segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Carta de exoneração

Rio de Janeiro, 15 de agosto de 2008

Ilmª. Sra. Dra. minha juíza-generala

Venho por meio desta comunicar-lhe que a partir de hoje a senhora está exonerada do cargo de minha juíza-generala. A justificativa para o desligamento em minha vida se dá pelo simples fato de que seus trabalhos não são mais necessários. Durante muitos anos, sua presença foi fundamental para formar o caráter que tenho hoje e lhe agradeço por isso. Contudo, os tempos são outros. É desnecessário lembrar que hoje sou uma mulher adulta, vacinada, dona do meu próprio nariz e que tenho discernimento para decidir o que é melhor ou não.
Nossa convivência diária fez com que me tornasse uma pessoa detalhista, preocupada em apresentar o meu melhor sempre. Tal aprendizagem tem seu caráter positivo. Problemas começaram a ocorrer quando esta qualidade ultrapassou seus limites e não ser perfeita se transformou em uma grande dor. A cada pequeno erro, a vergonha e a decepção se acumulavam no peito, tornando a vida difícil. Ora, a senhora e eu sabemos que não existe perfeição absoluta na Terra. Mesmo os objetos, pensamentos ou seres humanos que podem ser considerados perfeitos em determinada época, não o são para posteriores gerações. A vida é um moinho, como já disse o poeta, e na boca do tempo tudo se acaba, tudo se desestrutura e o pó se faz presente, transformando a existência em dunas e desertos.
Mesmo sabendo que nenhum ser humano é perfeito, paradoxalmente teimo em sofrer por não sê-lo. Atribuo minha insana insistência ao convívio diário com a senhora. É bem verdade, e isso preciso admitir, que nossa relação hoje não é mais a mesma. O tecido social de nosso convívio, sinto-o desgastado. Convém lembrar que antes a senhora era dada a gritos, exaltações, berros que atordoavam minha alma juvenil e insegura, própria de adolescente que busca a aprovação do outro. Hoje, nosso convívio é diferente: a Ilmª. senhora já não mais grita e muito menos berra, apenas sussurra. Porém, quero lhe falar que muitas vezes sua voz sussurrante e delicada atinge minha couraça mais profundamente do que seus berros do pretérito. Com o passar dos anos, a senhora – que é extremamente inteligente, admito – aprendeu a lidar com meu crescimento e utiliza como arma a sutileza nas colocações. Sua acidez e ironia, muitas vezes, maltratam meu coração, apesar da idade acumulada na roda da vida. Por tudo isso, acredito que nosso relacionamento se tornou insuportável e não convém mais insistir numa relação tão saturada.
Creio que uma separação amigável é sempre mais conveniente do que brigas litigiosas de qualquer espécie. Que cada uma vá para o seu lado e desfrute das lembranças dos momentos bons que vivemos. O resto é resto e não vale a pena ressenti-se dele eternamente.
Por isso, venho lhe comunicar o caráter definitivo desta exoneração. Convém ressaltar que a senhora não poderá apelar para nenhuma instância superior, seja neste planeta Terra ou mesmo fora da órbita solar.
Seja feliz, eu estou sendo.
Atenciosamente,

Carla Giffoni
Cumpra-se!

4 comentários:

Anônimo disse...

Carla, ótimos textos! Vou ler com mais calma. Leonardo.

Lygia disse...

Oi, querida...estava sumida, admito! Mas voltei e como sempre, tive a felicidade de encontrar textos leves e de deliciosa leitura...
Um beijo

Anônimo disse...

Vc não está sozinha, eu tb tenho um generalo me rondando...rs...
Estamos juntos, como vc mesmo diz.
beijão,

Marcia disse...

Muito maravilhoso este texto, Carlinha!seu blog é tudo de bom.Márcia