quinta-feira, 30 de junho de 2011

A saga de João Perseu - a trajetória de um herói

Vou contar-lhes a linda história de um herói muito corajoso que enfrentou monstros e poderosos para salvar sua amada mãe.

Era uma vez, em algum remoto rincão do universo cintilante que se derrama em um sem número de sistemas solares, havia uma fazenda onde morava Dânea, uma linda donzela cujo pai, senhor fazendeiro dos muito poderosos, não se conformava de não ter gerado nenhum menino-macho.

O coronel Acrísio, homem muito supersticioso, não conseguia tirar da cabeça a certeza de que foi praga de uma preta velha que lhe impediu de gerar um filho para lhe perpetuar o nome, nem que fosse um filho bastardo.

Em sua juventude, garoto cheio de poder e nenhum juízo, o jovem Acrísio expulsou das terras do seu pai uma feiticeira que era cega, mas enxergava como ninguém as verdades da vida. Foi ela quem sentenciou que, por mais mulheres que tivesse, nunca sairia de sua semente um garoto, porém sua filha geraria um neto que o mataria, vertendo seu sangue ao chão e amaldiçoando todas as gerações futuras, que viveriam sem honrar seu nome e memória.

No início, o jovem coronelzinho não deu muita atenção à imprecação da feiticeira-vidente, mas, com o passar dos anos e o desejo crescente de perpetuar seu nome para a história da humanidade, começou a ficar revoltado com a maldição. Queria ter alguém que levasse seu sangue e recebesse léguas e léguas de terra boa e produtiva sobre a qual reinar.

Então decidiu mudar o destino. Acrísio determinou que enquanto vivesse – e o coronel garantia a quem quisesse ouvir que viveria ainda muitos e muitos anos – a filha continuaria donzela. Após sua morte, poderia casar e gerar uma prole.

Os anos foram passando, passando e no acúmulo dos dias se transformaram em décadas. As funestas palavras da preta velha se concretizavam em sua vida e no seu coração.

Quando gerou sua primeira e única filha, o coronel decidiu aprisioná-la num convento construído às margens do Rio Amazonas, desses que se encontram longe de tudo e de todos, onde só se veem figuras femininas e o contato com homem é negado. O convento ficava perdido nos confins da terra, lá onde Judas perdeu as meias, porque as botas ele já tinha perdido vinte e cinco léguas antes. Para lá a jovem donzela foi levada e lá foi trancada, no meio de meia dúzia de velhas irmãs de caridade que tinham como voto não ter contato com nenhum homem; sequer padre era aceito naquela comunidade religiosa, para se ter uma ideia.

Dânea quando foi para o convento ainda não tinha completado cinco anos. Largou a família vertendo muita lágrima e sem entender o porquê da separação. Apesar do chororô, o pai manteve o pé firme e mandou a filha embora.

Durante todos os anos que se seguiram Acrísio dormiu o sono dos justos, certo de que morreria, como todo mundo morre, mas não pelas mãos do próprio neto, e de que seu nome seria honrado e reverenciada seria sua memória.

Mas é como dizem, o olho do dono é que engorda o gado. Uma vez ao ano Acrísio visitava a filha para ver se tudo corria bem, se ela continuava sem contato com nenhuma figura masculina que lhe pudesse “fazer mal” e embuchar. Por causa do grande donativo que enviava ao convento, Acrísio era o único humano do sexo masculino que tinha autorização de pisar o solo daquela comunidade religiosa. Isso ocorreu durante uma década.

Um dia, quando Dânea já tinha completado quinze anos, Acrísio foi visitá-la e com surpresa ouviu – durante os poucos minutos a que tinha direito de ficar junto com a filha – ao longe um choro de um bebê.

Como a única que tinha idade para procriar era sua filha, já que todas as outras mulheres da comunidade religiosa haviam passado há muito tempo dos sessenta anos, Acrísio não se conteve e num acesso de raiva adentrou o convento em busca do som daquele choro. Uma irmã de caridade balançava uma pequena trouxa, tentando acalmar a criança, que berrava a plenos pulmões.

Acrísio tomou o embrulho de seus braços e constatou que se tratava de um menino-macho, sim, senhor. Indignado e cheio de furor assassino, foi tomar satisfações com a filha e a madre-superiora que coordenava aquele local ermo.

Dânea explicou que, numa noite de São João, quando foi olhar as estrelas brilhantes do céu às margens do Rio Amazonas, uma chuva de ouro se fez presente e no meio dela apareceu um lindo rapaz, que a seduziu. Um jovem garboso que tinha o porte de um rei emprenhou a donzela. A madre superiora confirmou a história da filha de Acrísio, garantindo que nenhum homem tinha sido autorizado a entrar no convento e que ela acreditava nas histórias da região, que diziam que em noites de São João o boto-cor-de-rosa se transforma em um belo homem para seduzir as donzelas que moravam às margens do rio.

Não houve meio de fazer o coronel entender o destino da filha, que tinha entregado sua pureza ao rei dos botos encantados e lhe gerado um neto de origem divina. Acrísio tinha certeza de que algum homem sabichão havia engambelado sua filha, embuchando-a, isso sim.

Não houve pedido e clamor que fizessem Acrísio mudar de ideia. Ele tirou a filha do convento junto com o neto por ele amaldiçoado. Sem poder fazer mais nada, a madre superiora lamentou a partida da garota e também do donativo que gordamente recebia.
Acrísio resolveu levar a filha com o rebento para a própria fazenda, mas antes telegrafou ao seu capataz, dando-lhe algumas ordens para que quando chegasse em casa já estivesse tudo pronto.

O retorno foi lento, demorado, comprido, porque a pobre garota chorava e repetia sempre a mesma ladainha do boto-cor-de-rosa que havia surgido de uma chuva de ouro… A criança, sentindo o clima pesado, também chorava e se agitava, não dando sossego ao avô, que fingia não escutar nenhum dos dois, filha e neto.

Ao chegarem, mal pôs os pés nas terras do pai, Dânea viu uma imensa caixa na beira do rio que cortava a fazenda. Em vez de levar a filha e o neto para a sede do casarão, Acrísio e seus empregados levaram Dânea e o menino para dentro da caixa. Quando a jovem entendeu o que o pai queria fazer – jogá-la dentro das águas com seu filho para que ambos morressem – ainda tentou resistir, mas no final quem levou a melhor foi o pai, que mandou que a caixa fosse atirada ao rio.

Durante sete dias e sete noites a caixa foi levada pelo rio, seguindo seu destino: o mar. Durante sete dias e sete noites Dânea passou fome e só bebia a água da chuva de ouro que sempre caía de mansinho no início da manhã, no finalzinho da tarde e na alta madrugada. Seu filho, que recebera o nome de João Perseu, alimentava-se do leite materno e quanto mais ele sugava, mais força parecia dar à jovem mãe.

João Perseu nasceu para a glória, nasceu para resplandecer, para ser herói de seu povo e já mostrava sua força ao vencer morte em tão tenra idade.

Era madrugada e uma lua cheia enorme iluminava a praia da Ilha de Sérifo quando Dânea e o jovem herói chegaram à margem sãos e salvos, apesar de todos os entraves da longa jornada. A ilha ficava a poucos quilômetros da Praia de Itapema, em Santo Amaro da Purificação, na Bahia de Todos os Santos. Foi lá que o pescador Díctis de Logun-Edê encontrou, na beirinha da praia, a grande caixa trazida pela maré. O pescador, homem vivido nas águas dos mares e dos rios, levou um grande susto quando encontrou o enorme artefato, de cujo interior se ouvia o som de choro de criança. O pescador rogou ao seu orixá de frente, Logun-Edê, que o protegesse antes de ver o que realmente havia lá dentro. Com dificuldade, Díctis conseguiu retirar Dânea e seu pequeno filho de dentro do objeto.

Díctis de Logun-Edê assim que viu Dânea ficou fascinado com a beleza da jovem, porém quando viu o menino teve a certeza de que estava na frente de um grande guerreiro, desses que nasceram para guerrear todas as guerras, em nome de todos os orixás de África ou de fora dela. Viu dentro do olho do menininho que ele havia vindo ao mundo com uma missão: proteger todos de tudo que fosse ruim ou malvado.

Dânea, tão logo se viu salva, agradeceu aos céus por ela e por seu pequeno filho terem suportado a grande viagem e por terem também encontrado uma alma caridosa que os acolheu. Díctis de Logun-Edê levou mãe e filho para sua casa – que ficava a poucos metros – e os acolheu com carinho e respeito.

Dânea nada escondeu. Contou tudo o que aconteceu desde que tinha partido da casa do pai, sua chegada ao convento, a dificuldade de se adaptar àquele tipo de vida, que era muito espartana e rigorosa, a solidão, a tristeza e a saudade da família, a revolta por ser o pai tão supersticioso a ponto de ter mandado a própria filha embora, suas visitas apenas uma vez por ano. Contou também da noite estrelada em que se deixou engambelar pelo canto do boto-cor-de-rosa, a surpresa da gravidez.

Contou tudo, tudinho mesmo. Não escondeu uma vírgula, um ponto e vírgula, um travessão, um ponto final de sua história e, mesmo assim, a alma generosa de Díctis a aceitou, não a censurou, acolheu a ela e a João Perseu.

E assim aconteceu, Dânea e o pequeno foram acolhidos pelo coração generoso de Díctis de Logun-Edê em sua casa viviam, como uma família feliz e harmoniosa, sem temer o perigo do pai insano. Dânea ainda carregava um pedaço de medo do lado esquerdo do peito, medo de o pai desnaturado descobrir que ela e o filho estavam vivos e vir com malvadeza para o seu lado. Mas isso não aconteceu. Ninguém os importunou, e o menino crescia anonimamente, como deve ser a todo herói destinado à glória.

Tudo corria em perfeita paz, ou quase. Sempre que o meio-irmão de Díctis aparecia, Dânea se sentia incomodada pelos olhares cumpridos e melosos de Polidectes de Oxossi, um homem muito poderoso em Santo Amaro da Purificação.

Considerado o Rei da Agiotagem, conseguiu sua riqueza emprestando dinheiro a quem estivesse em dificuldade financeira. Polidectes também era ligado ao jogo do bicho e possuía várias bancas na cidade. Seu poder era lendário na região. João Perseu crescia e via o interesse do homem por sua mãe jovem e bonita.

Ele também crescia em boniteza e formosura, era alto e destemido como deve ser todo herói, por isso Polidectes de Oxossi não se atrevia a se aproximar de Dânea e tomá-la com violência.

No fundo, Polidectes não usava de violência porque tinha planos políticos: queria se lançar como vereador pela bancada do governo em Santo Amaro da Purificação nas próximas eleições. Assim, não podia facilitar fazendo algo que manchasse mais sua honra, uma vez que os adversários certamente já pegariam no seu pé por ter ligações com jogo do bicho e contravenção. Como, porém, não podiam provar nada – e quem conseguia desaparecia misteriosamente – Polidectes de Oxossi tentava seguir uma vida o mais próximo possível da ‘normalidade’ e dos bons costumes, não querendo queimar o próprio filme perante a sociedade.

Certa feita, João Perseu recebeu um convite para participar da comemoração do aniversário de cinquenta anos Polidectes de Oxossi. Seria uma grande festança no palácio que o Rei da Agiotagem havia mandado construir na Ilha de Sérifo. Díctis Logun-Edê e Dânea também foram convidados. A festa foi um grande acontecimento, e todos os puxa-sacos e os puxa-sacanas estiveram presentes.

O rega-bofe foi farto e chique, e os presentes ao aniversariante chegavam de todos os lados. Não era segredo de ninguém que o presente que o Rei da Agiotagem mais gostava de receber era um grande animal, digno de um homem poderoso: cavalo. Por isso, no meio dos festejos, já um pouco mamado de vinho e outros teores alcoólicos, Polidectes de Oxossi perguntou que presente os amigos desejavam oferecer-lhe; é claro que o coro foi um só: cavalo!

A festa foi composta apenas por bambambãs que tinham poder aquisitivo para dar um presente tão caro. Ao ver que apenas João Perseu ficou em silêncio na hora em que lançou a pergunta, Polidectes indagou diretamente ao filho de Dânea o que ele lhe daria. Constrangido, o rapaz, que não tinha dinheiro suficiente para dar um presente de tão vultosa soma, surpreendeu a todos ao dizer o que daria ao rei.

O que Polidectes de Oxossi queria e ansiava era que João Perseu lhe oferecesse Dânea, autorizando um possível relacionamento entre os dois, mas isso não aconteceu. O filho realmente não queria que a mãe se envolvesse com o Rei da Agiotagem, por mais poderoso que esse fosse. Sentindo-se pressionado, João Perseu disse em alto e bom som que não tinha condições de presenteá-lo com um animal tão oneroso, mas que estava disposto a conseguir a cabeça da Medusa – um poderoso talismã que daria a quem o tivesse a faculdade de sair-se vitorioso em todos os setores da vida.

Um grande silêncio caiu entre os presentes porque o talismã era lendário e quem o conseguisse se firmaria como o mais poderoso rei de todos os reis, não apenas em Santo Amaro da Purificação, mas em toda a Bahia e também fora dela.

Ao ouvir as palavras de João Perseu, Polidectes não acreditou que o jovem fosse capaz de tal proeza, afinal muitos tinham almejado o talismã, mas ninguém o conseguira. Por isso e para ter certeza do afastamento do rapaz da ilha – de forma que pudesse aproximar-se de Dânea com mais facilidade, a fim de seduzi-la com palavras e joias – o Rei da Agiotagem fez uma aposta com o herói.

Olhando fixamente para a mãe de João Perseu, o poderoso monarca disse que, caso o rapaz não conseguisse o talismã, Polidectes de Oxossi, poderia ir à sua casa pegar o que quisesse, e ninguém poderia impedi-lo de desfrutar do que pegara. Ao proferir essas palavras, seu olhar estava cravado em Dânea, e todos entenderam que o rei falava da mãe do jovem e do quanto desfrutaria das delícias de tê-la na cama.

João Perseu aceitou.

Como todo moço, tinha fé na própria força, tinha fé na própria coragem, muitas vezes se arriscando sem pensar nas consequências, agindo impulsivamente. Ele aceitou, e o Rei da Agiotagem sorriu satisfeito, pois tinha a certeza de que João Perseu falharia, como todos os outros falharam antes dele.

Pouco antes de sair da festa, João Perseu deteve-se no jardim a olhar para o céu estrelado, pensando como conseguiria sair vitorioso da empreitada que tinha aceitado. Era a primeira vez que o jovem se afastaria da mãe e isso apertava o seu coração.

Contava a lenda que o talismã da cabeça de Medusa era uma espécie de broche, perdido dentro de uma caverna no extremo Sul, lá onde o vento do Norte dobrava o Cabo da Górgona. Na caverna perdida estava a joia, que tinha os olhos feitos com as mais lindas e brilhantes esmeraldas que havia no universo. A lenda era muito conhecida, e até aquele dia nenhum dos que empreitaram buscar o tesouro voltou para contar história, fosse de vitória, fosse de fracasso.

João Perseu olhava para o céu quando nele surgiu a figura de um lindo casal de orixás. Eram Atená e Hermes. As figuras resplandeciam em todo poder e glória, e não havia como lhes negar a divindade. Embevecido, João Perseu ajoelhou-se e rogou-lhes proteção.

A altiva guerreira Atená disse que ela e Hermes o ajudariam, apesar de ele ter sido imprudente ao prometer a Polidectes de Oxossi a cabeça da Medusa. A deusa contou que ela e Hermes, conhecido por aquelas bandas como Exu da Encruzilhada, lhe forneceriam os meios necessários para cumprir a promessa feita. Mas antes o herói deveria dar-lhes oferendas, que não poderiam ser colocadas em qualquer lugar. Todas deveriam ser arriadas no terreiro das trigêmeas conhecidas como as irmãs Fórcis, que receberam os nomes de Enio, Pefredo e Dino. Lá ele encontraria as respostas para seguir viagem e sair vitorioso na empreitada.

João Perseu já tinha ouvido falar da fama das três irmãs gêmeas siamesas, que permaneciam tão grudadas quanto desde o momento em que nasceram. O trio morava perto da praia de Cabuçu. Não era muito longe, mas o acesso era muito difícil porque, contava a lenda, elas haviam construído várias armadilhas para impedir que visitas inesperadas surgissem de repente.

João Perseu então voltou ao interior da casa do Rei da Agiotagem e contou à mãe e a Díctis de Logun-Edê sobre a aparição dos orixás e o que eles haviam determinado que fizesse. Sem entender muito bem, mas acreditando na proteção dos deuses, Dânea abençoou o filho, que começou ali mesmo a jornada para o terreiro das Fórcis.
Exu da Encruzilhada foi à frente, abrindo o caminho do jovem herói, apesar de ser de noite. Hermes tinha a capacidade de poder trafegar tanto de dia como de noite e ele foi o guia para que João Perseu conseguisse trilhar o caminho.

Durante três dias e três noites, o filho de Dânea caminhou, desviando-se das armadilhas construídas pelas gêmeas siamesas. Sem dormir, sem comer, somente bebendo a água que encontrava em algum riacho ou acumulada nas folhas das árvores, o protegido de Exu e da guerreira Atená avançou até chegar ao terreiro das irmãs, conhecidas como As velhas por já haverem nascido com a aparência envelhecida.

Diziam as más línguas que as três haviam sido rejeitadas pelos pais assim que nasceram e que um índio-caboclo é que tinha cuidado das pequenas desde que vieram ao mundo. Certeza não se tinha, ninguém confirmava, mas certo é que estavam cada qual grudada na outra e que todas eram cegas de um olho. Feias como a fome, com apenas um dente cada uma, nada disso assustou ao jovem.

Ao chegar ao terreiro, João Perseu teve a nítida impressão de que já era esperado, mas Atená lhe havia avisado que as Fórcis eram seres muito astutos e que não ensinariam com facilidade o caminho para chegar à gruta onde se encontrava o talismã da Medusa.

Ao contar para as irmãs gêmeas que o objetivo de sua presença no terreiro era arriar oferendas aos orixás Atená e Exu, elas o aceitaram, um tanto desconfiadas, é bem verdade; mas acabaram aceitando a presença do rapaz. Elas impuseram, porém, uma condição: ele deveria passar por uma sessão de descarrego e purificações antes de ofertar os presentes aos deuses.

A purificação se daria através de banhos, ervas e comidas. Durante setenta e sete dias e setenta e sete noites, João Perseu fez tudo o que elas mandaram e purificou o corpo e a alma, e lentamente foi ganhando a confiança das gêmeas. Ao final, estava com o corpo fechado contra qualquer maldição, podendo enfrentar todos os perigos que certamente encontraria pela frente.

Protegido por Atená e Exu, as três Fórcis incorporadas ofereceram-lhe alguns objetos sagrados que o ajudariam a conseguir o talismã, pois na gruta onde o broche estava escondido havia muitas armadilhas e não seria fácil passar por cada uma delas. O rapaz deveria enfrentar diversas peripécias. Não seria fácil conseguir o precioso amuleto, que daria a quem o possuísse todo o poder e a glória.

João Perseu recebeu das mãos das siamesas um par de sandálias sagradas, capazes de fazer voar a qualquer um que as calçasse; uma espécie de alforje, para guardar o broche da cabeça da Medusa; e um capacete, que lhe possibilitava a invisibilidade.
Atená, incorporada na Fórcis Pefredo, contou ao protegido o porquê de ninguém voltar da gruta.

Segundo ela, quem olhasse para as esmeraldas incrustadas nos olhos da cabeça de Medusa virava pedra imediatamente. Era uma maldição que acompanhava o artefato há milênios e milênios, desde o tempo em que Céu e Gaia ainda não se haviam separado. Para que João Perseu não olhasse diretamente o broche – que tinha poderes divinos, como mudar de lugar por si mesmo – e saísse vitorioso, Atená deu ao filho de Dânea seu escudo de guerreira, tão polido e reluzente, que mais parecia um espelho.

De Hermes João Perseu obteve emprestada uma afiada espada de aço, que lhe seria muito útil na longa jornada.

A orixá guerreira disse-lhe, ainda, que o broche estava protegido por várias entidades do Vale do Hades e que só com muita astúcia e valentia pegaria o amuleto. Duas soldadas também protegiam o broche, as Górgonas Ésteno e Euríale, avisou Atená.
Munido dos presentes dados pelos deuses, João Perseu saiu do terreiro das três Fórcis e caminhou em direção à gruta das Górgonas, que ficava no meio de uma densa floresta.

A viagem foi longa.

Por muitas vezes o herói precisou acalmar o coração impaciente, que queria chegar logo e lutar. Ao final de trinta e três dias de viagem marítima, chegou à caverna no extremo Sul, onde o vento do Norte dobrava o Cabo da Górgona. Na caverna perdida, estava a joia, que tinha os olhos feitos com as mais lindas e brilhantes esmeraldas que havia no universo.

A cada passo que o protegido de Atená dava, surgia uma armadilha para impedir sua entrada. Porém o filho de Dânea com uma divindade luminosa tinha nascido para a glória, para brilhar, e uma a uma, utilizando as armas dada pelos orixás, foi vencendo as armadilhas.

O local tinha várias câmeras escuras, e cada uma ele ultrapassou. Quando chegou à última câmera, encontrou o broche e, protegendo-o, as duas Górgonas, conforme tinha avisado Atená. João Perseu, cobrindo-se com o capacete da invisibilidade, colocou na água das guardiãs um líquido que logo as fez adormecer.

Assim que desacordaram, João Perseu tirou o capacete da invisibilidade, voltando a ficar visível. Aproximou-se, então, do altar onde estava o broche. Ao tentar pegá-lo, surgiu à sua frente uma grande cabeça de monstro, com serpentes venenosas no lugar dos cabelos.

Esta era a verdadeira Medusa, que protegia o broche. Lembrando-se dos presentes dados pelos deuses, João Perseu utilizou o escudo de Atená para localizar o mostro; com a espada dada por Exu, cortou-lhe a cabeça peçonhenta, que rolou pelo altar até o chão.

Em seguida, pegou a cabeça do monstro e o broche que havia ido buscar, jogou-os no alforje e caminhou para a saída. Justamente neste momento, contudo, as duas Górgonas acordaram e foram ao seu encalço.

Com as sandálias voadoras e novamente colocando o capacete, João Perseu voou floresta afora, fugindo da perseguição.

O herói só respirou aliviado ao chegar ao barco e içar vela para retornar à Ilha de Sérifo, levando consigo o broche, que entregaria ao Rei da Agiotagem, e também a cabeça da verdadeira Medusa, que ainda lhe seria útil em sua grande jornada de herói.
Foram trinta e três dias de volta para casa, e João Perseu a cada porto via sua história o anteceder. Todos já conheciam sua vitória e honravam seu nome, sem mesmo o ter visto.

No meio do caminho, encontrou um marinheiro que contava a história de uma linda donzela chamada Andrômeda, que sofria no Oriente. João Perseu ficou tentado a ir ao encontro da jovem, que sofria agrilhoada em um rochedo à beira-mar, mas ele não podia. Sua missão era entregar o broche a Polidectes, pois senão sofreria sua amada mãe. E assim fez. Após um mês e três dias chegou ao palácio de Polidectes de Oxossi e ofereceu-lhe o broche, conforme o prometido.

Quem viu o herói entregando o presente pode jurar de pés juntos que na face do poderoso rei só se via decepção. Na verdade, o que ele queria era a mãe de João Perseu na cama. Mas como promessa é promessa e a do jovem herói tinha sido cumprida, também ele teria que cumprir a sua parte e deixar Dânea intocada.

A mãe do rapaz, ao saber da chegada do filho, foi ao seu encontro imediatamente, mas este já tinha ido para o porto. Decidira ir ao Oriente e cumprir, assim, sua missão de herói. Dânea ainda conseguiu despedir-se do filho, minutos antes de sua partida para uma nova aventura.

Ela se conformou, apesar de chorar um pouco. Dânea sabia que a missão de seu rebento era esta: ser herói e lutar contra aquilo que a maioria não luta, em nome de um bem maior. João Perseu, seguindo o seu caminho, foi salvar a jovem Andrômeda.

Uma longa jornada João Perseu empreendeu até chegar ao Oriente e salvar Andrômeda do monstro que a queria devorar.

Mas isso já é uma outra história.

2 comentários:

Cacá - José Cláudio disse...

Você é ótima, Carla. Esta adaptação ficou lindíssima! Ah, que bom ler uma literatura de qualidade!!! Abraços. Paz e bem.

Toninhobira disse...

Parabens Carla,voce com beleza e muita arte trouxe toda tragedia graga para as barras da Bahia,com as bençãos de Dona Canô e com canto de Caetano.Parabens com meu terno abraço,mas fiquei curioso com a sequencia da outra historia. Não tarde tanto.