segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Unha

Era um homem comum. Quem o visse à primeira vista poderia até dizer: “É um homem comum”. E era mesmo. Quer dizer, era comum até o momento em que tirasse os sapatos fechados. Ele usava um daqueles que são amarrados com cadarços, sabe?
No momento em que tirava os sapatos, meu amigo!, não havia quem não virasse o rosto ou fizesse uma cara de espanto. O motivo? As grandes unhas dos seus pés. Imagine uma unha grande. Imaginou? Pois posso garantir: era maior. Muito maior. Maior do que possa imaginar sua vã filosofia! Isso eu garanto.
Mas a unha não era apenas grande. Era grande, imensa, curvada e… como direi?… não quero ferir temperamentos mais sensíveis… mas, vamos dizer, esbanjando eufemismo, que a unha do dito cujo não primava pela limpeza. Não que ele fosse parente de algum mamífero suíno, não, de jeito nenhum, posso garantir. Contudo, a unha era tão grande que não havia condição de ele próprio cuidar. Procurar um podólogo? Ele sequer era capaz de levar o pensamento em consideração. Tinha medo de o profissional querer lixar, cortar ou fazer sei lá o quê com aquelas garras, que ele tanto amava. Sim, porque era um grande amor o que o homem sentia por suas garras. É verdade, acredite. O aspecto era esse mesmo. Grandes garras agarradas nos seus pequeninos pés. Sim, porque ele não era um homem alto, mas também não poderíamos dizer que era um anão. Não, isso ele não era. Contudo, seus pés eram pequenos, diminutos até, poderíamos dizer que mais pareciam pés infantis, eram pés delicados como aquelas mulheres japonesas que usam lindos quimonos e têm de usar sapatos de madeira, para disciplinar as duas extremidades inferiores. Ele se sentia mal por ter pés tão femininos. Afinal, era macho sim, senhor, e ai de quem duvidasse! Não dizem que todo baixinho é invocado? Pois é. Ele confirmava a regra.
Ter as unhas dos pés tão grandes não era fácil. Ele penava e pagava muitas vezes um alto preço por isso. Namoradas? Eram poucas as que se sujeitavam em ir para a cama com uma figura tão exótica. Se quisesse manter um relacionamento mais duradouro tinha que usar meias ou então abrir mão de sexo, porque invariavelmente, quando a garota olhava para os seus dois pés com aquelas garras enormes, o tesão ia para o ralo. Não havia chamego que fizesse a dita cuja esquecer as garras e se entregar aos prazeres de Vênus. Mas o homem seguia sua vida, conformado com sua condição e pagando o preço por ser um humano com garras. Mas aí um dia ele encontrou Zuleide. Sim, Zuleide era uma linda cabocla, de olhos negros, ligeiramente puxados, que faziam lembrar a noite sem lua. Uma nordestina arretada, um pouco acima do peso, é bem verdade, mas o homem não se importava. Ele gostava de pegar em carnes, esse negócio de mulher magrela demais não o agradava. Ao ver Zuleide, logo raciocinou: “Isso sim é que é mulher!” Gostou do seu sorriso fácil, sua gargalhada espalhafatosa, mas o que o fez apaixonar-se verdadeiramente foi o tamanho de suas unhas. Sim, Zuzu – ele logo chegou cheio de intimidade com a cabocla – tinha umas senhoras unhas, destas de fazer inveja a qualquer mulher que se preze. Eram unhas enormes e muito bem cuidadas. Quando a cabocla disse sua profissão, o homem logo atinou com seus botões: “É ela! Sim, Zuleide é a mulher da minha vida! Tinha que ser ela!” Sabe qual era a profissão da morena sestrosa? Acertou: manicure. Sim, manicure. Zuleide logo deu trela para o homem e foi lhe contando toda sua trajetória; como saiu de uma cidadezinha do interior da Paraíba e veio parar no Sudeste em busca de seu sonho e fugindo da miséria. Ao ser elogiada por sua beleza de unha, toda garbosa e sem um pingo de modéstia, disse: “É bonita mesmo, não? Eu não tenho uma maior porque a profissão não deixa. Mas o meu sonho era ter uma unha tão grande como garras de uma poderosa águia. Sou portelense roxa! Adoro unha grande!” – confidenciou, dando uma risada escandalosa.
Resultado: em menos de três meses estavam os dois subindo ao altar, na frente do padre e também do juiz.
Não dizem que todo pé cansado tem seu chinelo velho aí perdido no mundo, pronto para ser encontrado? Pois é. O homem encontrou seu par, e hoje suas unhas dos pés continuam grandes, imensas, só que muito bem cuidadas.

2 comentários:

Helena disse...

gostei...cada dia vc consegue suepreender leitores que se aventuram em seu blog
bjs e saudades
Lena

Anônimo disse...

Oi Carla, bom dia
Li seu texto. Muito, muito bom. Não li ainda os contos do blog, mas o farei em breve. Você é uma escritora muito talentosa e seu domínio da narrativa é impressionante. Não pude evitar ler aquela entrada do seu diário a partir dos olhos de um pesquisador de diários... e percebi que você mescla uma dicção mais íntima com outra, mais pública e voltada para a sociabilidade que é o pacto da escrita do blog. E isso de forma competente. Parabéns,
sergio