quinta-feira, 27 de março de 2008

Destino

Shirley Terezinha tinha acabado de sair da igreja. O bispo garantiu que Paulo Marcelo estava endemoninhado e, por isso, a largou. Ela acreditava porque apenas o demônio, o Belzebu das profundezas mais profundas, poderia ser o único responsável pelo sumiço de seu grande amor. Um romance “muderno” que nasceu nas páginas de um site de relacionamento virtual, mas nem por isso menos verdadeiro. Shirley Terezinha desde que o amado tinha ido embora, há cerca de três semanas, já não era mais a mesma: triste, moribunda, avessa ao sol... justo ela que sempre ficava debaixo do Astro Rei pegando uma cor na laje, como se fosse uma nova Garota de Ipanema, só que do subúrbio. Ela, que nunca foi de ficar agarrada a nenhuma figura religiosa, agora só vivia de joelhos pedindo a tudo que era santo, de todas as religiões e mesmo até das seitas, que fizesse Paulo Marcelo voltar para sua cama, quer dizer, para sua rede virtual. Mas ele sumiu, não deixou recado, não responde mais as mensagens que ela manda para sua caixa postal. Sumiu, escafedeu-se, evaporou, virou pó nestas intricadas veredas cibernéticas. Desesperada, Shirley Terezinha saiu da Pavuna para a igreja que disseram ser um porrete: uma que fica na Rua São Clemente e que todo dia tem milagre. O Filho de Deus e seus anjos batem o ponto no local e diariamente cego começa a enxergar, pederasta vira homem, prostituta se transforma em santa e matador de aluguel vira pastor. Uma glória só! Afinal, atinou Shirley Terezinha, se tantos milagres destes calibres podem acontecer, por que Paulo Marcelo não poderia voltar, não é mesmo? Ao sair da igreja, a enamorada sofredora ainda carregava o coração pesado com medo de que as orações do bispo não fossem suficientes. Afinal, como o líder religioso bem ressaltou, Belzebu em pessoa estava administrando e tecendo uma teia maléfica em torno do seu amado, fazendo a separação de ambos. Distraída, Shirley caminhou uns 100 metros e chegou ao ponto do ônibus. Com os olhos vagando, deu de cara com um cartaz que dizia o seguinte: “Mãe Sílvia: jogo de búzios, cartas, tarô. Trago a pessoa amada em três dias”. A última frase saltou aos olhos de Shirley Terezinha porque era isso que ela queria. Era o prazo máximo que conseguiria ficar separada de seu grande amor, o único de sua vida, de sua longa existência cheia de vazio e uma pilha de carnês de prestações da Casa Bahia para quitar. Discretamente, tirou o papel da conta da Light que deveria pagar naquele dia e escreveu o endereço e o telefone com o que tinha restado do lápis de olho que estava quase no final, perdido no fundo da bolsa. Olhando para os lados, para ver se algum “irmão” da igreja estaria presenciando que ela estava copiando o endereço da vidente, Shirley Terezinha rabiscou confiante de que tomava a melhor solução, pois problemas extremos merecem remédios também extremos e cavalares. O consultório ficava na Zona Oeste, em Jacarepaguá, e o percurso seria longo, muito longo, principalmente para quem saiu de casa às 6h. Mas tudo “vale a pena se a alma não é pequena”, como estava escrito na traseira de um caminhão de mudança que ela viu tempos atrás. Shirley Terezinha decidiu apostar e pegou o ônibus que a levaria para a solução definitiva do grande impasse de sua vida: a volta triunfante de Paulo Marcelo para sua existência, mesmo que esta fosse apenas virtual. Ao subir para o ônibus, vários lugares estavam vazios, mas ela optou – sabe-se lá Deus o porquê - de sentar ao lado de um rapaz de boné vermelho e com a camisa do Flamengo. Ela nem era muito ligada a estes tipos de coisa, times, jogos, bola e trave. Mas, por força do destino, Shirley Terezinha ficou ao lado de Davideslon. O rapaz foi o primeiro a puxar conversa ao notar que cada vez que passava um poste, Shirley meio que se inclinava para ver os cartazes pregados. É que durante todo o percurso, os anúncios xerocados de Mãe Sílvia infestavam a trajetória. Conversa vai, conversa vem....Shirley Terezinha descobriu que Davideslon era um motoboy sem moto, pois trabalhava com veículo da empresa. Que morava no subúrbio como ela, pertinho de sua casa, na Pavuna, mas que ambos nunca tinham se cruzado. Coisas do destino. Foram se conhecer na Zona Sul, quando Shirley Terezinha procurava a Mãe Sílvia. A empatia entre os dois foi forte e gratuita. Um ficou à vontade na companhia do outro, apesar de Shirley não ter tido coragem de confessar que estava indo para Jacarepaguá em busca de uma mãe-de-santo. Disse apenas que estava passeando pelas redondezas, sem ter nada o que fazer. Deixando esta brecha, Davideslon a convidou para almoçar na casa de sua madrinha, que morava na Freguesia. Ele ia visitar a Dinda no seu dia de folga. E foi assim que Shirley Terezinha deixou de lado a idéia original de ir procurar a vidente e trazer o grande amor de sua vida de volta: Paulo Marcelo. O destino se encarregou de trilhar outros caminhos em sua linha da vida.

domingo, 23 de março de 2008

O homem que não refletia

Já se passaram muitos e muitos anos desde a última vez que decidi não me olhar mais no espelho. Ainda era um moleque de calças curtas quando resolvi que nunca mais veria a própria imagem refletida. Desde então, tenho me mantido fiel a esta resolução.
Durante todo tempo, sinto na pele que os anos transcorreram devido os olhares dos outros. Hoje, sei que sou mais velho porque garçons, porteiros, o jornaleiro e minha empregada - ou mesmo qualquer transeunte na rua - me chamam de “senhor”.
Poucos sabem que não me olho. A maioria deste pequeno grupo que tem conhecimento da decisão que tomei, pertence à minha família. São primos, primas, tios e tias mais velhos, poucos da nova geração estão conscientes de que recuso a me olhar. Eles só descobrem o fato quando alguém mais velho do clã – um primo ou tia que primam pela ironia e o deboche – querendo assustar a figura mais jovem, logo dizem que sou vampiro e que, por isso, não posso ver a minha imagem refletida no espelho. Bobagens, tento não ligar. Contudo, me incomoda profundamente quando um adolescente me olha de esguelha com um olhar ao mesmo tempo de fascínio e medo, dividido na incerteza gótica de um romantismo pós-moderno. Criei a fama, agora deito na cama, conforme diz o ditado. Aliás: obrigaram-me a deitar.
Nunca senti falta de me olhar. Acho que sou igual àquela pessoa que acorda um dia, e ao ver um bife diz: não estou com vontade de comer carne. Passam-se os anos e não se dá conta que os dias foram se somando, transformando-se em meses, e os anos em décadas.
Porém, não olhar a própria imagem, tenho que admitir, causa pequenos transtornos. O pior que enfrentei foi quando ainda era jovem, e não tinha pêlos suficientes para compor uma impávida barba. Coisa de adulto: serrada, cheia, criada com o acúmulo dos dias. Com a chegada da idade, o que era antes um tufo aqui e outro ali, se transformou numa respeitável, primorosa e densa floresta negra que foi se modificando também, aos poucos, e hoje está dividida entre a brancura do algodão e o cinza das asas de um pombo. Resultado: hoje, vou a um barbeiro mensalmente para apenas aparar a barba, não deixando que cresça no estilo selvagem. Sempre quando estou na sua cadeira, fecho os olhos e deixo ser cuidado por suas habilidosas mãos profissionais.
Mesmo não me olhando no espelho, consigo chegar a esta conclusão apenas olhando para os pêlos do meu peito, vejo a textura de minha pele. Não preciso ver minha imagem refletida para ter consciência de que a velhice se instalou completamente.
Uma vez me perguntaram, era uma estudante de psicologia com pretensões filosóficas, se não querer me olhar era uma forma de fuga freudiana. Como pouco entendo sobre Freud e suas teorias edipianas ou não, nada respondi. O que sei, e isso posso garantir, é que passo muito bem a minha vida sem querer me ver. Leio muito e os livros refletem as imagens que quero enxergar. Não preciso de espelho para ver o mundo e a mim mesmo.
Dizem as más línguas que sou anti-social. Pode ser. Não levo muito a sério, pelo menos tento não levar, as opiniões que os outros têm de mim.

quinta-feira, 20 de março de 2008

Conto de fadas (uma versão para adultos)

O relógio marcava 16h45 quando Cinderela chegou à casa de chá. Esperando impacientemente lá estava a Bela, batendo os dedos no tampo da mesa. Apesar de não estar atrasada, pois o encontro foi agendado para as 17h, Cinderela se sentiu culpada por fazer a controladora Bela esperar.

“Que demora!” – exclamou a Bela, que já nem era tão bela assim, depois de ter se casado com a Fera, tinha engordado uns 15 quilos, para dizer o mínimo.

Cinderela sentou-se à mesa e ficou quieta, contou até dez e tentou se concentrar no mantra que seu personal de ioga havia ensinado para quando estivesse muito próxima de explodir. Depois de respirar até dez por cinco seqüências seguidas, Cinderela se acalmou e, só então, conseguiu desfrutar da companhia da amiga.

“Branca de Neve ainda não chegou, como sempre”, queixa-se a Bela comendo mais um merengue lambuzado de açúcar.

“Ela sempre chega um pouco atrasada”, confirmou Cinderela já refeita da quase explosão de raiva.

“Como vão as crianças e o maridão?” – indagou a Bela.

“Ah, o Júnior está terrível! A professora disse que ele está aprontando na classe e, pelo jeito, nunca se encaixará no perfil de príncipe encantado, seguindo as pegadas do pai. Eu já nem sei como fazer. Cinderelazinha tem uma agressividade que nem sei como será, ela é toda brutalizada, não gosta de brincar de boneca e sequer usa aquelas roupas lindas cheias de fitinhas e sapatinhos de cristal. Só quer saber de aprender boxes, lutas marciais! Meus filhos não correspondem a nenhum perfil de príncipe e princesa, já não sei o que fazer com estas crianças. Sinceramente, não sei onde eu errei”, disse Cinderela caindo em prantos no meio do salão de chá.

Sem saber o que falar, Bela empurra um pedaço de bolo de chocolate dizendo:

“Come que logo vai passar. Mas e o príncipe não ajuda em nada? Você tem que se impor, Cinderela! Afinal, a criação dos filhos é de responsabilidade dos dois!” – argumenta indignada a Bela.

“Ah, o príncipe já não é mais o mesmo. Sempre me deixa de lado e agora deu para chegar muito tarde. Desconfio que ele tenha um caso com uma das empregadinhas do palácio. Ele vive de cochichos pelos cantos ao celular, agora deu para querer fazer ginástica, determinou que os costureiros reais fizessem um novo guarda-roupa novinho! Ele está naquela fase da meia-idade que não aceita a velhice. Sabe que ele já marcou consulta com um médico para fazer implante no cabelo? Ele já não me ama mais”, sentenciou Cinderela dando uma grande fungada no fino lencinho bordado que Bela tinha lhe oferecido.

“Ah, estes homens! Falaram-me que príncipe encantado era diferente, que nada! E eu acreditei na frase: ´e foram felizes para sempre’. Uma grande balela! Você não vê a Fera?! No início do casamento, tinha uma fera na minha cama, uma paixão avassaladora, e hoje?! Ah, hoje ele não quer mais saber de mim. Nossa cama é fria e a fera selvagem que aquecia os meus dias, hoje se transformou num homem que só quer ver futebol na TV. Sinceramente, não consigo entender o que tem de interessante ou inteligente num bando de 22 homens correndo atrás de uma bola e que depois quer assistir a reprise da reprise do jogo, os melhores momentos, e depois um debate sobre a mesma partida! E a Fera ainda tem a cara-de-pau de dizer que fui eu quem mudei! Que já não sou mais a mesma! Bah!, homens!”, diz a Bela engolindo um pedaço de torta de limão.
Chega Branca de Neve toda agitada, cheias de sacolas, com um lindo vestido vermelho, mostrando as pernas bronzeadas, os novos seios e bumbum turbinados e com um sorriso maravilhoso nos lábios.

Hellooow meninas! Ai que dia corrido!!! Fui ao shopping fazer umas comprinhas e tinha uma liquidação de bolsas que não resisti. Resultado: ultrapassei o limite do cartão, mas depois me entendo com o príncipe. E aí? Quais são as novidades?" – olha para os olhos vermelhos de Cinderela e indaga para a Bela – "Por que ela está chorando? ".

Antes que a Bela explicasse alguma coisa, Cinderela abre o bocão e diz: “O príncipe não me ama mais!!”.

“Ah, é isso?!” – diz ela tirando uma lixa da bolsa e passando nas grandes unhas vermelhas bem-tratadas – “O que você precisa fazer, darling, é arrumar um amante, uma paixão para aquecer os seus dias enquanto as crianças estão no colégio. Tenho certeza de que se fizer isso, tudo mudará em sua vida. Seu casamento vai esquentar, sua pele melhorará e você será certamente feliz, e o melhor, continuará desfrutando os privilégios de ser uma princesa”, sentenciou Branca.

As duas amigas olharam estarrecidas para a companheira de contos de fada. “Desde quando Branca de Neve tinha se tornado tão cínica assim?”, questionavam-se mentalmente.

“Olha, desde que me entreguei a uma paixão fora do casamento, minha vida mudou completamente. Antes ficava pelos cantos, esperando as migalhas que o príncipe tinha para me dar. Sua mãe, que no início me tratou muito bem, depois, com a convivência foi se transformando numa verdadeira bruxa, muito pior do que aquela que quis me matar. Mas mudei. Tornei-me uma outra pessoa desde que conheci a paixão nos braços do Mestre”, diz Branca de Neve revirando os olhos.

As duas amigas se olham espantada e dizem ao mesmo tempo:
“O Mestre dos Sete anões?!” – perguntam de queixo caído.

“Sim!” – diz dando um grande suspiro – “Eu sei que vocês vão dizer que ele é mais velho, que temos classes sociais diferentes e há também o pequeno problema de verticalidade, contudo, ele é um grande mestre na cama e não é à toa que recebeu este nome. O que temos é uma grande paixão, uma coisa de pele, cama, sabe?”, diz Branca de Neve toda acesa.

“Mas você pretende largar o príncipe e ir morar com o Mestre na Floresta?”, questiona Bela.

“É lógico que não, darling! Você acha que largaria todo o conforto e mordomia para viver na floresta no estilo uma cabana e um amor? Fala sério, meninas! Estamos em pleno Século XXI, ninguém mais acredita em contos de fadas”, sentencia Branca de Neve.

terça-feira, 18 de março de 2008

O peso do nome

Eles já nasceram carregando o peso do nome. Os gêmeos Caim e Abel vieram ao mundo prematuros, com sete meses, e desde sempre tiveram que lutar pela sobrevivência. A vida não era fácil, desde muitos novos ajudavam a família, vendendo limão na Feira de Santana, engraxando sapatos, sendo garotos de recados, ou fazendo qualquer bico que aparecesse e que desse para descolar uns trocados. Apesar de um ser o espelho do outro, Caim, o mais velho, era completamente diferente de seu irmão Abel. O primogênito era calado, circunspecto, dado ao silêncio e olhares parados, penetrantes. Já Abel era tido como o expansivo, falante, a alegria de qualquer festa, pois, além de cantar, também tocava sanfona e contava piada. A família, composta de 14 irmãos, sabia diferenciar com facilidade cada um deles, devido à diferença de personalidades.
Até hoje, não se sabe muito bem o porquê que Zé da Fé, escolheu o infeliz nome para a dupla. Teimoso, ele não quis ouvir o pedido da mulher, para que batizasse os dois primeiros rebentos com outros nomes. Zé bateu o pé, foi contra o padre e o escrivão, e as crianças foram registradas, carregando no nome, a tristeza de uma tragédia já anunciada e prevista.
A vida seguia, e os dois meninos cresciam, apesar de todas as diferenças de personalidade. Quando foram parar na escola rural, Caim era o que mais sofria com a molestação dos garotos, que gritavam que ele mataria o irmão. “Caim matou Abel! Caim matou Abeeeeelllll”, azucrinavam os meninos. Caim se fechou ainda mais, e não tinha quem o fizesse ir para a escola. Foi só o tempo de aprender as primeiras letras e como assinar o nome, que, logo depois, o filho mais velho de Zé da Fé, não voltou mais aos bancos escolares. Abel até que continuou indo, mas moleque, gostava mais de farrear, puxar as tranças das meninas, correr e jogar bola na hora do recreio. Por safadeza e sem ter nenhum motivo aparente, Abel não demorou muito na escola. Sequer chegou a terminar o primário, mas lia corridinho, muito melhor do que Caim. Abel era o orgulho do pai, que tinha por ele visivelmente uma preferência .
Na adolescência, Caim pouco saía, mas Abel já era tido como namorador pela vizinhança. Não podia ver um rabo de saia, um corpinho mais ou menos jeitosinho, e lá ia o Dom Juan nordestino a “engalar” as meninas faceiras da região.
Caim, quando a mãe conseguia fazer com que ele fosse em alguma festa, depois de muito pedir e insistir, sempre ficava no canto, quieto, de olhar quase parado, dando medo nas velhas beatas que compareciam aos festejos. Não foi uma nem duas vezes que Caim foi obrigado a ver algumas delas fazendo o Pai Nosso, quando passavam em sua frente. A cruz de carregar o nome bíblico maldito se tornava insuportável, havia tempo.
Teve uma vez, quando os dois já tinham completado 25 anos, Caim estava na festa de São João de sua cidade quando ele reencontrou Ritinha, uma cabocla faceira, mas séria, do tempo com quem tinha estudado no grupo escolar da dona Dodô. Ritinha, que já era linda com suas tranças negras, com a idade, sua beleza se intensificou, tornando-a tão brejeira! Assim que um viu o outro se reconheceram como sendo colegas do tempo do colégio, mas foi Ritinha que se aproximou do filho mais velho de Zé da Fé. Tímido, Caim começou a conversar, e a prosa se desenrolava com facilidade. Dava para ver que ambos tinham se sentido atraídos um pelo outro, dado os olhares que trocavam entre uma frase e outra. Ritinha até convidou Caim para dançar um pouco, mas ele não se atreveu a tanto. A cabocla não se importou, e continuou a prosa. Em determinado momento, Abel surge, com o hálito de cachaça já se fazendo notar. Ao ver a bela Ritinha conversando com o irmão, logo foi se intrometendo na conversa, tentando chamar a atenção da garota. Contudo, Ritinha demonstrou visivelmente não gostar de sua prosa e sequer das atitudes entronas, tentando monopolizar a conversa. Abel não desistiu e insistiu em dançar com a linda cabocla, mas ela negou, dando uma desculpa. Desde que o irmão tinha se intrometido na conversa, Caim se apagou e a naturalidade que estava tendo com a companheira do colégio sumiu completamente. Era sempre assim, quando Abel surgia, Caim se apagava deixando que o outro iluminasse o ambiente.
Porém, quando o irmão mais novo pegou o braço de Ritinha, tentando arrastá-la à força para o meio do salão, Caim, pela primeira vez na vida, o enfrentou, tirando a mão de Abel e olhando para ele com olhos de raiva, toda a raiva e mágoa que havia acumulado ao longo de seus anos de vida. A discussão começou, mas só se ouvia a voz de Abel, que gritava. Caim respondia, mas a voz era baixa, grossa, um tipo de voz que parece que vem das cavernas do coração. Não se sabe muito bem em que momento se deu e como isso aconteceu. Foi tudo muito rápido, só foi o tempo de se ouvir alguém gritar: “A faca!”. E um dos filhos de Zé da Fé estava estendido no chão, todo ensangüentado. Uma roda se fez, e teve gente correndo de todos os lados para ver a cena do crime. Ritinha, ajoelhada e com as mãos sujas de sangue, tentando estancar a hemorragia, gritava chamando por socorro. Caim com a camisa empapuçada de sangue, com os olhos estalados, olhava o céu, como se esperasse os anjos do Senhor aparecerem a qualquer momento para levá-lo. Ao seu lado, Abel, olhava a faca que carregava nas mãos, sem ainda entender como toda aquela tragédia tinha acontecido. Sem acreditar, sem ter consciência direito do que tinha feito, com um olhar espantado, trágico.
Pois é. Foi assim que a tragédia nordestina se fez, seguindo a sina bíblica. Porém, um pouco diferente. Não foi Caim que matou Abel na Feira de Santana, mas sim Abel que matou Caim.

sábado, 15 de março de 2008

Nasci ... (Capítulo 6)

Bem, então a família não tinha um nome para me dar. Houve uma reunião do génos e cada um apresentou uma sugestão:

- Por que não coloca Deusa?! – graças a Deus o nome foi descartado! Já imaginou naquela época de uma novela da Globo em que a Vera Fischer era chamada de deusa pelo personagem do Nuno Leal Maia? Não, melhor não. Que bom não!

- Ah, então põe Cíntia. – ficaram na dúvida, analisando a sonoridade do nome.

Mas aí minha tia Tereza, sempre ela, sugeriu:

- Porque não fazemos uma homenagem para a avó (mãe do lado materno e que tinha morrido meses antes de saber que a filha estava grávida)? Coloca Giacomina.

Mamãe tinha aprendido sobre esse negócio de nome, acho até que teve remorso lembrando-se do titio Fufu, então disse:

- Olha, Giacomina é um nome italiano e gosto muito. É o nome de minha mãe, mas é diferente e ela (eu) pode não gostar. É diferente demais. Na Itália não é tão diferente assim, mas no Brasil é. – argumentou.

Sábia como Matusalém descalço, Tereza contra-argumentou:

- Se é assim, então põe Carla Giacomina. Fica uma homenagem à mãe e à avó.

E foi assim que todos concordaram e fui batizada pelo nome de Carla Giacomina Giffoni Carneiro. Adoro meu nome inteiro.
Quero acreditar, nunca tirei isso a limpo, que o nome grande desse jeito foi uma maneira de homenagear os clãs envolvidos: Giffoni da minha vó Tita (este era o apelido da que foi batizada Giacomina) e do papai, Carneiro.
É essa a minha história. Nasci por imposição divina. A chance de minha mãe gerar uma criança era uma em um bilhão. Sou esse um.
Não pense que me sinto a ungida do Senhor por ter baixado neste planeta. Acredito – cá entre nós – que minha vinda foi mais para pagar os pecados do que qualquer outra coisa. Mas hoje estou aqui e agradeço a Deus e à minha família o dom da vida.

quinta-feira, 13 de março de 2008

Nasci ... (Capítulo 5)

Foi assim que vim para este planeta. Às 14h45min de uma quinta-feira. Nasci para o mundo. Vó América contava que meu pai chorava feito criança, dava dó ver o velho Gilberto (quando nasci ele já tinha completado 51 anos) recebendo a notícia de que era pai de uma linda menina (foi o que disseram, vá lá).
Menina?!
Pois é. M-e-n-i-n-a! Tia Tereza estava certa. Realmente certa. Inegavelmente certa, a máquina falhara e a emoção e a intuição prevaleceram. Menina.

- E agora, que nome dar? – indagava a família em suspense, esperando minha mãe acordar.

Sim, porque depois que passou o efeito da anestesia, minha mãe caiu em sono profundo, acredito que oriundo do cansaço e desgaste emocional.
Meu pai contava que, ao ser levada para o quarto, mamãe lutava bravamente contra o cansaço, querendo confirmar o sexo da criança:

- Gil (ela sempre o chamava assim), é menino ou menina? – questionava para cair em exaustão logo em seguida, não se dando conta de que a previsão de minha tia Tereza estava certa.
Ela levou dois dias para ficar melhor e saber do sexo da criança.
Já em casa, a grande dúvida se abateu sobre a família. Afinal, todos (aliás, quase todos) tinham a certeza absoluta de que era um menino e que se chamaria Paulo Marcelo! Aí chego euzinha e atrapalho todos os planos, desconcertando a família. Afinal, ninguém tinha pensado na hipótese de um nome feminino.
A escolha de Paulo Marcelo foi uma concordância do clã Giffoni de Barra Mansa. Seria uma forma de homenagear meu avô Fausto, que fazia aniversário no dia 11 de abril. Ele sempre quisera ter um filho com o nome de Paulo. Ele teve quatro: Tereza (adotiva), Carla e Plínio. Entre minha mãe e meu tio, teve um menino, que nasceu morto. Minha Dindinha (irmã de minha avó materna) contava que na época mamãe era pequena foi ela quem escolheu o nome do rebento que nasceria: Pafúncio! Sim, isso mesmo: Pafúncio.
Mamãe, segundo Dindinha, andava pela casa dizendo a todo momento:

- Meu irmãozinho Pafúncio, meu irmão Panfúncio vai nascer! – dia após dia.

Isso traumatiza, né? Hoje sabemos que a criança que está na barriga da mãe sente e ouve o ambiente fora. Coitado. Acredito que se enforcou ao saber que poderia ser batizado com prodigioso nome. Mesmo não acreditando que o suicídio seja a solução para os problemas da vida, entendo meu ex-futuro tio Fufu – sim, era assim que o chamaria, se tivesse sobrevivido.

terça-feira, 11 de março de 2008

Nasci ... (Capítulo 4)

Fezinha chegou no dia 31 de janeiro e o combinado foi que eles descansariam alguns dias e depois minha mãe e ela seguiriam para o Rio munidas de malas para trazer o enxoval para o Paulo Marcelo (vamos combinar que o nome será esse, pois sempre confundo a ordem, ok?).
Chegou o dia 1º de fevereiro e no dia 2 elas viajariam para a capital Fluminense. Só que vovô Fausto não deixou. Disse que mamãe deveria ir ao médico antes. Se esse liberasse, ok. Mamãe ainda relutou muito:

- Mas eu estou me sentindo bem, papai!
- Você vai ao médico e está acabado
– sentenciou vô Fausto no alto de sua autoridade paterna.

Como boa filha que era, mamãe enfiou a viola no saco e atendeu ao seu pedido-imposição.
Chegando ao médico, a surpresa:

- A senhora está em trabalho de parto e terá que ir para a sala agora.
- Mas como?! Não estou sentindo nada, absolutamente nada.
- Mas a senhora não pode viajar e precisa ir para a sala de operação.
- Ah, não, doutor! Hoje não vou ter criança nenhuma. Minha irmã fez um quiabo com angu e frango e vou lá em casa almoçar. Além disso, preciso fazer as unhas. Amanhã volto e tenho o bebê
– sentenciou a teimosa grávida.

Resultado: no dia seguinte ela foi para a maternidade. Lá chegando teve uma crise de pré-eclampsia. Sua pressão subiu muito e uma junta médica se formou ao seu redor. A criança – euzinha – queria sair, mas ela não podia ser operada. Ah, claro, esqueci de contar: ela não tinha passagem e precisaria de uma cesariana.
Depois de muitas idas e vindas, a junta conseguiu diminuir sua pressão arterial e levá-la para a sala de operação. Mais um problema surgiu: lembra que contei que minha mãe no inicio do casamento fez duas operações em menos de 24 horas? Pois é. A seqüela que ficou foi uma alergia a anestesia, principalmente as que tivessem efeito longo. Para se ter uma idéia, minha mãe, quando tratava de canal ou precisava arrancar um dente, era no muque.
E como operar uma cesariana sem anestesia? Eis a questão! Os médicos arrumaram uma que durava pouco, muito pouco. Veja bem: estou vendendo o peixe conforme me contaram. Nunca busquei saber até que ponto tal situação possa existir ou os termos técnicos exatos sobre o problema. Acredito no que a família contava e ponto.
Voltando. Então arrumaram uma anestesia que durava apenas 15 minutos. O médico tinha que abrir a barriga, me tirar, limpar e costurar em menos de 15 minutos! Meu pai contava, e vó América (que não era vó, mas uma vizinha muito querida que chamei a vida inteira de vó) confirmava, que quando o médico saiu da sala de operação, devido à tensão da possibilidade da perda da mãe e da criança, o calor insuportável típico da estação (lembre-se que nasci em fevereiro) e as luzes potentes da sala faziam que onde ele pisasse formassem-se poças, de tanto suor que escorria de sua roupa.

domingo, 9 de março de 2008

Nasci ... (Capítulo 3)

Bem, depois desta bolha proustiana, volto. Onde estava mesmo? Ah, sim, lembrei: Tereza negava que fosse menino. O exame errou porque foi mal interpretado. Ao olharem a criança que se formava e verem o punho que eu havia fechado na frente do sexo, eles pensaram que fosse o saquinho do menino. Claro que, como boa moça de família, não ficaria posando assim, mostrando a genitália desnuda para qualquer um, né? Tem graça!
Outro que também não acreditava em tal hipótese era tio Plínio. Na verdade, ele não acreditava que fosse menino e sequer que fosse menina. Para ele, o que mamãe tinha era um tumor. Durante toda a gravidez ele insistia:

- Carla, vá num médico do Rio. Você fica se consultando com esses médicos do interior, que não sabem nada, que não têm aparelhos potentes. Vá para o Rio!

Quando nasci, minha tia Tereza dizia, caçoando dele:

- Olha aí, Plínio, olha aí o “tumorzão” que nasceu!

Não classifico meu tio como um esnobista ao alertar a irmã. Durante décadas minha família conviveu e morou em São Paulo e nas cidades prósperas do seu interior. Quando eles chegaram a Barra Mansa no meio da década de 50, a rua principal da cidade (Joaquim Leite) era toda de terra batida. Havia chovido e estava um lamaçal, enquanto em Taubaté (cidade onde a família até então residia) era toda calçada com paralelepípedo. Hoje Barra Mansa é completamente diferente, uma cidade com cerca de 180 mil habitantes – a segunda mais populosa do Sul Fluminense, perdendo apenas para Volta Redonda. Mas naquele tempo não era assim, por isso a preocupação de tio Plínio.
Bem, mamãe não atendeu ao pedido do irmão e a gravidez seguia calma, tranqüila e ela esperava a Fezinha para comprar o enxoval no Rio.
Fezinha trabalhava no comércio em Guará e sempre tirava férias no final de janeiro, quando seguiam ela e o pai, meu tio Livinho, para Barra Mansa, passando com a família de 15 dias a um mês. Fezinha sempre foi uma pessoa expansiva, bem humorada, risonha, encarando a vida com alegria. Tio Livinho sempre foi mais hermético, fechado, muito ciente de seu papel como pai e tio, mas também sabia ser um conservador generoso e risonho. Esses dois sempre estiveram presentes em minha vida. Sempre, nos momentos alegres e também nos tristes. Aliás, os Giffonis sempre marcaram presença em minha existência. Meus primos e primas de São Paulo e Minas fazem parte de minha memória desse tempo.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Nasci... (Capítulo 2)

Vovô Fausto, pai de mamãe, insistiu que a filha fosse ao médico da família. Sim, naquela época existia médico da família, que chegava em casa para ver o paciente, tomava café com leite e broa e no final consultava todos os membros, cobrando o preço de apenas uma visita. Bons tempos. Bons tempos. Tempos, como diria Nelson Rodrigues, do laquê em splay e em que o movimento de emancipação feminista ainda não tinha chegado à Barra Mansa.
Tenho que colocar uma ressalva aqui. Não era apenas mamãe e papai que eram descrentes do nascimento de um filho. Todos não levavam fé, e por isso, quando o médico chegou do simpósio, minha mãe marcou a consulta apenas por desencargo de consciência. Meu tio Plínio, seu irmão, ainda alertou:

- Vai, Carla (tenho o seu nome), pode ser um tumor. Nunca se sabe!

Ela foi, e o médico da família confirmou o que o doutor Eros já havia diagnosticado: era gravidez sim! O exame não deixava mentir.
Bem, a alegria se fez presente na família e, pelas contas do médico e de mamãe, a criança nasceria no final de março ou na primeira quinzena de abril, no máximo. Tudo leva a crer que eles (mamãe e o médico) calcularam errado o meu nascimento, pelo menos é o que imagino para errarem tão feio a data.
Os meses foram passando e minha mãe nada tinha do enxoval. Ela queria comprar todo ele no Rio de Janeiro e – como a criança nasceria apenas no final de março ou início de abril – dava tempo de esperar as férias de minha prima Fezinha (Letízia), que morava em Guaratinguetá, São Paulo, para que juntas comprassem o arsenal de macacõezinhos, mantas, roupas de cama etc. etc. etc. As poucas roupinhas guardadas eram as que haviam sido compradas por sua irmã, minha tia Tereza. Tudo em rosa, o que irritava minha mãe, pois a ultra-sonografia (sim, naquele tempo já existia esse exame, acredite!) já dissera que a criança que gerava era um menino. Já tinham escolhido até o nome do rebento: Paulo Marcelo (ou era Marcelo Paulo? Sempre me confundo com esse nome, mas enfim, você sabe que seria um nome duplo envolvendo um e outro).
Mamãe não se conformava com a teimosia da irmã.

- Tereza! A criança é homem!
- Não é. É menina.
- Mas Tereza, o exame deu que é homem! Você quer saber mais do que o exame?!
- Quero. É menina!

Não houve briga, porque o amor que as unia era mais forte do que tudo, mas mamãe contava o quanto ficou irritada com a tia Tereza devido a sua teimosia profética.
Tereza foi a primeira pessoa que acreditou em mim, antes mesmo de minha mãe. Não digo que mamãe e papai não tenham acreditado e me dado força durante o tempo em que estivemos juntos. Entendo suas crenças, afinal era a máquina dizendo, né? Como contradizer uma certeza absoluta? Eles estavam certos em acreditar na ultra-sonografia. Eu também acreditaria. Mas minha tia Tereza renegou todo o saber, todo o Lógos, e apostou no sensório, no Pathos, na emoção e na intuição, contradizendo todas as certezas absolutas dos homens e vendo e encarando a coisa pelo espírito. Quando todos diziam o contrário, ela acreditou na emoção.
Tereza era só emoção, uma alma generosa, amiga e que faltou apenas me parir, porque o resto todo ela fez por mim. Deus me abençoou com duas mães, só que mamãe foi embora cedo, para o andar de cima¸ infelizmente. Minha tia Tereza ficou comigo, me amparando, velando e incentivando ao longo da vida. Agradeço a Deus por isso, por ter me dado a oportunidade de ter convivido de perto com essas duas mulheres fortes, generosas, amigas e companheiras, que muito me ajudaram, que foram exemplos em minha vida.

terça-feira, 4 de março de 2008

Nasci...(Capítulo 1)

Nasci. Contradizendo todas as previsões dos médicos que examinaram minha mãe, nasci numa ensolaradamente quente tarde de 4 de fevereiro de 19.... (Ok, admito: como qualquer mulher não falo a minha idade). O médico tinha garantido à minha genitora que ela não poderia ter filhos devido a uma operação que fizera logo depois de casada. Mamãe sentia dores terríveis e em menos de 24h foi operada duas vezes. Como não foi encontrado em seu aparelho reprodutor nada que desse uma pista do porquê das dores, o médico decidiu cortar as trompas. Deixou apenas um pedacinho. Pedaço que, segundo ele, não lhe possibilitaria ovular e gerar uma criança. As chances eram tão mínimas, que ele foi categórico:

- Não poderá ter filhos.

Minha mãe contou que tal situação gerou muita dor a ela e à família inteira. Afinal, que recém-casada não gostaria de ter um bebê para acalentar nos braços?
Mas aí os dias foram passando, somando-se, transformando-se em anos, até que – passada uma década – um dia ela foi pegar um botijão de gás e sentiu umas dores fortes. O médico da família estava participando de um simpósio internacional e meu pai levou um outro lá em casa para examiná-la. Mamãe contava que o médico, apesar de formado, parecia estudante de medicina, cabelos negros como “a asa da graúna” e molhados como se tivesse acabado de sair do banho. Seu nome era doutor Eros e mais tarde ele se transformaria num dos melhores médicos da Região do Sul Fluminense. Ele a examinou e foi taxativo:

- Está grávida.

Minha mãe calmamente retrucou, sem acreditar por um só momento:

- Ah, é? Está bem.

Papai levou o médico para o centro da cidade de táxi – sim, nenhum dos dois tinha carro naquela época – e ao voltar para casa teve que ouvir o maior sermão da mulher.

- Onde já se viu, Gil (Gilberto era seu nome)?! Trazer um estudante de medicina para me examinar! Você sabe que não posso gerar filho!

Meu pai enfiou a viola no saco e concordou com ela. Afinal, durante todo aquele tempo eles tinham a certeza absoluta de que não poderiam gerar uma criança.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Ah, que falta que um rabo faz!

A evolução de Darwin diz que todo homem descende do macaco. Não desacredito desta afirmativa, diferentemente das beatas que ainda proliferam em pleno Século XXI. Tem gente que crê que a maçã não é apenas um símbolo do pecado, mas o próprio.
Deixando o desconjuro de lado e me atendo apenas ao fato de que a ascendência humana vem de um primata, realmente é lamentável que no meio da cadeia evolutiva tenhamos perdido aquilo que considero primordial: o rabo.
Ah, que maravilha seria ser portador deste membro – se é que posso classificá-lo como tal – e que, apesar da evolução científica, tanto faz falta nas atividades humanas hoje em dia! Acredito que o mundo é o que é hoje porque não temos um rabo. Imagino Freud tendo que refazer suas teorias como aquela que diz que toda mulher tem inveja do falo do homem. Nós mulheres não teríamos o desconforto da inveja, a igualdade “rabística” prevaleceria entre os sexos. Um mundo novo se descortinaria, certamente.
Fico imaginando os diferentes tipos de rabos que cada um carregaria. Eu, particularmente, ia querer que o meu rabo fosse semelhante ao do Capitão Rodrigo, um gato vira-lata da vizinha que foi adotado por minha mãe, que o rebatizou para o nome do personagem de Veríssimo. O rabo do felino era lindo, lindo.... todo branco, e como carregava na ascendência a estirpe de um fidalgo angorá, seu rabo além de ser alvo como algodão era também volumoso! Já pensou que maravilha seria ir à praia com um rabo deste tipo?!
Peraí, uma coisa me ocorreu agora: será que no rabo de nós pobres mulheres mortais também haveria a praga imemoriável da celulite? Vixe! Tomara que não! Mas como as conjecturas são minhas, fica decretado que no meu mundo “rabístico ficcional”: em rabo de mulher não teria celulite. Cumpra-se.
Fico imaginando também os diferentes tipos de rabos femininos e masculinos. Creio que nas mulheres também haveria a praga dos rabos com as famigeradas chapinhas a alisar e uniformizar suas texturas. Um grande desperdiço, devo lamentar, porque assim como o cabelo da cabeça, acredito que o cabelo (ou pêlo, como queiram) do rabo seria importante permanecer com suas características próprias, e a diferença e autenticidade é que o tornaria singular e original.
Claro que como vivemos num período no qual se busca o politicamente correto – que convenhamos é uma chatice, pois além de tudo traz no seu bojo uma grande forma de preconceito não verbalizada – haveria rabos também antenados com a situação vigente.
Será que haveria alguma campanha do tipo: “salve os rabos dourados” semelhante ao que volta e meia se faz com algum animal silvestre que corre o perigo de extinção?
Ah, e os pobres dos carecas! Imagino que a natureza para compensá-los decretaria que por mais testosterona que o homem tivesse, ele nunca perderia os pêlos ou cabelos dos rabos.
Claro que como teriam os radicais, que iam querer se diferenciar dos demais, sempre haveria aqueles que raspariam o rabo e ali colocariam diferentes tatuagens e piercings ao longo do membro. Haveria igualmente os mais meigos, rabos adolescentes: um rabinho com chiquinhas, fitinhas, e tudo muito feminino e cheio de flu-flu. Muito fofo!
O grande perigo seria em Brasília. Logo surgiria uma lei ou moda, sei lá, que impusesse que todo aquele que almejasse um cargo político teria que extirpar o rabo. Uma forma de coibir as falcatruas, dólar na cueca e cia. Sabe como é... político vive de rabo preso e a comprovação visual deste fato já seria por si só incriminador.
É... como a humanidade perdeu ao longo dos séculos por não carregar um rabo! Tudo seria diferente se nós - mulheres e homens - carregássemos ainda este membro perdido na primeira infância da humanidade. O mundo cresce, a ciência evolui, mas até o momento...o rabo ainda é motivo de divagação de uma estudante universitária. Uma pena! Mas – tenho que confessar – que ainda carrego um fio de esperança. O Projeto Genoma está aí. Quem sabe os cientista não se animam, né? “Tumara”!