sexta-feira, 2 de maio de 2008
A Borboleta Invisível (Capítulo 7)
As horas foram passando, a "noite foi chegando devagarzinho com seu manto negro, salpicado de estrelas", e antes que sua mãe brigasse e o deixasse de castigo por chegar atrasado ao jantar, o menino resolveu ir embora. Contudo, ele se prometeu continuar na manhã seguinte à procura do ser que lhe bafejaria com a sorte.
Chegando em casa, o neto foi procurar o avô para esclarecer várias questões que lhe surgiram enquanto estava na floresta. A conversa foi longa.Só houve uma parada durante o jantar, pois o pai sempre insistiu que a hora de comer era sagrada e que todos deveriam se concentrar no alimento, agradecendo ao Pai Maior. Nunca o silêncio à mesa incomodou tanto o guri. O avô, que sempre foi de comer compassadamente, saboreando a gostosa sopa que a filha havia feito, parecia mais lento do que os dias normais. Mas até que a refeição acabasse e o garoto pudesse continuar a prosa com o querido senhor de cabelos brancos penteados para trás, que tinha os olhos dos mesmos tons que os seus, pareceu uma eternidade. O nono lhe explicou que era difícil conseguir enxergar a Borboleta Invisível, porque ela era muito arisca e nem todo mundo conseguia vê-la; que só aparecia para alguns privilegiados que conquistassem sua confiança; que o neto deveria ter paciência e ganhar sua amizade, para que ela se sentisse segura ao seu lado. "Para se confiar numa pessoa, é preciso comer um quilo de sal com ela. Todo dia um pouquinho", sentenciou o sábio ancião.
quarta-feira, 30 de abril de 2008
A Borboleta Invisível (Capítulo 6)
Chegando à mata, o menino ficou pesquisando cada pedacinho do terreno coberto de árvores, folhas caídas e flores silvestres. Encontrou os mais diferentes pássaros, com plumagens ricas e variadas. Borboleta, então?! Nem se fala! Cada uma mais linda e delicada que a outra, mas nada, nada mesmo, da Borboleta Invisível. O ser que lhe traria um tesouro de valor inestimável, conforme o avô lhe havia contado. Sentou-se na raiz de uma árvore e ficou pensando como seria encontrar um baú contendo um tesouro. Cheio de pedras coloridas, pérolas como as que sua mãe usava e que foram compradas na quitanda do "seu Juca", só que essas teriam valor! O garoto não era ambicioso… Quer dizer, só um pouquinho. A descoberta do baú com o tesouro (porque todo tesouro que se preza tem que vir dentro de um baú), sim, lhe abriria as portas para conhecer outras terras, viajar. A mãe sempre dizia que não podia ir para a capital que não tinha dinheiro, que o pai precisava juntar para comprar semente boa para a próxima estação. Os anos se passavam, e o menino, que sempre acalentou o desejo de ir para a capital ver o mar, não conseguia realizar seu sonho. "Afinal, já estou ficando velho", pensava, "Daqui a pouco, faço dez anos e não vivi a vida", argumentava consigo mesmo!
Por isso lhe era tão importante encontrar a Borboleta Invisível e ser bafejado pela sorte. O tesouro de valor inestimável lhe abriria as portas para ver o mar e viajar nele por horas e horas. Seu nono lhe disse que o oceano era grande, mas tão grande, que se poderia navegar nele por meses antes de encontrar outro país, sim, senhor!
segunda-feira, 28 de abril de 2008
A Borboleta Invisível (Capítulo 5)
E ele pensou, pensou, pensou... passou a tarde inteira na porta da cozinha, sentado nos degraus, atinando uma maneira de conseguir ver a Borboleta Invisível. A mãe logo foi ver se ele tinha febre ou algo parecido. Sim, porque, espevitado do jeito que era, só se estivesse muito doente é que ficaria quieto, num canto qualquer. Mas ele não tinha febre. Não a febre que a mãe pensava, mas sim um desejo intenso de ver a Borboleta Invisível!
A noite chegou e as estrelas surgiram lá no alto, as luzes da casa foram se acendendo e o menino continuava na porta da cozinha, pensando num jeito, tentando atinar uma maneira de conseguir realizar o seu desejo.
A mãe o chamou, o pai também, mas ele só entrou depois que o avô sentou-se na porta junto com ele, aconselhando-o que fosse jantar e depois dormisse, pois saco vazio não pára em pé e nada melhor do que uma boa noite de sono para "desanuviar" as idéias.
Como tudo o que o nono falava dava certo, o moleque seguiu seu conselho.
sábado, 26 de abril de 2008
A Borboleta Invisível (Capítulo 4)
Demorou uma eternidade para que isso acontecesse. Um minuto inteirinho de aflição do garoto querendo perguntar, e não conseguindo se fazer entender. O avô, sorrindo, pediu que ele respirasse fundo, profundamente, várias vezes, até que as palavras foram se tornando compreensíveis, e ele entendeu pelo que o neto tanto ansiava: queria saber tudo sobre as borboletas.
O velho senhor sentou-se num banco que ficava debaixo de um caramanchão florido e contou tudo o que sabia. A cada relato, o menino fazia novas perguntas, e a prosa durou horas seguidas, sem que ambos notassem o tempo passar. No final, a mãe do garoto teve que os chamar várias vezes para irem almoçar, pois a comida esfriaria.
O estômago dos dois já dava mostras de impaciência e a comida da mãe cheirava até alcançar o outro lado da cerca, mas, antes de se levantar, o avô lhe contou a lenda de que havia naquela floresta um ser muito especial: uma Borboleta Invisível. Quem a visse ficaria batizado pela sorte e, enquanto vivesse, teria em seu poder um tesouro de valor inestimável.
Foram almoçar. A comida estava boa, mas, a cada garfada que o menino colocava na boca, tudo em que pensava era como faria para conseguir ver a Borboleta Invisível e, assim, ser o dono do tesouro que ela traria.
terça-feira, 22 de abril de 2008
A Borboleta Invisível (Capítulo 3)
Então o menino, depois de ter tomado uma distância considerável da porta da cozinha, e já confiante de que não poderia mais ser visto pelos pais, saiu em disparada, como se fosse um corisco, em direção à floresta que, na sua visão de moleque, era um local mágico e cheio de mistérios. Volta e meia, ele se refugiava ali, quando, é claro, conseguia se desvencilhar dos olhares materno e paterno. Nem sempre era fácil; porém, possível.
O garoto, ao chegar na mata, foi logo envolvido por diferentes sons, que nunca o deixavam de encantar. As folhas das árvores ainda carregavam o orvalho da madrugada ainda não completamente evaporado. Molhadas, brilhantes, resplandeciam parecendo esmeraldas ao sol.
De repente, um balé de borboletas passou em sua frente. Extasiado, olhava-as dançando como se namorassem. O menino ria vendo tanta beleza. As cores das borboletas pareciam terem sido tiradas do arco-íris. Uma variedade caleidoscópica que fazia o garoto arregalar os olhos e buscar identificar cada uma. Mas o dançar era rápido demais e, muitas vezes, ele não sabia onde começava uma cor e terminava outra. A visão durou poucos segundos, tempo suficiente para que o menino se apaixonasse pelas borboletas e resolvesse daquele momento em diante, vir sempre à mata admirá-las. Nascido e criado naquelas bandas, sempre vinha à floresta, mas era a primeira vez que conseguia presenciar o dançar das borboletas.
sexta-feira, 18 de abril de 2008
A Borboleta Invisível (Capítulo 2)
Um garoto capaz de enxergar coisas a que os outros não dariam a mínima atenção. Um bichinho do mato que gostava de colecionar pedras pequenas, que colhia, escondido do pai, alface na horta e fruta no pomar para dar aos passarinhos, ou a qualquer criatura da natureza que sentisse fome de corpo e de atenção.
Mas o garoto não era santo não! Adorava subir em árvores, dar susto nas beatas que passavam pela calçada em direção à igreja e que o desconjuravam, rogando pragas do inferno, dizendo que sua alma queimaria lá em baixo, com o Belzebu, só porque ele teimava em jogar pererecas sempre no momento em que elas passavam. Uma grande injustiça com o pobre do garoto, essas beatas faziam. Afinal, até que se prove o contrário, só se é menino uma única vez. Era, pelo menos, o que o padre jurava em suas missas matinais de domingo! O garoto sempre desconfiou do pároco com suas mãos melecadas de gordura de frango assado, que comia duas vezes ao dia, mas como ninguém tinha se manifestado, não seria ele a fazê-lo. Afinal, era apenas um menino, e criança não tinha querer, tampouco podia dar pitaco em conversa de adulto. Se fizesse isso, sua mãe lhe puxaria as orelhas, e adeus sobremesa, durante uma semana inteirinha, inteirinha. Melhor ficar quieto.
quarta-feira, 16 de abril de 2008
A Borboleta Invisível (Capítulo 1)
Como todo bom "causo", este começa assim:
Era uma vez uma aldeia, e, próxima a ela, existia uma floresta cortada por um rio cujas águas cristalinas nasciam numa distante montanha. A terra ficava perdida num planalto central deste mundão de Deus. Dentro desta floresta densa, habitava um ser angelical, de cuja existência poucos se davam conta. Naquela mata de vegetação cerrada, havia uma linda borboleta.
Você pode até dizer: "Mas que novidade é esta? Borboletas existem aos montes pelo planeta afora!"
É verdade. Mas esta era especial. Muito especial mesmo, pois era uma Borboleta Invisível.
Poucos, muito poucos, podiam enxergá-la naquela floresta densa de tons de verde que pareciam ter nascido da paleta de um artista.
As borboletas que havia naquela mata eram conhecidas por suas belezas e variedade de cores, mas se os habitantes daquela terra pudessem enxergar a Borboleta Invisível, aaah… Certamente a elegeriam como o ser mais belo deste planeta. Mas ninguém, ninguém mesmo, conseguia vê-la para apreciar tanta formosura.
Suas asas lembravam rendas que pareciam criadas por alguma mão de fada que, certamente, habitava aquela mata. Cada pedacinho de seu corpo delgado era de uma perfeição que só mesmo a Mãe Natureza seria capaz de gerar.
Mas, apesar de tudo isso, o povo daquela terra não conseguia vê-la pousada nos largos e extensos troncos das árvores que circundavam a floresta, o que não deixava de ser uma pena, porque tanta beleza não deveria ser apreciada apenas por alguns. Sua transparência era motivo de tristeza para a Borboleta Invisível. Ela queria muito ser vista, apreciada e amada, mas ninguém tinha enxergado suas asas bordadas, suas antenas delicadas e seu voar angelical.
Triste é a sina de quem não consegue ser vista pelo outro. Dá um pesar danado no coração de quem se torna invisível para o mundo, principalmente quando tudo o que se almeja é ser admirado, é fazer brotar no peito de alguém um sentimento que acalente as entranhas como se fosse um colo quente e reconfortante.
A Borboleta Invisível se sentia assim, entristecida em sua invisibilidade, embora conformada com seu destino.
segunda-feira, 14 de abril de 2008
Testamento
Quando eu morrer, e espero que ainda demore algum tempo, lembre-se dos bons momentos que tivemos, nunca o que deixamos de viver.
Depois que partir, por favor, não me transforme em mito ou exemplo a ser seguido. Lembre-se que soltava pum, acordava com remela nos olhos, tinha TPM e, às vezes, apenas às vezes, aparecia eventualmente com comida entre os dentes.
No dia de minha morte, por favor, cubra-me com margaridas, nunca com rosas. Se não for época de florescerem, pode ser qualquer prima delas, que já serve.
Quero chegar onde tiver que chegar, coberta de margaridas que simbolizam para mim tudo que sempre busquei nesta vida.
Se a direção do cemitério deixar, plante na minha cova, ou então perto dela, um pé de jabuticaba. Deixe que meu corpo, que naquele momento deixei, sirva de nutriente para uma das mais belas árvores. A jabuticabeira é a minha preferida, principalmente quando está em flor. Quero que quando a árvore der os frutos, alguém possa dizer:
- Hummm, como a Mina tá gostosa este ano!
Tudo bem, admito que não fui a primeira a pensar nesta metáfora, mas gostei tanto da idéia de ser gostosa mesmo depois da morte, que reproduzi a frase aqui.
Caso morra de forma violenta, por favor, não se martirize pensando no quanto devo ter sofrido. Lembre-se da frase de William Shakespeare: “Há mais coisa entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia”.
Se você orar ou mandar rezar uma missa, desde já agradeço.
Mas se quiser realmente me alegrar, trazendo luz ao meu espírito, por favor, ouça um Chico Buarque, um Tom Jobim. Ahhh, um Vinícius também serve, qualquer música popular brasileira de boa qualidade.
Ligue o som na sua sala de estar ou no quarto e dance, abra os braços e dance. Você não estará sozinho. Prometo estar contigo celebrando a vida!
PS: Mina é meu apelido de infância
segunda-feira, 7 de abril de 2008
Íris
Quando a vi pela primeira vez, veio logo aquela idéia que diz que escritores têm os gatos como fetiche. Íris com seus enormes olhos azuis, e o pêlo cor de areia da praia de Copacabana, fazia de colchão para sua soneca da tarde quatro escritores que, particularmente, aprecio muito, são cânones portugueses: Manuel Bandeira (Estrela da vida), João Guimarães Rosa (Noites do sertão) e José Saramago (A jangada de pedra). Se gato, ou no caso de Íris, gata, é fetiche de escritor, não sei. O que sei é que a felina do sebo tem muito bom gosto de fazer dos poemas de Bandeira um travesseiro, sonhando com a rica prosa de Saramago e de Rosa.
Escrevo, mas não tenho nenhum gato ou gata como fetiche. Na verdade, o meu animal é o cachorro, comprovando aquela tese do “melhor amigo do homem (no meu caso, mulher)”. Gato mesmo só tive um e se chamava Cyrano, em homenagem ao personagem que adoro.
Meus animais são batizados invariavelmente como nomes de personagens literários preferidos e pessoas ligadas às artes. Já tive Rei, em homenagem ao Rei Artur da Távora Redonda, também tive uma Brigite (atriz), e assim sempre foi a galeria dos meus amigos caninos. O mais recente chama-se Poeta. Como não dava para chamá-lo de “Vininha-Chico-Tom-Pessoa”, resolvi batizá-lo com um nome que resumisse meus grandes amores: Poeta. Acho que ficou bom.
Poeta agora precisa de uma namorada, e estou pensando em procurar uma que tenha cara de Flor. Sim, porque Poeta não pode viver separado de uma Moça e uma Flor, conforme já dizia aquela música de Vinícius de Morais.
É muito importante que o meu bicho tenha cara do nome que quero lhe dar. Já conheci um buldogue chamado Apolônio, e sua digníssima esposa tinha a alcunha de Isabel . Um casal bárbaro! Pois eles tinham mesmo cara de Apolônio e Isabel, do mesmo jeito que Íris também tem cara de Íris. Adoro nomes! Nomes bonitos, exóticos, diferentes, engraçados. Nomes e também sobrenomes. Por isso, escolho com todo o cuidado um que combine com o meu bichinho de estimação. Aliás, não é só bicho que precisa de nome adequado. Conheci um menino de cinco anos chamado Capristêneo. Claro que ele tinha um apelido: Tetê. Não sei o que é pior, o nome ou o apelido. Imagine quando tiver maiorzinho o quanto sofrerá com as piadas, não só pelo nome próprio, mas também pelo apelido, pois normalmente é uma abreviatura feminina. Coitado. Os pais criaram um inimigo em casa.
quinta-feira, 3 de abril de 2008
Pedido
Minh´alma se enche de pudores, ruborizada com a impossibilidade de falar das estrias do meu coração.
Vá lá... até admito uma prosa com uma pitada de lirismo, mas ah!......
Não me peça para escrever poesia.
Minha rima se perde no mundo da métrica...e a vida, o viés da existência, fica desnuda e perdida nesta linguagem que é própria dos anjos.
Quem dera que pudesse escrever como Drummond, Pessoa, Cecília, Flora, ou mesmo Bandeira!
Mas, ah!...as musas que os inspiraram são de outro naipe, não atendem uma reles mortal, uma artesã da palavra.
Por isso, por favor, eu imploro, não me peça para escrever poesia!
Só saberia falar de mundo e “Raimundos”, sem encontrar nunca uma solução.
terça-feira, 1 de abril de 2008
Calçada
Estava eu lá sentado saboreando minha iguaria quando comecei a reparar em pessoas de todos os tipos, passando pela retina. A Lapa é uma grande aldeia onde se encontram todas as tribos, isso já sei não é de hoje, mas fiquei pensando como pessoas tão diferentes poderiam circular num lugar relativamente pequeno – quer dizer, não é tão pequeno assim, mas é um microcosmo do mundo muderno em que vivemos.
Enquanto tomava cada colherada da deliciosa sopa, podia ver idosos, estudantes, jovens de diferentes estilos trafegando por aquelas ruas centenárias. O que mais me chamou a atenção foram os jovens, deve ser porque já não sou um.
Todo adolescente traz no seu DNA o gens da contestação. Eu também já fui jovem e vivi isso. No meu tempo (aí, tô ficando velho mesmo, já comecei a usar “no meu tempo!” Mas fazer o quê, não é mesmo?) os jovens contestavam, mas de maneira diferente. Iam pra rua, se vestiam de preto e pintavam a cara de verde e amarelo para tirar um presidente “collorido” do Planalto. Hoje, o que vejo é um bando de gente querendo ser tão diferente que acaba sendo igual.
Quer uma prova? Vou lhe dar. Há alguns anos, e não faz tanto tempo assim, quem usava tatuagem era um marginal. É bom que se esclareça que o sentido que estou dando a marginal é aquela pessoa que está à margem da sociedade, sem que este seja notadamente um bandido, ladrão ou político. É o que o sábio Drummond (salve, salve, mestre querido!!!) diz no seu poema: “Vai Carlos, ser gauche na vida”. Pois bem, só usava tatuagem quem era marginal. O rapaz que portasse na pele tal símbolo de rebeldia, ou era marginal, ou, então, marinheiro. Sim, porque os “garotos de família” não poderiam ostentar nenhum coração de mãe, ou o nome da mulher amada, ou, ainda, uma pequena lagartixa que se transformaria mais tarde num dragão. Mulher usando tatuagem? Nem pensar! Hoje não. Qualquer um usa tatuagem: patricinhas, mauricinhos, clubers, sambistas, executivos, empresários, gente de todas idades.
O que me assusta na tatuagem é a possibilidade de não apagar mais, de carregar aquela imagem eternamente – e o que é para sempre sempre me assusta. Quer dizer, tem até o laser, que tira a tinta do desenho. Contudo, a filha de uma prima minha fez o tratamento para tirar a fada que tinha perto da cintura e não deu muito certo. Tirou a tinta, mas a marca esbranquiçada do ser alado até agora continua lá, no mesmo lugar. Não sei se com o tempo o “troço” sai. Vamos ver!
Quer outro exemplo? Quantas pessoas você conhece que usam mais de um brinco na orelha? Muitas, não? De todas as idades, certo? E homem usando brinco? Vixe!
Pois é… Há pessoas que não se contentam com apenas dois brincos, mas colocam uma fileira ao longo da cartilagem da orelha. Estremeço só de pensar no trabalho que dá tirar um por um na hora de dormir! Se o(a) dito(a) cujo(a) não tira o adereço, deve ser horrível para dormir com aqueles ferrinhos incomodando em cada virada do travesseiro. Pelo menos assim imagino, sei lá… Ontem, descia o elevador do meu prédio e entrou um rapaz alto, o que as garotas chamam de “gato”: mais de 1,80 m, físico malhado, de capacete e roupa de motoqueiro. Até aí nada demais. Também adoro uma moto e sair com o vento batendo na cara. Contudo, uma coisa me chamou a atenção: ele tinha um brinco dentro do ouvido! Isso mesmo! Uma pequena argola dentro do ouvido, ali, dependurada na cavidade. Este é só um exemplo. Na busca de ser original, pois todos já usam brincos em diferentes lugares, se faz uma coisa dessas! Isso sem contar com aqueles que colocam pequenas bolinhas em cima, de baixo ou ao lado da boca.
Voltemos à Lapa. Tomando a sopa da tia Maria, passou por mim uma garota linda, com belíssimos olhos azuis, toda de negro, portando um brinco de argola na cavidade nasal, semelhante à vaca do tio Zezé. Quando era pirralho, passava as férias na sua fazenda no interior de Minas. Carrego boas lembranças daquele tempo… A vaca Miracema do meu tio era famosa na região, e consagrada campeã em vários torneios leiteiros. Uma pena! Não da vaca (que morreu de velha), mas da garota, que ofuscava sua beleza com aquele penduricalho em cima dos beiços. Quem a olhasse não repararia primeiro nos seus belos olhos azuis, na sua boca bem feita, na sua beleza juvenil, mas sim naquele troço que carregava, semelhante ao adereço da vaca Miracema.
“Mudanças dos tempos de uma Era Pós-pós-muderna”, dirão filosoficamente alguns. Pode ser. Eu não me acostumo à idéia. É a velhice chegando, inevitavelmente.
domingo, 30 de março de 2008
Leitor
Silêncio.
Mas você, hein?!... Eu já não lhe disse que não adianta tentar ler estas linhas, que nada encontrará de interessante? Mas que ser mais teimoso fui encontrar! O que espera nestes parágrafos? Alguma confidência inconfessável? Um texto que fale das desgraças de minha suposta vida? Algum amor pedido, alguma causo engraçado, um fato de infância que marcou a existência? Não adianta, ficarei calada.
Silêncio.
Ok, admito: não gosto de intimidade. Tenho dificuldade de me expressar, de falar o que sinto e vivo, por isso, vá tirando seu cavalinho da chuva, não dará certo. Desista enquanto ainda dá tempo, não perca o seu tempo lendo este texto. Não matarei sua curiosidade. Não deixarei que penetre tal qual um ladrão que adentra na calada da noite o quarto onde durmo.
Tive um professor que sempre falava da necessidade de se expressar através das palavras. Que elas, as palavras, podem ser uma carta de alforria. Não sei. Sinceramente, não sei se a palavra pode me libertar. Às vezes, só às vezes, acho que ela me prende a um mundo concreto. Que materializa a minha emoção, e isso é assustador, porque enquanto a emoção está no campo do abstrato, tudo é fantasia, tudo é imponderável. Mas a partir do momento que ela se concretiza, ah...isso me assusta, tenho que confessar.
Agora pára. Não adianta. Já falei muito. Vá embora, caia na vida, me deixe em paz!
Silêncio.
Estive pensando.... pensando em várias coisas e inclusive em você, que está aí do outro lado tentando ler este texto que teimosamente não quero escrever. Mas não consigo me desvencilhar dos seus olhos, que, imagino, percorrem esta folha branca com letras pretas. Que você é um ser teimoso, não tenho a menor dúvida, mas o que faz uma pessoa insistir em ler algo que o escritor não quer escrever? Fico imaginando como você pode ser, o que faz, se é homem ou mulher. Você sabe mais de mim do que eu sei de você. Isso me assusta.
Ok, admito que sou um ser humano assustado, mas não muito. Tenho feito o exercício de me atirar na vida, na maioria das vezes consigo. Mas há dias, em que o sol interior está envolto em nuvens de tempestade, que fica difícil sair da cama. Saio, mas é difícil, admito.
Silêncio.
Seu silêncio é algo que me incomoda profundamente. Não consigo escutá-lo, e o meu monólogo interior é enfadonho, e fico a imaginar se não acha o mesmo.
Vá embora! Deixe-me em paz! Você está me fazendo prisioneiro ao continuar lendo estas letras impressas no papel branco. Não consigo parar. Vou parar. Estou parando. Desisto. Ponto final.
quinta-feira, 27 de março de 2008
Destino
domingo, 23 de março de 2008
O homem que não refletia
Durante todo tempo, sinto na pele que os anos transcorreram devido os olhares dos outros. Hoje, sei que sou mais velho porque garçons, porteiros, o jornaleiro e minha empregada - ou mesmo qualquer transeunte na rua - me chamam de “senhor”.
Poucos sabem que não me olho. A maioria deste pequeno grupo que tem conhecimento da decisão que tomei, pertence à minha família. São primos, primas, tios e tias mais velhos, poucos da nova geração estão conscientes de que recuso a me olhar. Eles só descobrem o fato quando alguém mais velho do clã – um primo ou tia que primam pela ironia e o deboche – querendo assustar a figura mais jovem, logo dizem que sou vampiro e que, por isso, não posso ver a minha imagem refletida no espelho. Bobagens, tento não ligar. Contudo, me incomoda profundamente quando um adolescente me olha de esguelha com um olhar ao mesmo tempo de fascínio e medo, dividido na incerteza gótica de um romantismo pós-moderno. Criei a fama, agora deito na cama, conforme diz o ditado. Aliás: obrigaram-me a deitar.
Nunca senti falta de me olhar. Acho que sou igual àquela pessoa que acorda um dia, e ao ver um bife diz: não estou com vontade de comer carne. Passam-se os anos e não se dá conta que os dias foram se somando, transformando-se em meses, e os anos em décadas.
Porém, não olhar a própria imagem, tenho que admitir, causa pequenos transtornos. O pior que enfrentei foi quando ainda era jovem, e não tinha pêlos suficientes para compor uma impávida barba. Coisa de adulto: serrada, cheia, criada com o acúmulo dos dias. Com a chegada da idade, o que era antes um tufo aqui e outro ali, se transformou numa respeitável, primorosa e densa floresta negra que foi se modificando também, aos poucos, e hoje está dividida entre a brancura do algodão e o cinza das asas de um pombo. Resultado: hoje, vou a um barbeiro mensalmente para apenas aparar a barba, não deixando que cresça no estilo selvagem. Sempre quando estou na sua cadeira, fecho os olhos e deixo ser cuidado por suas habilidosas mãos profissionais.
Mesmo não me olhando no espelho, consigo chegar a esta conclusão apenas olhando para os pêlos do meu peito, vejo a textura de minha pele. Não preciso ver minha imagem refletida para ter consciência de que a velhice se instalou completamente.
Uma vez me perguntaram, era uma estudante de psicologia com pretensões filosóficas, se não querer me olhar era uma forma de fuga freudiana. Como pouco entendo sobre Freud e suas teorias edipianas ou não, nada respondi. O que sei, e isso posso garantir, é que passo muito bem a minha vida sem querer me ver. Leio muito e os livros refletem as imagens que quero enxergar. Não preciso de espelho para ver o mundo e a mim mesmo.
Dizem as más línguas que sou anti-social. Pode ser. Não levo muito a sério, pelo menos tento não levar, as opiniões que os outros têm de mim.
quinta-feira, 20 de março de 2008
Conto de fadas (uma versão para adultos)
“Que demora!” – exclamou a Bela, que já nem era tão bela assim, depois de ter se casado com a Fera, tinha engordado uns 15 quilos, para dizer o mínimo.
Cinderela sentou-se à mesa e ficou quieta, contou até dez e tentou se concentrar no mantra que seu personal de ioga havia ensinado para quando estivesse muito próxima de explodir. Depois de respirar até dez por cinco seqüências seguidas, Cinderela se acalmou e, só então, conseguiu desfrutar da companhia da amiga.
“Branca de Neve ainda não chegou, como sempre”, queixa-se a Bela comendo mais um merengue lambuzado de açúcar.
“Ela sempre chega um pouco atrasada”, confirmou Cinderela já refeita da quase explosão de raiva.
“Como vão as crianças e o maridão?” – indagou a Bela.
“Ah, o Júnior está terrível! A professora disse que ele está aprontando na classe e, pelo jeito, nunca se encaixará no perfil de príncipe encantado, seguindo as pegadas do pai. Eu já nem sei como fazer. Cinderelazinha tem uma agressividade que nem sei como será, ela é toda brutalizada, não gosta de brincar de boneca e sequer usa aquelas roupas lindas cheias de fitinhas e sapatinhos de cristal. Só quer saber de aprender boxes, lutas marciais! Meus filhos não correspondem a nenhum perfil de príncipe e princesa, já não sei o que fazer com estas crianças. Sinceramente, não sei onde eu errei”, disse Cinderela caindo em prantos no meio do salão de chá.
Sem saber o que falar, Bela empurra um pedaço de bolo de chocolate dizendo:
“Come que logo vai passar. Mas e o príncipe não ajuda em nada? Você tem que se impor, Cinderela! Afinal, a criação dos filhos é de responsabilidade dos dois!” – argumenta indignada a Bela.
“Ah, o príncipe já não é mais o mesmo. Sempre me deixa de lado e agora deu para chegar muito tarde. Desconfio que ele tenha um caso com uma das empregadinhas do palácio. Ele vive de cochichos pelos cantos ao celular, agora deu para querer fazer ginástica, determinou que os costureiros reais fizessem um novo guarda-roupa novinho! Ele está naquela fase da meia-idade que não aceita a velhice. Sabe que ele já marcou consulta com um médico para fazer implante no cabelo? Ele já não me ama mais”, sentenciou Cinderela dando uma grande fungada no fino lencinho bordado que Bela tinha lhe oferecido.
“Ah, estes homens! Falaram-me que príncipe encantado era diferente, que nada! E eu acreditei na frase: ´e foram felizes para sempre’. Uma grande balela! Você não vê a Fera?! No início do casamento, tinha uma fera na minha cama, uma paixão avassaladora, e hoje?! Ah, hoje ele não quer mais saber de mim. Nossa cama é fria e a fera selvagem que aquecia os meus dias, hoje se transformou num homem que só quer ver futebol na TV. Sinceramente, não consigo entender o que tem de interessante ou inteligente num bando de 22 homens correndo atrás de uma bola e que depois quer assistir a reprise da reprise do jogo, os melhores momentos, e depois um debate sobre a mesma partida! E a Fera ainda tem a cara-de-pau de dizer que fui eu quem mudei! Que já não sou mais a mesma! Bah!, homens!”, diz a Bela engolindo um pedaço de torta de limão.
Chega Branca de Neve toda agitada, cheias de sacolas, com um lindo vestido vermelho, mostrando as pernas bronzeadas, os novos seios e bumbum turbinados e com um sorriso maravilhoso nos lábios.
“Hellooow meninas! Ai que dia corrido!!! Fui ao shopping fazer umas comprinhas e tinha uma liquidação de bolsas que não resisti. Resultado: ultrapassei o limite do cartão, mas depois me entendo com o príncipe. E aí? Quais são as novidades?" – olha para os olhos vermelhos de Cinderela e indaga para a Bela – "Por que ela está chorando? ".
Antes que a Bela explicasse alguma coisa, Cinderela abre o bocão e diz: “O príncipe não me ama mais!!”.
“Ah, é isso?!” – diz ela tirando uma lixa da bolsa e passando nas grandes unhas vermelhas bem-tratadas – “O que você precisa fazer, darling, é arrumar um amante, uma paixão para aquecer os seus dias enquanto as crianças estão no colégio. Tenho certeza de que se fizer isso, tudo mudará em sua vida. Seu casamento vai esquentar, sua pele melhorará e você será certamente feliz, e o melhor, continuará desfrutando os privilégios de ser uma princesa”, sentenciou Branca.
As duas amigas olharam estarrecidas para a companheira de contos de fada. “Desde quando Branca de Neve tinha se tornado tão cínica assim?”, questionavam-se mentalmente.
“Olha, desde que me entreguei a uma paixão fora do casamento, minha vida mudou completamente. Antes ficava pelos cantos, esperando as migalhas que o príncipe tinha para me dar. Sua mãe, que no início me tratou muito bem, depois, com a convivência foi se transformando numa verdadeira bruxa, muito pior do que aquela que quis me matar. Mas mudei. Tornei-me uma outra pessoa desde que conheci a paixão nos braços do Mestre”, diz Branca de Neve revirando os olhos.
As duas amigas se olham espantada e dizem ao mesmo tempo:
“O Mestre dos Sete anões?!” – perguntam de queixo caído.
“Sim!” – diz dando um grande suspiro – “Eu sei que vocês vão dizer que ele é mais velho, que temos classes sociais diferentes e há também o pequeno problema de verticalidade, contudo, ele é um grande mestre na cama e não é à toa que recebeu este nome. O que temos é uma grande paixão, uma coisa de pele, cama, sabe?”, diz Branca de Neve toda acesa.
“Mas você pretende largar o príncipe e ir morar com o Mestre na Floresta?”, questiona Bela.
“É lógico que não, darling! Você acha que largaria todo o conforto e mordomia para viver na floresta no estilo uma cabana e um amor? Fala sério, meninas! Estamos em pleno Século XXI, ninguém mais acredita em contos de fadas”, sentencia Branca de Neve.
terça-feira, 18 de março de 2008
O peso do nome
Eles já nasceram carregando o peso do nome. Os gêmeos Caim e Abel vieram ao mundo prematuros, com sete meses, e desde sempre tiveram que lutar pela sobrevivência. A vida não era fácil, desde muitos novos ajudavam a família, vendendo limão na Feira de Santana, engraxando sapatos, sendo garotos de recados, ou fazendo qualquer bico que aparecesse e que desse para descolar uns trocados. Apesar de um ser o espelho do outro, Caim, o mais velho, era completamente diferente de seu irmão Abel. O primogênito era calado, circunspecto, dado ao silêncio e olhares parados, penetrantes. Já Abel era tido como o expansivo, falante, a alegria de qualquer festa, pois, além de cantar, também tocava sanfona e contava piada. A família, composta de 14 irmãos, sabia diferenciar com facilidade cada um deles, devido à diferença de personalidades.
Até hoje, não se sabe muito bem o porquê que Zé da Fé, escolheu o infeliz nome para a dupla. Teimoso, ele não quis ouvir o pedido da mulher, para que batizasse os dois primeiros rebentos com outros nomes. Zé bateu o pé, foi contra o padre e o escrivão, e as crianças foram registradas, carregando no nome, a tristeza de uma tragédia já anunciada e prevista.
A vida seguia, e os dois meninos cresciam, apesar de todas as diferenças de personalidade. Quando foram parar na escola rural, Caim era o que mais sofria com a molestação dos garotos, que gritavam que ele mataria o irmão. “Caim matou Abel! Caim matou Abeeeeelllll”, azucrinavam os meninos. Caim se fechou ainda mais, e não tinha quem o fizesse ir para a escola. Foi só o tempo de aprender as primeiras letras e como assinar o nome, que, logo depois, o filho mais velho de Zé da Fé, não voltou mais aos bancos escolares. Abel até que continuou indo, mas moleque, gostava mais de farrear, puxar as tranças das meninas, correr e jogar bola na hora do recreio. Por safadeza e sem ter nenhum motivo aparente, Abel não demorou muito na escola. Sequer chegou a terminar o primário, mas lia corridinho, muito melhor do que Caim. Abel era o orgulho do pai, que tinha por ele visivelmente uma preferência .
Na adolescência, Caim pouco saía, mas Abel já era tido como namorador pela vizinhança. Não podia ver um rabo de saia, um corpinho mais ou menos jeitosinho, e lá ia o Dom Juan nordestino a “engalar” as meninas faceiras da região.
Caim, quando a mãe conseguia fazer com que ele fosse em alguma festa, depois de muito pedir e insistir, sempre ficava no canto, quieto, de olhar quase parado, dando medo nas velhas beatas que compareciam aos festejos. Não foi uma nem duas vezes que Caim foi obrigado a ver algumas delas fazendo o Pai Nosso, quando passavam em sua frente. A cruz de carregar o nome bíblico maldito se tornava insuportável, havia tempo.
Teve uma vez, quando os dois já tinham completado 25 anos, Caim estava na festa de São João de sua cidade quando ele reencontrou Ritinha, uma cabocla faceira, mas séria, do tempo com quem tinha estudado no grupo escolar da dona Dodô. Ritinha, que já era linda com suas tranças negras, com a idade, sua beleza se intensificou, tornando-a tão brejeira! Assim que um viu o outro se reconheceram como sendo colegas do tempo do colégio, mas foi Ritinha que se aproximou do filho mais velho de Zé da Fé. Tímido, Caim começou a conversar, e a prosa se desenrolava com facilidade. Dava para ver que ambos tinham se sentido atraídos um pelo outro, dado os olhares que trocavam entre uma frase e outra. Ritinha até convidou Caim para dançar um pouco, mas ele não se atreveu a tanto. A cabocla não se importou, e continuou a prosa. Em determinado momento, Abel surge, com o hálito de cachaça já se fazendo notar. Ao ver a bela Ritinha conversando com o irmão, logo foi se intrometendo na conversa, tentando chamar a atenção da garota. Contudo, Ritinha demonstrou visivelmente não gostar de sua prosa e sequer das atitudes entronas, tentando monopolizar a conversa. Abel não desistiu e insistiu em dançar com a linda cabocla, mas ela negou, dando uma desculpa. Desde que o irmão tinha se intrometido na conversa, Caim se apagou e a naturalidade que estava tendo com a companheira do colégio sumiu completamente. Era sempre assim, quando Abel surgia, Caim se apagava deixando que o outro iluminasse o ambiente.
Porém, quando o irmão mais novo pegou o braço de Ritinha, tentando arrastá-la à força para o meio do salão, Caim, pela primeira vez na vida, o enfrentou, tirando a mão de Abel e olhando para ele com olhos de raiva, toda a raiva e mágoa que havia acumulado ao longo de seus anos de vida. A discussão começou, mas só se ouvia a voz de Abel, que gritava. Caim respondia, mas a voz era baixa, grossa, um tipo de voz que parece que vem das cavernas do coração. Não se sabe muito bem em que momento se deu e como isso aconteceu. Foi tudo muito rápido, só foi o tempo de se ouvir alguém gritar: “A faca!”. E um dos filhos de Zé da Fé estava estendido no chão, todo ensangüentado. Uma roda se fez, e teve gente correndo de todos os lados para ver a cena do crime. Ritinha, ajoelhada e com as mãos sujas de sangue, tentando estancar a hemorragia, gritava chamando por socorro. Caim com a camisa empapuçada de sangue, com os olhos estalados, olhava o céu, como se esperasse os anjos do Senhor aparecerem a qualquer momento para levá-lo. Ao seu lado, Abel, olhava a faca que carregava nas mãos, sem ainda entender como toda aquela tragédia tinha acontecido. Sem acreditar, sem ter consciência direito do que tinha feito, com um olhar espantado, trágico.
Pois é. Foi assim que a tragédia nordestina se fez, seguindo a sina bíblica. Porém, um pouco diferente. Não foi Caim que matou Abel na Feira de Santana, mas sim Abel que matou Caim.
sábado, 15 de março de 2008
Nasci ... (Capítulo 6)
- Por que não coloca Deusa?! – graças a Deus o nome foi descartado! Já imaginou naquela época de uma novela da Globo em que a Vera Fischer era chamada de deusa pelo personagem do Nuno Leal Maia? Não, melhor não. Que bom não!
- Ah, então põe Cíntia. – ficaram na dúvida, analisando a sonoridade do nome.
Mas aí minha tia Tereza, sempre ela, sugeriu:
- Porque não fazemos uma homenagem para a avó (mãe do lado materno e que tinha morrido meses antes de saber que a filha estava grávida)? Coloca Giacomina.
Mamãe tinha aprendido sobre esse negócio de nome, acho até que teve remorso lembrando-se do titio Fufu, então disse:
- Olha, Giacomina é um nome italiano e gosto muito. É o nome de minha mãe, mas é diferente e ela (eu) pode não gostar. É diferente demais. Na Itália não é tão diferente assim, mas no Brasil é. – argumentou.
Sábia como Matusalém descalço, Tereza contra-argumentou:
- Se é assim, então põe Carla Giacomina. Fica uma homenagem à mãe e à avó.
E foi assim que todos concordaram e fui batizada pelo nome de Carla Giacomina Giffoni Carneiro. Adoro meu nome inteiro.
Quero acreditar, nunca tirei isso a limpo, que o nome grande desse jeito foi uma maneira de homenagear os clãs envolvidos: Giffoni da minha vó Tita (este era o apelido da que foi batizada Giacomina) e do papai, Carneiro.
É essa a minha história. Nasci por imposição divina. A chance de minha mãe gerar uma criança era uma em um bilhão. Sou esse um.
Não pense que me sinto a ungida do Senhor por ter baixado neste planeta. Acredito – cá entre nós – que minha vinda foi mais para pagar os pecados do que qualquer outra coisa. Mas hoje estou aqui e agradeço a Deus e à minha família o dom da vida.
quinta-feira, 13 de março de 2008
Nasci ... (Capítulo 5)
Menina?!
Pois é. M-e-n-i-n-a! Tia Tereza estava certa. Realmente certa. Inegavelmente certa, a máquina falhara e a emoção e a intuição prevaleceram. Menina.
- E agora, que nome dar? – indagava a família em suspense, esperando minha mãe acordar.
Sim, porque depois que passou o efeito da anestesia, minha mãe caiu em sono profundo, acredito que oriundo do cansaço e desgaste emocional.
Meu pai contava que, ao ser levada para o quarto, mamãe lutava bravamente contra o cansaço, querendo confirmar o sexo da criança:
- Gil (ela sempre o chamava assim), é menino ou menina? – questionava para cair em exaustão logo em seguida, não se dando conta de que a previsão de minha tia Tereza estava certa.
Ela levou dois dias para ficar melhor e saber do sexo da criança.
Já em casa, a grande dúvida se abateu sobre a família. Afinal, todos (aliás, quase todos) tinham a certeza absoluta de que era um menino e que se chamaria Paulo Marcelo! Aí chego euzinha e atrapalho todos os planos, desconcertando a família. Afinal, ninguém tinha pensado na hipótese de um nome feminino.
A escolha de Paulo Marcelo foi uma concordância do clã Giffoni de Barra Mansa. Seria uma forma de homenagear meu avô Fausto, que fazia aniversário no dia 11 de abril. Ele sempre quisera ter um filho com o nome de Paulo. Ele teve quatro: Tereza (adotiva), Carla e Plínio. Entre minha mãe e meu tio, teve um menino, que nasceu morto. Minha Dindinha (irmã de minha avó materna) contava que na época mamãe era pequena foi ela quem escolheu o nome do rebento que nasceria: Pafúncio! Sim, isso mesmo: Pafúncio.
Mamãe, segundo Dindinha, andava pela casa dizendo a todo momento:
- Meu irmãozinho Pafúncio, meu irmão Panfúncio vai nascer! – dia após dia.
Isso traumatiza, né? Hoje sabemos que a criança que está na barriga da mãe sente e ouve o ambiente fora. Coitado. Acredito que se enforcou ao saber que poderia ser batizado com prodigioso nome. Mesmo não acreditando que o suicídio seja a solução para os problemas da vida, entendo meu ex-futuro tio Fufu – sim, era assim que o chamaria, se tivesse sobrevivido.
terça-feira, 11 de março de 2008
Nasci ... (Capítulo 4)
Chegou o dia 1º de fevereiro e no dia 2 elas viajariam para a capital Fluminense. Só que vovô Fausto não deixou. Disse que mamãe deveria ir ao médico antes. Se esse liberasse, ok. Mamãe ainda relutou muito:
- Mas eu estou me sentindo bem, papai!
- Você vai ao médico e está acabado – sentenciou vô Fausto no alto de sua autoridade paterna.
Como boa filha que era, mamãe enfiou a viola no saco e atendeu ao seu pedido-imposição.
Chegando ao médico, a surpresa:
- A senhora está em trabalho de parto e terá que ir para a sala agora.
- Mas como?! Não estou sentindo nada, absolutamente nada.
- Mas a senhora não pode viajar e precisa ir para a sala de operação.
- Ah, não, doutor! Hoje não vou ter criança nenhuma. Minha irmã fez um quiabo com angu e frango e vou lá em casa almoçar. Além disso, preciso fazer as unhas. Amanhã volto e tenho o bebê – sentenciou a teimosa grávida.
Resultado: no dia seguinte ela foi para a maternidade. Lá chegando teve uma crise de pré-eclampsia. Sua pressão subiu muito e uma junta médica se formou ao seu redor. A criança – euzinha – queria sair, mas ela não podia ser operada. Ah, claro, esqueci de contar: ela não tinha passagem e precisaria de uma cesariana.
Depois de muitas idas e vindas, a junta conseguiu diminuir sua pressão arterial e levá-la para a sala de operação. Mais um problema surgiu: lembra que contei que minha mãe no inicio do casamento fez duas operações em menos de 24 horas? Pois é. A seqüela que ficou foi uma alergia a anestesia, principalmente as que tivessem efeito longo. Para se ter uma idéia, minha mãe, quando tratava de canal ou precisava arrancar um dente, era no muque.
E como operar uma cesariana sem anestesia? Eis a questão! Os médicos arrumaram uma que durava pouco, muito pouco. Veja bem: estou vendendo o peixe conforme me contaram. Nunca busquei saber até que ponto tal situação possa existir ou os termos técnicos exatos sobre o problema. Acredito no que a família contava e ponto.
Voltando. Então arrumaram uma anestesia que durava apenas 15 minutos. O médico tinha que abrir a barriga, me tirar, limpar e costurar em menos de 15 minutos! Meu pai contava, e vó América (que não era vó, mas uma vizinha muito querida que chamei a vida inteira de vó) confirmava, que quando o médico saiu da sala de operação, devido à tensão da possibilidade da perda da mãe e da criança, o calor insuportável típico da estação (lembre-se que nasci em fevereiro) e as luzes potentes da sala faziam que onde ele pisasse formassem-se poças, de tanto suor que escorria de sua roupa.
domingo, 9 de março de 2008
Nasci ... (Capítulo 3)
Outro que também não acreditava em tal hipótese era tio Plínio. Na verdade, ele não acreditava que fosse menino e sequer que fosse menina. Para ele, o que mamãe tinha era um tumor. Durante toda a gravidez ele insistia:
- Carla, vá num médico do Rio. Você fica se consultando com esses médicos do interior, que não sabem nada, que não têm aparelhos potentes. Vá para o Rio!
Quando nasci, minha tia Tereza dizia, caçoando dele:
- Olha aí, Plínio, olha aí o “tumorzão” que nasceu!
Não classifico meu tio como um esnobista ao alertar a irmã. Durante décadas minha família conviveu e morou em São Paulo e nas cidades prósperas do seu interior. Quando eles chegaram a Barra Mansa no meio da década de 50, a rua principal da cidade (Joaquim Leite) era toda de terra batida. Havia chovido e estava um lamaçal, enquanto em Taubaté (cidade onde a família até então residia) era toda calçada com paralelepípedo. Hoje Barra Mansa é completamente diferente, uma cidade com cerca de 180 mil habitantes – a segunda mais populosa do Sul Fluminense, perdendo apenas para Volta Redonda. Mas naquele tempo não era assim, por isso a preocupação de tio Plínio.
Bem, mamãe não atendeu ao pedido do irmão e a gravidez seguia calma, tranqüila e ela esperava a Fezinha para comprar o enxoval no Rio.
Fezinha trabalhava no comércio em Guará e sempre tirava férias no final de janeiro, quando seguiam ela e o pai, meu tio Livinho, para Barra Mansa, passando com a família de 15 dias a um mês. Fezinha sempre foi uma pessoa expansiva, bem humorada, risonha, encarando a vida com alegria. Tio Livinho sempre foi mais hermético, fechado, muito ciente de seu papel como pai e tio, mas também sabia ser um conservador generoso e risonho. Esses dois sempre estiveram presentes em minha vida. Sempre, nos momentos alegres e também nos tristes. Aliás, os Giffonis sempre marcaram presença em minha existência. Meus primos e primas de São Paulo e Minas fazem parte de minha memória desse tempo.