terça-feira, 7 de setembro de 2010

Osvardo

Tem gente que pode inté duvidá, mas eu juro que é verdade. Qué dizê, foi meu avô quem contô pra mim quando era menino, e como ele não mentia, tenho cirteza que o causo é real. Ocê pode nem acreditá, mas...

Então vamu lá.

Este é um causo de um burrico. Um jumento muito especial. Especial porque ele nasceu com um chifre um pôco acima da junção dos oio. Um dedinho acima da sombrancelha, se é que burro tem sombrancelha.

Pois é. Sabe-se lá Deus o porquê da aberração, mas o jumentico tinha um chifre ali. Bem ali, veja ocê!

Não dizem nas Zuropas que lá tem cavalo com chifre que dão o nome inté de... como é mesmo, hem?!... Ah, lembrei: unicorno?!

Não... não... qué dizê... unicorne?

Pois é. Se lá tem, por que no sertão do Nordeste num pode tê tumbei? O Deus que fez o chifre no cavalo pode, muito bem, fazê um burrico tumbei com chifre. Não é, não? Pois é. É como eu digo.
Mas voltando pro causo.

O burrico nasceu no interiorzão da Paraíba, lá no cafundó onde Judas perdeu as meias, porque as botas ele já tinha perdido dez léguas antes.

Ele nasceu num pequeno sítio onde moravam o cumpadi Zezé e cumadi Madalena, que tinham um bando de menino. Tudo escadinha, seguidinho, um trás du zôtro. Zezé era cabra macho, sim, sinhô, e cumadi Madalena era uma boa parideira. Resultado: um bando de menino correndo pelo quintal, tudo barrigudinho de lumbriga.

Foi ali que nasceu o jumentinho, numa mistura de uma égua veia e cansada do esforço da lida com sabe lá Deus com quem. Mãe é só uma, mas pai pode sê quarqué um, num é não? É o que meu pai dizia.

O cumpadi acreditava que a égua ficô prenha de algum burrico que surgiu naquelas redondezas, sorto no mundo, já que ele não tinha nenhum ôtro animal macho em casa pra fazê o cruzamento.
O jumentico nasceu de repente. Num dia o cumpadi Zezé deu de cumê num final de tarde pra Formosa, e no dia seguinte quando foi levá a água logo cedinho encontrô a mãe lambendo a cria. O jumentinho tinha nascido.

Num primeiro olhá, cumpadi não notô nada de errado com o filhote. O burrico, na primeira oiada, era apenas mais um jumentinho mestiço como quarqué ôtro de sua laia. Foi seu filho do meio, Desmivaldo, que notô o apetrecho no meio da testa do animal.

De início, o cumpadi não deu muita trela pro menino, que chegô com a notícia do chifre, mas depois foi lá se era realmente verdade a aberração. Num é que era mesmo?! Foi um grande alvoroço no sítio quando ficô provada a verdade da notícia que Desmivaldo trouxe pro pai.

A sogra do cumpadi, dona Hermevilda, bem que tentô colocá medo na famia, dizendo que era coisa do diabo o animal nascido daquele jeito. Cumpadi, que nunca deu trela para a cascavel domesticada, nem deu a atenção. Foi logo tratando de batizá o bicho. Se fosse realmente coisa do demo, não iria aceitá a bênção da água benta.

Toda quaresma e festa de São João, cumadi tratava meio de ir pra igreja e lá pegava um pôco de água benta, levando pro sítio duas garrafinhas pequenas. Foi com o restinho desta água benzida que cumpadi batizô o bicho com o nome de Osvardo. A escolha caiu em cima de um desafeto. Um vizinho que vorta e meia entrava em rixa com ele.

Tudo começô pro causa de um galo de briga, e o mal-entendido se perdurô durante todos aqueles anos. Por isso, quando foi escoiê o nome do burro, a figura do desafeiçoado logo surgiu na sua cabeça, e o burrico foi batizado de Osvardo.

A primeira vez que cumpadi levô seu burrico pra cidade, foi um alvoroço só. Todo mundo queria o chifrudo do Osvardo. É claro que o nome caiu na boca do povo porque é sempre assim. Quanto mais implicante que é um apelido, mais ele pega.

Quando Osvardo ficô sabendo que tinha um burrico seu xará e que esse tinha ainda por cima um chifre no meio dos oio, a raiva logo subiu fervendo as ideia. Tratô de pegá uma peixeira e ir tomá satisfação com o cumpadi Zezé. Mas como sempre tem a turma do deixa-disso, Osvardo tratô de guardá a peixeira, recolhendo a ira, mas não esquecendo. Ficô ali, rumiando a raiva, igual a um boi veio e cheio de baba.

Quando mais ressentimento o chifrudo sentia, mais caía no gosto o nome do burrico. Toda vez que cumpadi ia pra cidade, e agora ele tratô meio de sempre motivo pra ir pra cidade, era maior a algazarra. Cada dia o jumentinho do Osvardo se tornava mais e mais popular, coisa que o Osvardo-gente não conseguia.

Meu vô falou que Osvardo não era desafeto apenas do cumpadi Zezé, não. Metido a machão, daquele tipo que mastiga abelha e joga fora o mel, não havia na cidade quem não tivesse uma reclamação do valentão. Então quando o cumpadi resolveu batizá o burrico chifrudo com o nome de Osvardo, todos bateram palmas, entrando na brincadeira e se sentindo vingado de alguma forma.

Osvardo-gente já não podia corrê a cidade: em quarqué buteco que entrava sempre tinha um fio di Deus que tratava modi de fazê alguma alusão ao burrico chifrudo do cumpadi Zezé.

Aquilo foi crescendo cada dia mais. Mas justiça seja feita, chifrudo, chifrudo, o valentão do Osvardo nunca tinha sofrido de tal mar. Sua muié, sinhá Clotilde, sempre se portô de maneira santa. Era uma daquelas carolas que se enfiava na igreja di manhazinha e só saía na última missa. Diziam que era seca por dentro, por isso não tinha dado nenhum filho pro Osvardo.

E era nisso que o valentão se firmava. O cumpadi podia inté tê troçado com o nome dele, mas chifrudo ali na raça nunca foi não sinhô.

Mas é como meu vô dizia: um dia da calça e ôtro dia do calçador.

Num é que um dia a cidade amanheceu em polvorosa justamente porque sinhá Clotilde tratô meio de juntá as trouxas com um caixeiro viajante que vortimeia passava por ali? Pois é, é como digo pro sinhô. No final das contas, o Osvardo-valentão se tornô mermo um Osvardo-chifrudo, conforme previu o cumpadi Zezé.

Quando a notícia correu a cidade inteira, vexado, o Osvardo-gente não aguentô o ocorrido e tratô tumbei de fazê sua trouxa. Nunca mais ninguém viu seu rastro por muitas e muitas léguas.
Cumpadi Zezé, nem preciso dizê, ficô rindo de canjica a canjica. Uma alegria só. O burrico Osvardo virô o xodó da cidade e viveu por muitos e muitos anos. Tinha gente inté da capital que vinha o seu formoso chifre.

E todos assim viveram felizes pra sempre lá no cafundó da Paraíba. Anos depois eles ficaram sabendo que ... bem, isso é ôtro causo, né?

3 comentários:

sarau cosmico disse...

Poxa Carla,você é perfeita...achei seu textofresco,bem estruturado,cheio
de pureza e beleza...trazendo imagens do interior...maravilhoso!!!
amei!!!
Parabéns!!!

Celso disse...

E viva o folclore e a cultura popular desse nosso Brasilzão! Lindo texto, Carla, bjos.

Gato Vadio disse...

Já comentei no Recanto e, agora, vim aqui. Vá também em meu Gato Vadio e divirta-se com meus rabiscos e andanças pelas alamedas e vielas da Literatura. Tudo de bom, Carlinha, abraço do Jorge!