terça-feira, 18 de março de 2008

O peso do nome

Eles já nasceram carregando o peso do nome. Os gêmeos Caim e Abel vieram ao mundo prematuros, com sete meses, e desde sempre tiveram que lutar pela sobrevivência. A vida não era fácil, desde muitos novos ajudavam a família, vendendo limão na Feira de Santana, engraxando sapatos, sendo garotos de recados, ou fazendo qualquer bico que aparecesse e que desse para descolar uns trocados. Apesar de um ser o espelho do outro, Caim, o mais velho, era completamente diferente de seu irmão Abel. O primogênito era calado, circunspecto, dado ao silêncio e olhares parados, penetrantes. Já Abel era tido como o expansivo, falante, a alegria de qualquer festa, pois, além de cantar, também tocava sanfona e contava piada. A família, composta de 14 irmãos, sabia diferenciar com facilidade cada um deles, devido à diferença de personalidades.
Até hoje, não se sabe muito bem o porquê que Zé da Fé, escolheu o infeliz nome para a dupla. Teimoso, ele não quis ouvir o pedido da mulher, para que batizasse os dois primeiros rebentos com outros nomes. Zé bateu o pé, foi contra o padre e o escrivão, e as crianças foram registradas, carregando no nome, a tristeza de uma tragédia já anunciada e prevista.
A vida seguia, e os dois meninos cresciam, apesar de todas as diferenças de personalidade. Quando foram parar na escola rural, Caim era o que mais sofria com a molestação dos garotos, que gritavam que ele mataria o irmão. “Caim matou Abel! Caim matou Abeeeeelllll”, azucrinavam os meninos. Caim se fechou ainda mais, e não tinha quem o fizesse ir para a escola. Foi só o tempo de aprender as primeiras letras e como assinar o nome, que, logo depois, o filho mais velho de Zé da Fé, não voltou mais aos bancos escolares. Abel até que continuou indo, mas moleque, gostava mais de farrear, puxar as tranças das meninas, correr e jogar bola na hora do recreio. Por safadeza e sem ter nenhum motivo aparente, Abel não demorou muito na escola. Sequer chegou a terminar o primário, mas lia corridinho, muito melhor do que Caim. Abel era o orgulho do pai, que tinha por ele visivelmente uma preferência .
Na adolescência, Caim pouco saía, mas Abel já era tido como namorador pela vizinhança. Não podia ver um rabo de saia, um corpinho mais ou menos jeitosinho, e lá ia o Dom Juan nordestino a “engalar” as meninas faceiras da região.
Caim, quando a mãe conseguia fazer com que ele fosse em alguma festa, depois de muito pedir e insistir, sempre ficava no canto, quieto, de olhar quase parado, dando medo nas velhas beatas que compareciam aos festejos. Não foi uma nem duas vezes que Caim foi obrigado a ver algumas delas fazendo o Pai Nosso, quando passavam em sua frente. A cruz de carregar o nome bíblico maldito se tornava insuportável, havia tempo.
Teve uma vez, quando os dois já tinham completado 25 anos, Caim estava na festa de São João de sua cidade quando ele reencontrou Ritinha, uma cabocla faceira, mas séria, do tempo com quem tinha estudado no grupo escolar da dona Dodô. Ritinha, que já era linda com suas tranças negras, com a idade, sua beleza se intensificou, tornando-a tão brejeira! Assim que um viu o outro se reconheceram como sendo colegas do tempo do colégio, mas foi Ritinha que se aproximou do filho mais velho de Zé da Fé. Tímido, Caim começou a conversar, e a prosa se desenrolava com facilidade. Dava para ver que ambos tinham se sentido atraídos um pelo outro, dado os olhares que trocavam entre uma frase e outra. Ritinha até convidou Caim para dançar um pouco, mas ele não se atreveu a tanto. A cabocla não se importou, e continuou a prosa. Em determinado momento, Abel surge, com o hálito de cachaça já se fazendo notar. Ao ver a bela Ritinha conversando com o irmão, logo foi se intrometendo na conversa, tentando chamar a atenção da garota. Contudo, Ritinha demonstrou visivelmente não gostar de sua prosa e sequer das atitudes entronas, tentando monopolizar a conversa. Abel não desistiu e insistiu em dançar com a linda cabocla, mas ela negou, dando uma desculpa. Desde que o irmão tinha se intrometido na conversa, Caim se apagou e a naturalidade que estava tendo com a companheira do colégio sumiu completamente. Era sempre assim, quando Abel surgia, Caim se apagava deixando que o outro iluminasse o ambiente.
Porém, quando o irmão mais novo pegou o braço de Ritinha, tentando arrastá-la à força para o meio do salão, Caim, pela primeira vez na vida, o enfrentou, tirando a mão de Abel e olhando para ele com olhos de raiva, toda a raiva e mágoa que havia acumulado ao longo de seus anos de vida. A discussão começou, mas só se ouvia a voz de Abel, que gritava. Caim respondia, mas a voz era baixa, grossa, um tipo de voz que parece que vem das cavernas do coração. Não se sabe muito bem em que momento se deu e como isso aconteceu. Foi tudo muito rápido, só foi o tempo de se ouvir alguém gritar: “A faca!”. E um dos filhos de Zé da Fé estava estendido no chão, todo ensangüentado. Uma roda se fez, e teve gente correndo de todos os lados para ver a cena do crime. Ritinha, ajoelhada e com as mãos sujas de sangue, tentando estancar a hemorragia, gritava chamando por socorro. Caim com a camisa empapuçada de sangue, com os olhos estalados, olhava o céu, como se esperasse os anjos do Senhor aparecerem a qualquer momento para levá-lo. Ao seu lado, Abel, olhava a faca que carregava nas mãos, sem ainda entender como toda aquela tragédia tinha acontecido. Sem acreditar, sem ter consciência direito do que tinha feito, com um olhar espantado, trágico.
Pois é. Foi assim que a tragédia nordestina se fez, seguindo a sina bíblica. Porém, um pouco diferente. Não foi Caim que matou Abel na Feira de Santana, mas sim Abel que matou Caim.

2 comentários:

Tiago Lima disse...

Muito dez essa releitura/paródia moderna da história Bíblica! Cada dia me impressiono mais com a sua criatividade. Parabéns!

E o final foi fabuloso!

Anônimo disse...

Adorei.O conto de fadas para adulto,achei muito criativo. Parabéns! Vou ler os outros assim que puder.