sábado, 28 de agosto de 2010

Alameda - Série Eu me lembro muito bem

Eu me lembro muito bem da rua onde minha vó morava. Era um local onde tudo de interessante acontecia. Cada casa era um universo em si. O drama de cada família poderia ser levado facilmente para os palcos.

Eu bem me lembro que havia uma casa rosa, que ficava duas moradias depois da de vovó Naná, onde morava um rapaz tido como maluco. Era o doido da rua. Seu nome era Rubem e, apesar de ter aparência de novo, pele viçosa, transparente, sem ruga, rija; apesar de tudo isso, seus cabelos eram completamente brancos. Tão alvos que mais pareciam ter visto o século passar. Mas não, ele era bem novo, apesar de ter, sim, corpo de homem feito.

Como sei que seu corpo era de homem feito apesar da pouca idade? Porque uma das maluquices de Rubem era andar pelado pela a alameda. Era moreno, alto, esguio, cabeludo, com pelos negros e encaracolados pelo corpo. As mulheres das ruas viviam numa polvorosa.

É preciso esclarecer que fui moleque da geração de 40, início de 50, e um homem andar nu tinha todo um peso que hoje não se vê. Agora as praias vivem lotadas de roupas de banho mínimas.
Rubem pouco se importava com suas vestes de Adão. Quando ele cismava, tirava a roupa onde quer que tivesse, e coitadas das moças casadouras ou solteironas. Era um choque para elas ver aquele garoto nu em pelo a circular pelas calçadas do bairro.

Rubem era um maluco calmo, não agredia ninguém, não respondia, vivia na lua, olhando para o céu procurando não sei o quê. Seu olhar azul rivalizava com a cor celeste. Sempre tive vontade de me aproximar dele, puxar conversa, falar sobre meu jogo de botão e da coleção de bolinhas de gude que tinha, da bicicleta nova que meu vô me deu e que se chamava Ximbica, mas ninguém deixava que me aproximasse. Vó Naná, quando eu passava os finais de semana com ela, sempre vigiava. Ela tinha consciência da minha preferência pelos lunáticos, apesar de eu nunca ter confessado nada.

Rubem poderia até ser maluco, mas seus olhos mostravam uma serenidade que jamais encontrei nos ditos normais. Havia paz, harmonia e calma nas janelas de sua alma, e era isso o que me atraia. Mas minha vó não se descuidava, e por isso nunca fui capaz de travar qualquer tipo de conversa com aquele garoto. Uma pena.

Os normais jamais me fascinaram. Com suas vidas certinhas, com seus gestos controlados, com seus sonhos medíocres, nada disso me atraiu. Mas Rubem, sim. Havia liberdade naquele olhar. Era como se ele tivesse saído do nosso mundo e, ao tocar o Olimpo, tenha se realizado, não mais precisando de nada que o amarrasse a esse planeta, inclusive as roupas.

Num final de semana cheguei à rua de vó Naná e não encontrei Rubem. Perguntei ao meu vô o que tinha acontecido ao jovem, e ele desconversou. Indaguei a minha vó, e ela disse que ele tinha ido viajar. Nunca mais o vi. Sumiu na poeira das estrelas, essa foi a conclusão a que cheguei naquela época. Eles não conseguiram conviver com alguém tão especial.

7 comentários:

Anônimo disse...

Carla,
Li seu texto e gostei muito. Você transformou em plavras sentimentos, impressões e experiências pelas quais eu passei. Só que eu tive a sorte de fazer amizade com alguns malucos-beleza, e saí no lucro rsrs Parabens pelo texto. Vou enviá-lo a um amigo jornalista em Curitiba, o Paulo, que trabalhou no JB nos anos 70/80.
Carlos de Laet, também jornalista

Anônimo disse...

Muito bom, as pessoas normais são mesmo umas chatas! Por isso quando me chamam de maluco, eu tomo como elogio, mesmo sem merecer totalmente... (risos) Além disso, uma amiga uma vez me disse: só os malucos transformam o mundo. Fato!

José Antonio

Anônimo disse...

Bom texto, Carla.

Parabéns.

Abs de Raimundo Carrero

Anônimo disse...

Carla, o final do seu texto é interessantíssimo, brilhante. Você mostra que o ser humano é capaz até de ser infiel ao diabo, praticando o amor ao próximo. Do jeito como você escreve, parece que estamos vendo a cena diante de nós, o cacho de uvas, o trono, o dito cujo, a gordinha com óculos de Cely Campello, etc. Você tem uma linguagem cinematográfica. Não sou de visitar blogs, mas o seu é muito interessante. Gostei. Continue me enviando seus textos. Abs Carlos de Laet

Celso disse...

Carla, parabéns pelo texto. Um quê de saudosista, me passou uma nostalgia dos meus tempos de criança também, onde havia em frente de casa uma pequena travessa - na verdade uma trilha de terra que cortava o capim e algumas árvores. Ali vivi muitas aventuras infantis, fiz amizades. Seu texto me remeteu a esse momento feliz. Parabéns pela simplicidade profunda.

Celso Garcia

Graça Carpes disse...

Sensível... Em palavras.
Gosto do simples.
:)

Anônimo disse...

Adorei Carla,

Uma escrita fluída, muito visual, parabéns.

Beijos

Ana