quinta-feira, 19 de agosto de 2010

A Igreja do Diabo - Série Adaptação

CENA 1 - INT/DIA/SALA DO DIABO
Diabo displicentemente sentado num trono suntuosamente ornamentado. Degusta um cacho de uvas. Ricamente vestido, tem a aparência de um homem bonito. Ao seu lado, sentada no chão, fazendo-lhe massagem no pé, está Bajuladora-mor. Sua aparência é de uma mulher baixa, gordinha, não tão bonita. Usa óculos de gatinho, vermelhos. Diabo dá um suspiro prolongado de tédio. Silêncio. Detalhe de Bajuladora-mor fazendo massagem no pé do Diabo. Outro suspiro de tédio.

BAJULADORA-MOR
(bajulando)
O que está havendo com minha Alteza profana ? Há algo que eu possa fazer?

DIABO
(suspiro de tédio)
A vida é dura. Não tem nada emocionante acontecendo! Nada de novo debaixo do céu azul. (bocejo)


BAJULADORA-MOR
Mas como não, Soberano! Com tanta guerra, tanta epidemia, tanta gente morrendo de fome, tanta violência, sua Malignidade impera no planeta Terra há séculos e séculos! Interruptamente!


DIABO
Ledo engano, Bajuladora-mor! Sou humilhado pela história, isso sim. Tenho um papel avulso, que exerço desde o início dos tempos. Não passo de um coadjuvante, nada mais! (dá um suspiro de desalento, deprimido)

BAJULADORA-MOR
Que isso, Rei das Trevas! Não, não, não! Eu me nego a pensar que uma figura tão poderosa esteja assim, caída. (risadinha) Vamos logo levantar esse moral, onde se viu isso? Vossa Malidicência é e sempre será o todo poderoso, o anjo decaído que impera no mundo. Nunca será um simples coadjuvante. Nunca!

DIABO
(começando a ficar envaidecido)
É verdade que eu já tive bons momentos. É verdade. (diz, alegrando-se) Lembra quando fizemos eclodir a Primeira Guerra Mundial? Ahhh, é a Segunda??! Tantas vidas podadas! Tantas! (rindo) Lembra como instiguei os homens a inventarem as câmaras de gás? Lembra?! Bons tempos! Bons tempos!

BAJULADORA-MOR
Lembro, sim, Maldade Imperial. Vossa Maldade recorda quando demos aos homens aquele veneno, o Agente Laranja, que exterminou tantas crianças e mulheres? Ah, a glória, né, Majestade Infernal? A glória!

DIABO
(com orgulho)
Sim, eu me lembro. (dá um suspiro e cai em desânimo) Mas agora não tem mais graça. A violência e as guerras se tornaram banais. Ninguém liga mais para as máquinas de extermínio. Meia dúzia de gatos pingados gritam, mas a indústria do armamento é mais forte. Muita gente corrupta, ninguém mais se importa, ‘tá tudo banalizado, e eu, cada dia mais , renegado ao segundo plano.

BAJULADORA-MOR
Que é isso, Soberano das Trevas?! Não, não e não. (bate palmas, tentando reanimar o patrão) O que está acontecendo é que Vossa Maldade está entediado, isso sim. En-te-di-a-do! O que precisa é usar sua maléfica mente em prol de uma maldade, que logo, logo estará entusiasmado novamente. Pense, Majestade. Pense! Eu confio que ideias mirabolantes possam sair de sua cabeça imperial. Pense!

DIABO
Hummm… não sei… poderia… não, não, isso já fiz. Hummm… acho que… não, não… isso também já fiz. Matar criancinhas?! Ah, é tão monótono! Falir um banco e deixar milhares na miséria? Isso já fiz também! Ah, Bajuladora-mor, já fiz tudo o que você possa imaginar… tudo… (demonstra ter uma ideia)… quer dizer… sim… é claro!!! Por que não pensei nisso antes??!! (dá uma risada demoníaca)

BAJULADORA-MOR
Diga-me, Rei do Submundo das Trevas! Não me esconda nada, diga!

DIABO
E se eu tivesse uma igreja, hem? Uma igreja (Bajuladora-mor bate palminhas) para combater Aquele lá de cima! (diz apontado para o céu com desprezo)

BAJULADORA-MOR
Mas que ideia maravilhosa, Alteza Real dos Infernos! (bate palmas) Bravo, bravo, bravo!!! (diz, cheia de entusiasmo)

DIABO
(continua a falar sem se importar com as palavras da Bajuladora-mor)
Sim, uma igreja. Um lugar que pudesse combater escritura com escritura. Breviário com breviário. Terei a MINHA MISSA, com vinho e pão à farta. Farei sermão exaltando todos os pecados, terei bulas, novenas e todos os demais aparelhos eclesiásticos. (diz orgulhoso, peito estufado, cabeça erguida, olhar destemido)

BAJULADORA-MOR
Sim, Rei de todas as Majestades dos Martírios! Sim! Sim! (diz batendo palminhas)

DIABO
(caminha pelo ambiente, cheio de pose)
O meu credo será o núcleo de todos os homens. Enquanto as outras religiões se combatem e se dividem, a minha igreja será ÚNICA. Não acharei NENHUM CONCORRENTE, não enfrentarei nenhum Maomé ou Lutero. Há muitos modos de afirmar, mas só um de negar tudo! (diz, cada vez mais soberbo)

BAJULADORA-MOR
Bravo! Já ganhou, já ganhou, já ganhou! Lindo!!!!!

DIABO
Mas antes precisamos falar com o Aquele lá de Cima (diz, apontando para o céu)

BAJULADORA-MOR
Precisa mesmo, sua Alteza Vil?

DIABO
Coisas de praxe… coisas de praxe. Além disso, será um bom momento de eu mostrar o meu poder e desafiá-Lo. Ele e aquele seu Filhinho de meia pataca! (diz com desprezo e inveja) Vamos, é tempo.

CORTA PARA

CENA 2 – INT. DIA/SALA DE DEUS
O ambiente tem uma suave e bela luz. É uma sala grande, mas vazia de objetos e adornos. Deus tem a aparência de um ancião bondoso. Cabelos brancos, barba alva, veste um camisolão marrom, semelhante aos usados pelos Franciscanos. Os pés estão descalços e há a sua volta serafins, crianças, velhos e mulheres. Um grupo de serafins canta uma música suave. Deus e alguns outros anjos caminham, confortando a todos. Deus passa a mão na cabeça das crianças; dá tapinhas nos ombros e se detém para conversar com um homem velho. Todos tentam ajoelhar-se na sua frente, mas Deus não deixa. Entra o Diabo, pisando duro, com uma longa capa, ricamente vestido. É necessário ter um contraste grande entre a roupa de Deus e a do Diabo.

DIABO
(orgulhoso)
Vim comunicar a você algo.

DEUS
(olha para o Diabo e diz, bondosamente)
O que você quer agora?

DIABO
Não venho pelo seu servo Fausto (rindo). Mas venho por todos os Faustos dos séculos e dos séculos.

DEUS
(bondosamente)
Explique-se, meu filho. O que Fausto tem a ver com isso?

DIABO
Lembra-se daquele Fausto que vendeu a própria alma depois de uma barganha comigo? Lembra-se?

DEUS
Sim, lembro, meu filho.

DIABO
Pois agora os Faustos de todos os séculos e séculos virão a mim! Todos. Esses aqui (com desprezo, mostra todos que estão na sala) serão os últimos homens que virão para Sua casa! Não tarda muito, e o céu ficará semelhante a uma casa vazia. Eu garanto! Sabe por que isso acontecerá? Porque o que VOCÊ cobra é muito alto. EU VOU EDIFICAR uma hospedaria barata. Vou FUNDAR UMA IGREJA. Anote bem: já é tempo de obter vitória sobre VOCÊ e esse seu FILHINHO!

DEUS
(calmamente, sem se abalar)
Vieste dizê-la e não legitimá-la, não?

DIABO
Tem razão. Estou cansado de minha desorganização, do meu reinado casual. É tempo de obter a vitória final e completa. Então, vim dizer a você isso, com lealdade, para que não me acuse de dissimulação. Não parece uma boa ideia? (sorri, sarcasticamente)

DEUS
Tsiu… tsiu… tsiu… O que está buscando é apenas aplauso. Tudo vaidade…

DIABO
(mais orgulhoso)
Sim, tem razão. O amor-próprio gosta de ouvir aplausos do mestre. Verdade é que, neste caso, seria o aplauso de um mestre vencido. (diz com escárnio)

DEUS
Você me deixou curioso. Por que motivo, cansado há tanto de sua própria desorganização, só agora pensou em fundar uma igreja?

DIABO
(Sorri, com certo ar de escárnio e triunfo)
Tenho amadurecido uma ideia. Sabe como surgiu?

DEUS
Diga.

DIABO
Depois de muito observar os homens e mulheres, pensei nas virtudes que você instituiu. As virtudes podem ser comparáveis a rainhas cujo manto de veludo tivesse como arremate franjas de algodão. Como você bem sabe, o algodão é um tecido frágil, que se esgarça facilmente. Ora, o que estou propondo é puxar essas franjas e trazê-las todas para a minha igreja.

DEUS
O que você fala não passa de uma velha retórica. Você é vulgar, o pior defeito que pode acontecer a um espírito da tua espécie. Tudo que diz ou vá dizer está dito e redito pelos moralistas do mundo.

DIABO
(irritado)
Olha bem. Muitos corpos que se ajoelham aos seus pés, nos templos do mundo, suas pupilas centelham de curiosidade e devoção entre o livro santo e o bigode do pecado. Não quero parecer que me detenho em coisas miúdas; não falo, por exemplo, na placidez com que este juiz de irmandade, nas procissões, carrega piedosamente ao peito o seu amor e uma comenda… (estufa o peito de orgulho) Vou a negócios mais altos…

DEUS
É um assunto gasto, e se não tem força, nem originalidade para renovar um assunto, melhor que se cale ou retire. Olha para esse pessoal aqui à minha volta. (aponta para homens, mulheres, crianças e serafins) Veja em cada rosto os sinais de tédio que você lhes dá. Vai, vai, funda a sua igreja. Chama todas as virtudes, recolhe todas as franjas, convoca todos os homens. Vá!

Diabo ainda tenta dizer alguma coisa, mas Deus faz sinal para que ele fique em silêncio. O Diabo sai pisando duro e deixa Deus na sala. Deus dá um suspiro.

DEUS
(com pesar)
Esse menino… tsiu… tsiu…

CORTA PARA

CENA 3 – INT/DIA/SALA DO DIABO
O Diabo está em sua sala e a Bajuladora-mor vai taquigrafando o que ele diz. O Diabo caminha, enquanto fala.

DIABO
Não podemos perder um minuto sequer. Precisamos espalhar os novos dogmas, e para isso começarei no tête-à-tête. Nada como a propaganda boca a boca. Depois, o céu não tem limite. (diz, ironicamente)

BAJULADORA-MOR
(vacilante)
Mas, Mestre da Maldade… Vossa Alteza Vil… não teme encontrar uma CERTA resistência entre os mortais? Afinal… vamos dizer… hum… sua figura é um tanto quanto di-fa-ma-da pelo pessoal lá de cima… (apontando para o céu)

DIABO
Eu sei, mas vou provar para a humanidade que o Diabo não é tão feio quanto parece. (olha-se no espelho arrumando a sobrancelha) Sim, sou o Diabo, mas não este envolto em enxofre, o terror das crianças que Aqueles lá de cima propagaram durante milênios. Mas o próprio Diabo, verdadeiro e ÚNICO, o próprio GÊNIO da NATUREZA. (diz com soberba)

BAJULADORA-MOR
Mas como faremos isso? Sei que vossa Maldade tem a eternidade para trabalhar, mas se ficarmos apenas no boca a boca levará muito tempo e sua Magnânima Maldade já disse que tem pressa, pressa de fundar a nova igreja.

DIABO
Ah, mas os homens estão muito avançados em suas tecnologias. Vamos usar o que eles têm de melhor para propagar os nossos dogmas.

CORTA PARA

CENA 4 – EXT./DIA/PRAÇA
O Diabo conversa com dois jovens, que escutam com atenção o que ele diz.

CORTA PARA

CENA 5 – INT/DIA/FILA DE SUPERMERCADO
O Diabo conversa com três mulheres, uma grávida, outra já idosa e uma com aparência de executiva.

CORTA PARA

CENA 6 – EXT/DIA/PORTA DE ESTÁDIO DE FUTEBOL
O Diabo está no meio de uma rodinha de torcedores de futebol, de vários times. Gesticula entusiasmadamente, e todos lhe prestam atenção.

CORTA PARA

CENA 7 – EXT/NOITE/PORTA DE UMA BOATE
O Diabo e um grupo grande e barulhento chegam. Enquanto o Diabo conversa com alguns, os outros membros vão distribuindo panfletos para figurantes.

CORTA PARA

CENA 8 – INT/NOITE/SALA DE VISITA
Uma família assiste à televisão. Câmara deriva: detalhe dos rostos do pai, da mãe, dos dois filhos, da avó e da empregada doméstica, que está atrás do sofá batendo à mão uma massa de bolo. Som da voz do Diabo, até que a câmara focaliza a tela da TV, mostrando a imagem do Diabo. Todos estão hipnotizados.

DIABO
Você que está cansado, que não tem mais esperança. Você que sempre seguiu as virtudes impostas pelos representantes do Aquele lá de cima (diz apontado o céu) e que nunca recebeu nada em troca, venha para a minha igreja. Traga suas velhas virtudes e troque-as por novinhas em folha. Troque por novas, que são naturais e legítimas. Vivemos num novo mundo, numa nova época. Somos homens e mulheres do século XXI! Como ficar utilizando virtudes de mais de dois mil anos?! Por quê?!

CORTA PARA

CENA 9 – INT/NOITE/QUARTO
Mulher com aparência de 40 anos, esparramada na cama, comendo um balde de sorvete, presta a atenção à TV como se tivesse hipnotizada. A sua volta, há vários pacotes de comida, como biscoitos, balas e refrigerantes.

DIABO
Por que falar mal da gula, hum?! Ora, veja você, (diz apontando o dedo) há quem condene esse prazer tão maravilhoso! Não podemos esquecer o valor de ordem literária e histórica que esse tema já gerou. Também não há como negar o valor intrínseco dessa virtude! Quem negaria o quanto é maravilhoso sentir na boca e no ventre os bons manjares, em grande volume, muito mais do que sentir o gosto dos maus bocados ou a saliva do jejum! Esse negócio de que a gula é pecado, convenhamos!, não convence mais ninguém! Se você engordar, basta tomar uns remedinhos, e pronto! O que não dá é para ficar jogando fora tanta comida, não é mesmo?! VOCÊ MERECE comer qualquer coisa em QUALQUER quantidade que queira! VOCÊ MERECE!

CORTA PARA

CENA 10 – EXT/DIA/CARRO PARADO NO TRÂNSITO
Um homem ouve pelo rádio a voz do Diabo. O homem está irado, devido ao trânsito parado.

DIABO (em off)
O que seria do mundo sem a ira?! Afinal, graças a ela Homero existiu para o mundo. Onde estaria o poeta grego se ele não tivesse escrito sobre a ira de Aquiles? Onde? Por que o homem deve engolir tudo, pensar duas vezes e não extravasar sua ira? Guardar para quê?! Me diga, pra quê?! Você não é santo, nem precisa ser. Quem grita consegue o respeito dos outros, isso sim! É disso que você precisa, dane-se o resto, o importante É VOCÊ!

CORTA PARA

CENA 11 – INT/NOITE/SALA DE VISITA
Um velho conta o dinheiro, com avidez, enquanto na TV se ouve a voz do Diabo. Detalhe do rosto do velho.

DIABO (em off)
Você é chamado de avarento? Sua família não o compreende, diz que você é um grande pão duro? Abandonaram você justamente por isso?! Você não está mais sozinho! A avareza é mãe da economia.

CORTA PARA

CENA 12 – INT/NOITE/QUARTO
A televisão está ligada e um homem de 40 anos tenta tirar a roupa de uma adolescente que aparenta ter uns 13 anos, a menina mostra resistência. Ela presta a atenção ao Diabo, que aparece na TV. O homem não presta atenção, sua preocupação é tentar tirar a roupa da adolescente.

DIABO
A soberba, a luxúria, a preguiça precisam ser reabilitadas, isso sim. As coitadas foram renegadas ao segundo plano. Por que não se entregar à luxúria? Você merece, você precisa saber o seu valor! Com tantas mulheres e homens no mundo, por que não desfrutar os prazeres da carne?! Não importa a idade, vale tudo, o que importa é o prazer!

CORTA PARA

CENA 13 – INT/NOITE/PÚLPITO DA IGREJA
Igreja completamente abarrotada de gente. O local, de dimensões gigantescas, é ricamente ornamentado. Vitrais retratam os sete pecados capitais. Há pessoas sentadas no chão e em pé. O Diabo discursa no púlpito; gesticula, enquanto câmeras de TV mostram sua imagem em grandes telões do lado de fora da igreja. Os fiéis batem palmas, sorriem, gritam aleluia a cada frase de efeito do Diabo. Bajuladora-mor comanda um coro vestido de vermelho. A roupa é rica, semelhante à dos destaques de chão das escola de samba, sem os adornos na cabeça e nas costas, porém.

DIABO
(com grande eloquência)
Pois eu lhes digo: de que valem as vinhas do Senhor, se as vinhas do Diabo são muito mais prósperas e belas?! Nas minhas vinhas, que são linguagens diretas e verdadeiras, nunca, eu disse NUNCA, faltará a cada um de vocês os mais belos frutos do mundo. Eu disse NUNCA!

MULTIDÃO
(grita com entusiasmo)
Aleluia! Aleluia!

DIABO
Durante séculos e séculos lhes foi dito que a fraude, a mentira é algo pecaminoso. Pois eu lhes digo, digo com todas as letras possíveis, que a FRAUDE é o BRAÇO ESQUERDO do homem. O braço direito é a FORÇA. Muitos homens são canhotos, eis tudo. Aceito que os homens possam escolher serem canhotos, usando a fraude, ou destros, usando a força. Porém não admito, não admito de forma alguma!, que um fiel meu seja NADA, nem canhoto, nem destro. Esse negócio (fala com desprezo) de amor ao próximo, caridade… qual o quê! Pois sim, isso nunca deu nada a ninguém! O mundo precisa ser conquistado! Vocês querem conquistar o mundo?

MULTIDÃO
(detalhe no rosto de uma perua)
Simmmmmmm! (detalhe de um homem comum) Simmmmm! (detalhe do rosto de um executivo) Simmm! (detalhe de uma senhora idosa)

DIABO
Querem ou não querem?

MULTIDÃO
Simmmmmm!

DIABO
Cada homem e mulher tem seu preço, e você (diz apontando a um da plateia) deverá cobrar caro, se quiser ter valor. Apenas o dinheiro importa. É a coisa mais importante desta vida. Dinheiro, beleza, poder e sexo. Se tiver dinheiro, tudo mais virá a reboque.

MULTIDÃO
Aleluia!

DIABO
A venalidade é o exercício de um direito superior a todos. Se você pode vender a sua casa, o seu boi, o seu sapato, o seu chapéu, coisas que são suas por uma razão jurídica e legal, mas que, em todo caso, estão fora de você, como é que não pode vender a sua opinião, o seu voto, a sua palavra, a sua fé, coisas que são mais do que suas, porque são a sua própria consciência, isto é, você mesmo?! Pois não há mulheres que vendem os cabelos? Por que não pode o homem vender uma parte do seu sangue para transfundi-lo a outro homem anêmico? Me digam?! Por que não pode?! Francamente. VOCÊ PODE TUDO! Tudo o que desejar será seu se me adorares. (aponta para uma pessoa da plateia) Você aceita?!

JOVEM
(detalhe do rosto de um jovem na multidão)
Sim!

DIABO
E você aceitará ser meu fiel? Promete cumprir o que eu determinar?

VELHO
Sim, sim!

DIABO
Eu não exijo muito. Não estou aqui a pedir igual ao Outro lá de cima (aponta o céu com desprezo) nada do que vocês já não fazem. Uns mais constantemente; outros, às vezes. O que peço é que cada um deixe esse negócio de amor ao próximo de lado. Com efeito, o amor ao próximo é um grave obstáculo à nossa igreja. Essa regra foi inventada por Aquele lá de cima e seu Filhinho insuportável! (com desprezo) É uma simples invenção de parasitas e negociantes inadimplentes. Não se deve dar ao próximo senão indiferença, em alguns casos, desprezo ou mesmo ódio. Entenderam? Amor ao próximo está proibido, terminantemente proibido!

MULTIDÃO
Sim!

DIABO
(olhar irônico e malicioso)
Há apenas uma exceção. Você pode amar ao próximo quando este se tratar de uma dama alheia, porque essa espécie de amor tem a particularidade de não ser outra coisa mais do que o amor do indivíduo a si mesmo. Vão e pequem, pequem muito!

CORTA PARA

CENA 14 – INT/DIA/ESCRITÓRIO DO DIABO NA TERRA
Diabo está sentado em frente à sua mesa de trabalho, mexendo no computador. O telefone toca, ele atende. A cena é composta de silêncio e fala do Diabo. Ele escuta o que diz a pessoa que está do outro lado da linha. Não ouvimos a voz de quem telefonou.

DIABO
Sim. (silêncio) Mas isso não é possível. Deve estar havendo algum engano… (silêncio) Mas… Não, você deve estar enganado, não… Não posso acreditar que… (silêncio). Eu mesmo vou averiguar isso! (diz batendo o telefone com força no gancho)

CORTA PARA

CENA 15 – EXT/MADRUGADA/RUA QUASE DESERTA
Um grupo de voluntários dá sopa para uns mendigos. Um desses mendigos é o Diabo, disfarçado. Um voluntário aproxima-se e, sorrindo, oferece-lhe um prato de sopa.

DIABO
Eu acho que conheço o senhor de algum lugar…

VOLUNTÁRIO
Deve ser porque toda sexta-feira venho aqui dar sopa para irmãozinhos como você.

DIABO
É… pode ser… (silêncio, toma algumas colheradas) Mas você não frequenta a Igreja do Diabo?

VOLUNTÁRIO
(assustado, para de sorrir na mesma hora e vai se afastando)
Não…

DIABO
(vai atrás do homem que se afasta)
Mas não foi você que esteve junto com o Diabo no último sábado?

VOLUNTÁRIO
Não, é claro que não. Eu não conheço esse senhor. Nunca o vi. (diz, tentando fugir do Diabo)

DIABO
Não é você discípulo do Diabo? Não é?! (pressiona)

VOLUNTÁRIO
Não! Já disse que não! Me deixe em paz! (sai correndo)

CORTA PARA

CENA 16 – EXTERIOR/DIA/PORTA DE UMA IGREJA CRISTÃ
Diabo disfarçado de vendedor de cachorro-quente. Em sua companhia, a Bajuladora-mor, que o ajuda a vender o produto. As pessoas saem de um templo religioso. É bom que se diga que não é a igreja do diabo.

DIABO
Veja, Bajuladora-mor, aquele ali não é o maior ladrão de jóias da cidade?

BAJULADORA-MOR
Sim, Alteza Perversa. É ele, sim.

Detalhe do rosto do homem, que tenta esconder o rosto usando um chapéu. Desce as escadas e, disfarçadamente, dá algumas notas para a criança mendiga que está à porta. Detalhe do rosto do Diabo: fica furioso.

CORTA PARA

CENA 17 – INT/NOITE/ESCRITÓRIO DO DIABO NA TERRA
Diabo, disfarçado de vendedor de balas, entra seguido pela Bajuladora-mor. Vai tirando o disfarce conforme caminha para sua mesa. Xinga e blasfema.

DIABO
Não, não é possível que esses desgraçados tenham feito isso! Não é possível! Eles estavam indo tão bem… Como eles podem ter me traído desta maneira! Por quê? Por quê?… (indaga-se, desesperado) Me dá a lista dos que me traíram…

Bajuladora-mor busca a lista em cima da mesa. São vários papéis. Diabo folheia a lista, que tem umas 50 folhas.

DIABO
Veja só isso! Um absurdo! Ah, mas isso não vai ficar assim, não! Quem Ele (aponta para cima) pensa que é?! Deus?! Pois sim! Eu vou tomar satisfação com aquele sujeitinho! Eu fui honesto, fui lá, avisei, e agora Ele quer me puxar o tapete desta maneira?! Ele vai ver com quantos paus se faz uma crucificação.

Diabo caminha, resoluto, para a porta.

CORTA PARA

CENA 18 – INT/DIA/SALA DE DEUS
O ambiente tem uma suave e bela luz. É uma sala grande, mas vazia de objetos e adornos. Deus conversa com um grupo de crianças. Está sentado e conta uma história. As crianças riem. Entra o Diabo, pisando duro e gritando. Alguns serafins tentam impedi-lo de se aproximar de Deus, mas Deus faz sinal para deixar que o Diabo passe. Deus continua com o mesmo roupão marrom.

DIABO
(com o dedo em riste, gritando)
Você não tinha o direito de fazer isso! Não tinha, ‘tá ouvindo?!

DEUS
(calmamente)
De que você me acusa, Diabo?

DIABO
Eu quero saber, eu exijo saber o que você fez! O que você fez para que as pessoas começassem a fazer o bem, mesmo tendo se filiado à minha igreja! Minha igreja é ótima! Elas estavam ótimas, sendo sovinas, roubando, nadando na luxúria e na comilança, não se importando com o próximo. Agora, DE UMA HORA PARA OUTRA, uma lista grande de meus fiéis começou a dar sopa aos pobres, esmolas aos mendigos, auxiliar os doentes… (indignado) Isso é um absurdo! Eu SEI que VOCÊ fez alguma coisa, EU SEI! (diz, bufando e apontando o dedo para Deus)

DEUS
O que você quer, pobre Diabo? Você não disse que as capas de algodão têm agora franjas de seda como as de veludo tiveram, outrora, franjas de algodão? Que quer você, Diabo? (sorrindo e abrindo os braços mansamente) É a eterna contradição humana.

FIM

Adaptação do conto de Machado de Assis, A igreja do Diabo

4 comentários:

Anônimo disse...

Parabéns, Carla.

Você está ótima.

Abs de Raimundo Carrero

Celso disse...

Oi, Carla. Muito bom. Conheço o conto do Machado e pude perceber que vc fez uma grande adaptação para o audiovisual. Parabéns. Celso.

Anônimo disse...

Oi Carla,
desculpe demorar a te dar um retorno, ando enroladíssima no trabalho.
Olha, eu gostei muito do seu roteiro!
Os diálogos, ótimos, as cenas muito bem descritas.
Achei excelente a tua ideia de criar a "Bajuladora". Deu agilidade ao texto e um toque de humor na medida certa.
Eu só senti falta de um final mais criativo, mais impactante. Não sei...sabe o que me veio logo à cabeça?
A "Bajuladora" entrando sorrateiramente numa igreja católica... rs..
Tenho curiosidade para saber como foram as observações dos colegas de grupo... depois me conta!
Grande beijo e parabéns!
Gisele

Anônimo disse...

Ola Carla
Gostei muito da adaptação que você fez do texto A Igreja do Diabo de Machado de Assis, sempre gostei deste texto do Machado, por isto, assim que vi o teu e-mail entrei em contato, não sei se acontece com você, mas, sempre que leio este texto do Machado tenho crise de risos, a figura do diabo nele é magnífica, cômica, e você o manteve assim, certas cenas do teu roteiro o diabo é uma “figura” o que me fez ter a mesmo reação de quando leio o original. Parabéns.
No calor da Bahia,
Jesser Oliveira