrilhado, mãos qui balança tanto qui deixa cair tudo qui tenta pegá. Uma baba desce dos canto da boca das vez qui começa alembrar do finando qui num morreu. Uma lamentação só, dá dó. Num carecia disso não, minha cumadi.
Mas é como diz os mais veio: “Mar di amô é fogo qui arde sem vosmicê vê”.
Nem drumi a criatura num é capaz. Quando consegue, é só um tiquinho di tempo, e mesmo assim é sono alertado, pronto pra modi cordá carqué mumento.
Mar di amô é o pior dos mar, e eu boto preocupação com os minino, isso sim. Modi qui eles vão ficá caso cumadi braçá mermo a morti? Uma cambada di minino, um trás do otro fazendo escadinha, corre no quintá sem a mão firme da cumadi, já qui o cumpadi caiu no vento.
Já mandei inté fazê novena pro Padim pra modi cumadi alevantar da cama e correr terreiro como fazia antes do cumpadi se enrabar com a mulata. Mas inté mumento Padim num deu jeito não.
Deve di tá ocupado com modi tendê o zotro, é mês do aniversário dele e capaz dele tê qui tá trabaiando dubrado.
Sudade do desgraçado do cumpadi, qui se enrabou com uma mulata sestrosa e qui fugiu di casa pra modi muntá moradia com a pecadora di zoio verdi qui nem beija-fló.
Os minino tão di um jeito só, jogado no quintá, sem hora di banho, sem hora di cumê, sem hora di drumi.
Eu sabia qui num ia dá boa coisa não a chegada da mulata, muita boniteza pra ficá nesse fim di mundo di meu Deus sem rumá confusão.
Cumadi inté parece difunto, desses qui só pera a morte torizá pra modi morrer. Cara chupada, amarela di tanto ficá deitada na cama sem vê sor. Zoios desbrilhado, mãos qui balança tanto qui deixa cair tudo qui tenta pegá. Uma baba desce dos canto da boca das vez qui começa alembrar do finando qui num morreu. Uma lamentação só, dá dó. Num carecia disso não, minha cumadi.
Mas é como diz os mais veio: “Mar di amô é fogo qui arde sem vosmicê vê”.
Nem drumi a criatura num é capaz. Quando consegue, é só um tiquinho di tempo, e mesmo assim é sono alertado, pronto pra modi cordá carqué mumento.
Mar di amô é o pior dos mar, e eu boto preocupação com os minino, isso sim. Modi qui eles vão ficá caso cumadi braçá mermo a morti? Uma cambada di minino, um trás do otro fazendo escadinha, corre no quintá sem a mão firme da cumadi, já qui o cumpadi caiu no vento.
Já mandei inté fazê novena pro Padim pra modi cumadi alevantar da cama e correr terreiro como fazia antes do cumpadi se enrabar com a mulata. Mas inté mumento Padim num deu jeito não.
Deve di tá ocupado com modi tendê o zotro, é mês do aniversário dele e capaz dele tê qui tá trabaiando dubrado.
sexta-feira, 11 de novembro de 2011
Em busca do tempo perdido (*)
Durante muito tempo, costumava deitar-me cedo. Na casa do meu avô era comum que se dormisse com "as galinhas", como se diz hoje em dia. Naquele tempo não havia televisão ou qualquer outro entretenimento que levasse as crianças a deitarem-se mais tarde.
Acordávamos mal raiava o dia e corríamos para o curral. Tínhamos como tarefa ordenhar Miracema, a vaca leiteira premiada de vô Tonho. O que mais gostava era de tomar o leite acabado de sair de suas tetas. Quente, espumoso, uma delícia a escorrer goela baixo. Bons tempos, boas lembranças, fatos que não voltam mais, nem que se queira, mas que estão guardados na algibeira das lembranças.
Durante muito tempo, costumávamos almoçar às dez horas. Vó Lourdes sempre estava com a comida pronta, qualquer fosse o dia da semana, às nove e trinta. Os peões da fazenda levantavam cedo, esta era a justificativa que ela dava sempre que alguém da cidade se queixava que a comida poderia sair mais tarde. Costume de roça, de gente que acorda antes do galo e a que o povo da cidade não se acostuma de jeito nenhum.
Não me recordo de quando comecei a levantar tarde, acho que foi na época da boemia, quando o raiar do novo dia sempre me encontrava na rua ou na casa de alguma rapariga. Parece estranho, mas não sinto saudades desta época, e sim do acordar na casa de vô Tonho e vó Lourdes. Foram estes os melhores dias de minha vida. Dias em que o sol sempre brilhava, em que se comia fruta no pé, saboreando a juventude em gomos, deliciosamente.
(*) Texto inspirado no livro de Proust, Em busca do tempo perdido.
Acordávamos mal raiava o dia e corríamos para o curral. Tínhamos como tarefa ordenhar Miracema, a vaca leiteira premiada de vô Tonho. O que mais gostava era de tomar o leite acabado de sair de suas tetas. Quente, espumoso, uma delícia a escorrer goela baixo. Bons tempos, boas lembranças, fatos que não voltam mais, nem que se queira, mas que estão guardados na algibeira das lembranças.
Durante muito tempo, costumávamos almoçar às dez horas. Vó Lourdes sempre estava com a comida pronta, qualquer fosse o dia da semana, às nove e trinta. Os peões da fazenda levantavam cedo, esta era a justificativa que ela dava sempre que alguém da cidade se queixava que a comida poderia sair mais tarde. Costume de roça, de gente que acorda antes do galo e a que o povo da cidade não se acostuma de jeito nenhum.
Não me recordo de quando comecei a levantar tarde, acho que foi na época da boemia, quando o raiar do novo dia sempre me encontrava na rua ou na casa de alguma rapariga. Parece estranho, mas não sinto saudades desta época, e sim do acordar na casa de vô Tonho e vó Lourdes. Foram estes os melhores dias de minha vida. Dias em que o sol sempre brilhava, em que se comia fruta no pé, saboreando a juventude em gomos, deliciosamente.
(*) Texto inspirado no livro de Proust, Em busca do tempo perdido.
quinta-feira, 30 de junho de 2011
A saga de João Perseu - a trajetória de um herói
Vou contar-lhes a linda história de um herói muito corajoso que enfrentou monstros e poderosos para salvar sua amada mãe.
Era uma vez, em algum remoto rincão do universo cintilante que se derrama em um sem número de sistemas solares, havia uma fazenda onde morava Dânea, uma linda donzela cujo pai, senhor fazendeiro dos muito poderosos, não se conformava de não ter gerado nenhum menino-macho.
O coronel Acrísio, homem muito supersticioso, não conseguia tirar da cabeça a certeza de que foi praga de uma preta velha que lhe impediu de gerar um filho para lhe perpetuar o nome, nem que fosse um filho bastardo.
Em sua juventude, garoto cheio de poder e nenhum juízo, o jovem Acrísio expulsou das terras do seu pai uma feiticeira que era cega, mas enxergava como ninguém as verdades da vida. Foi ela quem sentenciou que, por mais mulheres que tivesse, nunca sairia de sua semente um garoto, porém sua filha geraria um neto que o mataria, vertendo seu sangue ao chão e amaldiçoando todas as gerações futuras, que viveriam sem honrar seu nome e memória.
No início, o jovem coronelzinho não deu muita atenção à imprecação da feiticeira-vidente, mas, com o passar dos anos e o desejo crescente de perpetuar seu nome para a história da humanidade, começou a ficar revoltado com a maldição. Queria ter alguém que levasse seu sangue e recebesse léguas e léguas de terra boa e produtiva sobre a qual reinar.
Então decidiu mudar o destino. Acrísio determinou que enquanto vivesse – e o coronel garantia a quem quisesse ouvir que viveria ainda muitos e muitos anos – a filha continuaria donzela. Após sua morte, poderia casar e gerar uma prole.
Os anos foram passando, passando e no acúmulo dos dias se transformaram em décadas. As funestas palavras da preta velha se concretizavam em sua vida e no seu coração.
Quando gerou sua primeira e única filha, o coronel decidiu aprisioná-la num convento construído às margens do Rio Amazonas, desses que se encontram longe de tudo e de todos, onde só se veem figuras femininas e o contato com homem é negado. O convento ficava perdido nos confins da terra, lá onde Judas perdeu as meias, porque as botas ele já tinha perdido vinte e cinco léguas antes. Para lá a jovem donzela foi levada e lá foi trancada, no meio de meia dúzia de velhas irmãs de caridade que tinham como voto não ter contato com nenhum homem; sequer padre era aceito naquela comunidade religiosa, para se ter uma ideia.
Dânea quando foi para o convento ainda não tinha completado cinco anos. Largou a família vertendo muita lágrima e sem entender o porquê da separação. Apesar do chororô, o pai manteve o pé firme e mandou a filha embora.
Durante todos os anos que se seguiram Acrísio dormiu o sono dos justos, certo de que morreria, como todo mundo morre, mas não pelas mãos do próprio neto, e de que seu nome seria honrado e reverenciada seria sua memória.
Mas é como dizem, o olho do dono é que engorda o gado. Uma vez ao ano Acrísio visitava a filha para ver se tudo corria bem, se ela continuava sem contato com nenhuma figura masculina que lhe pudesse “fazer mal” e embuchar. Por causa do grande donativo que enviava ao convento, Acrísio era o único humano do sexo masculino que tinha autorização de pisar o solo daquela comunidade religiosa. Isso ocorreu durante uma década.
Um dia, quando Dânea já tinha completado quinze anos, Acrísio foi visitá-la e com surpresa ouviu – durante os poucos minutos a que tinha direito de ficar junto com a filha – ao longe um choro de um bebê.
Como a única que tinha idade para procriar era sua filha, já que todas as outras mulheres da comunidade religiosa haviam passado há muito tempo dos sessenta anos, Acrísio não se conteve e num acesso de raiva adentrou o convento em busca do som daquele choro. Uma irmã de caridade balançava uma pequena trouxa, tentando acalmar a criança, que berrava a plenos pulmões.
Acrísio tomou o embrulho de seus braços e constatou que se tratava de um menino-macho, sim, senhor. Indignado e cheio de furor assassino, foi tomar satisfações com a filha e a madre-superiora que coordenava aquele local ermo.
Dânea explicou que, numa noite de São João, quando foi olhar as estrelas brilhantes do céu às margens do Rio Amazonas, uma chuva de ouro se fez presente e no meio dela apareceu um lindo rapaz, que a seduziu. Um jovem garboso que tinha o porte de um rei emprenhou a donzela. A madre superiora confirmou a história da filha de Acrísio, garantindo que nenhum homem tinha sido autorizado a entrar no convento e que ela acreditava nas histórias da região, que diziam que em noites de São João o boto-cor-de-rosa se transforma em um belo homem para seduzir as donzelas que moravam às margens do rio.
Não houve meio de fazer o coronel entender o destino da filha, que tinha entregado sua pureza ao rei dos botos encantados e lhe gerado um neto de origem divina. Acrísio tinha certeza de que algum homem sabichão havia engambelado sua filha, embuchando-a, isso sim.
Não houve pedido e clamor que fizessem Acrísio mudar de ideia. Ele tirou a filha do convento junto com o neto por ele amaldiçoado. Sem poder fazer mais nada, a madre superiora lamentou a partida da garota e também do donativo que gordamente recebia.
Acrísio resolveu levar a filha com o rebento para a própria fazenda, mas antes telegrafou ao seu capataz, dando-lhe algumas ordens para que quando chegasse em casa já estivesse tudo pronto.
O retorno foi lento, demorado, comprido, porque a pobre garota chorava e repetia sempre a mesma ladainha do boto-cor-de-rosa que havia surgido de uma chuva de ouro… A criança, sentindo o clima pesado, também chorava e se agitava, não dando sossego ao avô, que fingia não escutar nenhum dos dois, filha e neto.
Ao chegarem, mal pôs os pés nas terras do pai, Dânea viu uma imensa caixa na beira do rio que cortava a fazenda. Em vez de levar a filha e o neto para a sede do casarão, Acrísio e seus empregados levaram Dânea e o menino para dentro da caixa. Quando a jovem entendeu o que o pai queria fazer – jogá-la dentro das águas com seu filho para que ambos morressem – ainda tentou resistir, mas no final quem levou a melhor foi o pai, que mandou que a caixa fosse atirada ao rio.
Durante sete dias e sete noites a caixa foi levada pelo rio, seguindo seu destino: o mar. Durante sete dias e sete noites Dânea passou fome e só bebia a água da chuva de ouro que sempre caía de mansinho no início da manhã, no finalzinho da tarde e na alta madrugada. Seu filho, que recebera o nome de João Perseu, alimentava-se do leite materno e quanto mais ele sugava, mais força parecia dar à jovem mãe.
João Perseu nasceu para a glória, nasceu para resplandecer, para ser herói de seu povo e já mostrava sua força ao vencer morte em tão tenra idade.
Era madrugada e uma lua cheia enorme iluminava a praia da Ilha de Sérifo quando Dânea e o jovem herói chegaram à margem sãos e salvos, apesar de todos os entraves da longa jornada. A ilha ficava a poucos quilômetros da Praia de Itapema, em Santo Amaro da Purificação, na Bahia de Todos os Santos. Foi lá que o pescador Díctis de Logun-Edê encontrou, na beirinha da praia, a grande caixa trazida pela maré. O pescador, homem vivido nas águas dos mares e dos rios, levou um grande susto quando encontrou o enorme artefato, de cujo interior se ouvia o som de choro de criança. O pescador rogou ao seu orixá de frente, Logun-Edê, que o protegesse antes de ver o que realmente havia lá dentro. Com dificuldade, Díctis conseguiu retirar Dânea e seu pequeno filho de dentro do objeto.
Díctis de Logun-Edê assim que viu Dânea ficou fascinado com a beleza da jovem, porém quando viu o menino teve a certeza de que estava na frente de um grande guerreiro, desses que nasceram para guerrear todas as guerras, em nome de todos os orixás de África ou de fora dela. Viu dentro do olho do menininho que ele havia vindo ao mundo com uma missão: proteger todos de tudo que fosse ruim ou malvado.
Dânea, tão logo se viu salva, agradeceu aos céus por ela e por seu pequeno filho terem suportado a grande viagem e por terem também encontrado uma alma caridosa que os acolheu. Díctis de Logun-Edê levou mãe e filho para sua casa – que ficava a poucos metros – e os acolheu com carinho e respeito.
Dânea nada escondeu. Contou tudo o que aconteceu desde que tinha partido da casa do pai, sua chegada ao convento, a dificuldade de se adaptar àquele tipo de vida, que era muito espartana e rigorosa, a solidão, a tristeza e a saudade da família, a revolta por ser o pai tão supersticioso a ponto de ter mandado a própria filha embora, suas visitas apenas uma vez por ano. Contou também da noite estrelada em que se deixou engambelar pelo canto do boto-cor-de-rosa, a surpresa da gravidez.
Contou tudo, tudinho mesmo. Não escondeu uma vírgula, um ponto e vírgula, um travessão, um ponto final de sua história e, mesmo assim, a alma generosa de Díctis a aceitou, não a censurou, acolheu a ela e a João Perseu.
E assim aconteceu, Dânea e o pequeno foram acolhidos pelo coração generoso de Díctis de Logun-Edê em sua casa viviam, como uma família feliz e harmoniosa, sem temer o perigo do pai insano. Dânea ainda carregava um pedaço de medo do lado esquerdo do peito, medo de o pai desnaturado descobrir que ela e o filho estavam vivos e vir com malvadeza para o seu lado. Mas isso não aconteceu. Ninguém os importunou, e o menino crescia anonimamente, como deve ser a todo herói destinado à glória.
Tudo corria em perfeita paz, ou quase. Sempre que o meio-irmão de Díctis aparecia, Dânea se sentia incomodada pelos olhares cumpridos e melosos de Polidectes de Oxossi, um homem muito poderoso em Santo Amaro da Purificação.
Considerado o Rei da Agiotagem, conseguiu sua riqueza emprestando dinheiro a quem estivesse em dificuldade financeira. Polidectes também era ligado ao jogo do bicho e possuía várias bancas na cidade. Seu poder era lendário na região. João Perseu crescia e via o interesse do homem por sua mãe jovem e bonita.
Ele também crescia em boniteza e formosura, era alto e destemido como deve ser todo herói, por isso Polidectes de Oxossi não se atrevia a se aproximar de Dânea e tomá-la com violência.
No fundo, Polidectes não usava de violência porque tinha planos políticos: queria se lançar como vereador pela bancada do governo em Santo Amaro da Purificação nas próximas eleições. Assim, não podia facilitar fazendo algo que manchasse mais sua honra, uma vez que os adversários certamente já pegariam no seu pé por ter ligações com jogo do bicho e contravenção. Como, porém, não podiam provar nada – e quem conseguia desaparecia misteriosamente – Polidectes de Oxossi tentava seguir uma vida o mais próximo possível da ‘normalidade’ e dos bons costumes, não querendo queimar o próprio filme perante a sociedade.
Certa feita, João Perseu recebeu um convite para participar da comemoração do aniversário de cinquenta anos Polidectes de Oxossi. Seria uma grande festança no palácio que o Rei da Agiotagem havia mandado construir na Ilha de Sérifo. Díctis Logun-Edê e Dânea também foram convidados. A festa foi um grande acontecimento, e todos os puxa-sacos e os puxa-sacanas estiveram presentes.
O rega-bofe foi farto e chique, e os presentes ao aniversariante chegavam de todos os lados. Não era segredo de ninguém que o presente que o Rei da Agiotagem mais gostava de receber era um grande animal, digno de um homem poderoso: cavalo. Por isso, no meio dos festejos, já um pouco mamado de vinho e outros teores alcoólicos, Polidectes de Oxossi perguntou que presente os amigos desejavam oferecer-lhe; é claro que o coro foi um só: cavalo!
A festa foi composta apenas por bambambãs que tinham poder aquisitivo para dar um presente tão caro. Ao ver que apenas João Perseu ficou em silêncio na hora em que lançou a pergunta, Polidectes indagou diretamente ao filho de Dânea o que ele lhe daria. Constrangido, o rapaz, que não tinha dinheiro suficiente para dar um presente de tão vultosa soma, surpreendeu a todos ao dizer o que daria ao rei.
O que Polidectes de Oxossi queria e ansiava era que João Perseu lhe oferecesse Dânea, autorizando um possível relacionamento entre os dois, mas isso não aconteceu. O filho realmente não queria que a mãe se envolvesse com o Rei da Agiotagem, por mais poderoso que esse fosse. Sentindo-se pressionado, João Perseu disse em alto e bom som que não tinha condições de presenteá-lo com um animal tão oneroso, mas que estava disposto a conseguir a cabeça da Medusa – um poderoso talismã que daria a quem o tivesse a faculdade de sair-se vitorioso em todos os setores da vida.
Um grande silêncio caiu entre os presentes porque o talismã era lendário e quem o conseguisse se firmaria como o mais poderoso rei de todos os reis, não apenas em Santo Amaro da Purificação, mas em toda a Bahia e também fora dela.
Ao ouvir as palavras de João Perseu, Polidectes não acreditou que o jovem fosse capaz de tal proeza, afinal muitos tinham almejado o talismã, mas ninguém o conseguira. Por isso e para ter certeza do afastamento do rapaz da ilha – de forma que pudesse aproximar-se de Dânea com mais facilidade, a fim de seduzi-la com palavras e joias – o Rei da Agiotagem fez uma aposta com o herói.
Olhando fixamente para a mãe de João Perseu, o poderoso monarca disse que, caso o rapaz não conseguisse o talismã, Polidectes de Oxossi, poderia ir à sua casa pegar o que quisesse, e ninguém poderia impedi-lo de desfrutar do que pegara. Ao proferir essas palavras, seu olhar estava cravado em Dânea, e todos entenderam que o rei falava da mãe do jovem e do quanto desfrutaria das delícias de tê-la na cama.
João Perseu aceitou.
Como todo moço, tinha fé na própria força, tinha fé na própria coragem, muitas vezes se arriscando sem pensar nas consequências, agindo impulsivamente. Ele aceitou, e o Rei da Agiotagem sorriu satisfeito, pois tinha a certeza de que João Perseu falharia, como todos os outros falharam antes dele.
Pouco antes de sair da festa, João Perseu deteve-se no jardim a olhar para o céu estrelado, pensando como conseguiria sair vitorioso da empreitada que tinha aceitado. Era a primeira vez que o jovem se afastaria da mãe e isso apertava o seu coração.
Contava a lenda que o talismã da cabeça de Medusa era uma espécie de broche, perdido dentro de uma caverna no extremo Sul, lá onde o vento do Norte dobrava o Cabo da Górgona. Na caverna perdida estava a joia, que tinha os olhos feitos com as mais lindas e brilhantes esmeraldas que havia no universo. A lenda era muito conhecida, e até aquele dia nenhum dos que empreitaram buscar o tesouro voltou para contar história, fosse de vitória, fosse de fracasso.
João Perseu olhava para o céu quando nele surgiu a figura de um lindo casal de orixás. Eram Atená e Hermes. As figuras resplandeciam em todo poder e glória, e não havia como lhes negar a divindade. Embevecido, João Perseu ajoelhou-se e rogou-lhes proteção.
A altiva guerreira Atená disse que ela e Hermes o ajudariam, apesar de ele ter sido imprudente ao prometer a Polidectes de Oxossi a cabeça da Medusa. A deusa contou que ela e Hermes, conhecido por aquelas bandas como Exu da Encruzilhada, lhe forneceriam os meios necessários para cumprir a promessa feita. Mas antes o herói deveria dar-lhes oferendas, que não poderiam ser colocadas em qualquer lugar. Todas deveriam ser arriadas no terreiro das trigêmeas conhecidas como as irmãs Fórcis, que receberam os nomes de Enio, Pefredo e Dino. Lá ele encontraria as respostas para seguir viagem e sair vitorioso na empreitada.
João Perseu já tinha ouvido falar da fama das três irmãs gêmeas siamesas, que permaneciam tão grudadas quanto desde o momento em que nasceram. O trio morava perto da praia de Cabuçu. Não era muito longe, mas o acesso era muito difícil porque, contava a lenda, elas haviam construído várias armadilhas para impedir que visitas inesperadas surgissem de repente.
João Perseu então voltou ao interior da casa do Rei da Agiotagem e contou à mãe e a Díctis de Logun-Edê sobre a aparição dos orixás e o que eles haviam determinado que fizesse. Sem entender muito bem, mas acreditando na proteção dos deuses, Dânea abençoou o filho, que começou ali mesmo a jornada para o terreiro das Fórcis.
Exu da Encruzilhada foi à frente, abrindo o caminho do jovem herói, apesar de ser de noite. Hermes tinha a capacidade de poder trafegar tanto de dia como de noite e ele foi o guia para que João Perseu conseguisse trilhar o caminho.
Durante três dias e três noites, o filho de Dânea caminhou, desviando-se das armadilhas construídas pelas gêmeas siamesas. Sem dormir, sem comer, somente bebendo a água que encontrava em algum riacho ou acumulada nas folhas das árvores, o protegido de Exu e da guerreira Atená avançou até chegar ao terreiro das irmãs, conhecidas como As velhas por já haverem nascido com a aparência envelhecida.
Diziam as más línguas que as três haviam sido rejeitadas pelos pais assim que nasceram e que um índio-caboclo é que tinha cuidado das pequenas desde que vieram ao mundo. Certeza não se tinha, ninguém confirmava, mas certo é que estavam cada qual grudada na outra e que todas eram cegas de um olho. Feias como a fome, com apenas um dente cada uma, nada disso assustou ao jovem.
Ao chegar ao terreiro, João Perseu teve a nítida impressão de que já era esperado, mas Atená lhe havia avisado que as Fórcis eram seres muito astutos e que não ensinariam com facilidade o caminho para chegar à gruta onde se encontrava o talismã da Medusa.
Ao contar para as irmãs gêmeas que o objetivo de sua presença no terreiro era arriar oferendas aos orixás Atená e Exu, elas o aceitaram, um tanto desconfiadas, é bem verdade; mas acabaram aceitando a presença do rapaz. Elas impuseram, porém, uma condição: ele deveria passar por uma sessão de descarrego e purificações antes de ofertar os presentes aos deuses.
A purificação se daria através de banhos, ervas e comidas. Durante setenta e sete dias e setenta e sete noites, João Perseu fez tudo o que elas mandaram e purificou o corpo e a alma, e lentamente foi ganhando a confiança das gêmeas. Ao final, estava com o corpo fechado contra qualquer maldição, podendo enfrentar todos os perigos que certamente encontraria pela frente.
Protegido por Atená e Exu, as três Fórcis incorporadas ofereceram-lhe alguns objetos sagrados que o ajudariam a conseguir o talismã, pois na gruta onde o broche estava escondido havia muitas armadilhas e não seria fácil passar por cada uma delas. O rapaz deveria enfrentar diversas peripécias. Não seria fácil conseguir o precioso amuleto, que daria a quem o possuísse todo o poder e a glória.
João Perseu recebeu das mãos das siamesas um par de sandálias sagradas, capazes de fazer voar a qualquer um que as calçasse; uma espécie de alforje, para guardar o broche da cabeça da Medusa; e um capacete, que lhe possibilitava a invisibilidade.
Atená, incorporada na Fórcis Pefredo, contou ao protegido o porquê de ninguém voltar da gruta.
Segundo ela, quem olhasse para as esmeraldas incrustadas nos olhos da cabeça de Medusa virava pedra imediatamente. Era uma maldição que acompanhava o artefato há milênios e milênios, desde o tempo em que Céu e Gaia ainda não se haviam separado. Para que João Perseu não olhasse diretamente o broche – que tinha poderes divinos, como mudar de lugar por si mesmo – e saísse vitorioso, Atená deu ao filho de Dânea seu escudo de guerreira, tão polido e reluzente, que mais parecia um espelho.
De Hermes João Perseu obteve emprestada uma afiada espada de aço, que lhe seria muito útil na longa jornada.
A orixá guerreira disse-lhe, ainda, que o broche estava protegido por várias entidades do Vale do Hades e que só com muita astúcia e valentia pegaria o amuleto. Duas soldadas também protegiam o broche, as Górgonas Ésteno e Euríale, avisou Atená.
Munido dos presentes dados pelos deuses, João Perseu saiu do terreiro das três Fórcis e caminhou em direção à gruta das Górgonas, que ficava no meio de uma densa floresta.
A viagem foi longa.
Por muitas vezes o herói precisou acalmar o coração impaciente, que queria chegar logo e lutar. Ao final de trinta e três dias de viagem marítima, chegou à caverna no extremo Sul, onde o vento do Norte dobrava o Cabo da Górgona. Na caverna perdida, estava a joia, que tinha os olhos feitos com as mais lindas e brilhantes esmeraldas que havia no universo.
A cada passo que o protegido de Atená dava, surgia uma armadilha para impedir sua entrada. Porém o filho de Dânea com uma divindade luminosa tinha nascido para a glória, para brilhar, e uma a uma, utilizando as armas dada pelos orixás, foi vencendo as armadilhas.
O local tinha várias câmeras escuras, e cada uma ele ultrapassou. Quando chegou à última câmera, encontrou o broche e, protegendo-o, as duas Górgonas, conforme tinha avisado Atená. João Perseu, cobrindo-se com o capacete da invisibilidade, colocou na água das guardiãs um líquido que logo as fez adormecer.
Assim que desacordaram, João Perseu tirou o capacete da invisibilidade, voltando a ficar visível. Aproximou-se, então, do altar onde estava o broche. Ao tentar pegá-lo, surgiu à sua frente uma grande cabeça de monstro, com serpentes venenosas no lugar dos cabelos.
Esta era a verdadeira Medusa, que protegia o broche. Lembrando-se dos presentes dados pelos deuses, João Perseu utilizou o escudo de Atená para localizar o mostro; com a espada dada por Exu, cortou-lhe a cabeça peçonhenta, que rolou pelo altar até o chão.
Em seguida, pegou a cabeça do monstro e o broche que havia ido buscar, jogou-os no alforje e caminhou para a saída. Justamente neste momento, contudo, as duas Górgonas acordaram e foram ao seu encalço.
Com as sandálias voadoras e novamente colocando o capacete, João Perseu voou floresta afora, fugindo da perseguição.
O herói só respirou aliviado ao chegar ao barco e içar vela para retornar à Ilha de Sérifo, levando consigo o broche, que entregaria ao Rei da Agiotagem, e também a cabeça da verdadeira Medusa, que ainda lhe seria útil em sua grande jornada de herói.
Foram trinta e três dias de volta para casa, e João Perseu a cada porto via sua história o anteceder. Todos já conheciam sua vitória e honravam seu nome, sem mesmo o ter visto.
No meio do caminho, encontrou um marinheiro que contava a história de uma linda donzela chamada Andrômeda, que sofria no Oriente. João Perseu ficou tentado a ir ao encontro da jovem, que sofria agrilhoada em um rochedo à beira-mar, mas ele não podia. Sua missão era entregar o broche a Polidectes, pois senão sofreria sua amada mãe. E assim fez. Após um mês e três dias chegou ao palácio de Polidectes de Oxossi e ofereceu-lhe o broche, conforme o prometido.
Quem viu o herói entregando o presente pode jurar de pés juntos que na face do poderoso rei só se via decepção. Na verdade, o que ele queria era a mãe de João Perseu na cama. Mas como promessa é promessa e a do jovem herói tinha sido cumprida, também ele teria que cumprir a sua parte e deixar Dânea intocada.
A mãe do rapaz, ao saber da chegada do filho, foi ao seu encontro imediatamente, mas este já tinha ido para o porto. Decidira ir ao Oriente e cumprir, assim, sua missão de herói. Dânea ainda conseguiu despedir-se do filho, minutos antes de sua partida para uma nova aventura.
Ela se conformou, apesar de chorar um pouco. Dânea sabia que a missão de seu rebento era esta: ser herói e lutar contra aquilo que a maioria não luta, em nome de um bem maior. João Perseu, seguindo o seu caminho, foi salvar a jovem Andrômeda.
Uma longa jornada João Perseu empreendeu até chegar ao Oriente e salvar Andrômeda do monstro que a queria devorar.
Mas isso já é uma outra história.
Era uma vez, em algum remoto rincão do universo cintilante que se derrama em um sem número de sistemas solares, havia uma fazenda onde morava Dânea, uma linda donzela cujo pai, senhor fazendeiro dos muito poderosos, não se conformava de não ter gerado nenhum menino-macho.
O coronel Acrísio, homem muito supersticioso, não conseguia tirar da cabeça a certeza de que foi praga de uma preta velha que lhe impediu de gerar um filho para lhe perpetuar o nome, nem que fosse um filho bastardo.
Em sua juventude, garoto cheio de poder e nenhum juízo, o jovem Acrísio expulsou das terras do seu pai uma feiticeira que era cega, mas enxergava como ninguém as verdades da vida. Foi ela quem sentenciou que, por mais mulheres que tivesse, nunca sairia de sua semente um garoto, porém sua filha geraria um neto que o mataria, vertendo seu sangue ao chão e amaldiçoando todas as gerações futuras, que viveriam sem honrar seu nome e memória.
No início, o jovem coronelzinho não deu muita atenção à imprecação da feiticeira-vidente, mas, com o passar dos anos e o desejo crescente de perpetuar seu nome para a história da humanidade, começou a ficar revoltado com a maldição. Queria ter alguém que levasse seu sangue e recebesse léguas e léguas de terra boa e produtiva sobre a qual reinar.
Então decidiu mudar o destino. Acrísio determinou que enquanto vivesse – e o coronel garantia a quem quisesse ouvir que viveria ainda muitos e muitos anos – a filha continuaria donzela. Após sua morte, poderia casar e gerar uma prole.
Os anos foram passando, passando e no acúmulo dos dias se transformaram em décadas. As funestas palavras da preta velha se concretizavam em sua vida e no seu coração.
Quando gerou sua primeira e única filha, o coronel decidiu aprisioná-la num convento construído às margens do Rio Amazonas, desses que se encontram longe de tudo e de todos, onde só se veem figuras femininas e o contato com homem é negado. O convento ficava perdido nos confins da terra, lá onde Judas perdeu as meias, porque as botas ele já tinha perdido vinte e cinco léguas antes. Para lá a jovem donzela foi levada e lá foi trancada, no meio de meia dúzia de velhas irmãs de caridade que tinham como voto não ter contato com nenhum homem; sequer padre era aceito naquela comunidade religiosa, para se ter uma ideia.
Dânea quando foi para o convento ainda não tinha completado cinco anos. Largou a família vertendo muita lágrima e sem entender o porquê da separação. Apesar do chororô, o pai manteve o pé firme e mandou a filha embora.
Durante todos os anos que se seguiram Acrísio dormiu o sono dos justos, certo de que morreria, como todo mundo morre, mas não pelas mãos do próprio neto, e de que seu nome seria honrado e reverenciada seria sua memória.
Mas é como dizem, o olho do dono é que engorda o gado. Uma vez ao ano Acrísio visitava a filha para ver se tudo corria bem, se ela continuava sem contato com nenhuma figura masculina que lhe pudesse “fazer mal” e embuchar. Por causa do grande donativo que enviava ao convento, Acrísio era o único humano do sexo masculino que tinha autorização de pisar o solo daquela comunidade religiosa. Isso ocorreu durante uma década.
Um dia, quando Dânea já tinha completado quinze anos, Acrísio foi visitá-la e com surpresa ouviu – durante os poucos minutos a que tinha direito de ficar junto com a filha – ao longe um choro de um bebê.
Como a única que tinha idade para procriar era sua filha, já que todas as outras mulheres da comunidade religiosa haviam passado há muito tempo dos sessenta anos, Acrísio não se conteve e num acesso de raiva adentrou o convento em busca do som daquele choro. Uma irmã de caridade balançava uma pequena trouxa, tentando acalmar a criança, que berrava a plenos pulmões.
Acrísio tomou o embrulho de seus braços e constatou que se tratava de um menino-macho, sim, senhor. Indignado e cheio de furor assassino, foi tomar satisfações com a filha e a madre-superiora que coordenava aquele local ermo.
Dânea explicou que, numa noite de São João, quando foi olhar as estrelas brilhantes do céu às margens do Rio Amazonas, uma chuva de ouro se fez presente e no meio dela apareceu um lindo rapaz, que a seduziu. Um jovem garboso que tinha o porte de um rei emprenhou a donzela. A madre superiora confirmou a história da filha de Acrísio, garantindo que nenhum homem tinha sido autorizado a entrar no convento e que ela acreditava nas histórias da região, que diziam que em noites de São João o boto-cor-de-rosa se transforma em um belo homem para seduzir as donzelas que moravam às margens do rio.
Não houve meio de fazer o coronel entender o destino da filha, que tinha entregado sua pureza ao rei dos botos encantados e lhe gerado um neto de origem divina. Acrísio tinha certeza de que algum homem sabichão havia engambelado sua filha, embuchando-a, isso sim.
Não houve pedido e clamor que fizessem Acrísio mudar de ideia. Ele tirou a filha do convento junto com o neto por ele amaldiçoado. Sem poder fazer mais nada, a madre superiora lamentou a partida da garota e também do donativo que gordamente recebia.
Acrísio resolveu levar a filha com o rebento para a própria fazenda, mas antes telegrafou ao seu capataz, dando-lhe algumas ordens para que quando chegasse em casa já estivesse tudo pronto.
O retorno foi lento, demorado, comprido, porque a pobre garota chorava e repetia sempre a mesma ladainha do boto-cor-de-rosa que havia surgido de uma chuva de ouro… A criança, sentindo o clima pesado, também chorava e se agitava, não dando sossego ao avô, que fingia não escutar nenhum dos dois, filha e neto.
Ao chegarem, mal pôs os pés nas terras do pai, Dânea viu uma imensa caixa na beira do rio que cortava a fazenda. Em vez de levar a filha e o neto para a sede do casarão, Acrísio e seus empregados levaram Dânea e o menino para dentro da caixa. Quando a jovem entendeu o que o pai queria fazer – jogá-la dentro das águas com seu filho para que ambos morressem – ainda tentou resistir, mas no final quem levou a melhor foi o pai, que mandou que a caixa fosse atirada ao rio.
Durante sete dias e sete noites a caixa foi levada pelo rio, seguindo seu destino: o mar. Durante sete dias e sete noites Dânea passou fome e só bebia a água da chuva de ouro que sempre caía de mansinho no início da manhã, no finalzinho da tarde e na alta madrugada. Seu filho, que recebera o nome de João Perseu, alimentava-se do leite materno e quanto mais ele sugava, mais força parecia dar à jovem mãe.
João Perseu nasceu para a glória, nasceu para resplandecer, para ser herói de seu povo e já mostrava sua força ao vencer morte em tão tenra idade.
Era madrugada e uma lua cheia enorme iluminava a praia da Ilha de Sérifo quando Dânea e o jovem herói chegaram à margem sãos e salvos, apesar de todos os entraves da longa jornada. A ilha ficava a poucos quilômetros da Praia de Itapema, em Santo Amaro da Purificação, na Bahia de Todos os Santos. Foi lá que o pescador Díctis de Logun-Edê encontrou, na beirinha da praia, a grande caixa trazida pela maré. O pescador, homem vivido nas águas dos mares e dos rios, levou um grande susto quando encontrou o enorme artefato, de cujo interior se ouvia o som de choro de criança. O pescador rogou ao seu orixá de frente, Logun-Edê, que o protegesse antes de ver o que realmente havia lá dentro. Com dificuldade, Díctis conseguiu retirar Dânea e seu pequeno filho de dentro do objeto.
Díctis de Logun-Edê assim que viu Dânea ficou fascinado com a beleza da jovem, porém quando viu o menino teve a certeza de que estava na frente de um grande guerreiro, desses que nasceram para guerrear todas as guerras, em nome de todos os orixás de África ou de fora dela. Viu dentro do olho do menininho que ele havia vindo ao mundo com uma missão: proteger todos de tudo que fosse ruim ou malvado.
Dânea, tão logo se viu salva, agradeceu aos céus por ela e por seu pequeno filho terem suportado a grande viagem e por terem também encontrado uma alma caridosa que os acolheu. Díctis de Logun-Edê levou mãe e filho para sua casa – que ficava a poucos metros – e os acolheu com carinho e respeito.
Dânea nada escondeu. Contou tudo o que aconteceu desde que tinha partido da casa do pai, sua chegada ao convento, a dificuldade de se adaptar àquele tipo de vida, que era muito espartana e rigorosa, a solidão, a tristeza e a saudade da família, a revolta por ser o pai tão supersticioso a ponto de ter mandado a própria filha embora, suas visitas apenas uma vez por ano. Contou também da noite estrelada em que se deixou engambelar pelo canto do boto-cor-de-rosa, a surpresa da gravidez.
Contou tudo, tudinho mesmo. Não escondeu uma vírgula, um ponto e vírgula, um travessão, um ponto final de sua história e, mesmo assim, a alma generosa de Díctis a aceitou, não a censurou, acolheu a ela e a João Perseu.
E assim aconteceu, Dânea e o pequeno foram acolhidos pelo coração generoso de Díctis de Logun-Edê em sua casa viviam, como uma família feliz e harmoniosa, sem temer o perigo do pai insano. Dânea ainda carregava um pedaço de medo do lado esquerdo do peito, medo de o pai desnaturado descobrir que ela e o filho estavam vivos e vir com malvadeza para o seu lado. Mas isso não aconteceu. Ninguém os importunou, e o menino crescia anonimamente, como deve ser a todo herói destinado à glória.
Tudo corria em perfeita paz, ou quase. Sempre que o meio-irmão de Díctis aparecia, Dânea se sentia incomodada pelos olhares cumpridos e melosos de Polidectes de Oxossi, um homem muito poderoso em Santo Amaro da Purificação.
Considerado o Rei da Agiotagem, conseguiu sua riqueza emprestando dinheiro a quem estivesse em dificuldade financeira. Polidectes também era ligado ao jogo do bicho e possuía várias bancas na cidade. Seu poder era lendário na região. João Perseu crescia e via o interesse do homem por sua mãe jovem e bonita.
Ele também crescia em boniteza e formosura, era alto e destemido como deve ser todo herói, por isso Polidectes de Oxossi não se atrevia a se aproximar de Dânea e tomá-la com violência.
No fundo, Polidectes não usava de violência porque tinha planos políticos: queria se lançar como vereador pela bancada do governo em Santo Amaro da Purificação nas próximas eleições. Assim, não podia facilitar fazendo algo que manchasse mais sua honra, uma vez que os adversários certamente já pegariam no seu pé por ter ligações com jogo do bicho e contravenção. Como, porém, não podiam provar nada – e quem conseguia desaparecia misteriosamente – Polidectes de Oxossi tentava seguir uma vida o mais próximo possível da ‘normalidade’ e dos bons costumes, não querendo queimar o próprio filme perante a sociedade.
Certa feita, João Perseu recebeu um convite para participar da comemoração do aniversário de cinquenta anos Polidectes de Oxossi. Seria uma grande festança no palácio que o Rei da Agiotagem havia mandado construir na Ilha de Sérifo. Díctis Logun-Edê e Dânea também foram convidados. A festa foi um grande acontecimento, e todos os puxa-sacos e os puxa-sacanas estiveram presentes.
O rega-bofe foi farto e chique, e os presentes ao aniversariante chegavam de todos os lados. Não era segredo de ninguém que o presente que o Rei da Agiotagem mais gostava de receber era um grande animal, digno de um homem poderoso: cavalo. Por isso, no meio dos festejos, já um pouco mamado de vinho e outros teores alcoólicos, Polidectes de Oxossi perguntou que presente os amigos desejavam oferecer-lhe; é claro que o coro foi um só: cavalo!
A festa foi composta apenas por bambambãs que tinham poder aquisitivo para dar um presente tão caro. Ao ver que apenas João Perseu ficou em silêncio na hora em que lançou a pergunta, Polidectes indagou diretamente ao filho de Dânea o que ele lhe daria. Constrangido, o rapaz, que não tinha dinheiro suficiente para dar um presente de tão vultosa soma, surpreendeu a todos ao dizer o que daria ao rei.
O que Polidectes de Oxossi queria e ansiava era que João Perseu lhe oferecesse Dânea, autorizando um possível relacionamento entre os dois, mas isso não aconteceu. O filho realmente não queria que a mãe se envolvesse com o Rei da Agiotagem, por mais poderoso que esse fosse. Sentindo-se pressionado, João Perseu disse em alto e bom som que não tinha condições de presenteá-lo com um animal tão oneroso, mas que estava disposto a conseguir a cabeça da Medusa – um poderoso talismã que daria a quem o tivesse a faculdade de sair-se vitorioso em todos os setores da vida.
Um grande silêncio caiu entre os presentes porque o talismã era lendário e quem o conseguisse se firmaria como o mais poderoso rei de todos os reis, não apenas em Santo Amaro da Purificação, mas em toda a Bahia e também fora dela.
Ao ouvir as palavras de João Perseu, Polidectes não acreditou que o jovem fosse capaz de tal proeza, afinal muitos tinham almejado o talismã, mas ninguém o conseguira. Por isso e para ter certeza do afastamento do rapaz da ilha – de forma que pudesse aproximar-se de Dânea com mais facilidade, a fim de seduzi-la com palavras e joias – o Rei da Agiotagem fez uma aposta com o herói.
Olhando fixamente para a mãe de João Perseu, o poderoso monarca disse que, caso o rapaz não conseguisse o talismã, Polidectes de Oxossi, poderia ir à sua casa pegar o que quisesse, e ninguém poderia impedi-lo de desfrutar do que pegara. Ao proferir essas palavras, seu olhar estava cravado em Dânea, e todos entenderam que o rei falava da mãe do jovem e do quanto desfrutaria das delícias de tê-la na cama.
João Perseu aceitou.
Como todo moço, tinha fé na própria força, tinha fé na própria coragem, muitas vezes se arriscando sem pensar nas consequências, agindo impulsivamente. Ele aceitou, e o Rei da Agiotagem sorriu satisfeito, pois tinha a certeza de que João Perseu falharia, como todos os outros falharam antes dele.
Pouco antes de sair da festa, João Perseu deteve-se no jardim a olhar para o céu estrelado, pensando como conseguiria sair vitorioso da empreitada que tinha aceitado. Era a primeira vez que o jovem se afastaria da mãe e isso apertava o seu coração.
Contava a lenda que o talismã da cabeça de Medusa era uma espécie de broche, perdido dentro de uma caverna no extremo Sul, lá onde o vento do Norte dobrava o Cabo da Górgona. Na caverna perdida estava a joia, que tinha os olhos feitos com as mais lindas e brilhantes esmeraldas que havia no universo. A lenda era muito conhecida, e até aquele dia nenhum dos que empreitaram buscar o tesouro voltou para contar história, fosse de vitória, fosse de fracasso.
João Perseu olhava para o céu quando nele surgiu a figura de um lindo casal de orixás. Eram Atená e Hermes. As figuras resplandeciam em todo poder e glória, e não havia como lhes negar a divindade. Embevecido, João Perseu ajoelhou-se e rogou-lhes proteção.
A altiva guerreira Atená disse que ela e Hermes o ajudariam, apesar de ele ter sido imprudente ao prometer a Polidectes de Oxossi a cabeça da Medusa. A deusa contou que ela e Hermes, conhecido por aquelas bandas como Exu da Encruzilhada, lhe forneceriam os meios necessários para cumprir a promessa feita. Mas antes o herói deveria dar-lhes oferendas, que não poderiam ser colocadas em qualquer lugar. Todas deveriam ser arriadas no terreiro das trigêmeas conhecidas como as irmãs Fórcis, que receberam os nomes de Enio, Pefredo e Dino. Lá ele encontraria as respostas para seguir viagem e sair vitorioso na empreitada.
João Perseu já tinha ouvido falar da fama das três irmãs gêmeas siamesas, que permaneciam tão grudadas quanto desde o momento em que nasceram. O trio morava perto da praia de Cabuçu. Não era muito longe, mas o acesso era muito difícil porque, contava a lenda, elas haviam construído várias armadilhas para impedir que visitas inesperadas surgissem de repente.
João Perseu então voltou ao interior da casa do Rei da Agiotagem e contou à mãe e a Díctis de Logun-Edê sobre a aparição dos orixás e o que eles haviam determinado que fizesse. Sem entender muito bem, mas acreditando na proteção dos deuses, Dânea abençoou o filho, que começou ali mesmo a jornada para o terreiro das Fórcis.
Exu da Encruzilhada foi à frente, abrindo o caminho do jovem herói, apesar de ser de noite. Hermes tinha a capacidade de poder trafegar tanto de dia como de noite e ele foi o guia para que João Perseu conseguisse trilhar o caminho.
Durante três dias e três noites, o filho de Dânea caminhou, desviando-se das armadilhas construídas pelas gêmeas siamesas. Sem dormir, sem comer, somente bebendo a água que encontrava em algum riacho ou acumulada nas folhas das árvores, o protegido de Exu e da guerreira Atená avançou até chegar ao terreiro das irmãs, conhecidas como As velhas por já haverem nascido com a aparência envelhecida.
Diziam as más línguas que as três haviam sido rejeitadas pelos pais assim que nasceram e que um índio-caboclo é que tinha cuidado das pequenas desde que vieram ao mundo. Certeza não se tinha, ninguém confirmava, mas certo é que estavam cada qual grudada na outra e que todas eram cegas de um olho. Feias como a fome, com apenas um dente cada uma, nada disso assustou ao jovem.
Ao chegar ao terreiro, João Perseu teve a nítida impressão de que já era esperado, mas Atená lhe havia avisado que as Fórcis eram seres muito astutos e que não ensinariam com facilidade o caminho para chegar à gruta onde se encontrava o talismã da Medusa.
Ao contar para as irmãs gêmeas que o objetivo de sua presença no terreiro era arriar oferendas aos orixás Atená e Exu, elas o aceitaram, um tanto desconfiadas, é bem verdade; mas acabaram aceitando a presença do rapaz. Elas impuseram, porém, uma condição: ele deveria passar por uma sessão de descarrego e purificações antes de ofertar os presentes aos deuses.
A purificação se daria através de banhos, ervas e comidas. Durante setenta e sete dias e setenta e sete noites, João Perseu fez tudo o que elas mandaram e purificou o corpo e a alma, e lentamente foi ganhando a confiança das gêmeas. Ao final, estava com o corpo fechado contra qualquer maldição, podendo enfrentar todos os perigos que certamente encontraria pela frente.
Protegido por Atená e Exu, as três Fórcis incorporadas ofereceram-lhe alguns objetos sagrados que o ajudariam a conseguir o talismã, pois na gruta onde o broche estava escondido havia muitas armadilhas e não seria fácil passar por cada uma delas. O rapaz deveria enfrentar diversas peripécias. Não seria fácil conseguir o precioso amuleto, que daria a quem o possuísse todo o poder e a glória.
João Perseu recebeu das mãos das siamesas um par de sandálias sagradas, capazes de fazer voar a qualquer um que as calçasse; uma espécie de alforje, para guardar o broche da cabeça da Medusa; e um capacete, que lhe possibilitava a invisibilidade.
Atená, incorporada na Fórcis Pefredo, contou ao protegido o porquê de ninguém voltar da gruta.
Segundo ela, quem olhasse para as esmeraldas incrustadas nos olhos da cabeça de Medusa virava pedra imediatamente. Era uma maldição que acompanhava o artefato há milênios e milênios, desde o tempo em que Céu e Gaia ainda não se haviam separado. Para que João Perseu não olhasse diretamente o broche – que tinha poderes divinos, como mudar de lugar por si mesmo – e saísse vitorioso, Atená deu ao filho de Dânea seu escudo de guerreira, tão polido e reluzente, que mais parecia um espelho.
De Hermes João Perseu obteve emprestada uma afiada espada de aço, que lhe seria muito útil na longa jornada.
A orixá guerreira disse-lhe, ainda, que o broche estava protegido por várias entidades do Vale do Hades e que só com muita astúcia e valentia pegaria o amuleto. Duas soldadas também protegiam o broche, as Górgonas Ésteno e Euríale, avisou Atená.
Munido dos presentes dados pelos deuses, João Perseu saiu do terreiro das três Fórcis e caminhou em direção à gruta das Górgonas, que ficava no meio de uma densa floresta.
A viagem foi longa.
Por muitas vezes o herói precisou acalmar o coração impaciente, que queria chegar logo e lutar. Ao final de trinta e três dias de viagem marítima, chegou à caverna no extremo Sul, onde o vento do Norte dobrava o Cabo da Górgona. Na caverna perdida, estava a joia, que tinha os olhos feitos com as mais lindas e brilhantes esmeraldas que havia no universo.
A cada passo que o protegido de Atená dava, surgia uma armadilha para impedir sua entrada. Porém o filho de Dânea com uma divindade luminosa tinha nascido para a glória, para brilhar, e uma a uma, utilizando as armas dada pelos orixás, foi vencendo as armadilhas.
O local tinha várias câmeras escuras, e cada uma ele ultrapassou. Quando chegou à última câmera, encontrou o broche e, protegendo-o, as duas Górgonas, conforme tinha avisado Atená. João Perseu, cobrindo-se com o capacete da invisibilidade, colocou na água das guardiãs um líquido que logo as fez adormecer.
Assim que desacordaram, João Perseu tirou o capacete da invisibilidade, voltando a ficar visível. Aproximou-se, então, do altar onde estava o broche. Ao tentar pegá-lo, surgiu à sua frente uma grande cabeça de monstro, com serpentes venenosas no lugar dos cabelos.
Esta era a verdadeira Medusa, que protegia o broche. Lembrando-se dos presentes dados pelos deuses, João Perseu utilizou o escudo de Atená para localizar o mostro; com a espada dada por Exu, cortou-lhe a cabeça peçonhenta, que rolou pelo altar até o chão.
Em seguida, pegou a cabeça do monstro e o broche que havia ido buscar, jogou-os no alforje e caminhou para a saída. Justamente neste momento, contudo, as duas Górgonas acordaram e foram ao seu encalço.
Com as sandálias voadoras e novamente colocando o capacete, João Perseu voou floresta afora, fugindo da perseguição.
O herói só respirou aliviado ao chegar ao barco e içar vela para retornar à Ilha de Sérifo, levando consigo o broche, que entregaria ao Rei da Agiotagem, e também a cabeça da verdadeira Medusa, que ainda lhe seria útil em sua grande jornada de herói.
Foram trinta e três dias de volta para casa, e João Perseu a cada porto via sua história o anteceder. Todos já conheciam sua vitória e honravam seu nome, sem mesmo o ter visto.
No meio do caminho, encontrou um marinheiro que contava a história de uma linda donzela chamada Andrômeda, que sofria no Oriente. João Perseu ficou tentado a ir ao encontro da jovem, que sofria agrilhoada em um rochedo à beira-mar, mas ele não podia. Sua missão era entregar o broche a Polidectes, pois senão sofreria sua amada mãe. E assim fez. Após um mês e três dias chegou ao palácio de Polidectes de Oxossi e ofereceu-lhe o broche, conforme o prometido.
Quem viu o herói entregando o presente pode jurar de pés juntos que na face do poderoso rei só se via decepção. Na verdade, o que ele queria era a mãe de João Perseu na cama. Mas como promessa é promessa e a do jovem herói tinha sido cumprida, também ele teria que cumprir a sua parte e deixar Dânea intocada.
A mãe do rapaz, ao saber da chegada do filho, foi ao seu encontro imediatamente, mas este já tinha ido para o porto. Decidira ir ao Oriente e cumprir, assim, sua missão de herói. Dânea ainda conseguiu despedir-se do filho, minutos antes de sua partida para uma nova aventura.
Ela se conformou, apesar de chorar um pouco. Dânea sabia que a missão de seu rebento era esta: ser herói e lutar contra aquilo que a maioria não luta, em nome de um bem maior. João Perseu, seguindo o seu caminho, foi salvar a jovem Andrômeda.
Uma longa jornada João Perseu empreendeu até chegar ao Oriente e salvar Andrômeda do monstro que a queria devorar.
Mas isso já é uma outra história.
terça-feira, 31 de maio de 2011
Desconhecidos
Desconhecidos numa sala de espera. Um silêncio um tanto quanto constrangedor se instala. Uns olham para os outros buscando algum assunto.
Um senhor de óculos mexe a mochila.
A senhora gorda que traz um coração numa longa corrente no pescoço mexe no cabelo.
O garoto de óculos olha, hipnotizado, para o chão.
O senhor careca anota numa caderneta alguns números, fazendo contas.
A senhora de xale dá um longo suspiro – “ai, ai”.
Uma jovem negra entra na sala e todos dão apressadamente um “bom dia”. A impressão que se tem é que agora a conversa vai deslanchar, mas um silêncio de catedrais reina novamente.
O que cada um espera?
O que cada um almeja na vida?
Será que a gorda espera dar seu coração para alguém?
Será que o senhor de mochila espera a juventude de volta?
Será que o garoto de óculos espera que no chão apareça um buraco de onde surja um Pokémon para resgatá-lo?
Será que o careca almeja ter todas as suas contas pagas e que a ex-mulher deixe de atazaná-lo para que possa viver em paz com a atual mulher?
E a senhora de xale? Espera o que com tantos gemidos de “ai, ai”? Será que é alguma cantora de fado arruinada?
E a garota negra? O que espera com a mão no queixo e olhar perdido para a parede verde? Será que espera que nasça diante dos seus olhos alguma esperança?
Tantas vidas.
Tantos mistérios.
Tantos desejos.
Tantas desilusões perdidas numa sala de espera.
Esperam.
Um senhor de óculos mexe a mochila.
A senhora gorda que traz um coração numa longa corrente no pescoço mexe no cabelo.
O garoto de óculos olha, hipnotizado, para o chão.
O senhor careca anota numa caderneta alguns números, fazendo contas.
A senhora de xale dá um longo suspiro – “ai, ai”.
Uma jovem negra entra na sala e todos dão apressadamente um “bom dia”. A impressão que se tem é que agora a conversa vai deslanchar, mas um silêncio de catedrais reina novamente.
O que cada um espera?
O que cada um almeja na vida?
Será que a gorda espera dar seu coração para alguém?
Será que o senhor de mochila espera a juventude de volta?
Será que o garoto de óculos espera que no chão apareça um buraco de onde surja um Pokémon para resgatá-lo?
Será que o careca almeja ter todas as suas contas pagas e que a ex-mulher deixe de atazaná-lo para que possa viver em paz com a atual mulher?
E a senhora de xale? Espera o que com tantos gemidos de “ai, ai”? Será que é alguma cantora de fado arruinada?
E a garota negra? O que espera com a mão no queixo e olhar perdido para a parede verde? Será que espera que nasça diante dos seus olhos alguma esperança?
Tantas vidas.
Tantos mistérios.
Tantos desejos.
Tantas desilusões perdidas numa sala de espera.
Esperam.
sexta-feira, 27 de maio de 2011
Jogado
Fazia tempo que ele estava ali na estante da livraria, na sessão de contos e crônicas, mas ninguém, ninguém mesmo!, o comprava. Para dizer a verdade, sequer suas folhas eram folheadas.
Não era um livro cujo autor fosse famoso, não, não era. Era uma simples coletânea de autores anônimos que tentavam a sorte no mundo das letras.
O livro de contos ficava lá jogado, no meio da estante, esperando que um filho de Deus o olhasse e – doce ilusão! – o levasse para casa. Mas seu dia ainda não chegara e, para ser sincera com você, nem sei se chegaria, já que fazia tempo que o pobre do livro estava lá, perdido no meio de nomes como Machado de Assis, Gustave Flaubert, João do Rio, Moacyr Scliar... Gente importante, sim senhor! Gente de gabarito. Gente que é chique dizer que se leu, ainda que na verdade não se tenha passado da leitura da orelha. Como competir no meio de gente tão importante, não é mesmo? Não dá. Por isso o coitado do livro de contos ficava lá esquecido. Desde que foi colocado na prateleira, ninguém sequer o folheou. Já contei isso, não? Pois é, para você ver a solidão do coitadinho. Dava pena...
Também, convenhamos!, a capa não chamava a atenção de ninguém. Eu não quero falar mal, longe de mim fazer comentários depreciativos, mas realmente com aquela capa horrível não havia cristão que se aventurasse a passar os olhos nas histórias dos coitados dos autores.
E o título?! Vixe! Nem se fala! Parecia extraído de algum livro de romance-sentimental, desses que vendem em banca e têm sobrenome de autora estrangeira: Donald, Parker, Beverley, Jordan, Simmons, Roberts... Livros para moças, como diriam alguns.
Então, não é para falar mal, juro que não é, mas com um título daquele, ah, não havia jeito de atrair o leitor distraído e impulsivo, que comprasse um livro num momento de compulsão de ter e não de ser. ’Tadinho do pobre! Também, quem mandou colocar um livro desses num estabelecimento tão chique como aquele? Cá entre nós, eu acho que o dono da livraria quis agradar algum conhecido colocando na prateira aquele livro de contos de autores anônimos. Se contar isso para alguém, eu vou jurar que é mentira, mas que deve ter sido isso, ah deve!, porque não há nenhuma explicação para colocar o irrisório livreco naquela prateleira da livraria chique.
E o infeliz e desventurado do livro fica lá na estante, esperando que alguma musa de Homero – ou mesmo de Hesíodo, vá lá – inspire um leitor a folheá-lo, cumprindo, assim, minimamente seu destino: ser lido.
Não era um livro cujo autor fosse famoso, não, não era. Era uma simples coletânea de autores anônimos que tentavam a sorte no mundo das letras.
O livro de contos ficava lá jogado, no meio da estante, esperando que um filho de Deus o olhasse e – doce ilusão! – o levasse para casa. Mas seu dia ainda não chegara e, para ser sincera com você, nem sei se chegaria, já que fazia tempo que o pobre do livro estava lá, perdido no meio de nomes como Machado de Assis, Gustave Flaubert, João do Rio, Moacyr Scliar... Gente importante, sim senhor! Gente de gabarito. Gente que é chique dizer que se leu, ainda que na verdade não se tenha passado da leitura da orelha. Como competir no meio de gente tão importante, não é mesmo? Não dá. Por isso o coitado do livro de contos ficava lá esquecido. Desde que foi colocado na prateleira, ninguém sequer o folheou. Já contei isso, não? Pois é, para você ver a solidão do coitadinho. Dava pena...
Também, convenhamos!, a capa não chamava a atenção de ninguém. Eu não quero falar mal, longe de mim fazer comentários depreciativos, mas realmente com aquela capa horrível não havia cristão que se aventurasse a passar os olhos nas histórias dos coitados dos autores.
E o título?! Vixe! Nem se fala! Parecia extraído de algum livro de romance-sentimental, desses que vendem em banca e têm sobrenome de autora estrangeira: Donald, Parker, Beverley, Jordan, Simmons, Roberts... Livros para moças, como diriam alguns.
Então, não é para falar mal, juro que não é, mas com um título daquele, ah, não havia jeito de atrair o leitor distraído e impulsivo, que comprasse um livro num momento de compulsão de ter e não de ser. ’Tadinho do pobre! Também, quem mandou colocar um livro desses num estabelecimento tão chique como aquele? Cá entre nós, eu acho que o dono da livraria quis agradar algum conhecido colocando na prateira aquele livro de contos de autores anônimos. Se contar isso para alguém, eu vou jurar que é mentira, mas que deve ter sido isso, ah deve!, porque não há nenhuma explicação para colocar o irrisório livreco naquela prateleira da livraria chique.
E o infeliz e desventurado do livro fica lá na estante, esperando que alguma musa de Homero – ou mesmo de Hesíodo, vá lá – inspire um leitor a folheá-lo, cumprindo, assim, minimamente seu destino: ser lido.
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