<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609</id><updated>2012-01-16T06:35:09.268-08:00</updated><title type='text'>Carla Giffoni</title><subtitle type='html'>Esse é o meu blog e agradeço sua visita. Você encontrará aqui de tudo um pouco. Sua opinião é importante. Por isso, não se acanhe em me enviar alguma nota. Gostaria de lhe pedir algo: caso goste do que leu, divulgue para os amigos, parentes... Enfim, entre quem ama e admira. Agora, se você não gostar, divulgue também, por favor, para os inimigos e chatos de plantão. Como diria Drummond: “(...) Por isso me dispo, por isso me exponho nas livrarias. Preciso de todos”. Beijos e Paz!</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>97</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-6432971117836311793</id><published>2012-01-16T06:34:00.000-08:00</published><updated>2012-01-16T06:35:09.275-08:00</updated><title type='text'>Canalha</title><content type='html'>Ela se casou com um canalha.&lt;br /&gt;Não aquele canalha rodriguiano por quem a gente se apaixona à primeira baforada de Continental sem filtro nos cornos.&lt;br /&gt;Não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era um canalha vulgar, encontrado em qualquer definição de dicionário. Estava lá: conjunto de pessoas desprezíveis. Era assim. Assim era ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde o início do flerte (no tempo dela, era flerte mesmo) ele já mostrava a que veio. Mas ela, carente e já quase passando da idade de arrumar matrimônio, resolveu aceitar, como se ele fosse a última coca-cola do deserto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela detestava coca-cola, preferia mil vezes um guaraná ou suco de caju, mas mesmo assim resolveu aceitar e investir no que ela achava que poderia tornar-se um namoro firme, com vistas a um casamento de véu, grinalda, flores de laranjeiras e caminhada pela nave do Outeiro da Glória.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele passava em frente à sua casa, diariamente, e ficava por alguns minutos sob o poste, com a desculpa de acender e fumar um cigarro.&lt;br /&gt;Ela, como toda boa moça de família que se preza, sempre no mesmo horário tinha por costume estar ‘casualmente’ na janela vendo a vida passar, tal qual uma musa à espera de um poeta para eternizá-la.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não era feia. Mas dizer que era bonita seria exagero. Estava ali entre a linha tênue do quase belo com uma pitada de ‘normalidade’. Mas a juventude (ah, a juventude!) é capaz de trazer em si qualquer tipo de beleza, elevando-a a um patamar onde a pele firme, os olhos vivos e a boca rósea fazem qualquer mulher transformar-se  numa quase Ava Gardner tropical.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela sondou entre a vizinhança e ficou sabendo que ele morava nas redondezas, numa pensão barata, bem mixuruca mesmo, que ficava três quarteirões abaixo da rua onde ela residia. Sua casa ficava numa ladeira, um casarão antiquado precisando de reformas urgentes, mas que trazia em si a opulência de um passado machadiano que ficou lá atrás, no pretérito bem longe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquele chove-não-molha durou quase três semanas. O tempo era outro, e as horas passavam numa lenta morbidez de filmes ‘cabeça’, aqueles que só intelectuais sabem entender.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até que um dia o mancebo encontrou ‘ao acaso’ sua – nem tão jovem – Julieta na quermesse de uma festa de Santo Antonio, na igreja do bairro. Galante, ofereceu-lhe uma maçã do amor, que ela aceitou imediatamente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes não tivesse aceitado o mimo, porque a guloseima açucarada lhe custou a quebra do roach que tinha colocado havia pouco menos de três dias. Uma pequena fortuna que deveria ser paga em seis suaves prestações pela prótese parcial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para esconder a quebra, ela, durante todo colóquio, abria a boca o mínimo necessário e só dava um sorriso um tanto ou quanto amarelado, sem mostrar os dentes, para qualquer gracejo que o jovem fazia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gracejo sem graça, devo dizer, mas como o interesse mútuo era visível, o jovem se esforçava para parecer inteligente e bem-humorado, e ela se esforçava por acreditar que ele era realmente inteligente e bem-humorado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que não faz uma mulher carente!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não era disso que estava falando, e sim contando história da pobrezinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A quermesse durou uma semana, e durante sete dias ele e ela se encontravam em diferentes barracas para não despertar suspeita na família, que a vigiava com uma fidelidade de cachorro pequinês.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia encontraram-se na barraca de tiro ao alvo, onde ela ganhou de presente uma feia boneca de pano depois que ele acertou meia dúzia de garrafas; no outro, encontraram-se na barraca do leilão, e desta vez ela foi agraciada com um buquê de flores de plástico, que ele arrematou por alguns trocados. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No terceiro dia, o dinheiro dele já tinha acabado e foi ela quem acabou pagando o sorvete de morango para os dois. Ele fingiu esquecer a carteira em casa. Como ela já tinha dado duas lambidas na casquinha, não poderia devolvê-la ao sorveteiro. Teve então que desembolsar os trocados para quitar a dívida e não passar vergonha. Aquilo já deveria tê-la alertado sobre o caráter canalha do mancebo, mas ela fingiu não ouvir a intuição – ou mesmo o anjo da guarda, sei lá! – que lhe gritava sinais de alerta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No tempo dela, não havia essas normalidades de hoje, em que mulher paga a conta e tudo bem. Não. O tempo dela era outro; um tempo em que o cavalheirismo era tão comum quanto usar guardanapo de pano na mesa do almoço e do jantar de qualquer família remediada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bons tempos, bons tempos…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não era disso que estava falando. Não quero aqui ficar emitindo nenhum juízo de valor. Meu desejo é apenas contar a história de uma mulher que se casou com um canalha no tempo em que a palavra canalha não podia ser dita na sala de visita de uma família.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após se encontrarem em uma barraca diferente a cada dia, ele lhe pediu para namorar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ruborizada como uma virgem austeniana, ela aceitou, mas impôs a condição de que o jovem galante fosse pedir permissão à mãe viúva e aos três irmãos mais velhos, que moravam no casarão machadiano com ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele foi.&lt;br /&gt;Foi e enfrentou a nobre papada de bócio da viúva e as caras amarradas dos irmãos mais velhos, que mais pareciam três mosqueteiros retirados de um cais de porto qualquer, maltrapilhos e cheirando a peixe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de um interminável interrogatório, os quatro decidiram que ele não era digno que ter a mão (e as outras partes do corpo muito menos!) da nobre donzela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mancebo saiu de lá humilhado como contínuo de repartição pública quando vai pegar o salário no caixa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Julieta tropical esperneou. &lt;br /&gt;Chorou. &lt;br /&gt;Gritou. &lt;br /&gt;Ameaçou que se jogaria na frente do primeiro bonde que aparecesse (sim, no tempo dela os bondes ainda circulavam) e que também atearia fogo ao corpo, tal qual uma passional viúva italiana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De nada adiantou.&lt;br /&gt;Nadica de nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os quatro juraram – solenemente – que ela só sairia de casa com aquele indivíduo por cima do cadáver de cada um.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eram quatro.&lt;br /&gt;Ela apenas uma.&lt;br /&gt;A enamorada fingiu se conformar, mas só depois de ter ficado quatro dias tomando água e comendo pão dormido como uma forma de autoflagelo indignado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os irmãos e a mãe fingiram não ligar para os maus modos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de quatro dias, já enjoada de pão seco e água de bica, largou o papel de mártir incompreendida e se atracou com um frango com quiabo e angu que a mãe havia preparado para o almoço. Fartou-se até lamber as pontas dos dedos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De bucho cheio, o pensamento é mais desanuviado, e ela começou a bolar uma maneira de ficar com o mancebo de quinta. Agora ficar com ele tinha um caráter de honradez, porque se eles, irmãos e mãe, pensavam que ela ficaria em casa limpando a baba de cada um até que a velhice se apresentasse, pois sim! Eles veriam do que ela era capaz!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A escravidão do ego é a perdição da raça humana, já disse… quem mesmo? Ah, sei lá! Não importa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas onde estava mesmo? Ah, sim, lembrei!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois foi assim que ela e o jovem Romeu decidiram marcar encontros na igreja, velha conhecida de todos os amantes incompreendidos por séculos e séculos, não é mesmo? É verdade… é verdade…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não foi diferente entre a quase madura donzela e o amásio. Lá se encontravam e arquitetavam um plano de fuga para que pudessem vivenciar aquele grande amor que se iniciou com a quebra de um roach.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cá entre nós, longe querer recriminá-la, mas ela bem que deveria ter se mancado de que uma pretensa história de amor que começa com a quebra de um roach – ah, vai me desculpar! – não poderia dar boa coisa não, &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você não acha que estou certa? Pois sim!&lt;br /&gt;Se ele era bonito?&lt;br /&gt;Assim, assim…&lt;br /&gt;Se você acha bonito galã de filme B mudo, tudo bem.&lt;br /&gt;É como já dizia minha avó Cotinha: o que é de gosto é o regalo da vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora tenho que confessar que o danado tinha lá seu quinhão de charme. Todo canalha tem charme, faz parte da genética do camarada ter um quê de charme. Ele era um Clark Gable fajuto. Usava um bigodinho que, para quem gostasse, tinha lá o seu encanto. Eu, particularmente, sempre fui mais um Gary Cooper ou então um John Wayne.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não sou eu a personagem da história, e sim ela, a pobre iludida que numa madrugada de garoa fina e constante fugiu pela janela do quarto levando três vestidos, duas meias, duas anáguas e um paletozinho de lã já desbotado, que já vira dias melhores.&lt;br /&gt;Ele jurou de pé junto que iriam casar-se etc. etc. etc.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Juras de amor para cá, juras de amor para lá, e em menos de vinte e quatro horas a enamorada já não era mais moça-donzela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele tempo não era como hoje, não! Mulher direita tinha que permanecer direita até o último suspiro de vida, caso não arrumasse um pobre coitado para descansar o pé cansado e cheio de joanete.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas sabe como é, a carne é fraca, a carência é grande e a pobrezinha caiu na lábia do canalha. Todo canalha tem uma lábia de que nem é bom falar, pode ter criança por perto nos ouvindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante uma semana, os amantes desfrutaram do paraíso sem pensar que a serpente poderia aparecer a qualquer momento. No final do sétimo dia apareceu uma, aliás, apareceram três cobras-corais machos peçonhentas para desmanchar o ninho de amor e pecado dos pombinhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os irmãos parrudos, mal encarados e fedendo a peixe apareceram com garruchas em punho, exigindo reparação do rapto da ex-donzela. Não se sabe como eles conseguiram o endereço da pensão de quinta em que o jovem casal se hospedara em Petrópolis, mas conseguiram, e foi o maior fuzuê quando apareceram lá arrombando a porta e encontrando-os em trajes menores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quer dizer, na verdade já sem traje nenhum, mas isso não é para a gente ficar falando em público porque não fica nem bem…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao ver o casal tal qual Adão e Eva, os irmãos enfurecidos os levaram embrulhados em lençóis até a delegacia mais próxima e os forçaram a casarem-se na marra. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O escrevente ainda tentou argumentar que a garota já não era menor, mas o delegado, pai de quatro filhas, resolveu aceitar as queixas e casou-os enrolados em lençóis baratos mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este foi o início martírio da pobrezinha. Sim, porque se fosse hoje em dia cada um desfrutaria dos pecados com outro e, depois, beijinho e tchauzinho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma pouca vergonha, é o que acho. &lt;br /&gt;Você não acha?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, no tempo dela, casamento era para sempre, ou pelo menos até que a morte os separasse. Um tinha que aguentar o outro até o final, e a coitadinha ficou atrelada àquele canalha por anos e anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você precisava ver. Foram morar numa pocilga destas bem infectadas mesmo. Os irmãos não os aceitaram, mesmo tendo eles casados perante a Justiça. Não, não aceitaram, e os recém-casados foram morar numa cabeça de porco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo bem que ela não vivia na abastança na casa antiga, mas também não estava acostumada à penúria que encontrou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Coitada… tsiu, tsiu, tsiu…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela, justamente ela, que esperava casar de véu, grinalda, flores de laranjeiras e caminhada pela nave do Outeiro da Glória, acabou em Irajá.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Por favor, não estou aqui desprezando Irajá. Não é isso. Nestes tempos em que tudo tem que ser politicamente correto, não quero meu nome em bocas de Matilde, dizendo que estou menosprezando o charmoso bairro carioca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, não é isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que estou tentando dizer é que ela foi morar muito longe e em condições precárias porque, naquela época, Irajá era longe para dedéu e as condições de vida dos moradores eram uma vergonha para qualquer político com um mínimo de ética e responsabilidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entendeu?&lt;br /&gt;Ah, então ‘tá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É preciso explicar mesmo porque senão a gente é logo acusada de …&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Calma, eu vou contar. Vou contar tudinho. Também você fica me interrompendo toda hora! Já disse que vou contar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onde estava mesmo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, sim, lembrei! Estava dizendo que ela casou e foi morar numa pocilga. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Precisa ver… tsiu… tsiu… tsiu… Não é à toa que se chama aquilo de joelho de porco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como? Ué, eu disse cabeça de porco, não disse? Disse joelho, é? Ah, mas você fica me interrompendo a toda hora, que fico atrapalhada! Afinal, você quer ou não quer escutar?! Então cale a boca e escute.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem, voltando: ela foi morar na cabeça de porco e lá encontrou todo tipo de miséria e podridão. Ela era uma moça pobre, mas muito limpinha, e ir para aquele lugar fez com que ela envelhecesse em seis meses o que levaria dez anos se tivesse ficado na casa da mãe, em companhia dos irmãos mosqueteiros do cais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo embuchou. Acho que na primeira noite com o ainda não marido já pegou filho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também pudera, você já viu canalha estéril? &lt;br /&gt;Eu nunca vi. &lt;br /&gt;Em todos estes anos de vida, nunca vi um canalha que não deixasse atrás de si uma penca de filhos pela cidade inteira e, quiçá!, até em outros estados e países. &lt;br /&gt;Uma fertilidade a toda prova, isso sim!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de casado, já na primeira semana morando na pocilga, o canalha colocou as manguinhas de fora, e ela conheceu sua verdadeira face, que, apesar do charme, não era nada bonita. Só saía da cama depois do meio-dia, só chegava da rua com o dia claro, cheirando a bebida e a perfume feminino barato. Ela, que nunca precisou lavar uma meia, teve agora que virar lavadeira de roupa de cama, mesa e banho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pouco dinheiro que conseguia, ele levava tudo para a farra e o jóquei. Ela no início até acreditou em suas palavras de que a sorte estava lhe sorrindo naquele dia e que ele acertaria o milhar na cabeça e eles iriam mudar-se e morar na rua principal do bairro, num sobrado que ele compraria e reformaria com a bolada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas os dias foram passando, e o grande amanhecer não chegava. As pernas inchavam cada vez mais, e as varizes começaram a aparecer. Quando o rebento nasceu, ela só tinha a companhia de outras lavadeiras na beira do córrego onde lhe fizeram o parto. Na verdade, era não um rebento, mas uma menina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não gosto de falar mal de ninguém, cruz-credo de pecar contra um anjinho, porque afinal de contas toda criança é um anjinho com aquela carinha de joelho, né mesmo? Mas cá entre nós, que ninguém nos ouça, que criança feia aquela menina que ela pariu, hem? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cruz-credo!… Feia como a fome e a miséria que aquela pobre criaturinha teve que enfrentar, porque o canalha sequer deu uma olhada para a criança, que foi colocada num caixote de feira que lhe serviu de berço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E não é que a mulher ainda defendia o canalha no início? Dizia que ele era um incompreendido, que passou fome, que foi largado pela mãe quando criança etc. etc. etc.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora me diga você: quantas pessoas você conhece que tiveram uma vida desgraçada na infância e mesmo assim se tornaram pessoas de bem?! &lt;br /&gt;Uma porção, não é? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu mesma tenho um primo de segundo grau que… &lt;br /&gt;Está bem, está bem, vou voltar à história dela, mas depois não me deixe esquecer de contar-lhe a história do meu primo Valdemar, tá?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu tenho a impressão de que ela o defendia assim porque ele era bom de cama. Só pode ser! Talvez ele nem fosse lá estas coisas, sabe-se lá! Mas uma mulher que conheceu os prazeres da carne tão tarde perde a cabeça quando descobre as doçuras de um chamego. Só isso pode explicar aquela defesa toda e ela se matar de trabalhar para sustentar a feia filha e o traste do canalha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se digo que ela o defendia provavelmente por estar envolvida nos prazeres da carne é porque, nem bem pariu a feiazinha, ainda de resguardo, embuchou de outra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para encurtar esta prosa, posso lhe dizer que foram cinco filhas, sim, tudo um bando de menina-mulher feia como a fome; uma seguidinha da outra, não dava nem tempo nem de respirar direito. Já embuchava no resguardo mesmo. Uma calamidade. Naquele tempo não havia estes remédios que o médico receita para evitar de as mulheres emprenharem, não. Mas sempre teve jeito de se evitar, né mesmo? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não estou dizendo que era para tirar o anjinho, mas que ele pelo menos não fizesse filha uma atrás da outra, ainda nem bem acabado o resguardo. Ah, isso ele não devia fazer não. Isso chega até ser pecado! É o que eu acho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas depois de quase quatro anos de casamento, quando estava nos últimos dias de dar à luz a caçula, a ficha dela caiu, como se diz hoje em dia, e ela viu que realmente tinha casado com um canalha, e a fantasia de que ainda viveria com ele um final feliz de filme de Hollywood foi por terra. Ela descobriu que tinha se casado com um bígamo e que não era sua primeira mulher. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você não acredita? &lt;br /&gt;Pensa que estou enfeitando a história e transformando a vida dela num dramalhão de novela mexicana? &lt;br /&gt;Pois sim! Antes fosse. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A coitadinha sofreu o pão que o diabo amassou por três dias com o rabo. Passava fome, trabalhava igual a um burro de carga com as filhas agarradas à saia, tudo para não faltar o cigarro, o conhaque e o dinheiro do jóquei de Sua Alteza, o marido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E tudo isso por quê?! &lt;br /&gt;Por quê? – pergunto eu. &lt;br /&gt;Porque – eu mesma respondo – o canalha era bom de cama, ou melhor, ela é que nunca tinha desfrutado de uma boa f… quer dizer, não fica bem uma mulher, uma dama como eu, ainda mais na minha idade, ficar falando palavrão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou uma mãe de família, mãe amantíssima, segundo meu finado marido. Sim, aquilo é que era homem! Alfredinho chegava pontualmente todos os dias às seis horas da noite, tomava banho, comia uma papinha de batata com carne moída passada três vezes na máquina que eu lhe preparava e ficava vendo televisão até o sono chegar. Antes das dez horas da noite, já ia para a cama, onde sempre encontrava seu leitinho morno para acalmar a úlcera, que lhe escravizava a vida. Sua úlcera era tratada como gato siamês de grã-fina, tais eram o carinho e a atenção que ele lhe dedicava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquilo, sim, é que era marido! Não aquele canalha com quem ela se casou e que a fez parir cinco filhas feias como a miséria humana. Eu não estou aqui para julgar ninguém, afinal de contas nem é cristã tal atitude, mas… sabe que eu acho que ela bem mereceu? É triste dizer isso, mas quem mandou sair da casa materna? Quem mandou enfrentar os irmãos? Quando a cabeça não pensa, quem paga é o corpo, já dizia minha vó Mariinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ué, eu não posso ter duas avós não, é? Tinha uma que se chamava Cotinha e outra, Mariinha, dá licença, viu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois que ela ficou sabendo que era a segunda mulher do bígamo e que o canalha ainda se casou outras três vezes durante os anos que eles permaneceram juntos – em sua porta apareceram as outras mulheres mostrando as certidões de casamento fajutas, mas que todas acreditavam ter alguma validade perante a lei, os homens e Deus –, ela não se separou da criatura, apesar dos pesares.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma decepção atrás da outra a fez envelhecer muito rapidamente. Ela, que nunca foi um primor de beleza, envelheceu em dez anos meio século, pareceu um maracujá de gaveta de tão murcho que nem valia a pena descasar e voltar para casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não quero falar nada não, mas acho que ela não voltou para a casa materna por orgulho. Sim, porque só o orgulho é que deve tê-la impedido de dar o braço a torcer perante a família. Ficaram velhos juntos, viram a filha mais velha morrer atropelada por um ônibus, três casarem com estivadores do porto e uma cair na vida. Quando ele morreu, no enterro não chorou. Não demonstrou nenhuma emoção por enterrar o pai de suas filhas e o genitor de tantos outros filhos que ela nem sabia quantos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes de descer o caixão, ao invés de jogar uma flor, como assim o fazem muitas viúvas, ela apenas juntou saliva na boca e lhe deu uma grande cusparada na portinha do caixão, onde fica o rosto, e disse em voz alta para todos ouvirem:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Vá para o quinto dos infernos, canalha!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma triste história, não? Esta é a vida… A vida como ela é.&lt;br /&gt;Nem todo mundo tem a sorte que tive em encontrar um marido como o meu Alfredinho. Aquilo, sim, é que era homem!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas aonde você vai?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda é cedo. Eu ainda não contei o caso do meu primo Valdemar! Este, sim, teve uma história triste, mas com um final feliz! Sabe, quando meu primo Valdemar nasceu…&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-6432971117836311793?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/6432971117836311793/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=6432971117836311793&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/6432971117836311793'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/6432971117836311793'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2012/01/canalha.html' title='Canalha'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-5616195697144204485</id><published>2012-01-07T04:24:00.000-08:00</published><updated>2012-01-07T04:29:28.252-08:00</updated><title type='text'>MACHO ALFA</title><content type='html'>As mulheres estão aí, mostrando para o que vieram: dinâmicas, independentes, senhoras de si e do mundo. Mas, no que diz respeito ao quesito relacionamento com homens, tudo como antes no quartel dos Abrantes. A maioria se queixa de que falta homem no pedaço, que só encontra homem casado, que casais monogâmicos só vemos em novelas ou entre os que são homossexuais etc., etc., etc..&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perfeitamente compreensível, já que as mulheres mudaram, mas os homens nem sempre. Acredito que os homens não sabem o que fazer com esta nova mulher. Afinal, foram milênios de comportamento feminino muito diferente do que vemos hoje. Não se iludam, meninos: as mulheres sempre comandaram o jogo, a diferença e que não era tão visível assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso, aqui vão algumas dicas do que uma parcela significativa de mulheres procura num homem. Não digo todas as mulheres porque sempre encontraremos as do contra. Além disso, nem todas são fêmeas alfas, e também porque não quero ficar aqui ditando regras e dizendo que sei mais do que qualquer um. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é isso. São apenas – como direi? – sugestões para você encontrar uma garota legal e ser feliz para sempre, até que o massacre do dia a dia estremeça as bases do coração e chegue o tempo da famosa DROP – Discutindo a Relação Outra vez, Porra!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho cá minhas teorias sobre casais que dão certo. São apenas teorias, e nenhuma grande universidade como Oxford comprovou minha tese. Mas vamos lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na natureza temos os chamados machos alfas. A biologia diz que entre animais superiores – como leões, lobos, primatas – existe a figura do macho alfa, que é o líder. Segundo definição do site Wikipédia, este tipo de macho tem força, habilidade para caçar, facilidade de tomar decisões, personalidade marcante e bravura. O macho é acompanhado pela fêmea alfa e, juntos, demonstram sua autoridade. Ela é sua PARCEIRA.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O problema é que cada vez mais mulheres estão se transformando em fêmeas alfas, e os homens… bem, os homens andam um tanto ou quanto perdidos perante esta nova mulher. “O que fazer?” – indagam-se alguns.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Revisemos a definição encontrada no Wikipédia; também aproveitei para acrescentar alguns pontos que acho importantes:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Autêntico – Se você não é um macho alfa, tudo bem. Afinal, não existem só fêmeas alfas. Mas, por favor, queeeeerido, nunca se faça passar por aquilo que você não é. A mulher, qualquer que seja a fêmea em questão (Alfa, Ômega, Beta ou mesmo Gama), logo descobrirá, fácil, fácil. Nenhuma pessoa consegue manter o personagem com a vivência dos dias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não estou dizendo que por isso qualquer macho, de qualquer outra categoria, vá ter que amargar o resto dos seus dias sem uma fêmea do lado. Não. Cada chinelo velho encontrará o seu par num pé cansado. Você encontrará sua parceira. Acredite.&lt;br /&gt;O que estou dizendo é que não dá para tentar ser macho alfa sem o ser. Isso os cafajestes é o que fazem e, COM CERTEZA, macho alfa não é cafajeste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É o líder – Uma amiga disse que leu não sabia onde de que o macho alfa tem uma mão que guia. Sempre. É verdade. Se o casal sai, ele sutilmente guia a mulher com as mãos nas costas ou no cotovelo ou, melhor ainda, na nuca. Macho alfa não deixa sua fêmea solta por aí, não; ele cuida do que é dele e pronto. Não de forma possessiva, ciumenta, dando vexame. Cuida com firmeza. Ele demarca o território com pequenos gestos como este. Acredite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vaidade – Ok, macho é vaidoso. A natureza está aí para provar que o pavão tem toda aquela plumagem para atrair a fêmea. Certo. Concordo. Concordo, mas em parte. Estamos falando do macho alfa da espécie humana e como o homem não precisa mais comer como as mãos, semelhantemente aos demais primatas – já inventou os talheres e os pratos – poderá, por isso, demonstrar sua ‘plumagem’ de forma mais ‘amena’. O ‘homo erectus sapiens’ não precisa ser um pavão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Macho alfa não disputa com a mulher espaço no espelho. Seu porta-joias não será do mesmo tamanho que o da sua fêmea; na verdade, ele não terá porta-joias. Não precisará, porque não usa brinco(s), anel(is), pulseira(s), colar(es), tudo isso junto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se ele usa creme, é por recomendação médica. Filtro solar, tudo bem; qualquer pessoa, de qualquer idade, deve usar desde o momento em que nasce. Gente com pele seca também, independente de ser macho ou fêmea.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que estou tratando aqui é do macho alfa: sua mão não tem esmalte (base), ele não rói unha. A mão pode ser bem cuidada, assim como os pés, mas por um podólogo, e nunca por uma manicure.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aí os vaidosos poderão dizer:  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; - Ah, mas se as mulheres conquistaram o direito de usar calças, os homens também podem usar joias e passar creme.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Tudo bem, também acredito nisso. Afinal, não é o buraco da orelha que dirá que um homem é macho ou não. Não é isso que estou dizendo, o que estou explanando é sobre o &lt;br /&gt;MACHO ALFA, e macho alfa que se preza não usa isso não, vai me desculpar. Unhas grandes, nem pensar! E não adianta dizer que toca violão e por isso que as deixam grandes. Não. Macho alfa tem as unhas cortadas, limpas. Não precisam de mais nada.&lt;br /&gt;Outra coisa, meninos, cuidado com o quesito perfume: tem mulher que gosta, tem mulher que não gosta e tem ainda as que são alérgicas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A dica: se você não conhece bem a mulher em questão, melhor ir aos primeiros encontros usando uma boa loção pós-barba e um desodorante sem odor. Fêmea que é fêmea adora cheiro de macho, seja ele de qualquer espécie, por isso confie no que dizem os antigos: um homem prevenido vale por dois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Força – Atenção, marombeiros de plantão: não se trata de força física exclusivamente, não, viram? Claro que é legal ter ao seu lado um macho que seja capaz de carregar uma escada para trocar a lâmpada da cozinha, mas não é apenas de força física que se trata aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tem um poema de Vinícius de Moraes chamado ‘Para viver um grande amor’, que é lindo e ensina direitinho. Vininha (perdoe-me a familiaridade com que trato o poeta, mas a mim ele é muito caro e vêm daí essas intimidades que tomo) já escrevia: “Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito – peito de remador.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes de mais nada, quero dizer uma coisa ao mestre: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– A bênção, mestre, você faz uma falta danada!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltando:&lt;br /&gt;O que é peito de remador? Quem faz remo ou já reparou no peito dos caras sabe que é um peito largo. Um peito prontinho para que a fêmea alfa descanse a cabeça depois de um dia agitado, de preferência deitados numa rede. Nem precisa ser uma tarde em Itapuã, basta ter aquele peito, que na verdade pode ser fisicamente estreito, mas deve ser acolhedor. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entenderam, meninos? &lt;br /&gt;Então tá.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Facilidade de tomar decisões – As mulheres estão cada vez mais independentes, após décadas e décadas de luta por isso. Quando se ventilou a primeira vez o voto feminino, já se tinham acumulado passado séculos e séculos antes que esta voz começasse a soar pelas cidades. Tantos anos de sofrimento não podem ser jogados ao ralo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Elas são, SIM, capazes de tomar conta de si mesmas, mas é muito bom saber que o macho alfa é o tipo de homem que ‘faz’. Não fica lá, parado como um palerma, esperando que tudo caia em suas mãos. O macho alfa tem facilidade de tomar decisões e mesmo quando ela, a fêmea, não precisa, é sempre bom contar com uma pessoa que sabe fazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Personalidade marcante – O macho alfa não é palhaço, mas também não é aquele cara ranzinza para quem tudo está ruim: a cerveja, o perfume, a minissaia, o tempo, o time, o… a… São inúmeras as razões para o constante mau humor de certos homens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bravura – macho alfa não é covarde. Mas também não é aquele tipo valentão que briga por tudo. Pit bull não é macho alfa e nunca será. Por favor: não confundam agressividade com macheza. Gente agressiva tem mais é que se tratar, buscar ajuda psicológica e/ou psiquiátrica, e usar remédio de tarja preta. Não é disso que estamos falando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não ser covarde é muito mais do que simplesmente cair em qualquer briga de esquina. Na espécie humana, a bravura está em aceitar as suas próprias limitações e as dos outros também. É não se levar tão a sério, é ri de si mesmo.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Habilidade para caçar – Sabe por que o macho alfa tem habilidade para caçar? Porque ele tem ‘pegada’. Mas a tal decantada e famigerada ‘pegada’ de que tanto se fala é de difícil definição. É fácil sentir; facinho, facinho; mas é muito difícil definir. Se você não é mulher ou homossexual, não entenderá o que é uma verdadeira ‘pegada’, porque nunca sofreu uma. Pode ter até sentido uma ‘pegada feminina’, mas não é a mesma coisa, não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;‘Pegada’ é uma firmeza que faz com que… ai, meu Deus, de repente ficou tão quente aqui, você não sentiu, não?!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem, voltando – depois de tomar um litro de água gelada, apesar da baixa temperatura que vigora no céu –, a pegada é uma firmeza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você conhece quando um homem tem ‘pegada’, na maneira como ele segura a mulher para beijar, antes mesmo de beijar. Ele puxa o rosto da mulher com as mãos espalmadas nas laterais de sua face. É a maneira firme como ele puxa o corpo feminino para ir de encontro do seu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Repito: não tem agressividade nessa puxada, tem firmeza, e a boca que vai ao seu encontro e beija é… ahhhhhhhhhhh, melhor deixar pra lá. Pode haver crianças por perto e não cai bem uma escritora como eu ficar descrevendo assim as intimidades próprias ou as das outras. Melhor deixar quieto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É como já dizia o sábio Vininha: “Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva oscura e desvairada não se souber achar a bem-amada – para viver um grande amor”.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-5616195697144204485?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/5616195697144204485/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=5616195697144204485&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/5616195697144204485'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/5616195697144204485'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2012/01/macho-alfa.html' title='MACHO ALFA'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-4045824466702935095</id><published>2011-12-29T14:09:00.001-08:00</published><updated>2011-12-29T14:09:25.509-08:00</updated><title type='text'>Natal</title><content type='html'>Eu me lembro muito bem de um Natal. Foi o primeiro Natal de que tive consciência ser Natal. A árvore de plástico com algodão intercalado entre as folhas era armada na sala de visitas, as bolas coloridas dependuradas buscavam reproduzir alguma árvore de novela que minha mãe assistia na TV.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em todos os Natais lá em casa sempre teve rabanada. Meu pai era um grande aficionado pela guloseima e esperava o ano todo para comer a iguaria. Não adiantava fazer rabanada fora do Natal, ele não comia, não gostava. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só o Natal era capaz de temperar com fantasia, esperança e amor aquele pão com leite, açúcar e canela em pó.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu me lembro muito bem desse Natal porque foi nele que ganhei um Ferrorama. Sempre me encantaram os trenzinhos que via nos filmes americanos. Vida de americano é uma coisa, vida de brasileiro é outra, mas o Papai Noel foi generoso naquele ano, e ganhei uma enorme caixa com trenzinhos, vagões e trilhos infinitos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu me lembro muito bem do contentamento que senti. Naquele momento compreendi a alegria que meu pai tinha por ser Natal e poder comer rabanada. Meu trenzinho também veio temperado com fantasia, esperança e amor, e eu sorria, sorria, sorria na fé infantil de acreditar que nunca deixaria de sorrir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outros Natais vieram. Mas nunca mais um como aquele consegui viver. O trenzinho me acompanhou a infância inteira, mesmo depois de meu pai ter partido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu cresci. &lt;br /&gt;Tive alegrias, tive tristezas. &lt;br /&gt;A vida seguiu, e hoje quando no Natal tem rabanada lá em casa penso no pai. Penso na sua alegria infantil e sinto saudades. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Raiva de não ter trazido o passado guardado na algibeira”. &lt;br /&gt;O poeta estava certo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-4045824466702935095?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/4045824466702935095/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=4045824466702935095&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/4045824466702935095'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/4045824466702935095'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2011/12/natal.html' title='Natal'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-6811492717132431885</id><published>2011-12-27T13:08:00.000-08:00</published><updated>2011-12-27T13:17:57.629-08:00</updated><title type='text'>Jabuticabeira - Série Eu me lembro muito bem...</title><content type='html'>Eu me lembro muito bem de uma jabuticabeira que tinha no quintal do meu tio. Era uma árvore frondosa, de raízes profundas, copa alta, uma bela espécie, que era a alegria de todos nós, crianças. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela jabuticabeira brinquei de Tarzan, aprendi a subir em árvore e fazer do balanço um belo trapézio. Foi lá que dei meu primeiro beijo, no vizinho do meu tio, de cujo nome já nem me lembro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contudo, eu me lembro muito bem do quanto aquela jabuticabeira ficava linda quando florescia, pintando o tronco inteiro com pequenas flores brancas, que depois caiam e faziam surgir jabuticabas doces como mel, como só a infância é capaz de produzir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como era bom colher cada fruta, chupando e me deliciando, até alcançar os frutos mais altos e mais doces. Doces como os sonhos e as despreocupações do meu mundo sem problemas e sem contas a pagar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje moro num apartamento perdido numa grande metrópole, mas trouxe minha infância guardada na algibeira: na sacada da sala, há um vaso de bonsai onde abrigo uma muda da jabuticabeira da casa do meu tio. A miniatura me traz lembranças e saudades armazenadas na memória.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-6811492717132431885?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/6811492717132431885/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=6811492717132431885&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/6811492717132431885'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/6811492717132431885'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2011/12/jabuticabeira-serie-eu-me-lembro-muito.html' title='Jabuticabeira - Série Eu me lembro muito bem...'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-5229943948718989675</id><published>2011-12-26T09:49:00.000-08:00</published><updated>2011-12-26T09:50:35.662-08:00</updated><title type='text'>Perfil de personagem para conto policial</title><content type='html'>DETETIVE – Horácio, um senhor de 64 anos que trabalha no Departamento de Direito Autoral da Biblioteca Nacional. Apesar de já ter tempo para se aposentar, não cogita a ideia. Tem uma filha que mora no exterior, com a qual não tem nenhum contato. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Viúvo, não tem parentes próximos. Mora na Rua do Catete, num apartamento de dois quartos, de frente, num prédio antigo. É um leitor voraz. É um dos responsáveis por ler documentos e cotejá-los, para assim autorizar, ou não, o direito autoral da obra. Tem forte faro para descobrir sucessos literários. Se ele diz que um texto será sucesso, invariavelmente a obra se torna best-seller. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tem o aspecto de um senhor de terceira idade. É vaidoso, mas não ao extremo. Pinta os cabelos e, constantemente, vai ao podólogo; tem uma unha encravada, que com frequência o persegue e “dá sinal” toda vez que algum fato “diferente” ocorre. Lê muitos contos policiais. Não é gordo, mas tem uma pequena “saliência” abdominal. Usa um casaquinho leve, ao estilo antigo; a calça é social; e tem um canivete suíço que só usa para descascar as frutas que compra na rua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CENÁRIO – O crime ocorrerá na área do Catete, Largo do Machado, início do Flamengo. O assassino não terá hora para atacar. Tem assassinado pessoas como mendigos, meninos de rua, porteiros, empregados, camelôs, balconistas. Foram assassinadas quatro pessoas pela manhã, três na hora do almoço, duas à tarde, e cinco à noite (início da madrugada). Das catorze vítimas, oito eram mulheres, quatro crianças e dois homens, sendo estes pessoas da terceira idade.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-5229943948718989675?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/5229943948718989675/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=5229943948718989675&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/5229943948718989675'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/5229943948718989675'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2011/12/perfil-de-personagem-para-conto_26.html' title='Perfil de personagem para conto policial'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-8627137016138980548</id><published>2011-12-25T04:36:00.001-08:00</published><updated>2011-12-25T04:37:11.728-08:00</updated><title type='text'>Perfil de personagem para conto policial II</title><content type='html'>DETETIVE = Marina, uma adolescente que mora em Copacabana. Tem quinze anos e vive lendo, uma CDF. Tem um amigo, Roberto, que ela chama de Betinho, um ano mais novo, que é seu vizinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anda pelo bairro com facilidade. Conhece cada pedacinho do local: becos, ruelas e personagens. É filha de um bancário e uma professora de História.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não tem irmãos. Passa a maior parte do dia sozinha. Tem uma empregada, que vai ao apartamento duas vezes na semana. Ela e seu amigo Betinho percorrem o bairro de bicicleta. A dela tem cestinha na frente. É uma adolescente atípica. Não sai para a night, não tem galera para frequentar. É uma pessoa sozinha. Mariana não tem cara de nerd.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CENÁRIO = O bairro de Copacabana. São cinco assassinatos. As vítimas são sempre senhoras, entre sessenta e setenta e cinco anos, e todas recebem, dias antes, orquídeas lilases.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CRIMINOSO = É um criminoso metódico. Antes de matar, procura conhecer o perfil de cada vítima, detalhes insignificantes, como o que gosta, que remédio toma, se tem parentes etc. Mora em Botafogo. É um homem de quarenta e dois anos. Trabalha como arquivista de um grande jornal carioca. Está sempre por dentro das notícias e frequenta constantemente as Editorias de Cidades e Polícia do veículo de comunicação. É capaz de citar cada evento, com data, dia etc. Tem memória fotográfica.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-8627137016138980548?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/8627137016138980548/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=8627137016138980548&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/8627137016138980548'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/8627137016138980548'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2011/12/perfil-de-personagem-para-conto.html' title='Perfil de personagem para conto policial II'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-5993668168729755719</id><published>2011-12-21T10:05:00.000-08:00</published><updated>2011-12-21T10:06:11.927-08:00</updated><title type='text'>Cumpadi Tonho</title><content type='html'>Cumpadi Tonho da Adorinda,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Qui Nosso Sinhô Jesuscristinho ti incontre na paz.&lt;br /&gt;Eu tô meio assim, meio assado. Sabi como é, cumpadi, a veice chega dimodo qui a gente vai veiando e aí num tem nuvena pra Vigem qui dê conta dus osso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os minino tão bom, Milinha tá um tamanhão di moça-donzela, cê precisa espiá, os gavião já inté tão começando a rundar o sítio, mas cê cunhece o seu cumpadi, garrou mão da ispingada de chumbinho e uns três ou quatro saiu com o fiofó baliado.&lt;br /&gt;Cumpadi, tô escrevinhando pro modi qui tu mi pidiu qui fosse lá falá com o cumpadi Zé pra ele modi dá nutíça pra vosmicê.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu fui, mas cê conheci o nosso cumpadi Zé, gradeceu o ricado e disse qui não caricia cê tê tanta preocupação, qui ele tá na paz di Nossa Sinhora das Dô.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Paminondas continua o misminho di sempri, fedorento qui nem gambá, mas agente aperdoa pro modi qui ele é uma boa pessoa, tementi a Nosso Sinhô Jesuscristinho.&lt;br /&gt;A Crô... bem, cumpadi, eu num caricia falá nada não, mas ela anda numa buniteza qui só espiando. Renovô, pintô de loro os cabelu pixaim e passa um batão virmeio qui nem romã. O ruge fica no meio das prega du rosto, mas ela acha buniteza, intão quem sou euzinha pra dizer qui não, né mermo, cumpadi?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora a Crô só anda di saia curta, aparicindo os cambito das perna. Tá bonita a danada, si ocê gosta de muié pintada assim e lora de famáça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Teve um dia qui o meu marido ficô oiando pros cambito dela, mas aí eu dei biliscão e fui mi aqueixá com o padre Toninho da Pamonha. O padre inté falou com ele e agora ele zoia só cum o rabo do ói pros cambito da Crô.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É isso, cumpadi. O Zé tá bem, com saúde e amandou dizê qui não caricia pedi resposta pra carta qui vosmicê mandou qui eu tregasse prele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Zé Isidoro e o Chico da Gamela manda lembrança. O Nandu du Bodi, quando faiei di vosmicê, saiu de fininho, fininho, disconversando. É sim mermo esse vidão di meu Deus, né cumpadi?&lt;br /&gt;A vó Ninha mandou dá a benção pro cê, viu? Lembraça pra cumadi.A bênção pros minino.De sua cumadi, Cremirda&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* Este texto é uma parceria com o cumpadi Germano Ribeiro, que fez a história que está no link &lt;a href="http://www.recantodasletras.com.br/humor/3378427"&gt;http://www.recantodasletras.com.br/humor/3378427&lt;/a&gt;Leia, comente, divulgue.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-5993668168729755719?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/5993668168729755719/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=5993668168729755719&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/5993668168729755719'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/5993668168729755719'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2011/12/cumpadi-tonho.html' title='Cumpadi Tonho'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-7753570150642604769</id><published>2011-12-19T08:58:00.001-08:00</published><updated>2011-12-19T08:59:10.435-08:00</updated><title type='text'>De onde vem a história?</title><content type='html'>Ás vezes, ouço alguém perguntar para quem escreve:&lt;br /&gt;“De onde vem a história?”&lt;br /&gt;Penso que cada escritor/roteirista/dramaturgo tenha seu 'modus operandis'.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já participei de um curso com o escritor Raimundo Carrero – ganhador de prêmios como o Jabuti e o da Associação Paulista de Críticos de Arte – e ele disse que suas ideias vinham das experiências que ele viveu, de lembranças de criança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso, acredito que possa haver escritores que façam uma escrita confessional. Não tem nada de mais isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Erico Veríssimo já disse: “A verdade, porém, é que ninguém se livra de suas próprias lembranças, nem de velhas idiossincrasias, malquerença e desejos recalcados. E, quando se trata dum romancista, essas impurezas mais tarde ou mais cedo acabam aparecendo na face ou na alma de seus personagens”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro que disse algo semelhante foi Fellini: “Toda arte é autobiográfica; a pérola é a autobiografia da ostra”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contudo, tal possibilidade (como já disse uma roteirista amiga minha) pode gerar uma catarse pública disfarçada, porque aí, sim, a pessoa torna-se autor de uma única história.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas acredito que seja possível escrever de maneira pessoal e com qualidade. Mas o sucesso, com essa prática, é mais complicado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já disseram (não me lembro quem) que existem no mundo ficcional apenas seis ou sete temas e o que o resto é apenas uma repetição desses. Trabalho, pois, com esta possibilidade de alguém fazer da escrita uma confissão, apesar de concordar com a advertência de minha amiga de que o escritor pode se tornar autor de uma única história.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu, particularmente, não faço da minha escrita um ato de confissão porque o que adoro mesmo é criar, encontrar uma solução para a questão que levantei e a palavra certa para desenvolver o texto até o seu grande final.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muitas vezes escrevo algo e os amigos e conhecidos ficam procurando meus sentimentos e vivências no que escrevi. Se ‘tô num dia bom, relevo. Se não, devo confessar que fico um pouco irritada, porque 90% do que escrevo não é autoral/pessoal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sou o tipo de pessoa que tem amor pela adrenalina, por isso nunca tive o desejo de fazer rapel ou praticar esportes radicais. Não é a minha praia. Odeio salto alto, porque não quero ficar longe do chão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contudo, no campo da criação, adoro quando alguém me dá um tema (na faculdade tive vários) e sou desafiada a construir em cima desse, sem ter grandes envolvimentos emocionais com a questão. Porque o “barato” é criar. Claro que às vezes tenho mais facilidade, e outras vezes não, para desenvolver o tema dado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, “de onde vem a história” da Carla?&lt;br /&gt;Normalmente, minhas ideias vêm da observação da vida ou mesmo de uma coisa que entendi errado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Darei um exemplo: o texto que fiz chamado O peso do nome, que tenho a ideia de roteirizar, surgiu de uma reportagem que ouvi. Estava fazendo o meu almoço na cozinha e deixei a televisão ligada. Escutei que algum atleta – até hoje não sei qual a modalidade dele – estava oferecendo sua vitória aos filhos Yasmim e Yago. Pensei:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nossa, que nome pesado para dar a um filho, Yago!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo em seguida pensei:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não, não é pesado, porque nem todo mundo sabe que Yago é a personificação da maldade em Otelo de Shakespeare.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E continuei raciocinando:&lt;br /&gt;- Mas se fosse Caim…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E assim nasceu a história dos gêmeos idênticos Caim e Abel, que são do interior do Nordeste. O misbehavior de Caim é provar que ele não é o lado negro da dupla.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outra vez, estava vendo a propaganda política (AMOOOOOO ver a propaganda política!!!!!) e entendi errado o nome do candidato. Era alguma coisa terminada em “ão”, tipo Macedão, Robertão… e entendi Carnegão. Aí pensei:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ninguém merece ter um apelido deste!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois que tive a certeza de que o cara não tinha o apelido de Carnegão (aparece o nome da criatura em legenda embaixo, né?), pensei:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Como seria um cara que tivesse o apelido de Carnegão?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Daí surgiu a ideia para outra história, que batizei com o nome de Carnegão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou apaixonada pela palavra e não preciso de muito esforço para sentar e escrever.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também a prática da minha profissão – sou jornalista – faz com que não fique esperando a “inspiração baixar” para sentar e escrever.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho dezoito anos de graduação e, desde o primeiro ano da faculdade – na verdade, já no primeiro semestre – consegui meu primeiro estágio/emprego. Por isso, são vinte e dois anos de prática.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O jornalista não tem essa de esperar ficar “inspirado”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao longo desses vinte e dois anos, a minha maior experiência tem sido na editoria de política. Amo escrever sobre política e entrevistar os políticos, porque vejo que tudo não passa de um grande teatro: tem o mocinho, o vilão, o cenário, o poderoso chefão, as peripécias, os desencontros, as intrigas; tem de tudo, e esses papéis não são fixos: quem hoje é mocinho amanhã poderá transformar-se num grande vilão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois então, sempre escrevi para a editoria de política. Então imagine-se a situação: meu editor me manda cobrir um “pega pra capar” na câmara ou na assembleia legislativa. Vou, presencio toda a situação, entrevisto os personagens envolvidos, depois chego à redação e digo para o meu chefe:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ah, hoje não ‘tô inspirada, não!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É lógico que ele me mandará falar com o departamento pessoal, porque estou na profissão errada. Jornalista tem que sentar e escrever, independente de ter dor de dente, de ter brigado com a sogra, de a mulher/marido ter dormido de calça jeans e/ou tudo isso junto e misturado. Claro que há dias em que o texto “flui” com mais facilidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tive um amado, idolatrado, salve, salve, editor que dizia:&lt;br /&gt;- Na nossa profissão, nem todo dia dá pra inventar a pólvora, mas todo dia tem que ter explosão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, com esta prática nas costas, eu sento e escrevo.&lt;br /&gt;Não pensem que estou aqui me “gabando”, mas sim constatando um fato de quem atua na área, jornalista que trabalha em veículo diário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há quem argumente ainda que se você não encontra um vínculo emocional com a história, a tarefa poderá tornar-se insuportável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No meu caso, não preciso ter envolvimento emocional com o tema, porque tenho o envolvimento emocional com a criação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acabei de escrever meu romance, é a história de um velho chamado Leocardio, que conta sua vida, relembrando o passado. Levei quatro anos, quase quatro anos e meio, para terminá-lo e tenho que confessar que Leocardio se tornou um grande amor de minha vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou apaixonada pelo velhinho. Sentar-me à frente do micro e escrever sua história sempre foi motivo de alegria. Ele se transformou numa “entidade” real. Se alguém me perguntar qual é o tipo de cueca que ele usa, saberei dizer. Bem sei que pode parecer bobeira, mas aquele papo de que o personagem toma forma de tal maneira que é ele que conduz a história, e não o escritor, é verdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Barthes tem uma explicação para isso: “Mais tarde, o personagem, que até então não passava de um nome, de um agente de uma ação, ganhou uma consistência psicológica, tornou-se um indivíduo, uma pessoa, em resumo, um ser plenamente constituído, mesmo quando nada fizesse, e, bem entendido, mesmo antes de agir, o personagem deixou de estar subordinado à ação, encarnou imediatamente a essência psicológica”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acredito que Leocardio tenha-se tornado esta presença real em minha vida porque a criação dele foi baseada em premissas filosóficas, para que pudesse construir sua essência psicológica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tive um professor amado, o Zé Carvalho, que uma vez disse: “Todo texto que fica é porque tem um princípio filosófico por trás”.&lt;br /&gt;Concordo com o genial Zé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ninguém precisa ter noções de filosofia, saber, por exemplo, que para os sofistas a verdade é ilusória, múltipla, mutável e relativa. Que, para eles, a verdade pode mudar com o tempo, e o consenso a sobrepõe, já que ela em si não existe. O que há é um consenso entre as pessoas, e por isso é preciso levar em conta as circunstâncias históricas, culturais e sociais. E que cada sociedade em cada época terá seu consenso, não existindo a verdade/a essência das coisas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é preciso saber que os sofistas apresentam o embrião da visão pragmática do significado. Por exemplo: a palavra 'rosa' é aquilo que se convencionou chamar de 'rosa'. Ela poderia chamar-se pedregulho, ‘aspissim’ ou mesmo ‘cronolongodia’, pois o significado está no uso dentro de um contexto, não existindo em cada palavra um significado a ela associado que seja a essência daquilo que está na realidade, havendo um abismo entre o real e a linguagem, no qual esta é soberana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ninguém precisa compreender que, na visão dos sofistas, a linguagem é um brinquedo, ela faz ser o que diz, ainda que os sofistas não neguem efeitos do real; antes, sugerem que a convicção sobre o real é feita na linguagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também não é preciso conhecer que para os socráticos a verdade é real, única, universal, fixa e eterna. Que eles acreditam que o consenso se subordina à verdade, já que esse pode estar errado. Que as opiniões são somente opiniões, que não alcançam a verdade, a essência das coisas e que, por isso, para eles, a linguagem tem como objetivo ser um sistema de representação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, você não precisa saber nada disso para ler Romeu e Julieta e se emocionar com a cena do balcão em que Julieta assim declara:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;JULIETA:&lt;br /&gt;Oh, Romeu, Romeu! Por que és Romeu?&lt;br /&gt;Renega teu pai e recusa teu nome;&lt;br /&gt;Ou, se não quiseres, jura-me somente que me amas,&lt;br /&gt;E não mais serei uma Capuleto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ROMEU [à parte]:&lt;br /&gt;Continuarei a ouvi-la ou devo falar-lhe agora?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;JULIETA:&lt;br /&gt;Somente teu nome é meu inimigo.&lt;br /&gt;Tu és tu mesmo, sejas ou não um Montecchio.&lt;br /&gt;Que é um Montecchio? Não é mão, nem pé,&lt;br /&gt;Nem braço, nem rosto. Oh! Sê qualquer outro nome&lt;br /&gt;Pertencente a um homem.&lt;br /&gt;Que há em um nome? O que chamamos rosa&lt;br /&gt;Com qualquer outro nome exalaria o mesmo perfume.&lt;br /&gt;Assim, Romeu, se Romeu não se chamasse,&lt;br /&gt;Conservaria essa cara perfeição que possui&lt;br /&gt;Sem o rótulo. Romeu, despoja-te de teu nome;&lt;br /&gt;E pelo teu nome, que não faz parte de ti, toma-me toda inteira!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Reafirmo: ninguém precisa saber da esgrima intelectual entre sofistas e socráticos para apreciar esse texto. Mesmo sem saber nada disso, a pessoa poderá dizer:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Soberbo! Maravilhoso!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora se souber, continuará dizendo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Soberbo! Maravilhoso! Esse tal de Shakespeare é realmente O cara!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei se minha história do Leocardio ficará, como argumentou o Zé Carvalho, de que todo texto bom fica porque tem um fundo filosófico. Mas construí o meu personagem em cima de duas premissas, duas perguntas que fiz (e conforme aquela propaganda da TV que diz que o que move o mundo são as perguntas e não as respostas, tenho esperança de que meu texto fique).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leocardio tem uma grande amiga, Mariinha, que diz que ele é um chuchu na vida: sem gosto, sem sal, sem tempero.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O nome de Leocardio surgiu quando esta personagem escrevia no seu diário a definição desse amigo de longa data. A definição de Mariinha ficou martelando em minha cabeça. Na mesma semana em que escrevi sobre ela, assisti a uma aula de Cultura Religiosa na PUC (todos os alunos têm que fazer essa matéria, independente da graduação que cursem) na qual a professora disse que o homem nasceu para encontrar Deus. Fiquei pensando:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E quem não encontra Deus, como fica?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Afinal, a maioria das pessoas acredita em alguma coisa, mesmo que não seja nesse Deus constituído pela igreja. Existem pessoas que acreditam em Alá, Jeová, Buda, no Sol, na Lua, na Força Cósmica, no comunismo, no socialismo ou mesmo na força do homem. Mas acreditam. E quem não acredita em nada? Por que alguém se tornaria um chuchu na vida?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em cima dessas duas premissas desenvolvi a história do Leocardio. O romance está pronto e são quase duzentas páginas. O tempo dirá se a história ficará ou não. Como já disse, tenho esperança.&lt;br /&gt;Aí alguém poderá argumentar:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas você está envolvida emocionalmente com a história que criou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, porque fiquei instigada com as duas perguntas que me fiz. Contudo, torno a dizer: meu primeiro envolvimento emocional é com a criação; o envolvimento com o tema se torna secundário, ele pode surgir (como neste caso, já que as perguntas são instigantes), ou não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E você? De onde vem a sua história?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-7753570150642604769?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/7753570150642604769/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=7753570150642604769&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/7753570150642604769'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/7753570150642604769'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2011/12/as-vezes-ouco-alguem-perguntar-para.html' title='De onde vem a história?'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-7061262408697042375</id><published>2011-11-30T00:22:00.000-08:00</published><updated>2011-11-30T00:27:43.846-08:00</updated><title type='text'>Orelha</title><content type='html'>Jurandir nasceu sem a orelha esquerda. Isso fez com que desde moleque deixasse o cabelo mais longo do que os outros garotos. No tempo dele, não era comum menino ter cabelo comprido, mas Jurandir se conformava porque era melhor a gozação dos guris do que todos saberem da falta do órgão da audição. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando algum adulto perguntava o porquê do cabelo maior do que os outros, logo dizia que era promessa da mãe, que tinha morrido. O adulto anuía com a cabeça, como se compreendesse tudo, e o deixava em paz. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mentira dele, é claro. &lt;br /&gt;A pobre da mulher sequer teve tempo de dizer qualquer coisa, pois Jurandir mal acabou de nascer, sua genitora bateu as botas, indo desta para uma vida melhor, conforme dizem os antigos. Jurandir não acredita em vida melhor depois da morte, mas…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem, mas não era sobre isso que estava contando, e sim da falta da orelha esquerda do dito cujo: apesar de ter somente uma orelha, não havia no mundo quem escutasse melhor. Nunca houve na história deste país e jamais haverá outro que ouça tão bem quanto Jurandir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sabe aqueles cachorros de raça, que nascem pela mistura de um bravo com outro “ainda muito mais pior de ruim” e que faz nascer filhotes de raça pura? Pois é. Jurandir era assim. Quer dizer… não vá pensar que Jurandir fosse um cachorro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, não é isso. &lt;br /&gt;O que estou tentando explicar é que sua audição era supimpa. Se um cão desses é capaz de ouvir o tique-taque de um relógio numa noite estrelada a um quilômetro de distância, Jurandir era capaz de ouvir o mesmo barulho com dez quilômetros. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, não é mentira, não. &lt;br /&gt;Eu juro pra você. &lt;br /&gt;Juro mesmo.&lt;br /&gt;Seu ouvido era tão potente, que parecia uma orelha biônica.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Teve uma vez que ele escutou dois malandros planejando roubar uma velhinha da Rua Barbosa Lima. Não é que Jurandir escutou e tratou de salvar a anciã dos pilantras? Digo e repito: audição como a de Jurandir nunca vi ou ouvi falar. E duvido que alguém possa garantir que outro tenha orelha mais potente do que a dele. Tenho certeza de que, se tivesse nascido americano, iria logo parar naquelas polícias deles lá, igual aos filmes que passam na TV.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certa vez Jurandir encontrou uma menina muito bonitinha, de olhos grandes e sorriso fácil. Seu nome era Rosa, Rosinha para a maioria das pessoas que a conhecia. O jovem mancebo (perdoe-me a redundância) ficou encantado com tanta singeleza e belezura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rosinha só tinha um pequeno defeito: sua risada. Era capaz de rir fininho e estridente, uma risadinha comprida, como se fosse nadador olímpico, que não precisa tomar o ar e pode cruzar a piscina quase sem tomar fôlego. Aquilo calava (ou melhor, gritava) fundo no ouvido biônico de Jurandir. Realmente, era um desarranjo quando a amada ficava alegrinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jurandir não queria fazer a amada chorar, mas também era impossível conviver com tamanha agressão ao seu potente ouvido. Resultado: o namoro com Rosinha foi para o beleléu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jurandir ficou um pouco chateado, afinal, mal de amor é um mal pesado. Mas o tempo passou, o mato cresceu, e o mancebo levou sua vidinha de sempre. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aí um dia ele encontrou Isaura, uma mulata com um belo par de seios e unhas grandes. Parecia uma tigresa. Só que outra vez seus ouvidos foram agredidos. A criatura só vivia gritando, falava muito alto, e isso feria os tímpanos do seu pavilhão auricular (como você pode ver, hoje estou muito redundante). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outra vez, o mesmo resultado: o romance não prosseguiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais uma vez Jurandir viu-se jogado ao vento, sem nenhum amor, sem poder receber ou dar nenhum cafuné. &lt;br /&gt;Ô, vida!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém Jurandir, depois de lamber as feridas, resolveu investir em um novo amor, e a escolha pela paixão recaiu sobre Ruth, uma baita de uma loirona, uns trinta centímetros mais alta do que ele. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só que não deu certo também. &lt;br /&gt;Ruth parecia ser a mulher ideal para o incauto mancebo, mas na hora que abria a boca… Vixe! Parecia que a voz grossa de um retumbante trovão vibrava no ar. &lt;br /&gt;Deu certo não, e ele mais uma vez saiu chamuscado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jurandir já estava vexado e achando que nunca encontraria uma amada para compartilhar a vida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas aí, um dia, assim de repente, como de repente deve ser todo grande amor que aparece na vida da gente, Jurandir encontrou Maria Celeste. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi realmente um encontro planejado no céu, porque a menina era de uma delicadeza só: falava baixinho, olhos no chão, um primor. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi amor na primeira olhada, dele para com ela e dela para com ele. Bonito de se ver um amor assim. E o melhor de tudo: o ouvido de Jurandir não era agredido. &lt;br /&gt;Maria parecia realmente ter caído da abóbada celeste direitinho pros braços do jovem mancebo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a viu, Jurandir logo tratou meio de casar e montar moradia com a guria. Nem quis conhecer a família da amada, que morava numa outra cidade. Foi conhecer a trupe de sogros, cunhados e cunhadas no dia do casório. O apaixonado estava tão aflito com a possibilidade – remota – de perder Maria Celeste, que tratou mão de ficar na frente do juiz e do padre logo, oficializando o amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O casório foi uma beleza. Dava gosto de ver Maria Celeste trajando um singelo vestido branco e o mancebo, todo garboso, esperando a amada no altar. Não teve quem não marejasse os olhos, ainda que discretamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi uma bela reunião, mas teve um contraponto: foi ali que Jurandir descobriu que a sogra tinha uma voz horrivelmente horripilante. Dona Carmencita era a junção das vozes de todas as namoradas que teve antes de encontrar sua Maria Celeste. A risada era fininha como a da Rosinha; falava alto e gritado como Isaura e quando abria a boca parecia um trovão retumbando como Ruth.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois é, o menino Cupido quando flecha, flecha, mas sempre mostra o tanto de ironia e sarcasmo que é capaz de aprontar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-7061262408697042375?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/7061262408697042375/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=7061262408697042375&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/7061262408697042375'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/7061262408697042375'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2011/11/orelha.html' title='Orelha'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-274282859957126707</id><published>2011-11-14T14:47:00.001-08:00</published><updated>2011-11-14T14:48:42.512-08:00</updated><title type='text'>Marvada sudade</title><content type='html'>O sor cresce, amadurece. A vida continua, e cumadi Gertrudi tá ali com os zoio di onti. Dia trás dia sua dor se lastra no corpanzim e cada tiquinho é preenchido com uma marvada sudade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sudade do desgraçado do cumpadi, qui se enrabou com uma mulata sestrosa e qui fugiu di casa pra modi muntá moradia com a pecadora di zoio verdi qui nem beija-fló.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os minino tão di um jeito só, jogado no quintá, sem hora di banho, sem hora di cumê, sem hora di drumi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sabia qui num ia dá boa coisa não a chegada da mulata, muita boniteza pra ficá nesse fim di mundo di meu Deus sem rumá confusão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cumadi inté parece difunto, desses qui só pera a morte torizá pra modi morrer. Cara chupada, amarela di tanto ficá deitada na cama sem vê sor. Zoios desbrilhado, mãos qui balança tanto qui deixa cair tudo qui tenta pegá. Uma baba desce dos canto da boca das vez qui começa alembrar do finando qui num morreu. Uma lamentação só, dá dó. Num carecia disso não, minha cumadi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas é como diz os mais veio: “Mar di amô é fogo qui arde sem vosmicê vê”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem drumi a criatura num é capaz. Quando consegue, é só um tiquinho di tempo, e mesmo assim é sono alertado, pronto pra modi cordá carqué mumento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mar di amô é o pior dos mar, e eu boto preocupação com os minino, isso sim. Modi qui eles vão ficá caso cumadi braçá mermo a morti? Uma cambada di minino, um trás do otro fazendo escadinha, corre no quintá sem a mão firme da cumadi, já qui o cumpadi caiu no vento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já mandei inté fazê novena pro Padim pra modi cumadi alevantar da cama e correr terreiro como fazia antes do cumpadi se enrabar com a mulata. Mas inté mumento Padim num deu jeito não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deve di tá ocupado com modi tendê o zotro, é mês do aniversário dele e capaz dele tê qui tá trabaiando dubrado.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-274282859957126707?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/274282859957126707/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=274282859957126707&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/274282859957126707'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/274282859957126707'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2011/11/marvada-sudade.html' title='Marvada sudade'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-8827268225820118677</id><published>2011-11-11T12:53:00.001-08:00</published><updated>2011-11-11T12:56:35.868-08:00</updated><title type='text'>Em busca do tempo perdido (*)</title><content type='html'>Durante muito tempo, costumava deitar-me cedo. Na casa do meu avô era comum que se dormisse com "&lt;em&gt;as galinhas"&lt;/em&gt;, como se diz hoje em dia. Naquele tempo não havia televisão ou qualquer outro entretenimento que levasse as crianças a deitarem-se mais tarde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordávamos mal raiava o dia e corríamos para o curral. Tínhamos como tarefa ordenhar Miracema, a vaca leiteira premiada de vô Tonho. O que mais gostava era de tomar o leite acabado de sair de suas tetas. Quente, espumoso, uma delícia a escorrer goela baixo. Bons tempos, boas lembranças, fatos que não voltam mais, nem que se queira, mas que estão guardados na algibeira das lembranças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante muito tempo, costumávamos almoçar às dez horas. Vó Lourdes sempre estava com a comida pronta, qualquer fosse o dia da semana, às nove e trinta. Os peões da fazenda levantavam cedo, esta era a justificativa que ela dava sempre que alguém da cidade se queixava que a comida poderia sair mais tarde. Costume de roça, de gente que acorda antes do galo e a que o povo da cidade não se acostuma de jeito nenhum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não me recordo de quando comecei a levantar tarde, acho que foi na época da boemia, quando o raiar do novo dia sempre me encontrava na rua ou na casa de alguma rapariga. Parece estranho, mas não sinto saudades desta época, e sim do acordar na casa de vô Tonho e vó Lourdes. Foram estes os melhores dias de minha vida. Dias em que o sol sempre brilhava, em que se comia fruta no pé, saboreando a juventude em gomos, deliciosamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(*) Texto inspirado no livro de Proust, Em busca do tempo perdido.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-8827268225820118677?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/8827268225820118677/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=8827268225820118677&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/8827268225820118677'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/8827268225820118677'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2011/11/em-busca-do-tempo-perdido.html' title='Em busca do tempo perdido (*)'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-828059671261113655</id><published>2011-06-30T14:22:00.000-07:00</published><updated>2011-06-30T14:37:03.228-07:00</updated><title type='text'>A saga de João Perseu - a trajetória de um herói</title><content type='html'>Vou contar-lhes a linda história de um herói muito corajoso que enfrentou monstros e poderosos para salvar sua amada mãe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era uma vez, em algum remoto rincão do universo cintilante que se derrama em um sem número de sistemas solares, havia uma fazenda onde morava Dânea, uma linda donzela cujo pai, senhor fazendeiro dos muito poderosos, não se conformava de não ter gerado nenhum menino-macho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O coronel Acrísio, homem muito supersticioso, não conseguia tirar da cabeça a certeza de que foi praga de uma preta velha que lhe impediu de gerar um filho para lhe perpetuar o nome, nem que fosse um filho bastardo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em sua juventude, garoto cheio de poder e nenhum juízo, o jovem Acrísio expulsou das terras do seu pai uma feiticeira que era cega, mas enxergava como ninguém as verdades da vida. Foi ela quem sentenciou que, por mais mulheres que tivesse, nunca sairia de sua semente um garoto, porém sua filha geraria um neto que o mataria, vertendo seu sangue ao chão e amaldiçoando todas as gerações futuras, que viveriam sem honrar seu nome e memória.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No início, o jovem coronelzinho não deu muita atenção à imprecação da feiticeira-vidente, mas, com o passar dos anos e o desejo crescente de perpetuar seu nome para a história da humanidade, começou a ficar revoltado com a maldição. Queria ter alguém que levasse seu sangue e recebesse léguas e léguas de terra boa e produtiva sobre a qual reinar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então decidiu mudar o destino. Acrísio determinou que enquanto vivesse – e o coronel garantia a quem quisesse ouvir que viveria ainda muitos e muitos anos – a filha continuaria donzela. Após sua morte, poderia casar e gerar uma prole.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os anos foram passando, passando e no acúmulo dos dias se transformaram em décadas. As funestas palavras da preta velha se concretizavam em sua vida e no seu coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando gerou sua primeira e única filha, o coronel decidiu aprisioná-la num convento construído às margens do Rio Amazonas, desses que se encontram longe de tudo e de todos, onde só se veem figuras femininas e o contato com homem é negado. O convento ficava perdido nos confins da terra, lá onde Judas perdeu as meias, porque as botas ele já tinha perdido vinte e cinco léguas antes. Para lá a jovem donzela foi levada e lá foi trancada, no meio de meia dúzia de velhas irmãs de caridade que tinham como voto não ter contato com nenhum homem; sequer padre era aceito naquela comunidade religiosa, para se ter uma ideia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dânea quando foi para o convento ainda não tinha completado cinco anos. Largou a família vertendo muita lágrima e sem entender o porquê da separação. Apesar do chororô, o pai manteve o pé firme e mandou a filha embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante todos os anos que se seguiram Acrísio dormiu o sono dos justos, certo de que morreria, como todo mundo morre, mas não pelas mãos do próprio neto, e de que seu nome seria honrado e reverenciada seria sua memória.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas é como dizem, o olho do dono é que engorda o gado. Uma vez ao ano Acrísio visitava a filha para ver se tudo corria bem, se ela continuava sem contato com nenhuma figura masculina que lhe pudesse “fazer mal” e embuchar. Por causa do grande donativo que enviava ao convento, Acrísio era o único humano do sexo masculino que tinha autorização de pisar o solo daquela comunidade religiosa. Isso ocorreu durante uma década.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia, quando Dânea já tinha completado quinze anos, Acrísio foi visitá-la e com surpresa ouviu – durante os poucos minutos a que tinha direito de ficar junto com a filha – ao longe um choro de um bebê. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como a única que tinha idade para procriar era sua filha, já que todas as outras mulheres da comunidade religiosa haviam passado há muito tempo dos sessenta anos, Acrísio não se conteve e num acesso de raiva adentrou o convento em busca do som daquele choro. Uma irmã de caridade balançava uma pequena trouxa, tentando acalmar a criança, que berrava a plenos pulmões. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acrísio tomou o embrulho de seus braços e constatou que se tratava de um menino-macho, sim, senhor. Indignado e cheio de furor assassino, foi tomar satisfações com a filha e a madre-superiora que coordenava aquele local ermo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dânea explicou que, numa noite de São João, quando foi olhar as estrelas brilhantes do céu às margens do Rio Amazonas, uma chuva de ouro se fez presente e no meio dela apareceu um lindo rapaz, que a seduziu. Um jovem garboso que tinha o porte de um rei emprenhou a donzela. A madre superiora confirmou a história da filha de Acrísio, garantindo que nenhum homem tinha sido autorizado a entrar no convento e que ela acreditava nas histórias da região, que diziam que em noites de São João o boto-cor-de-rosa se transforma em um belo homem para seduzir as donzelas que moravam às margens do rio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não houve meio de fazer o coronel entender o destino da filha, que tinha entregado sua pureza ao rei dos botos encantados e lhe gerado um neto de origem divina. Acrísio tinha certeza de que algum homem sabichão havia engambelado sua filha, embuchando-a, isso sim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não houve pedido e clamor que fizessem Acrísio mudar de ideia. Ele tirou a filha do convento junto com o neto por ele amaldiçoado. Sem poder fazer mais nada, a madre superiora lamentou a partida da garota e também do donativo que gordamente recebia.&lt;br /&gt;Acrísio resolveu levar a filha com o rebento para a própria fazenda, mas antes telegrafou ao seu capataz, dando-lhe algumas ordens para que quando chegasse em casa já estivesse tudo pronto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O retorno foi lento, demorado, comprido, porque a pobre garota chorava e repetia sempre a mesma ladainha do boto-cor-de-rosa que havia surgido de uma chuva de ouro… A criança, sentindo o clima pesado, também chorava e se agitava, não dando sossego ao avô, que fingia não escutar nenhum dos dois, filha e neto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao chegarem, mal pôs os pés nas terras do pai, Dânea viu uma imensa caixa na beira do rio que cortava a fazenda. Em vez de levar a filha e o neto para a sede do casarão, Acrísio e seus empregados levaram Dânea e o menino para dentro da caixa. Quando a jovem entendeu o que o pai queria fazer – jogá-la dentro das águas com seu filho para que ambos morressem – ainda tentou resistir, mas no final quem levou a melhor foi o pai, que mandou que a caixa fosse atirada ao rio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante sete dias e sete noites a caixa foi levada pelo rio, seguindo seu destino: o mar. Durante sete dias e sete noites Dânea passou fome e só bebia a água da chuva de ouro que sempre caía de mansinho no início da manhã, no finalzinho da tarde e na alta madrugada. Seu filho, que recebera o nome de João Perseu, alimentava-se do leite materno e quanto mais ele sugava, mais força parecia dar à jovem mãe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;João Perseu nasceu para a glória, nasceu para resplandecer, para ser herói de seu povo e já mostrava sua força ao vencer morte em tão tenra idade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era madrugada e uma lua cheia enorme iluminava a praia da Ilha de Sérifo quando Dânea e o jovem herói chegaram à margem sãos e salvos, apesar de todos os entraves da longa jornada. A ilha ficava a poucos quilômetros da Praia de Itapema, em Santo Amaro da Purificação, na Bahia de Todos os Santos. Foi lá que o pescador Díctis de Logun-Edê encontrou, na beirinha da praia, a grande caixa trazida pela maré. O pescador, homem vivido nas águas dos mares e dos rios, levou um grande susto quando encontrou o enorme artefato, de cujo interior se ouvia o som de choro de criança. O pescador rogou ao seu orixá de frente, Logun-Edê, que o protegesse antes de ver o que realmente havia lá dentro. Com dificuldade, Díctis conseguiu retirar Dânea e seu pequeno filho de dentro do objeto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Díctis de Logun-Edê assim que viu Dânea ficou fascinado com a beleza da jovem, porém quando viu o menino teve a certeza de que estava na frente de um grande guerreiro, desses que nasceram para guerrear todas as guerras, em nome de todos os orixás de África ou de fora dela. Viu dentro do olho do menininho que ele havia vindo ao mundo com uma missão: proteger todos de tudo que fosse ruim ou malvado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dânea, tão logo se viu salva, agradeceu aos céus por ela e por seu pequeno filho terem suportado a grande viagem e por terem também encontrado uma alma caridosa que os acolheu. Díctis  de Logun-Edê levou mãe e filho para sua casa – que ficava a poucos metros – e os acolheu com carinho e respeito. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dânea nada escondeu. Contou tudo o que aconteceu desde que tinha partido da casa do pai, sua chegada ao convento, a dificuldade de se adaptar àquele tipo de vida, que era muito espartana e rigorosa, a solidão, a tristeza e a saudade da família, a revolta por ser o pai tão supersticioso a ponto de ter mandado a própria filha embora, suas visitas apenas uma vez por ano. Contou também da noite estrelada em que se deixou engambelar pelo canto do boto-cor-de-rosa, a surpresa da gravidez. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contou tudo, tudinho mesmo. Não escondeu uma vírgula, um ponto e vírgula, um travessão, um ponto final de sua história e, mesmo assim, a alma generosa de Díctis a aceitou, não a censurou, acolheu a ela e a João Perseu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E assim aconteceu, Dânea e o pequeno foram acolhidos pelo coração generoso de Díctis de Logun-Edê em sua casa viviam, como uma família feliz e harmoniosa, sem temer o perigo do pai insano. Dânea ainda carregava um pedaço de medo do lado esquerdo do peito, medo de o pai desnaturado descobrir que ela e o filho estavam vivos e vir com malvadeza para o seu lado. Mas isso não aconteceu. Ninguém os importunou, e o menino crescia anonimamente, como deve ser a todo herói destinado à glória.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo corria em perfeita paz, ou quase. Sempre que o meio-irmão de Díctis aparecia, Dânea se sentia incomodada pelos olhares cumpridos e melosos de Polidectes de Oxossi, um homem muito poderoso em Santo Amaro da Purificação. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Considerado o Rei da Agiotagem, conseguiu sua riqueza emprestando dinheiro a quem estivesse em dificuldade financeira. Polidectes também era ligado ao jogo do bicho e possuía várias bancas na cidade. Seu poder era lendário na região. João Perseu crescia e via o interesse do homem por sua mãe jovem e bonita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele também crescia em boniteza e formosura, era alto e destemido como deve ser todo herói, por isso Polidectes de Oxossi não se atrevia a se aproximar de Dânea e tomá-la com violência. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No fundo, Polidectes não usava de violência porque tinha planos políticos: queria se lançar como vereador pela bancada do governo em Santo Amaro da Purificação nas próximas eleições. Assim, não podia facilitar fazendo algo que manchasse mais sua honra, uma vez que os adversários certamente já pegariam no seu pé por ter ligações com jogo do bicho e contravenção. Como, porém, não podiam provar nada – e quem conseguia desaparecia misteriosamente – Polidectes de Oxossi tentava seguir uma vida o mais próximo possível da ‘normalidade’ e dos bons costumes, não querendo queimar o próprio filme perante a sociedade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certa feita, João Perseu recebeu um convite para participar da comemoração do aniversário de cinquenta anos Polidectes de Oxossi. Seria uma grande festança no palácio que o Rei da Agiotagem havia mandado construir na Ilha de Sérifo. Díctis  Logun-Edê e Dânea também foram convidados. A festa foi um grande acontecimento, e todos os puxa-sacos e os puxa-sacanas estiveram presentes. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rega-bofe foi farto e chique, e os presentes ao aniversariante chegavam de todos os lados. Não era segredo de ninguém que o presente que o Rei da Agiotagem mais gostava de receber era um grande animal, digno de um homem poderoso: cavalo. Por isso, no meio dos festejos, já um pouco mamado de vinho e outros teores alcoólicos, Polidectes de Oxossi perguntou que presente os amigos desejavam oferecer-lhe; é claro que o coro foi um só: cavalo! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A festa foi composta apenas por bambambãs que tinham poder aquisitivo para dar um presente tão caro. Ao ver que apenas João Perseu ficou em silêncio na hora em que lançou a pergunta, Polidectes indagou diretamente ao filho de Dânea o que ele lhe daria. Constrangido, o rapaz, que não tinha dinheiro suficiente para dar um presente de tão vultosa soma, surpreendeu a todos ao dizer o que daria ao rei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que Polidectes de Oxossi queria e ansiava era que João Perseu lhe oferecesse Dânea, autorizando um possível relacionamento entre os dois, mas isso não aconteceu. O filho realmente não queria que a mãe se envolvesse com o Rei da Agiotagem, por mais poderoso que esse fosse. Sentindo-se pressionado, João Perseu disse em alto e bom som que não tinha condições de presenteá-lo com um animal tão oneroso, mas que estava disposto a conseguir a cabeça da Medusa – um poderoso talismã que daria a quem o tivesse a faculdade de sair-se vitorioso em todos os setores da vida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um grande silêncio caiu entre os presentes porque o talismã era lendário e quem o conseguisse se firmaria como o mais poderoso rei de todos os reis, não apenas em Santo Amaro da Purificação, mas em toda a Bahia e também fora dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao ouvir as palavras de João Perseu, Polidectes não acreditou que o jovem fosse capaz de tal proeza, afinal muitos tinham almejado o talismã, mas ninguém o conseguira. Por isso e para ter certeza do afastamento do rapaz da ilha – de forma que pudesse aproximar-se de Dânea com mais facilidade, a fim de seduzi-la com palavras e joias – o Rei da Agiotagem fez uma aposta com o herói.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhando fixamente para a mãe de João Perseu, o poderoso monarca disse que, caso o rapaz não conseguisse o talismã, Polidectes de Oxossi, poderia ir à sua casa pegar o que quisesse, e ninguém poderia impedi-lo de desfrutar do que pegara. Ao proferir essas palavras, seu olhar estava cravado em Dânea, e todos entenderam que o rei falava da mãe do jovem e do quanto desfrutaria das delícias de tê-la na cama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;João Perseu aceitou. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como todo moço, tinha fé na própria força, tinha fé na própria coragem, muitas vezes se arriscando sem pensar nas consequências, agindo impulsivamente. Ele aceitou, e o Rei da Agiotagem sorriu satisfeito, pois tinha a certeza de que João Perseu falharia, como todos os outros falharam antes dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pouco antes de sair da festa, João Perseu deteve-se no jardim a olhar para o céu estrelado, pensando como conseguiria sair vitorioso da empreitada que tinha aceitado. Era a primeira vez que o jovem se afastaria da mãe e isso apertava o seu coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contava a lenda que o talismã da cabeça de Medusa era uma espécie de broche, perdido dentro de uma caverna no extremo Sul, lá onde o vento do Norte dobrava o Cabo da Górgona. Na caverna perdida estava a joia, que tinha os olhos feitos com as mais lindas e brilhantes esmeraldas que havia no universo. A lenda era muito conhecida, e até aquele dia nenhum dos que empreitaram buscar o tesouro voltou para contar história, fosse de vitória, fosse de fracasso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;João Perseu olhava para o céu quando nele surgiu a figura de um lindo casal de orixás. Eram Atená e Hermes. As figuras resplandeciam em todo poder e glória, e não havia como lhes negar a divindade. Embevecido, João Perseu ajoelhou-se e rogou-lhes proteção. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A altiva guerreira Atená disse que ela e Hermes o ajudariam, apesar de ele ter sido imprudente ao prometer a Polidectes de Oxossi a cabeça da Medusa. A deusa contou que ela e Hermes, conhecido por aquelas bandas como Exu da Encruzilhada, lhe forneceriam os meios necessários para cumprir a promessa feita. Mas antes o herói deveria dar-lhes oferendas, que não poderiam ser colocadas em qualquer lugar. Todas deveriam ser arriadas no terreiro das trigêmeas conhecidas como as irmãs Fórcis, que receberam os nomes de Enio, Pefredo e Dino. Lá ele encontraria as respostas para seguir viagem e sair vitorioso na empreitada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;João Perseu já tinha ouvido falar da fama das três irmãs gêmeas siamesas, que permaneciam tão grudadas quanto desde o momento em que nasceram. O trio morava perto da praia de Cabuçu. Não era muito longe, mas o acesso era muito difícil porque, contava a lenda, elas haviam construído várias armadilhas para impedir que visitas inesperadas surgissem de repente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;João Perseu então voltou ao interior da casa do Rei da Agiotagem e contou à mãe e a Díctis de Logun-Edê sobre a aparição dos orixás e o que eles haviam determinado que fizesse. Sem entender muito bem, mas acreditando na proteção dos deuses, Dânea abençoou o filho, que começou ali mesmo a jornada para o terreiro das Fórcis.&lt;br /&gt;Exu da Encruzilhada foi à frente, abrindo o caminho do jovem herói, apesar de ser de noite. Hermes tinha a capacidade de poder trafegar tanto de dia como de noite e ele foi o guia para que João Perseu conseguisse trilhar o caminho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante três dias e três noites, o filho de Dânea caminhou, desviando-se das armadilhas construídas pelas gêmeas siamesas. Sem dormir, sem comer, somente bebendo a água que encontrava em algum riacho ou acumulada nas folhas das árvores, o protegido de Exu e da guerreira Atená avançou até chegar ao terreiro das irmãs, conhecidas como As velhas por já haverem nascido com a aparência envelhecida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diziam as más línguas que as três haviam sido rejeitadas pelos pais assim que nasceram e que um índio-caboclo é que tinha cuidado das pequenas desde que vieram ao mundo. Certeza não se tinha, ninguém confirmava, mas certo é que estavam cada qual grudada na outra e que todas eram cegas de um olho. Feias como a fome, com apenas um dente cada uma, nada disso assustou ao jovem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao chegar ao terreiro, João Perseu teve a nítida impressão de que já era esperado, mas Atená lhe havia avisado que as Fórcis eram seres muito astutos e que não ensinariam com facilidade o caminho para chegar à gruta onde se encontrava o talismã da Medusa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao contar para as irmãs gêmeas que o objetivo de sua presença no terreiro era arriar oferendas aos orixás Atená e Exu, elas o aceitaram, um tanto desconfiadas, é bem verdade; mas acabaram aceitando a presença do rapaz. Elas impuseram, porém, uma condição: ele deveria passar por uma sessão de descarrego e purificações antes de ofertar os presentes aos deuses. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A purificação se daria através de banhos, ervas e comidas. Durante setenta e sete dias e setenta e sete noites, João Perseu fez tudo o que elas mandaram e purificou o corpo e a alma, e lentamente foi ganhando a confiança das gêmeas. Ao final, estava com o corpo fechado contra qualquer maldição, podendo enfrentar todos os perigos que certamente encontraria pela frente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Protegido por Atená e Exu, as três Fórcis incorporadas ofereceram-lhe alguns objetos sagrados que o ajudariam a conseguir o talismã, pois na gruta onde o broche estava escondido havia muitas armadilhas e não seria fácil passar por cada uma delas. O rapaz deveria enfrentar diversas peripécias. Não seria fácil conseguir o precioso amuleto, que daria a quem o possuísse todo o poder e a glória.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;João Perseu recebeu das mãos das siamesas um par de sandálias sagradas, capazes de fazer voar a qualquer um que as calçasse; uma espécie de alforje, para guardar o broche da cabeça da Medusa; e um capacete, que lhe possibilitava a invisibilidade.&lt;br /&gt;Atená, incorporada na Fórcis Pefredo, contou ao protegido o porquê de ninguém voltar da gruta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segundo ela, quem olhasse para as esmeraldas incrustadas nos olhos da cabeça de Medusa virava pedra imediatamente. Era uma maldição que acompanhava o artefato há milênios e milênios, desde o tempo em que Céu e Gaia ainda não se haviam separado. Para que João Perseu não olhasse diretamente o broche – que tinha poderes divinos, como mudar de lugar por si mesmo – e saísse vitorioso, Atená deu ao filho de Dânea seu escudo de guerreira, tão polido e reluzente, que mais parecia um espelho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De Hermes João Perseu obteve emprestada uma afiada espada de aço, que lhe seria muito útil na longa jornada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A orixá guerreira disse-lhe, ainda, que o broche estava protegido por várias entidades do Vale do Hades e que só com muita astúcia e valentia pegaria o amuleto. Duas soldadas também protegiam o broche, as Górgonas Ésteno e Euríale, avisou Atená.&lt;br /&gt;Munido dos presentes dados pelos deuses, João Perseu saiu do terreiro das três Fórcis e caminhou em direção à gruta das Górgonas, que ficava no meio de uma densa floresta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A viagem foi longa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por muitas vezes o herói precisou acalmar o coração impaciente, que queria chegar logo e lutar. Ao final de trinta e três dias de viagem marítima, chegou à caverna no extremo Sul, onde o vento do Norte dobrava o Cabo da Górgona. Na caverna perdida, estava a joia, que tinha os olhos feitos com as mais lindas e brilhantes esmeraldas que havia no universo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cada passo que o protegido de Atená dava, surgia uma armadilha para impedir sua entrada. Porém o filho de Dânea com uma divindade luminosa tinha nascido para a glória, para brilhar, e uma a uma, utilizando as armas dada pelos orixás, foi vencendo as armadilhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O local tinha várias câmeras escuras, e cada uma ele ultrapassou. Quando chegou à última câmera, encontrou o broche e, protegendo-o, as duas Górgonas, conforme tinha avisado Atená. João Perseu, cobrindo-se com o capacete da invisibilidade, colocou na água das guardiãs um líquido que logo as fez adormecer. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim que desacordaram, João Perseu tirou o capacete da invisibilidade, voltando a ficar visível. Aproximou-se, então, do altar onde estava o broche. Ao tentar pegá-lo, surgiu à sua frente uma grande cabeça de monstro, com serpentes venenosas no lugar dos cabelos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta era a verdadeira Medusa, que protegia o broche. Lembrando-se dos presentes dados pelos deuses, João Perseu utilizou o escudo de Atená para localizar o mostro; com a espada dada por Exu, cortou-lhe a cabeça peçonhenta, que rolou pelo altar até o chão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em seguida, pegou a cabeça do monstro e o broche que havia ido buscar, jogou-os no alforje e caminhou para a saída. Justamente neste momento, contudo, as duas Górgonas acordaram e foram ao seu encalço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com as sandálias voadoras e novamente colocando o capacete, João Perseu voou floresta afora, fugindo da perseguição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O herói só respirou aliviado ao chegar ao barco e içar vela para retornar à Ilha de Sérifo, levando consigo o broche, que entregaria ao Rei da Agiotagem, e também a cabeça da verdadeira Medusa, que ainda lhe seria útil em sua grande jornada de herói.&lt;br /&gt;Foram trinta e três dias de volta para casa, e João Perseu a cada porto via sua história o anteceder. Todos já conheciam sua vitória e honravam seu nome, sem mesmo o ter visto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No meio do caminho, encontrou um marinheiro que contava a história de uma linda donzela chamada Andrômeda, que sofria no Oriente. João Perseu ficou tentado a ir ao encontro da jovem, que sofria agrilhoada em um rochedo à beira-mar, mas ele não podia. Sua missão era entregar o broche a Polidectes, pois senão sofreria sua amada mãe. E assim fez. Após um mês e três dias chegou ao palácio de Polidectes de Oxossi e ofereceu-lhe o broche, conforme o prometido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem viu o herói entregando o presente pode jurar de pés juntos que na face do poderoso rei só se via decepção. Na verdade, o que ele queria era a mãe de João Perseu na cama. Mas como promessa é promessa e a do jovem herói tinha sido cumprida, também ele teria que cumprir a sua parte e deixar Dânea intocada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mãe do rapaz, ao saber da chegada do filho, foi ao seu encontro imediatamente, mas este já tinha ido para o porto. Decidira ir ao Oriente e cumprir, assim, sua missão de herói. Dânea ainda conseguiu despedir-se do filho, minutos antes de sua partida para uma nova aventura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela se conformou, apesar de chorar um pouco. Dânea sabia que a missão de seu rebento era esta: ser herói e lutar contra aquilo que a maioria não luta, em nome de um bem maior. João Perseu, seguindo o seu caminho, foi salvar a jovem Andrômeda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma longa jornada João Perseu empreendeu até chegar ao Oriente e salvar Andrômeda do monstro que a queria devorar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas isso já é uma outra história.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-828059671261113655?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/828059671261113655/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=828059671261113655&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/828059671261113655'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/828059671261113655'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2011/06/saga-de-joao-perseu-trajetoria-de-um.html' title='A saga de João Perseu - a trajetória de um herói'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-1400778229063223650</id><published>2011-05-31T18:50:00.000-07:00</published><updated>2011-05-31T18:52:26.889-07:00</updated><title type='text'>Desconhecidos</title><content type='html'>Desconhecidos numa sala de espera. Um silêncio um tanto quanto constrangedor se instala. Uns olham para os outros buscando algum assunto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um senhor de óculos mexe a mochila.&lt;br /&gt;A senhora gorda que traz um coração numa longa corrente no pescoço mexe no cabelo.&lt;br /&gt;O garoto de óculos olha, hipnotizado, para o chão.&lt;br /&gt;O senhor careca anota numa caderneta alguns números, fazendo contas.&lt;br /&gt;A senhora de xale dá um longo suspiro – “ai, ai”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma jovem negra entra na sala e todos dão apressadamente um “bom dia”. A impressão que se tem é que agora a conversa vai deslanchar, mas um silêncio de catedrais reina novamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que cada um espera?&lt;br /&gt;O que cada um almeja na vida?&lt;br /&gt;Será que a gorda espera dar seu coração para alguém?&lt;br /&gt;Será que o senhor de mochila espera a juventude de volta?&lt;br /&gt;Será que o garoto de óculos espera que no chão apareça um buraco de onde surja um Pokémon para resgatá-lo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Será que o careca almeja ter todas as suas contas pagas e que a ex-mulher deixe de atazaná-lo para que possa viver em paz com a atual mulher?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a senhora de xale? Espera o que com tantos gemidos de “ai, ai”? Será que é alguma cantora de fado arruinada?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a garota negra? O que espera com a mão no queixo e olhar perdido para a parede verde? Será que espera que nasça diante dos seus olhos alguma esperança?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tantas vidas.&lt;br /&gt;Tantos mistérios.&lt;br /&gt;Tantos desejos.&lt;br /&gt;Tantas desilusões perdidas numa sala de espera.&lt;br /&gt;Esperam.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-1400778229063223650?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/1400778229063223650/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=1400778229063223650&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/1400778229063223650'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/1400778229063223650'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2011/05/desconhecidos.html' title='Desconhecidos'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-7655647694483117183</id><published>2011-05-27T09:55:00.000-07:00</published><updated>2011-05-27T09:58:29.274-07:00</updated><title type='text'>Jogado</title><content type='html'>Fazia tempo que ele estava ali na estante da livraria, na sessão de contos e crônicas, mas ninguém, ninguém mesmo!, o comprava. Para dizer a verdade, sequer suas folhas eram folheadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não era um livro cujo autor fosse famoso, não, não era. Era uma simples coletânea de autores anônimos que tentavam a sorte no mundo das letras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O livro de contos ficava lá jogado, no meio da estante, esperando que um filho de Deus o olhasse e – doce ilusão! – o levasse para casa. Mas seu dia ainda não chegara e, para ser sincera com você, nem sei se chegaria, já que fazia tempo que o pobre do livro estava lá, perdido no meio de nomes como Machado de Assis, Gustave Flaubert, João do Rio, Moacyr Scliar... Gente importante, sim senhor! Gente de gabarito. Gente que é chique dizer que se leu, ainda que na verdade não se tenha passado da leitura da orelha. Como competir no meio de gente tão importante, não é mesmo? Não dá. Por isso o coitado do livro de contos ficava lá esquecido. Desde que foi colocado na prateleira, ninguém sequer o folheou. Já contei isso, não? Pois é, para você ver a solidão do coitadinho. Dava pena...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também, convenhamos!, a capa não chamava a atenção de ninguém. Eu não quero falar mal, longe de mim fazer comentários depreciativos, mas realmente com aquela capa horrível não havia cristão que se aventurasse a passar os olhos nas histórias dos coitados dos autores.&lt;br /&gt;E o título?! Vixe! Nem se fala! Parecia extraído de algum livro de romance-sentimental, desses que vendem em banca e têm sobrenome de autora estrangeira: Donald, Parker, Beverley, Jordan, Simmons, Roberts... Livros para moças, como diriam alguns.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, não é para falar mal, juro que não é, mas com um título daquele, ah, não havia jeito de atrair o leitor distraído e impulsivo, que comprasse um livro num momento de compulsão de ter e não de ser. ’Tadinho do pobre! Também, quem mandou colocar um livro desses num estabelecimento tão chique como aquele? Cá entre nós, &lt;span style="font-size:78%;"&gt;eu acho que o dono da livraria quis agradar algum conhecido colocando na prateira aquele livro de contos de autores anônimos.&lt;/span&gt; Se contar isso para alguém, eu vou jurar que é mentira, mas que deve ter sido isso, ah deve!, porque não há nenhuma explicação para colocar o irrisório livreco naquela prateleira da livraria chique.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o infeliz e desventurado do livro fica lá na estante, esperando que alguma musa de Homero – ou mesmo de Hesíodo, vá lá – inspire um leitor a folheá-lo, cumprindo, assim, minimamente seu destino: ser lido.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-7655647694483117183?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/7655647694483117183/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=7655647694483117183&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/7655647694483117183'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/7655647694483117183'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2011/05/jogado.html' title='Jogado'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-7852168413784599177</id><published>2011-04-29T13:24:00.000-07:00</published><updated>2011-04-29T13:26:33.765-07:00</updated><title type='text'>ABISMO</title><content type='html'>Todo dia é sempre a mesma coisa. Chego à cozinha e ela já se encontra lá. Cabelo desfeito do sono, camisola amassada, rosto inchado, parece que veio direto da cama.&lt;br /&gt;Chego e falo bom dia, e ela nada responde. Me olha. Apenas me olha, com aquele olhar escuro de poço sem fundo. Já me perdi naquele olhar. Evito olhá-la de frente, não quero mais me perder naquele abismo que ela carrega e em que por muitas vezes me precipitei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela me olha, insiste no olhar, e adagas invisíveis vão perfurando meu corpo. Sinto, mas finjo não sentir.&lt;br /&gt;Como.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como sempre a mesma coisa que ela coloca na mesa.&lt;br /&gt;O café tem gosto de requentado.&lt;br /&gt;Ponho pouco açúcar, minha vida não é nada doce.&lt;br /&gt;O pão ela sequer tira do saco da padaria.&lt;br /&gt;É sempre o mesmo requeijão sobre a mesa.&lt;br /&gt;Odeio requeijão, mas como mesmo assim.&lt;br /&gt;Ela não sabe dos meus gostos.&lt;br /&gt;Ela esqueceu os meus gostos.&lt;br /&gt;Ela é quem gosta de requeijão, não eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu a vejo de esguelha, encostada na pia e de braços cruzados, esperando.&lt;br /&gt;Esperando não sei o quê.&lt;br /&gt;Nunca soube.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela me olha, não desgruda os olhos de mim, e busco no jornal uma proteção, uma barreira que me impeça de ser vítima do seu precipício.&lt;br /&gt;Eu a vejo.&lt;br /&gt;Eu a enxergo.&lt;br /&gt;Mas não quero ver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leio o jornal, mas as letras se embaraçam, as frases ficam soltas, e não consigo entender.&lt;br /&gt;Não entendo nada.&lt;br /&gt;Minha vida é um nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O bendito jornal é um escudo que me protege a cada manhã.&lt;br /&gt;Seu silêncio me massacra, me mata. Quero gritar, quero falar, quero... Eu sei o que quero e o que eu não quero, e não quero mais este silêncio e o seu olhar de juiz a me julgar toda manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O dia amanhece e tudo é igual. Dia após dia, tudo se repete.&lt;br /&gt;O sol não traz novidades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu silêncio acusador – não consigo entender. Ela não diz nada. Eu também nada digo, e assim somam-se os dias, intercalados com noites melancolicamente sombrias. Vivemos assim e sinto que a vida parou dentro de nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu continuo a ler o jornal. Ao abrir o copo de requeijão, a tampa escapole e voa para o ladrilho.&lt;br /&gt;Não me abaixo.&lt;br /&gt;Não quero sair da proteção do escudo do jornal. Continuo a ler, sem entender. Não entendo nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um desespero vem me subindo, chegando ao peito e trazendo um gosto amargo à boca.&lt;br /&gt;Não sei o que fazer.&lt;br /&gt;Não sei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levanto depressa em busca de respostas no mundo. Arrasto a cadeira, saio e deixo-a parada na pia, com os braços cruzados, me olhando, me acusando, querendo uma resposta que não tenho para dar.&lt;br /&gt;O precipício me chama, e fujo.&lt;br /&gt;Fujo desesperado para o mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota da autora: Este conto faz parte do projeto de um livro de contos chamado COTIDIANO. São ao todo quatro contos: ACORDAR, CEGUEIRA, ABISMO e DORMIR. Para melhor compreender o total da obra, sugiro que leia as quatro histórias nesta sequência.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-7852168413784599177?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/7852168413784599177/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=7852168413784599177&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/7852168413784599177'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/7852168413784599177'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2011/04/abismo.html' title='ABISMO'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-7489650938842092333</id><published>2011-04-29T13:21:00.000-07:00</published><updated>2011-04-29T13:22:44.775-07:00</updated><title type='text'>DORMIR</title><content type='html'>A claridade da luz artificial da rua invade o quarto através das persianas, mostrando o contorno de um corpo na cama. A porta do quarto é aberta lentamente e em seguida fechada. Pés descalços caminham e seguem até o banheiro. A luz é acessa. O chuveiro é ligado. Ouve-se a porta do boxe sendo fechada. Silêncio. O chuveiro é desligado e a porta do boxe é aberta. Pés caminham em direção ao quarto, formando pequenas poças no tapete. A luz difusa do banheiro projeta uma sombra do corpo que caminha em direção à porta do guarda-roupa, que é aberta. A mão tateia, procurando a camisola no meio da pilha de roupas. O roupão é jogado no piso. As mãos vestem a camisola. Pés caminham em direção da cama, mãos levantam o edredom, e o corpo se deita. Silêncio. O corpo vira, e dois pares de olhos se encaram na penumbra do quarto iluminado pela luz do banheiro e pela claridade artificial da rua. Silêncio. A mão toca a pele da coxa do outro corpo devagar. Silêncio. Os corpos se aproximam. As bocas se buscam. Silêncio. Os corpos se enroscam. Mãos tiram as roupas com avidez. Silêncio. Ouvem-se respirações entrecortadas. Silêncio. Um gemido. Silêncio. O barulho dos corpos se chocando é ouvido. As respirações tornam-se mais apressadas. Dois longos gemidos inundam o ambiente. Silêncio. A luz do banheiro ilumina a cama desfeita. O corpo levanta e pega a camisola do chão. Mãos vestem a camisola. Pés caminham até o banheiro. A mão desliga a luz e os pés voltam para a cama. O corpo deita-se. Silêncio. Um ronco suave ouve-se no ambiente. Dois olhos olham para o teto. O ronco baixinho continua a ecoar no quarto escuro. Um suspiro profundo se ouve também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota da autora: Este conto faz parte do projeto de um livro de contos chamado COTIDIANO. São ao todo quatro contos: ACORDAR, CEGUEIRA, ABISMO e DORMIR. Para melhor compreender o total da obra, sugiro que leia as quatro histórias nesta sequência.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-7489650938842092333?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/7489650938842092333/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=7489650938842092333&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/7489650938842092333'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/7489650938842092333'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2011/04/dormir.html' title='DORMIR'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-4785062711152171071</id><published>2011-04-28T11:59:00.000-07:00</published><updated>2011-04-28T12:06:17.139-07:00</updated><title type='text'>SUMIÇO</title><content type='html'>Um dia ela se levantou e quando se olhou no espelho notou que o olho direito tinha sumido. Simplesmente sumido de sua face branca. A sobrancelha ainda estava lá, mas o olho e os cílios não. Olhou intrigada para a face refletida no espelho. Ainda tentou procurar pelo chão do banheiro o órgão perdido, mas não encontrou. Pensou que talvez o gato o tivesse arrancado no meio da noite e ela, que tem sono profundo, sequer tivesse notado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Procurou o bichano, mas ele estava calmamente refestelado na sua almofada predileta e mal lhe deu atenção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Como farei para sair? Os outros vão notar que meu olho sumiu! Ai, meu Deus, justo o meu olho tinha que sumir?! Justo ele?! &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deus não lhe deu nenhuma ‘pelota’ e ela se conformou com ir para o trabalho sem o olho direito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Que falassem, &lt;/em&gt;pensou, dando de ombros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saiu à rua e ninguém a parou. Ninguém sequer olhou para sua falta de olho. As pessoas passavam por ela, mergulhadas nos seus próprios problemas, e ela ficou ainda mais espantada com a nova situação. Afinal, perder um olho, ainda mais o direito, não é algo tão comum assim. Mas ninguém, ninguém mesmo a olhou, e ela seguiu para o trabalho sem causar nenhuma controvérsia entre os transeuntes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Ah, mas no trabalho eles vão notar que perdi o olho. Do jeito que a rádio corredor é, rapidinho vão notar&lt;/em&gt; – pensou, conformando-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passou pela portaria, pegou o elevador, subiu quinze andares e em nenhum momento uma alma sequer notou que seu olho direito estava faltando. Nada. Nenhum comentário. Nenhum disse-me-disse. Nada. Nadica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Mas que coisa!&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Quando chegou ao escritório de contabilidade ninguém a olhou também. Ela começou a ficar espantada porque inicialmente pensou que todos fossem notar a ausência do globo ocular. Mas ninguém falou nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dias foram passando e ninguém a olhava. Ela bem que tentou chamar a atenção se vestindo com roupas extravagantes, pintou o cabelo de vermelho pica-pau, as unhas ficaram verdes e azuis, os lábios roxos, tirou a sobrancelha. Nada adiantou. Ninguém a olhava. Quer dizer, teve uma vez que ela bem notou que a Terezinha e a Gertrudes olharam para o seu sapato de pele de oncinha falsificada, mas para o rosto, nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sapato sequer serviu de comentário entre as duas, foi só uma olhadinha rápida dessas que a gente dá quando o ônibus passa depressa em frente ao outdoor: não causa espanto, e a curiosidade não precisa ser satisfeita, de tão efêmera que é.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E assim os dias foram passando, formando meses, tornando-se anos, e ninguém olhava sua falta de olho. Um dia ela acordou, depois de mais de trinta anos, e encontrou seu olho grudado numa fresta, atrás da porta. O gato já tinha morrido havia muito tempo e hoje ela morava sozinha com um vira-lata sem as pernas traseiras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O globo ocular deve ter rolado enquanto ela dormia, caído e se escondido numa fresta que ninguém notou. Ainda era o mesmo, ou quase. O tempo passou e ele estava cheio de teias de aranha, muito sujo, um pouco arranhado, mas ainda era o seu olho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando ela encontrou o olho direito, primeiro levou um pequeno susto, desses que a gente tem quando acha uma coisa há muito perdida. Depois olhou profundamente seu olho, deu um pequeno suspiro, levantou da cadeira, foi ao banheiro e jogou o olho na privada, dando a descarga em seguida. Deu de ombros e seguiu a vida, o resto de vida que ainda tinha.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-4785062711152171071?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/4785062711152171071/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=4785062711152171071&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/4785062711152171071'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/4785062711152171071'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2011/04/um-dia-ela-se-levantou-e-quando-se.html' title='SUMIÇO'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-5912027744333009227</id><published>2011-03-28T15:56:00.000-07:00</published><updated>2011-03-28T16:00:26.570-07:00</updated><title type='text'>Sem sentir</title><content type='html'>Era uma vez uma linda menininha que um dia decidiu não sentir mais nenhuma emoção. Ela havia nascido com medo de sentir não apenas as emoções ruins, mas também as boas. A qualquer emoçãozinha que a menininha se visse prestes a sentir, uma grande onda de pavor subia ao seu coração, e ela cavava um pequeno buraco, onde quer que estivesse, e enfiava o rosto, tal qual fazem os avestruzes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O jardim de sua casa vivia esburacado, e sua mãe estava cansada de tanto reclamar. Mas nada adiantava. A menininha tinha medo de sentir. Com isso, ela pouco saía de casa, pouco falava, era muito solitária e tinha apenas por companhia os buracos vazios à sua volta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela não conseguia sequer chorar, porque chorar significaria sentir alguma coisa, e a menininha recusava-se a sentir. Então uma coisa estranha aconteceu. Os buracos que havia no jardim de sua casa começaram a sumir. Um a um foram desaparecendo. Mas eles não sumiram no mundo, não; só mudaram de lugar: foram parar dentro da linda menininha. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela começou a sentir o vazio que os buracos deixavam. E aquilo a incomodava. Sentir um buraco no peito, um buraco na testa, um buraco nas costas, um buraco em cada parte do seu diminuto corpo era muito ruim, muito ruim mesmo. Teimosa e orgulhosa, não queria pensar e menos ainda sentir o vazio que os buracos deixavam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com isso, cada dia era mais longo que o anterior, porque, pode não parecer, mas buraco pesa pra dedéu. É um mundo que se carrega e, como ela tinha vários buracos, cada dia ficava mais difícil levantar da cama, brincar, sorrir. Ter tantos vazios começou a fazer muito mal à menininha. Ela, que antes enxergava tudo colorido, começou a ver só em preto e branco. Certa vez, ela assistia à televisão na casa de sua avó, e os artistas apareciam todos em preto e branco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi assim que ela começou a ver o mundo. Seu ursinho cor-de-rosa, que ganhou da tia Sonia, de repente se transformou em cinza, um cinza feio. Seu copo, que tinha a figura de um sapo verde, de um dia para o outro ficou preto, branco e cinza. O cinza começou a imperar em sua vida. Para qualquer lugar que olhasse, só enxergava o preto, o branco e os vários tons de cinza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo isso acontecia por conta dos buracos que carregava. O pior é que a cada dia os buracos incomodavam mais e mais: ardiam, doíam, fediam, coçavam… Ih, era um horror! Um horror horrorizante!!! Mas a menininha continuava com o firme propósito de não sentir. Até que um dia algo aconteceu. Ela estava no jardim de sua casa, numa linda manhã de primavera – que, diga-se de passagem, ela não era capaz de ver, nem de sentir – a menininha ficou pensando em quanto problema arranjou para sua vida, por ter medo de sentir. Aqueles pensamentos a fizeram ficar cada vez mais triste, com um olhar perdido, porque ela cavara tantos buracos para se esconder, que acabou caindo neles, e não sabia como voltar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela ficou pensando, pensando, pensando em como poderia sair daquela enrascada em que ela própria se metera. Aí se lembrou de sua avó, que sempre dizia que cada menininha tinha um anjinho que lhe tomava conta e que, quando ela estivesse em qualquer apuro, poderia ajudá-la. A menininha, apesar de ser menininha, não acreditava muito em anjinho, não. Ainda se fosse em fada… “Será que menininhas como eu têm alguma fada-anjinho que lhes poderia ajudar?” – perguntava-se. “Bem, não custa nada tentar”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a menininha começou a sentir uma coisinha muito estranha no peito. Era como se fosse um solzinho, do tamanho de um grão de feijão. Então a menininha, que não sabia como chamar a fada-anjinho, fechou os olhos, juntou as duas mãozinhas e disse em alto e bom som:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Fada-anjinho, por favor, me ajude! Sou apenas uma menininha que tem medo de sentir!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Falou isso e parou. De olhos fechados estava, de olhos fechados ficou. Nada diferente sentiu. Com medo de abrir os olhos – sim, porque a menininha era muito medrosa, teimosa e orgulhosa – ficou ainda alguns momentos parada. Então decidiu contar até dez e só então abrir os olhos. Tudo continuava o mesmo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O jardim continuava igual às fotografias antigas que a avó tinha em casa, em preto, branco e cinza. Porém, ao olhar mais detalhadamente em volta, viu uma linda borboleta azul pousada num canteiro de margaridas. Tudo estava branco, preto e cinza, mas na linda borboleta ela conseguia enxergar seus maravilhosos tons de azul. Ela viu quando a borboleta voou e veio pousar em seu colo. Era uma borboleta muito linda, mas era estranha. Tinha cara de gente, não de borboleta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi aí que a menininha entendeu que aquela borboleta era sua fada-anjinho, que veio atender ao seu chamado. A fada-anjinho logo começou a falar com voz de gente, e a menininha prestou muito atenção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Menininha, ouvi o seu chamado e vim ajudá-la. Não tenha medo de sentir qualquer emoção – aconselhou a fada-anjinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Mas as emoções são muito fortes, e eu sou apenas uma menininha, tenho muito medo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu sei que é apenas uma menininha, mas, se continuar a não querer sentir, sua vida ficará cada dia pior. Tudo a sua volta se tornará cada dia mais triste. Passará a enxergar só preto. Até o cinza e o branco vão sumir. Você só verá a escuridão. O mundo é tão bonito, há tantas coisas que você precisa ver e apreender… Mas você precisa entender que temos que viver todo tipo de emoção, porque senão não vamos crescer. Você não quer crescer, estudar, viajar, ter uma casa grande e bonita? Então! Para isso precisa crescer, não é verdade? – perguntou docilmente a fada-anjinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– É… eu quero – disse a menininha, meio desanimada, mas com um grãozinho de esperança no peito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de um pequeno silêncio, ela indagou à fada-anjinho:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Mas como faço para parar de sentir medo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Você nunca deixará de sentir medo. Há momentos em que sentir medo é bom. O que você pode fazer é, mesmo sentindo medo, agir. Não deixar que o medo faça você ficar parada. – aconselhou a fada-anjinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Mas como faço então para agir mesmo quando o medo vier muito forte?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ah, para isso eu vou dar de presente a você, um objeto especial. Ele é mágico! – disse a fada-anjinho, sorrindo – Feche os olhos e estenda as mãos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim fez a menininha. Ao sentir um pequeno peso nas mãos, abriu os olhos e viu um caderno com ilustrações de borboletas. Parecia, no entanto, um caderno comum, apesar das alegres figuras das borboletas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A menininha ficou intrigada, olhando para aquele caderno. Ele não parecia especial, muito menos mágico. Nas histórias que sua mãe lia antes de ela dormir, os livros mágicos eram grandes, cheios de figuras e salamaleques. Aquele caderno não tinha nada de especial! Ela olhou para a fada-anjinho e perguntou, sem muita fé:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Isso é mágico?! Mas é apenas um caderno! – questionou a menininha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A fada-anjinho riu e garantiu:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Acredite: é um caderno mágico, sim. As melhores coisas da vida são assim, simples! Se você, a cada vez que tiver medo de sentir, escrever nele, sua vida vai melhorar muito! Você vai crescer, e os buracos que habitam você diminuirão, até sumirem. Para tirá-los de dentro de você, só escrevendo. Cada vez que escrever, mais e mais as palavras que escrever taparão os buracos que você criou. Um a um serão fechados, e sua visão também voltará ao normal. Passará a ver tudo colorido. O mundo terá todas as cores. Você passará a sentir emoções boas e também as más, porém será, ainda assim, feliz. Creia. Você crescerá e será feliz! – garantiu a fada-anjinho, sorrindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Mas… e quando o caderno acabar? – questionou a menininha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Quando este acabar, basta comprar qualquer outro que tenha borboletas na capa. Qualquer caderno com borboletas é um caderno mágico, você sabia disso? – perguntou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A menininha sacudiu a cabeça, admitindo a própria ignorância.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Sim – continuou a fada-anjinho – creia: qualquer caderno que tenha borboletas é mágico. Se pegar um que não tenha e pintar borboletas nele, o caderno fica mágico na mesma hora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em seguida, a linda borboleta azul bateu as asas e começou a voar. Antes de sumir completamente, olhou para trás e disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Siga as borboletas. Você será feliz!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a menininha seguiu.&lt;br /&gt;Hoje ela não é mais uma menininha. Cresceu. Transformou-se numa linda mulher. Uma mulher que é feliz e tem uma pilha enorme de cadernos cheios de borboletas em casa. A pilha cresce, mais e mais, a cada ano.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-5912027744333009227?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/5912027744333009227/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=5912027744333009227&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/5912027744333009227'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/5912027744333009227'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2011/03/sem-sentir.html' title='Sem sentir'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-5424369627436601232</id><published>2011-03-23T21:29:00.000-07:00</published><updated>2011-03-23T21:32:06.738-07:00</updated><title type='text'>Acordar</title><content type='html'>A claridade invade o quarto entrando pelas frestas da persiana. Um ronco se ouve no ambiente. O relógio marca seis horas. A estridente campainha ecoa. A mão apalpa o ar até encontrar o aparelho e desligá-lo. A mão afasta devagar as cobertas, jogando-as no chão. O corpo lentamente se levanta, as pernas se põem para fora da cama. O som de um espreguiçar se ouve. O corpo toma impulso e se levanta da cama, arrastando as chinelas. A persiana é levantada e a claridade inunda o ambiente. As chinelas se arrastando dirigem-se ao banheiro. A porta é fechada com um estrondo. Silêncio. Ouve-se a descarga da privada e, em seguida, o som de um chuveiro sendo aberto. Um cantar desafinado se escuta. O chuveiro é desligado. Silêncio. A porta do banheiro se abre de repente. As chinelas se arrastam e formam pequenas poças de água, molhando o tapete desgastado. A porta do guarda-roupa é aberta com um estrondo. A mão busca a calça azul, abre a gaveta e pega a roupa íntima e, em seguida, a camisa branca. As roupas são jogadas sobre a cama. O roupão cai no tapete e as mãos vão vestindo o corpo. Calçam-se os sapatos. A porta do quarto é aberta e os passos vão em direção à cozinha. No caminho, perto da porta,a mão pega o jornal. Na cozinha, a mesa posta, senta-se, abre o jornal e começa a tomar o café da manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota da autora: este texto faz parte projeto COTIDIANO - LIVRO DE CONTOS.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-5424369627436601232?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/5424369627436601232/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=5424369627436601232&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/5424369627436601232'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/5424369627436601232'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2011/03/acordar.html' title='Acordar'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-970001605290271819</id><published>2011-03-03T03:31:00.000-08:00</published><updated>2011-03-23T21:33:24.788-07:00</updated><title type='text'>Cegueira</title><content type='html'>Todo dia é a mesma coisa. Ele chega, resmunga um bom dia e senta para tomar o café. Não me olha. Não me vê. Não me enxerga. Nunca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele come sempre a mesma coisa, não muda. O café preto, amargo como a minha vida, tem que estar pelando. O pão, no saco da padaria, tem que estar ainda quente. O requeijão tem que ser sempre light, da marca mais cara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele não vê nada.&lt;br /&gt;Não enxerga nada.&lt;br /&gt;Só lê o jornal.&lt;br /&gt;O bendito jornal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu silêncio me oprime, me comprime. Quero gritar, quero falar, quero... nem sei bem direito o que quero, mas tenho certeza do que eu não quero e não quero este silêncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O dia amanhece e nunca traz novidades. Mesmo no domingo, tudo é o mesmo, só mudam os horários das refeições.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu silêncio nada me diz. Eu também não digo nada. Vivemos assim, envolvidos numa nuvem taciturna. Sinto que a vida parou aqui dentro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele continua a ler, entre um gole de café e uma mordida no pão com requeijão. O jornal não traz notícias minhas. Mas ele continua a ler. Um desespero e uma impotência invadem meu peito. Não sei o que fazer. Não sei de não saber.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele levanta da mesa e abandona o jornal, migalhas espalhadas sobre a toalha, um resto de café sobra na xícara. São os rastros que ele deixa. A tampa do copo de rejeição permanece no piso de ladrilho. Ele não se digna a abaixar para pegá-la. Ele arrasta a cadeira e sai apressado. O mundo o chama lá fora. O mundo, vasto mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu fico. Oprimida no rastro do seu silêncio. As migalhas permanecem sobre a mesa. Migalhas, como a minha vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota da autora: este texto faz parte projeto COTIDIANO - LIVRO DE CONTOS.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-970001605290271819?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/970001605290271819/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=970001605290271819&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/970001605290271819'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/970001605290271819'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2011/03/cegueira.html' title='Cegueira'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-2850239081617252105</id><published>2011-01-14T16:43:00.000-08:00</published><updated>2011-01-14T16:46:51.352-08:00</updated><title type='text'>Música - Série Eu me lembro muito bem...</title><content type='html'>Eu me lembro muito bem de uma música. Não qualquer música, mas a canção de ninar que minha mãe cantava para mim. Ainda sou capaz de me lembrar de sua voz afinada a embalar-me numa melodia de amor. De um amor incondicionalmente meu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu me lembro muito bem, ah, como me lembro! De que eu era feliz e sabia que era feliz. Feliz por ter seus braços a me envolver, a me embalar, aconchegando-me ao seu peito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eram várias as músicas que compunham o repertório que me fazia dormir. Nunca fui de me entregar facilmente aos braços do Morfeu. A vida me chamava, e dormir era uma das últimas coisas que queria fazer, naqueles dias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a voz suave, serena de mamãe mansamente me envolvia, e eu me deixava levar para o mundo dos sonhos. Para o mundo onde o “não” não existia e o “sim” era pura realidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu me lembro muito bem, ah, como me lembro!, de como era bom habitar essa terra, naquela época. Como era bom ouvir as canções antigas que minha mãe cantava!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje já não escuto sua voz, mas escuto a minha a embalar minha menina de cabelos negros e olhos grandes como a esperança. Ela ri, e seu riso traz um quê de melodia das notas do pretérito da canção de ninar de minha mãe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu me lembro muito bem e quem sabe no futuro minha menina também vá escrever poucas palavras contando que se lembra muito bem da voz de sua mãe?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tempo passa, mas o amor se transforma e fica.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-2850239081617252105?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/2850239081617252105/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=2850239081617252105&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/2850239081617252105'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/2850239081617252105'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2011/01/musica-serie-eu-me-lembro-muito-bem.html' title='Música - Série Eu me lembro muito bem...'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-3818473642008032246</id><published>2010-11-29T17:15:00.000-08:00</published><updated>2010-11-29T17:16:37.313-08:00</updated><title type='text'>A palavra</title><content type='html'>A palavra é a minha ferramenta. Assim como pode ser minha libertação, transforma-se, em questão de segundo, em prisão. Depende de mim, depende de minhas emoções encontrar a palavra certa para descrever os sentimentos. Encontrar as vogais, juntá-las às consoantes, formar frases, diálogos... descobrir no hiato a união da emoção no verbo presente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Penso; às vezes, não sei se existo. Mas aí engulo o ar, e vejo que respiro. Faço parte do Planeta Terra. Doce consolo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Viver não é fácil. Às vezes me calo, outras vezes preciso de todos, me exponho... me faço presente nas vidas. Dói me expor, dilacera me fazer presente, às vezes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Guardar o sentimento é mais fácil, mas a emoção acumulada se transforma em bomba que explode no peito depois de um tempo. Aí é emoção por toda parte, indo para o céu azul como confete em carnaval. Pedacinhos coloridos, ora rosa, ora verde, preto, cinza, vermelho... desmistificando a existência. A vida real, não a imaginária.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me encontro na palavra, às vezes me perco... mas aí engulo o ar, e vejo que respiro. Que ainda vivo. A esperança pode ainda brotar no coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A força da palavra é que me move. Às vezes ela pesa, outras vezes é tão leve como uma bruma que o vento leva. Levanto, sigo em frente carregando-a, ora nas costas, ora no peito, no coração. Ela, a palavra, se move em minh’alma. Passeia por meu corpo, massageia meu espírito, conhece a geografia das minhas emoções. Conectada me insere, me liga à realidade e à fantasia. Dois mundos reais no meu ser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Penso, acho que existo. Aí engulo o ar, e respiro a palavra.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-3818473642008032246?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/3818473642008032246/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=3818473642008032246&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/3818473642008032246'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/3818473642008032246'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2010/11/palavra.html' title='A palavra'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-1876544926708670427</id><published>2010-10-28T19:22:00.000-07:00</published><updated>2010-10-28T19:25:46.096-07:00</updated><title type='text'>Cadeira-de-papai - Série Eu me lembro muito bem...</title><content type='html'>Eu me lembro muito bem da cadeira-de-papai do meu pai. Era confortável, larga, braços macios e ligeiramente inclinada. Acompanhando, tinha uma banqueta que também era macia, própria para colocar os pés.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu pai sempre sentava na poltrona de papai. Era a primeira coisa que fazia ao chegar da rua, carregando o cansaço da vida. Meu pai não era um homem de muitas palavras. Olhar atento, observava o mundo por cima dos óculos de grau.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois do jantar, sentava-se na poltrona para ver os folhetins televisivos. Um noveleiro de mão cheia, um fã incondicional de Balzac e Cia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu me lembro muito bem que mal terminava o capítulo do dia, meu pai já cochilava na poltrona, vencido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era neste momento que eu me aproveitava do meu gigante e o transformava num boneco particular, penteando seu cabelo de tudo que era jeito. Meu pai nunca acordou com as estrepolias que eu fazia enquanto ele dormia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Houve apenas uma vez em que cortei minhas fitas em pequenas tirinhas coloridas e fiz diminutos laços no seu cabelo baixo. Aí ele acordou, e não deu tempo de desfazer o penteado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu pai não percebeu nada até ir ao banheiro e passar em frente ao espelho. Da sala só ouvi quando ele exclamou lá de dentro, espantado:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas, filhinha!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não havia raiva em sua voz, talvez apenas certo lamento e conformação, mas não fui reprimida e continuei fazendo dele meu boneco predileto na infância.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu me lembro muito bem de sua figura amorosamente seca, mas que muito me ensinou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tempo passou.&lt;br /&gt;O mato cresceu.&lt;br /&gt;A cadeira não existe mais.&lt;br /&gt;Papai já não está por perto.&lt;br /&gt;A vida é assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Crescer é aprender a lidar com as lembranças, frustrações e saudades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O poeta já disse: “Mas como dói”.&lt;br /&gt;É verdade.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-1876544926708670427?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/1876544926708670427/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=1876544926708670427&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/1876544926708670427'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/1876544926708670427'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2010/10/cadeira-de-papai-serie-eu-me-lembro.html' title='Cadeira-de-papai - Série Eu me lembro muito bem...'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-7625345305247804562</id><published>2010-10-01T16:10:00.000-07:00</published><updated>2010-10-01T16:13:16.105-07:00</updated><title type='text'>Gargalhada - Série Eu me lembro muito bem ...</title><content type='html'>Eu me lembro muito bem de uma gargalhada. Minha tia Santinha gargalhava como se o pecado não existisse, como se o inferno não fossem os outros, como se a vida não tivesse um fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tia Santinha era assim: feliz sem ter uma explicação plausível. Era simplesmente feliz, e ponto.&lt;br /&gt;Tia Santinha era feliz num dia de sol; era feliz num dia nublosamente cinza; era feliz também nos dias chuvosos. Não eram poucos os que invejavam sua gargalhada, sua alegria, sua maneira de ser, o que ela era.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu me lembro muito bem de como era bom ficar com tia Santinha quando os dias estavam nebulosos ou chovia. Com qualquer outra pessoa eu não gostava de ficar nesses momentos, mas com minha tia passava a ser um dia santo. Era um dia de descobertas. Muitas descobertas. Muitas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tia Santinha era assim, transformadora. Arrebatadora. Era capaz de me fazer olhar de forma nova para um mesmo objeto, para uma mesma flor, para uma mesma folha de papel, desbravando um novo mundo, um novo olhar do meu olhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tia Santinha era tecida de poesia. Não essa encontrada nos livros feitos por poetas. Tia Santinha era tecida pela poesia da vida. Essa poesia, imensurável, não dá para ver, não dá para falar, muito menos cheirar. É uma poesia que se sente, cujo aroma nos envolve sem sequer nos darmos conta de que estamos sentindo e sendo envolvidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tia Santinha era assim e sua gargalhada permanece em mim com um frescor irreprimível.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-7625345305247804562?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/7625345305247804562/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=7625345305247804562&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/7625345305247804562'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/7625345305247804562'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2010/10/gargalhada-serie-eu-me-lembro-muito-bem.html' title='Gargalhada - Série Eu me lembro muito bem ...'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-8301178536478326769</id><published>2010-09-18T21:28:00.000-07:00</published><updated>2010-09-18T21:33:51.437-07:00</updated><title type='text'>Inveja</title><content type='html'>Ele estava deitado, apreciando o céu azul. Um papelão grosso era a cama, e o homem sujo, com barba quase chegando ao peito, desfrutava do sol de abril como se estivesse nas areias de Ipanema. O mendigo, de olhar perdido e pose de imperador intelectual, mirava fixamente a única nuvem que singrava a abóboda celeste, sem se dar conta de que estava no centro nervoso da cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pessoas passavam, algumas olhavam, outras – a maioria – já acostumadas com a miséria humana, sequer davam conta de sua figura ímpar, parecendo um profeta distraído na calçada, esperando a hora do juízo final.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem seria ele? Por que olhava com tanta atenção aquela nuvem que se instalara sobre o Largo da Carioca? O que ele via que os outros não viam? Por que os loucos e as crianças são sempre protegidos por Deus? Que Deus é esse que precisa protegê-los?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– ...Mas aí eu disse &lt;em&gt;pra&lt;/em&gt; ele que não aguentava mais aquela situação e que era &lt;em&gt;pra&lt;/em&gt; ele escolher entre &lt;em&gt;eu &lt;/em&gt;e .... – falava uma morena baixinha para a colega alta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– ... Eu já &lt;em&gt;tô&lt;/em&gt; chegando. Não, &lt;em&gt;tô &lt;/em&gt;pertinho, aqui no Largo da Carioca, me espera porque preciso .... – dizia ao celular um homem de terno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– ... Mas, &lt;em&gt;manhê,&lt;/em&gt; o meu pai disse que eu podia. A Sofia vai e... – reclamava a adolescente, arrastada pela mulher obesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele nada escutava. A nuvem no céu parecia ter-lhe mais importância do que todos aqueles dramas que passavam ao largo. Cada um carrega sua própria dor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quais eram as dores daquele homem invisível aos olhos dos outros? Será que tinha família, o que ele foi antes de ser mendigo? Um industrial que perdeu tudo? Um professor de filosofia que conjecturava a insuportável leveza do ser? Um funcionário público aposentado que fora vítima de todos os planos econômicos imputados à população? Será que ele tem o dom de falar com as nuvens? Será que elas respondem? Será? Tantos serás....&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o profeta mendigo continuava olhando aquela única nuvem, como se encontrasse ali todas as respostas que a humanidade sempre se fez e que sempre continuará se fazendo, pelo andar da carruagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Queria ser uma nuvem. Passear pelo céu sem a preocupação de ser mais nada. Apenas uma nuvem, semelhante a um algodão a singrar por ai. Ou, talvez (quem sabe?), o mendigo. Traçar um longo diálogo com o céu imperiosamente azul e desfrutar da vida assim, sem as amarras, sem ter que escolher entre uma coisa ou outra, desligado de qualquer compromisso a não ser aquele que traçasse comigo mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Invejo aquele mendigo.&lt;br /&gt;Invejo aquela nuvem que corre o espaço ilimitado e indefinido onde se movem os astros.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-8301178536478326769?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/8301178536478326769/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=8301178536478326769&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/8301178536478326769'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/8301178536478326769'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2010/09/inveja.html' title='Inveja'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-7652084998208849037</id><published>2010-09-07T10:51:00.000-07:00</published><updated>2010-09-07T15:30:11.890-07:00</updated><title type='text'>Osvardo</title><content type='html'>Tem gente que pode &lt;em&gt;inté duvidá,&lt;/em&gt; mas eu juro que é verdade. &lt;em&gt;Qué dizê,&lt;/em&gt; foi meu avô quem &lt;em&gt;contô&lt;/em&gt; &lt;em&gt;pra &lt;/em&gt;mim quando era menino, e como ele não mentia, tenho &lt;em&gt;cirteza&lt;/em&gt; que o &lt;em&gt;causo&lt;/em&gt; é real. &lt;em&gt;Ocê &lt;/em&gt;pode nem &lt;em&gt;acreditá&lt;/em&gt;, mas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então &lt;em&gt;vamu &lt;/em&gt;lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este é um &lt;em&gt;causo&lt;/em&gt; de um burrico. Um jumento muito especial. Especial porque ele nasceu com um chifre um &lt;em&gt;pôco&lt;/em&gt; acima da junção dos &lt;em&gt;oio.&lt;/em&gt; Um dedinho acima da &lt;em&gt;sombrancelha,&lt;/em&gt; se é que burro tem &lt;em&gt;sombrancelha.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Pois é. Sabe-se lá Deus o porquê da aberração, mas o jumentico tinha um chifre ali. Bem ali, veja &lt;em&gt;ocê! &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não dizem nas &lt;em&gt;Zuropas&lt;/em&gt; que lá tem cavalo com chifre que dão o nome &lt;em&gt;inté&lt;/em&gt; de... como é mesmo, hem?!... Ah, lembrei: unicorno?!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não... não... &lt;em&gt;qué dizê&lt;/em&gt;... unicorne?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois é. Se lá tem, por que no sertão do Nordeste &lt;em&gt;num &lt;/em&gt;pode &lt;em&gt;tê tumbei&lt;/em&gt;? O Deus que fez o chifre no cavalo pode, muito bem, &lt;em&gt;fazê &lt;/em&gt;um burrico &lt;em&gt;tumbei &lt;/em&gt;com chifre. Não é, não? Pois é. É como eu digo.&lt;br /&gt;Mas voltando &lt;em&gt;pro causo.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O burrico nasceu no interiorzão da Paraíba, lá no cafundó onde Judas perdeu as meias, porque as botas ele já tinha perdido dez léguas antes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele nasceu num pequeno sítio onde moravam o &lt;em&gt;cumpadi &lt;/em&gt;Zezé e &lt;em&gt;cumadi&lt;/em&gt; Madalena, que tinham um bando de menino. Tudo escadinha, seguidinho, um &lt;em&gt;trás du zôtro.&lt;/em&gt; Zezé era cabra macho, sim, &lt;em&gt;sinhô, e cumadi &lt;/em&gt;Madalena era uma boa parideira. Resultado: um bando de menino correndo pelo quintal, tudo barrigudinho de &lt;em&gt;lumbriga.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi ali que nasceu o jumentinho, numa mistura de uma égua &lt;em&gt;veia &lt;/em&gt;e cansada do esforço da lida com sabe lá Deus com quem. Mãe é só uma, mas pai pode &lt;em&gt;sê quarqué &lt;/em&gt;um, &lt;em&gt;num &lt;/em&gt;é não? É o que meu pai dizia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O &lt;em&gt;cumpadi &lt;/em&gt;acreditava que a égua &lt;em&gt;ficô&lt;/em&gt; prenha de algum burrico que surgiu naquelas redondezas, &lt;em&gt;sorto&lt;/em&gt; no mundo, já que ele não tinha nenhum &lt;em&gt;ôtro&lt;/em&gt; animal macho em casa pra&lt;em&gt; fazê &lt;/em&gt;o cruzamento.&lt;br /&gt;O jumentico nasceu de repente. Num dia o &lt;em&gt;cumpadi&lt;/em&gt; Zezé deu de &lt;em&gt;cumê &lt;/em&gt;num final de tarde &lt;em&gt;pra &lt;/em&gt;Formosa, e no dia seguinte quando foi &lt;em&gt;levá&lt;/em&gt; a água logo cedinho &lt;em&gt;encontrô&lt;/em&gt; a mãe lambendo a cria. O jumentinho tinha nascido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num primeiro &lt;em&gt;olhá, cumpadi não notô &lt;/em&gt;nada de errado com o filhote. O burrico, na primeira &lt;em&gt;oiada, &lt;/em&gt;era apenas mais um jumentinho mestiço como &lt;em&gt;quarqué ôtro&lt;/em&gt; de sua laia. Foi seu filho do meio, Desmivaldo, que &lt;em&gt;notô &lt;/em&gt;o apetrecho no meio da testa do animal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De início, o &lt;em&gt;cumpadi&lt;/em&gt; não deu muita trela pro menino, que &lt;em&gt;chegô &lt;/em&gt;com a notícia do chifre, mas depois foi lá &lt;em&gt;vê &lt;/em&gt;se era realmente verdade a aberração. &lt;em&gt;Num &lt;/em&gt;é que era mesmo?! Foi um grande alvoroço no sítio quando &lt;em&gt;ficô &lt;/em&gt;provada a verdade da notícia que Desmivaldo trouxe pro pai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A sogra do &lt;em&gt;cumpadi, &lt;/em&gt;dona Hermevilda, bem que &lt;em&gt;tentô colocá&lt;/em&gt; medo na &lt;em&gt;famia&lt;/em&gt;, dizendo que era coisa do diabo o animal &lt;em&gt;tê &lt;/em&gt;nascido daquele jeito. &lt;em&gt;Cumpadi,&lt;/em&gt; que nunca deu trela para a cascavel domesticada, nem deu a atenção. Foi logo tratando de &lt;em&gt;batizá&lt;/em&gt; o bicho. Se fosse realmente coisa do demo, não iria &lt;em&gt;aceitá&lt;/em&gt; a bênção da água benta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Toda quaresma e festa de São João, &lt;em&gt;cumadi&lt;/em&gt; tratava meio de ir &lt;em&gt;pra&lt;/em&gt; igreja e lá pegava um &lt;em&gt;pôco&lt;/em&gt; de água benta, levando &lt;em&gt;pro&lt;/em&gt; sítio duas garrafinhas pequenas. Foi com o restinho desta água benzida que &lt;em&gt;cumpadi batizô&lt;/em&gt; o bicho com o nome de &lt;em&gt;Osvardo&lt;/em&gt;. A escolha caiu em cima de um desafeto. Um vizinho que &lt;em&gt;vorta&lt;/em&gt; e meia entrava em rixa com ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo &lt;em&gt;começô pro &lt;/em&gt;causa de um galo de briga, e o mal-entendido se &lt;em&gt;perdurô&lt;/em&gt; durante todos aqueles anos. Por isso, quando foi &lt;em&gt;escoiê &lt;/em&gt;o nome do burro, a figura do desafeiçoado logo surgiu na sua cabeça, e o burrico foi batizado de &lt;em&gt;Osvardo&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A primeira vez que &lt;em&gt;cumpadi levô &lt;/em&gt;seu burrico &lt;em&gt;pra &lt;/em&gt;cidade, foi um alvoroço só. Todo mundo queria &lt;em&gt;vê &lt;/em&gt;o chifrudo do&lt;em&gt; Osvardo&lt;/em&gt;. É claro que o nome caiu na boca do povo porque é sempre assim. Quanto mais implicante que é um apelido, mais ele pega.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando &lt;em&gt;Osvardo&lt;/em&gt; &lt;em&gt;ficô&lt;/em&gt; sabendo que tinha um burrico seu xará e que esse tinha ainda por cima um chifre no meio dos &lt;em&gt;oio,&lt;/em&gt; a raiva logo subiu fervendo as ideia. &lt;em&gt;Tratô de pegá&lt;/em&gt; uma peixeira e ir&lt;em&gt; tomá &lt;/em&gt;satisfação com o &lt;em&gt;cumpadi &lt;/em&gt;Zezé. Mas como sempre tem a turma do &lt;em&gt;deixa-disso&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Osvardo tratô de guardá &lt;/em&gt;a peixeira, recolhendo a ira, mas não esquecendo. &lt;em&gt;Ficô &lt;/em&gt;ali, rumiando a raiva, igual a um boi &lt;em&gt;veio&lt;/em&gt; e cheio de baba.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando mais ressentimento o chifrudo sentia, mais caía no gosto o nome do burrico. Toda vez que &lt;em&gt;cumpadi&lt;/em&gt; ia pra cidade, e agora ele &lt;em&gt;tratô&lt;/em&gt; meio de sempre &lt;em&gt;tê &lt;/em&gt;motivo&lt;em&gt; pra &lt;/em&gt;ir pra cidade, era maior a algazarra. Cada dia o jumentinho do &lt;em&gt;Osvardo&lt;/em&gt; se tornava mais e mais popular, coisa que o &lt;em&gt;Osvardo&lt;/em&gt;-gente não conseguia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu vô falou que &lt;em&gt;Osvardo&lt;/em&gt; não era desafeto apenas do &lt;em&gt;cumpadi &lt;/em&gt;Zezé, não. Metido a machão, daquele tipo que mastiga abelha e joga fora o mel, não havia na cidade quem não tivesse uma reclamação do valentão. Então quando o &lt;em&gt;cumpadi &lt;/em&gt;resolveu &lt;em&gt;batizá &lt;/em&gt;o burrico chifrudo com o nome de &lt;em&gt;Osvardo&lt;/em&gt;, todos bateram palmas, entrando na brincadeira e se sentindo vingado de alguma forma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Osvardo&lt;/em&gt;-gente já não podia &lt;em&gt;corrê&lt;/em&gt; a cidade: em &lt;em&gt;quarqué buteco&lt;/em&gt; que entrava sempre tinha um fio &lt;em&gt;di &lt;/em&gt;Deus que tratava &lt;em&gt;modi de fazê &lt;/em&gt;alguma alusão ao burrico chifrudo do &lt;em&gt;cumpadi &lt;/em&gt;Zezé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquilo foi crescendo cada dia mais. Mas justiça seja feita, chifrudo, chifrudo, o valentão do &lt;em&gt;Osvardo&lt;/em&gt; nunca tinha sofrido de tal &lt;em&gt;mar.&lt;/em&gt; Sua &lt;em&gt;muié, sinhá &lt;/em&gt;Clotilde, sempre se &lt;em&gt;portô &lt;/em&gt;de maneira santa. Era uma daquelas carolas que se enfiava na igreja &lt;em&gt;di&lt;/em&gt; manhazinha e só saía na última missa. Diziam que era seca por dentro, por isso não tinha dado nenhum filho&lt;em&gt; pro Osvardo&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E era nisso que o valentão se firmava. O &lt;em&gt;cumpadi&lt;/em&gt; podia &lt;em&gt;inté tê &lt;/em&gt;troçado com o nome dele, mas chifrudo ali na raça nunca foi não &lt;em&gt;sinhô.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas é como meu vô dizia: um dia da &lt;em&gt;calça e ôtro&lt;/em&gt; dia do calçador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num é que um dia a cidade amanheceu em polvorosa justamente porque &lt;em&gt;sinhá&lt;/em&gt; Clotilde &lt;em&gt;tratô &lt;/em&gt;meio de &lt;em&gt;juntá&lt;/em&gt; as trouxas com um caixeiro viajante que &lt;em&gt;vortimeia&lt;/em&gt; passava por ali? Pois é, é como digo &lt;em&gt;pro sinhô.&lt;/em&gt; No final das contas, o &lt;em&gt;Osvardo&lt;/em&gt;-valentão se &lt;em&gt;tornô mermo &lt;/em&gt;um&lt;em&gt; Osvardo&lt;/em&gt;-chifrudo, conforme previu o &lt;em&gt;cumpadi &lt;/em&gt;Zezé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a notícia correu a cidade inteira, &lt;em&gt;vexado,&lt;/em&gt; o &lt;em&gt;Osvardo&lt;/em&gt;-gente não&lt;em&gt; aguentô &lt;/em&gt;o ocorrido e &lt;em&gt;tratô tumbei de fazê &lt;/em&gt;sua trouxa. Nunca mais ninguém viu seu rastro por muitas e muitas léguas.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Cumpadi &lt;/em&gt;Zezé, nem preciso &lt;em&gt;dizê, ficô &lt;/em&gt;rindo de canjica a canjica. Uma alegria só. O burrico &lt;em&gt;Osvardo&lt;/em&gt; &lt;em&gt;virô &lt;/em&gt;o xodó da cidade e viveu por muitos e muitos anos. Tinha gente &lt;em&gt;inté&lt;/em&gt; da capital que vinha &lt;em&gt;vê &lt;/em&gt;o seu formoso chifre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E todos assim viveram felizes &lt;em&gt;pra &lt;/em&gt;sempre lá no cafundó da Paraíba. Anos depois eles ficaram sabendo que ... bem, isso &lt;em&gt;é ôtro causo, né? &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-7652084998208849037?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/7652084998208849037/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=7652084998208849037&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/7652084998208849037'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/7652084998208849037'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2010/09/osvaldo.html' title='Osvardo'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-2746967587822465926</id><published>2010-09-02T12:35:00.000-07:00</published><updated>2010-09-02T12:59:36.205-07:00</updated><title type='text'>Carnegão</title><content type='html'>Carnegão não nasceu Carnegão. Tinha um nome digno de cantor romântico de rádio: Marcos Antonio de Oliveira Sá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bonito, não? Mas aí a vida fez com que se tornasse um Carnegão. Desde pequeno, feio, mirrado, canela fina e com tendência constante a pequenos tumores na pele amarelada, logo que foi visto pelo avô – que vivia encostado nas paredes de tanto beber – foi batizado com o infeliz apelido. Pegou na hora, e o rebento teve que levar a alcunha pelo resto dos seus dias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não importava o lugar: na vila, no colégio, no trabalho e mesmo entre a família, quem buscasse por Marco Antonio de Oliveira Sá não encontraria; mas, se falasse em Carnegão, todos logo sabiam de quem se tratava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Carnegão era um rapaz esforçado, de pouco estudo, é bem verdade, mas com boa vontade para o trabalho. Mesmo franzino, não recusava serviço, fosse leve ou pesado. Era um bom rapaz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia conheceu Maria Rita e se entusiasmou com a moça. Não que Ritinha fosse uma belezura. Não era feia, é preciso que se diga, mas também estaria mentindo se dissesse que ela poderia concorrer a uma vaga em qualquer concurso de Miss, ainda que fosse dessas competições de clube de interior. Mas, comparada a ele, era um pitéu de formosura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Carnegão ficou entusiasmado quando notou que Ritinha retribuía o seu olhar numa festa de Santo Antonio. Mas cadê coragem para chegar perto e se apresentar à donzela de fita rosa nos cabelos? Vixe! Só mesmo com a ajuda de outro santo, Santo Expedito, o das causas impossíveis, ele poderia se aproximar e dizer:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Olá, sou Carnegão. &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era um nome muito feio para apresentar a uma lindeza daquelas. O apelido estava tão entranhado nele, que Carnegão esquecia que na verdade seu nome era Marco Antonio. Quando se lembrou disso, a festa já estava no final, e Ritinha tinha ido embora fazia tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Mas também, mesmo que me apresentasse como Marcos Antonio, ela logo saberia que eu me chamo Carnegão. Alguém com certeza iria contar para ela o meu apelido infame&lt;/em&gt; – pensava com seus botões o apaixonado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Carnegão decidiu tomar coragem e se aproximar da garota, mesmo assim. Ritinha era a única filha de uma família de nove irmãos. A caçula era o xodó do pai, que trabalhava na estação de trem. Alguns irmãos tinham se mudado para a capital, mas ainda sobrava um grupo grande de machos protegendo a donzela da família.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mãe de Ritinha era dona Milu, uma rezadeira dessas que só se encontram no interior, capaz de sarar qualquer tipo de doença com sua reza forte. Uma carola que vivia na igreja e se dizia Filha de Maria, apesar de o padre Euséquio não olhar com bons olhos suas rezas avulsas para a população.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Carnegão tentava se aproximar da garota, mas sempre acontecia alguma coisa que o impedia de ter a primeira prosa com a amada. As roupas humildes também não ajudavam muito, mas o enamorado nunca foi de fugir de uma labuta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso, começou a frequentar com mais constância as missas de padre Euséquio. Ritinha vivia grudada na mãe quando ela ia à igreja. A donzela não mostrava tanta intimidade com os sacramentos como sua genitora, mas era uma maneira de sair de casa e da vigília constante do pai e dos irmãos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi nessas visitas à Casa de Deus que Carnegão, com a ajuda de um moleque, começou a trocar bilhetinhos com Ritinha. Mesmo com a letra feia e mal ajambrada, ele escrevia horríveis versos de amor que encantavam a garota.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O avô de Carnegão tinha sido caminhoneiro nos seus bons tempos e sabia de cor e salteado todos tipos de frases que enfeitam as placas das traseiras dos caminhões. Com esse repertório, Carnegão foi conquistando pouco a pouco a afeição de Ritinha. Detalhe: ele nunca assinava, mas ela sabia quem era o seu trovador predileto, apesar dela não ter nenhum outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de quase dois meses nessa lenga-lenga de bilhetinhos para cá, bilhetinhos para lá, Ritinha e Carnegão se encontraram atrás da igreja, num sábado em que se realizava o casamento da filha do coronel Soares.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cidade inteira estava presente, e Carnegão se esforçou, é preciso ressaltar, para causar uma boa impressão. Mas, coitado!, o paletó xadrez, puído na gola e no punho direito, não ajudava muito. O pior era a água de colônia, comprada de um mascate: custou-lhe os olhos da cara, mas o mau cheiro rescendia a léguas e léguas. O cabelo parecia que a vaca tinha lambido; o mesmo mascate lhe vendera uma pomada capilar para tentar amansar os fios rebeldes, porém, em vez de melhorar a aparência, piorou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas como o amor é cego, Ritinha não notou nada disso. Excitada pelo primeiro encontro formal com o trovador amado, se descuidou e o pai percebeu quando ela saiu sorrateiramente da igreja. Seu Rutinho Condutor, como era chamado o pai da donzela, logo que viu o casal já foi levantando a voz e tomando satisfação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem bem Carnegão tinha dado boa noite à amada, o pai apareceu com seu olhar de quem estava prestes a capar um porco. O rapaz, de uma palidez amarelada, ainda tentou articular algumas palavras, mas seu Rutinho não lhe deu a menor atenção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Ca... ca... calma seu Ru-ru-Rutinho, eu... euu... eu... te-te-tenho bo-bo-bo-boas in-in-in-ten-ten-intenções com a Ri-ri-ri-Ritinha, eu ju-ju-ju-juro!&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Quem você pensa que é para se aproximar assim de minha filha?! Ritinha é uma garota de família, tá entendendo?! &lt;/em&gt;– gritava, indignado, levando a filha pelo braço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- É... é... é claro que Ri-ri-Ritinha é de fa-fa-fa-família, é por isso que te-te-te-tenho in-in-in-ten-ten... intenção se-se-se-séria com ela, quero ca-ca-ca-casar de pa-pa-pa-papel pa-pa-pa-passado&lt;/em&gt; – argumentava o jovem, que se tornara gago de repente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu Rutinho parou, olhou para trás com olhar de desprezo e perguntou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Você?! Quem você pensa que é?! Qual é o seu nome?!&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Me... me... me... chamo... Car... car... car... Carnegão&lt;/em&gt; – disse humilde o Romeu apaixonado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O olhar de desprezo cresceu, e Ritinha em prantos viu quando o pai disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Carnegão?! Francamente! Vê se vou dar minha única filha para um infeliz que ainda por cima se chama Carnegão! Vá procurar alguém de sua laia e deixe minha filha em paz! &lt;/em&gt;– disse, arrastando a Julieta caipira, que tentava resistir à braveza do pai, sem sucesso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Carnegão ficou ali parado, olhando seu amor ir embora pelas mãos do crápula do pai. A dor que sentiu pela separação poderia facilmente constar em qualquer peça de Shakespeare, mas, com um nome como o dele, dificilmente seria personagem do bardo inglês.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desesperado, tropeçando na própria desgraça, seguiu para casa, até que no meio do caminho encontrou o avô, que lhe tinha dado o maldito apelido. Ele estava na birosca do seu Capão e, pela primeira vez na vida, o neto lhe fez companhia na bebedeira. Tomou de tudo, vinho, cerveja, pinga, conhaque e por pouco não pediu álcool puro para servir com a caipirinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que Carnegão queria realmente era afogar a mágoa, o ressentimento, a vergonha de ser o que era, alguém indigno do amor de Ritinha. O que ele falou na birosca, o jovem nunca lembrou. O que comprou também não era capaz de relembrar, mas, ao acordar no dia seguinte, com uma enorme ressaca, tudo estava diferente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Despertou com a porta esmurrada pelo avô e seu Zequinha. Mal a abriu e foi abraçado e chocalhado para tudo que era lado. O que eles diziam Carnegão não atinava, não fazia sentido. A cabeça doía mais do que tudo, e parecia que o coração tinha tomado o lugar do fígado, de tanto que este palpitava. A boca, ah a boca, meu Deus, que gosto horrível! Por isso os gritos entusiasmados de seu vô, que pela primeira vez na vida não estava bêbado, não faziam sentido, nenhum sentido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vendo que o neto não conseguia entender o que dizia, o vô de Carnegão decidiu preparar uma receita de levanta defunto. Como bebedor-mor da cidade, ele, mais do que ninguém, sabia como curar uma ressaca rapidinho, rapidinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Carnegão, depois de beber a gororoba, vomitar até acabar com toda bílis do organismo, sentou-se à mesa, então o avô e seu Zequinha lhe deram a notícia que mudou sua vida completamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O jovem não se lembrava de nada, isso o preparado do avô não foi capaz de restaurar, mas lhe disseram que ele tinha ganhado uma bolada na loteria federal, sozinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Mas como? &lt;/em&gt;– perguntou Carnegão, admirado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Ontem, na birosca do Capão, o Zequinha aqui apareceu com o último bilhete da loteria federal, e lá naquela arruaça toda você, dizendo que desgraça pouca era bobagem, comprou com seus últimos tostões o bilhete. Hoje, o Zequinha viu que o número sorteado era o mesmo que ele tinha vendido a você, meu neto. Tu ‘tá rico!&lt;/em&gt; – anunciou o avô, rindo e batendo no ombro de Carnegão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Isso mesmo, Carnegão! Você agora é um homem rico, muito rico! &lt;/em&gt;– festejava o vendedor do bilhete.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Vá lá buscar o bilhete, vá, Carnegão. Busca lá, pra gente conferir &lt;/em&gt;– mandou o avô.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Carnegão, ainda não acreditando na boa sorte, foi buscar o paletó puído e no bolso interno descobriu realmente um bilhete da loteria federal. Ao olhar aquele mísero papel em suas mãos, não acreditou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Uma nova vida! Não serei mais um simples Carnegão &lt;/em&gt;– murmurava baixinho consigo mesmo. Caminhou até a cozinha, e o avô e seu Zequinha viram o bendito papel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos se abraçaram, festejaram e gritaram felizes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na mesma hora, Carnegão foi para a praça, tomou o táxi do seu Jonas, o único veículo da cidade, e foi junto o avô para a capital, em busca do dinheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto isso, Ritinha, em sua casa, não tinha dormido a noite inteira, chorando, desgostosa do amor perdido. Não queria saber de comer, nem de beber. Uma tristeza de dar dó.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a cidade amanheceu e a notícia se espalhou, seu Rutinho não acreditou na própria sorte, ou melhor, no próprio azar. Ele, que poucas horas antes, tinha escorraçado o infeliz, agora não só amargurava tristeza da filha, como também a perda de um genro milionário. Ritinha ficou de mal com o pai e, quando soube do ocorrido, aí e que não quis mesmo falar com seu Rutinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cada dia que passava, chegavam notícias do milionário caipira. Seu Jonas ligava todos os dias para a família e contava da vida de Carnegão, das roupas novas, dos perfumes caros, do hotel de seis estrelas em que estavam hospedados. Seu Jonas foi contratado como chofer particular de Carnegão, ou melhor, Doutor Carnegão, como agora era chamado por todos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cada notícia, Ritinha ficava mais triste. O amor dela era verdadeiro, tanto que ela se interessou mesmo antes de ele ter ganhado toda aquela dinheirama. A pobre donzela chorava sem parar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Agora, na capital, Carnegão nem se lembrará de mim. Perdi meu trovador milionário &lt;/em&gt;– dizia, chorando para dona Milu, numa tristeza só.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dois meses depois, Carnegão voltou à sua terra. Quando a mulher do seu Jonas contou que o novo milionário chegaria no dia seguinte, a cidade inteira se preparou para recepcioná-lo. O prefeito mandou chamar a banda municipal, as crianças do grupo escolar prepararam versinhos para recitar, o coral das Filhas de Maria cantou louvores e não havia um só estabelecimento comercial que não ostentasse em sua porta uma faixa de boas-vindas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Carnegão, quando viu a festa em sua homenagem, não soube num primeiro momento como se comportar, mas ele já tinha aprendido o poder que o dinheiro tem e, estufando o peito, no seu melhor terno de giz riscado, sapato italiano e gel importado nos cabelos, abriu um sorriso de superioridade e desceu do luxuoso carro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para encurtar essa conversa, vamos aos finalmentes. Na festança, seu Rutinho, pelo intermédio do padre Euséquio, puxou uma prosa com Carnegão, ao pé do ouvido. Pediu desculpas. Alegou que perdeu a cabeça quando viu um desconhecido conversando com a filha querida, pediu desculpas outra vez, disse que, depois, com a cabeça fria, ficou sabendo que Carnegão era um rapaz direito, de família, trabalhador, pediu desculpas novamente, garantiu que a porta de sua casa estava aberta ao amigo, caso quisesse aparecer para comer uma broa com café que Ritinha preparava como ninguém, &lt;em&gt;“muito melhor do que a mãe”,&lt;/em&gt; ressaltou o arrependido pai da Julieta caipira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Romeu milionário fez cara de tédio, fingindo que pouco escutava, mas o coração caipira ainda batia por sua amada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No fim das contas, em menos de seis meses, o casal de pombinhos já estava casado, na igreja e no cartório. Festança igual nunca se viu. Nem o casório da filha do coronel Soares foi igual em boniteza. O pai da noiva estava mais feliz do que pinto no lixo. Ai de quem não tecesse elogios superlativos ao genro amado! Logo era escorraçado de seu círculo de amizade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vida de Carnegão mudou completamente em menos de três anos. Todos agora o chamavam de Doutor Carnegão. Tornou-se empresário de sucesso, candidatou-se para deputado federal e saiu vencedor. É feliz no casamento com Ritinha. O avô mora com o casal, e a harmonia impera no lar. Há poucos dias nasceu seu primeiro filho-homem. O avô quando viu o rebento, logo tratou de batizá-lo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- É Carnegão Júnior! &lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-2746967587822465926?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/2746967587822465926/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=2746967587822465926&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/2746967587822465926'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/2746967587822465926'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2010/09/carnegao.html' title='Carnegão'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-5989437603478924915</id><published>2010-08-28T16:50:00.000-07:00</published><updated>2010-10-13T10:52:35.549-07:00</updated><title type='text'>Alameda - Série Eu me lembro muito bem</title><content type='html'>Eu me lembro muito bem da rua onde minha vó morava. Era um local onde tudo de interessante acontecia. Cada casa era um universo em si. O drama de cada família poderia ser levado facilmente para os palcos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu bem me lembro que havia uma casa rosa, que ficava duas moradias depois da de vovó Naná, onde morava um rapaz tido como maluco. Era o doido da rua. Seu nome era Rubem e, apesar de ter aparência de novo, pele viçosa, transparente, sem ruga, rija; apesar de tudo isso, seus cabelos eram completamente brancos. Tão alvos que mais pareciam ter visto o século passar. Mas não, ele era bem novo, apesar de ter, sim, corpo de homem feito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como sei que seu corpo era de homem feito apesar da pouca idade? Porque uma das maluquices de Rubem era andar pelado pela a alameda. Era moreno, alto, esguio, cabeludo, com pelos negros e encaracolados pelo corpo. As mulheres das ruas viviam numa polvorosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É preciso esclarecer que fui moleque da geração de 40, início de 50, e um homem andar nu tinha todo um peso que hoje não se vê. Agora as praias vivem lotadas de roupas de banho mínimas.&lt;br /&gt;Rubem pouco se importava com suas vestes de Adão. Quando ele cismava, tirava a roupa onde quer que tivesse, e coitadas das moças casadouras ou solteironas. Era um choque para elas ver aquele garoto nu em pelo a circular pelas calçadas do bairro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rubem era um maluco calmo, não agredia ninguém, não respondia, vivia na lua, olhando para o céu procurando não sei o quê. Seu olhar azul rivalizava com a cor celeste. Sempre tive vontade de me aproximar dele, puxar conversa, falar sobre meu jogo de botão e da coleção de bolinhas de gude que tinha, da bicicleta nova que meu vô me deu e que se chamava Ximbica, mas ninguém deixava que me aproximasse. Vó Naná, quando eu passava os finais de semana com ela, sempre vigiava. Ela tinha consciência da minha preferência pelos lunáticos, apesar de eu nunca ter confessado nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rubem poderia até ser maluco, mas seus olhos mostravam uma serenidade que jamais encontrei nos ditos normais. Havia paz, harmonia e calma nas janelas de sua alma, e era isso o que me atraia. Mas minha vó não se descuidava, e por isso nunca fui capaz de travar qualquer tipo de conversa com aquele garoto. Uma pena.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os normais jamais me fascinaram. Com suas vidas certinhas, com seus gestos controlados, com seus sonhos medíocres, nada disso me atraiu. Mas Rubem, sim. Havia liberdade naquele olhar. Era como se ele tivesse saído do nosso mundo e, ao tocar o Olimpo, tenha se realizado, não mais precisando de nada que o amarrasse a esse planeta, inclusive as roupas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num final de semana cheguei à rua de vó Naná e não encontrei Rubem. Perguntei ao meu vô o que tinha acontecido ao jovem, e ele desconversou. Indaguei a minha vó, e ela disse que ele tinha ido viajar. Nunca mais o vi. Sumiu na poeira das estrelas, essa foi a conclusão a que cheguei naquela época. Eles não conseguiram conviver com alguém tão especial.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-5989437603478924915?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/5989437603478924915/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=5989437603478924915&amp;isPopup=true' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/5989437603478924915'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/5989437603478924915'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2010/08/alameda-serie-eu-me-lembro-muito-bem.html' title='Alameda - Série Eu me lembro muito bem'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-7001383316379163784</id><published>2010-08-19T16:54:00.001-07:00</published><updated>2010-08-23T18:38:54.991-07:00</updated><title type='text'>A Igreja do Diabo - Série Adaptação</title><content type='html'>&lt;strong&gt;CENA 1 - INT/DIA/SALA DO DIABO&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Diabo displicentemente sentado num trono suntuosamente ornamentado. Degusta um cacho de uvas. Ricamente vestido, tem a aparência de um homem bonito. Ao seu lado, sentada no chão, fazendo-lhe massagem no pé, está Bajuladora-mor. Sua aparência é de uma mulher baixa, gordinha, não tão bonita. Usa óculos de gatinho, vermelhos. Diabo dá um suspiro prolongado de tédio. Silêncio. Detalhe de Bajuladora-mor fazendo massagem no pé do Diabo. Outro suspiro de tédio.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;BAJULADORA-MOR&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;(bajulando)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;O que está havendo com minha Alteza profana ? Há algo que eu possa fazer?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIABO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;(suspiro de tédio)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;A vida é dura. Não tem nada emocionante acontecendo! Nada de novo debaixo do céu azul. &lt;em&gt;(bocejo)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;BAJULADORA-MOR&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Mas como não, Soberano! Com tanta guerra, tanta epidemia, tanta gente morrendo de fome, tanta violência, sua Malignidade impera no planeta Terra há séculos e séculos! Interruptamente!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIABO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Ledo engano, Bajuladora-mor! Sou humilhado pela história, isso sim. Tenho um papel avulso, que exerço desde o início dos tempos. Não passo de um coadjuvante, nada mais! &lt;em&gt;(dá um suspiro de desalento, deprimido) &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;BAJULADORA-MOR&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Que isso, Rei das Trevas! Não, não, não! Eu me nego a pensar que uma figura tão poderosa esteja assim, caída. &lt;em&gt;(risadinha)&lt;/em&gt; Vamos logo levantar esse moral, onde se viu isso? Vossa Malidicência é e sempre será o todo poderoso, o anjo decaído que impera no mundo. Nunca será um simples coadjuvante. Nunca!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIABO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;(começando a ficar envaidecido)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;É verdade que eu já tive bons momentos. É verdade. &lt;em&gt;(diz, alegrando-se)&lt;/em&gt; Lembra quando fizemos eclodir a Primeira Guerra Mundial? Ahhh, é a Segunda??! Tantas vidas podadas! Tantas! &lt;em&gt;(rindo)&lt;/em&gt; Lembra como instiguei os homens a inventarem as câmaras de gás? Lembra?! Bons tempos! Bons tempos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;BAJULADORA-MOR&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Lembro, sim, Maldade Imperial. Vossa Maldade recorda quando demos aos homens aquele veneno, o Agente Laranja, que exterminou tantas crianças e mulheres? Ah, a glória, né, Majestade Infernal? A glória!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIABO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;(com orgulho) &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Sim, eu me lembro.&lt;em&gt; (dá um suspiro e cai em desânimo)&lt;/em&gt; Mas agora não tem mais graça. A violência e as guerras se tornaram banais. Ninguém liga mais para as máquinas de extermínio. Meia dúzia de gatos pingados gritam, mas a indústria do armamento é mais forte. Muita gente corrupta, ninguém mais se importa, ‘tá tudo banalizado, e eu, cada dia mais , renegado ao segundo plano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;BAJULADORA-MOR&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Que é isso, Soberano das Trevas?! Não, não e não. &lt;em&gt;(bate palmas, tentando reanimar o patrão)&lt;/em&gt; O que está acontecendo é que Vossa Maldade está entediado, isso sim. En-te-di-a-do! O que precisa é usar sua maléfica mente em prol de uma maldade, que logo, logo estará entusiasmado novamente. Pense, Majestade. Pense! Eu confio que ideias mirabolantes possam sair de sua cabeça imperial. Pense!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIABO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Hummm… não sei… poderia… não, não, isso já fiz. Hummm… acho que… não, não… isso também já fiz. Matar criancinhas?! Ah, é tão monótono! Falir um banco e deixar milhares na miséria? Isso já fiz também! Ah, Bajuladora-mor, já fiz tudo o que você possa imaginar… tudo… &lt;em&gt;(demonstra ter uma ideia)&lt;/em&gt;… quer dizer… sim… é claro!!! Por que não pensei nisso antes??!! &lt;em&gt;(dá uma risada demoníaca) &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;BAJULADORA-MOR&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Diga-me, Rei do Submundo das Trevas! Não me esconda nada, diga!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIABO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;E se eu tivesse uma igreja, hem? Uma igreja &lt;em&gt;(Bajuladora-mor bate palminhas) &lt;/em&gt;para combater Aquele lá de cima! &lt;em&gt;(diz apontado para o céu com desprezo)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;BAJULADORA-MOR&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Mas que ideia maravilhosa, Alteza Real dos Infernos! &lt;em&gt;(bate palmas)&lt;/em&gt; Bravo, bravo, bravo!!! &lt;em&gt;(diz, cheia de entusiasmo)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIABO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;(continua a falar sem se importar com as palavras da Bajuladora-mor)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Sim, uma igreja. Um lugar que pudesse combater escritura com escritura. Breviário com breviário. Terei a MINHA MISSA, com vinho e pão à farta. Farei sermão exaltando todos os pecados, terei bulas, novenas e todos os demais aparelhos eclesiásticos. &lt;em&gt;(diz orgulhoso, peito estufado, cabeça erguida, olhar destemido) &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;BAJULADORA-MOR&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Sim, Rei de todas as Majestades dos Martírios! Sim! Sim!&lt;em&gt; (diz batendo palminhas) &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIABO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;(caminha pelo ambiente, cheio de pose) &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;O meu credo será o núcleo de todos os homens. Enquanto as outras religiões se combatem e se dividem, a minha igreja será ÚNICA. Não acharei NENHUM CONCORRENTE, não enfrentarei nenhum Maomé ou Lutero. Há muitos modos de afirmar, mas só um de negar tudo! (diz, cada vez mais soberbo)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;BAJULADORA-MOR&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Bravo! Já ganhou, já ganhou, já ganhou! Lindo!!!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIABO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Mas antes precisamos falar com o Aquele lá de Cima &lt;em&gt;(diz, apontando para o céu) &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;BAJULADORA-MOR&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Precisa mesmo, sua Alteza Vil?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIABO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Coisas de praxe… coisas de praxe. Além disso, será um bom momento de eu mostrar o meu poder e desafiá-Lo. Ele e aquele seu Filhinho de meia pataca! &lt;em&gt;(diz com desprezo e inveja) &lt;/em&gt;Vamos, é tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;CORTA PARA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CENA 2 – INT. DIA/SALA DE DEUS&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;O ambiente tem uma suave e bela luz. É uma sala grande, mas vazia de objetos e adornos. Deus tem a aparência de um ancião bondoso. Cabelos brancos, barba alva, veste um camisolão marrom, semelhante aos usados pelos Franciscanos. Os pés estão descalços e há a sua volta serafins, crianças, velhos e mulheres. Um grupo de serafins canta uma música suave. Deus e alguns outros anjos caminham, confortando a todos. Deus passa a mão na cabeça das crianças; dá tapinhas nos ombros e se detém para conversar com um homem velho. Todos tentam ajoelhar-se na sua frente, mas Deus não deixa. Entra o Diabo, pisando duro, com uma longa capa, ricamente vestido. É necessário ter um contraste grande entre a roupa de Deus e a do Diabo. &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIABO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;(orgulhoso) &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Vim comunicar a você algo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DEUS&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;(olha para o Diabo e diz, bondosamente)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;O que você quer agora?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIABO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Não venho pelo seu servo Fausto &lt;em&gt;(rindo).&lt;/em&gt; Mas venho por todos os Faustos dos séculos e dos séculos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DEUS&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;(bondosamente) &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Explique-se, meu filho. O que Fausto tem a ver com isso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIABO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Lembra-se daquele Fausto que vendeu a própria alma depois de uma barganha comigo? Lembra-se?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DEUS&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Sim, lembro, meu filho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIABO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Pois agora os Faustos de todos os séculos e séculos virão a mim! Todos. Esses aqui &lt;em&gt;(com desprezo, mostra todos que estão na sala) &lt;/em&gt;serão os últimos homens que virão para Sua casa! Não tarda muito, e o céu ficará semelhante a uma casa vazia. Eu garanto! Sabe por que isso acontecerá? Porque o que VOCÊ cobra é muito alto. EU VOU EDIFICAR uma hospedaria barata. Vou FUNDAR UMA IGREJA. Anote bem: já é tempo de obter vitória sobre VOCÊ e esse seu FILHINHO!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DEUS&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;(calmamente, sem se abalar)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Vieste dizê-la e não legitimá-la, não?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIABO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Tem razão. Estou cansado de minha desorganização, do meu reinado casual. É tempo de obter a vitória final e completa. Então, vim dizer a você isso, com lealdade, para que não me acuse de dissimulação. Não parece uma boa ideia? &lt;em&gt;(sorri, sarcasticamente) &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DEUS&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Tsiu… tsiu… tsiu… O que está buscando é apenas aplauso. Tudo vaidade…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIABO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;(mais orgulhoso)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Sim, tem razão. O amor-próprio gosta de ouvir aplausos do mestre. Verdade é que, neste caso, seria o aplauso de um mestre vencido. &lt;em&gt;(diz com escárnio)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DEUS&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Você me deixou curioso. Por que motivo, cansado há tanto de sua própria desorganização, só agora pensou em fundar uma igreja?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIABO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;(Sorri, com certo ar de escárnio e triunfo) &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Tenho amadurecido uma ideia. Sabe como surgiu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DEUS&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Diga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIABO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Depois de muito observar os homens e mulheres, pensei nas virtudes que você instituiu. As virtudes podem ser comparáveis a rainhas cujo manto de veludo tivesse como arremate franjas de algodão. Como você bem sabe, o algodão é um tecido frágil, que se esgarça facilmente. Ora, o que estou propondo é puxar essas franjas e trazê-las todas para a minha igreja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DEUS&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;O que você fala não passa de uma velha retórica. Você é vulgar, o pior defeito que pode acontecer a um espírito da tua espécie. Tudo que diz ou vá dizer está dito e redito pelos moralistas do mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIABO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;(irritado)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Olha bem. Muitos corpos que se ajoelham aos seus pés, nos templos do mundo, suas pupilas centelham de curiosidade e devoção entre o livro santo e o bigode do pecado. Não quero parecer que me detenho em coisas miúdas; não falo, por exemplo, na placidez com que este juiz de irmandade, nas procissões, carrega piedosamente ao peito o seu amor e uma comenda…&lt;em&gt; (estufa o peito de orgulho) &lt;/em&gt;Vou a negócios mais altos…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DEUS&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;É um assunto gasto, e se não tem força, nem originalidade para renovar um assunto, melhor que se cale ou retire. Olha para esse pessoal aqui à minha volta. &lt;em&gt;(aponta para homens, mulheres, crianças e serafins)&lt;/em&gt; Veja em cada rosto os sinais de tédio que você lhes dá. Vai, vai, funda a sua igreja. Chama todas as virtudes, recolhe todas as franjas, convoca todos os homens. Vá!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Diabo ainda tenta dizer alguma coisa, mas Deus faz sinal para que ele fique em silêncio. O Diabo sai pisando duro e deixa Deus na sala. Deus dá um suspiro.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DEUS&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;(com pesar) &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Esse menino… tsiu… tsiu…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;CORTA PARA&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;CENA 3 – INT/DIA/SALA DO DIABO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;O Diabo está em sua sala e a Bajuladora-mor vai taquigrafando o que ele diz. O Diabo caminha, enquanto fala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIABO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Não podemos perder um minuto sequer. Precisamos espalhar os novos dogmas, e para isso começarei no tête-à-tête. Nada como a propaganda boca a boca. Depois, o céu não tem limite. &lt;em&gt;(diz, ironicamente)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;BAJULADORA-MOR&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;(vacilante)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Mas, Mestre da Maldade… Vossa Alteza Vil… não teme encontrar uma CERTA resistência entre os mortais? Afinal… vamos dizer… hum… sua figura é um tanto quanto di-fa-ma-da pelo pessoal lá de cima… &lt;em&gt;(apontando para o céu) &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIABO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Eu sei, mas vou provar para a humanidade que o Diabo não é tão feio quanto parece. &lt;em&gt;(olha-se no espelho arrumando a sobrancelha) &lt;/em&gt;Sim, sou o Diabo, mas não este envolto em enxofre, o terror das crianças que Aqueles lá de cima propagaram durante milênios. Mas o próprio Diabo, verdadeiro e ÚNICO, o próprio GÊNIO da NATUREZA. &lt;em&gt;(diz com soberba)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;BAJULADORA-MOR&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Mas como faremos isso? Sei que vossa Maldade tem a eternidade para trabalhar, mas se ficarmos apenas no boca a boca levará muito tempo e sua Magnânima Maldade já disse que tem pressa, pressa de fundar a nova igreja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIABO&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Ah, mas os homens estão muito avançados em suas tecnologias. Vamos usar o que eles têm de melhor para propagar os nossos dogmas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;CORTA PARA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CENA 4 – EXT./DIA/PRAÇA&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;O Diabo conversa com dois jovens, que escutam com atenção o que ele diz.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;CORTA PARA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CENA 5 – INT/DIA/FILA DE SUPERMERCADO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;O Diabo conversa com três mulheres, uma grávida, outra já idosa e uma com aparência de executiva.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;CORTA PARA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CENA 6 – EXT/DIA/PORTA DE ESTÁDIO DE FUTEBOL&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;O Diabo está no meio de uma rodinha de torcedores de futebol, de vários times. Gesticula entusiasmadamente, e todos lhe prestam atenção.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;CORTA PARA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CENA 7 – EXT/NOITE/PORTA DE UMA BOATE&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;O Diabo e um grupo grande e barulhento chegam. Enquanto o Diabo conversa com alguns, os outros membros vão distribuindo panfletos para figurantes.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;CORTA PARA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CENA 8 – INT/NOITE/SALA DE VISITA&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;Uma família assiste à televisão. Câmara deriva: detalhe dos rostos do pai, da mãe, dos dois filhos, da avó e da empregada doméstica, que está atrás do sofá batendo à mão uma massa de bolo. Som da voz do Diabo, até que a câmara focaliza a tela da TV, mostrando a imagem do Diabo. Todos estão hipnotizados.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIABO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Você que está cansado, que não tem mais esperança. Você que sempre seguiu as virtudes impostas pelos representantes do Aquele lá de cima (diz apontado o céu) e que nunca recebeu nada em troca, venha para a minha igreja. Traga suas velhas virtudes e troque-as por novinhas em folha. Troque por novas, que são naturais e legítimas. Vivemos num novo mundo, numa nova época. Somos homens e mulheres do século XXI! Como ficar utilizando virtudes de mais de dois mil anos?! Por quê?!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;CORTA PARA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CENA 9 – INT/NOITE/QUARTO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;Mulher com aparência de 40 anos, esparramada na cama, comendo um balde de sorvete, presta a atenção à TV como se tivesse hipnotizada. A sua volta, há vários pacotes de comida, como biscoitos, balas e refrigerantes.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIABO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Por que falar mal da gula, hum?! Ora, veja você, &lt;em&gt;(diz apontando o dedo) &lt;/em&gt;há quem condene esse prazer tão maravilhoso! Não podemos esquecer o valor de ordem literária e histórica que esse tema já gerou. Também não há como negar o valor intrínseco dessa virtude! Quem negaria o quanto é maravilhoso sentir na boca e no ventre os bons manjares, em grande volume, muito mais do que sentir o gosto dos maus bocados ou a saliva do jejum! Esse negócio de que a gula é pecado, convenhamos!, não convence mais ninguém! Se você engordar, basta tomar uns remedinhos, e pronto! O que não dá é para ficar jogando fora tanta comida, não é mesmo?! VOCÊ MERECE comer qualquer coisa em QUALQUER quantidade que queira! VOCÊ MERECE!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;CORTA PARA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CENA 10 – EXT/DIA/CARRO PARADO NO TRÂNSITO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;Um homem ouve pelo rádio a voz do Diabo. O homem está irado, devido ao trânsito parado.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIABO (em off)&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;O que seria do mundo sem a ira?! Afinal, graças a ela Homero existiu para o mundo. Onde estaria o poeta grego se ele não tivesse escrito sobre a ira de Aquiles? Onde? Por que o homem deve engolir tudo, pensar duas vezes e não extravasar sua ira? Guardar para quê?! Me diga, pra quê?! Você não é santo, nem precisa ser. Quem grita consegue o respeito dos outros, isso sim! É disso que você precisa, dane-se o resto, o importante É VOCÊ!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;CORTA PARA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CENA 11 – INT/NOITE/SALA DE VISITA&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;Um velho conta o dinheiro, com avidez, enquanto na TV se ouve a voz do Diabo. Detalhe do rosto do velho. &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIABO (em off)&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Você é chamado de avarento? Sua família não o compreende, diz que você é um grande pão duro? Abandonaram você justamente por isso?! Você não está mais sozinho! A avareza é mãe da economia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;CORTA PARA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CENA 12 – INT/NOITE/QUARTO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;A televisão está ligada e um homem de 40 anos tenta tirar a roupa de uma adolescente que aparenta ter uns 13 anos, a menina mostra resistência. Ela presta a atenção ao Diabo, que aparece na TV. O homem não presta atenção, sua preocupação é tentar tirar a roupa da adolescente.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIABO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;A soberba, a luxúria, a preguiça precisam ser reabilitadas, isso sim. As coitadas foram renegadas ao segundo plano. Por que não se entregar à luxúria? Você merece, você precisa saber o seu valor! Com tantas mulheres e homens no mundo, por que não desfrutar os prazeres da carne?! Não importa a idade, vale tudo, o que importa é o prazer!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;CORTA PARA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CENA 13 – INT/NOITE/PÚLPITO DA IGREJA&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;Igreja completamente abarrotada de gente. O local, de dimensões gigantescas, é ricamente ornamentado. Vitrais retratam os sete pecados capitais. Há pessoas sentadas no chão e em pé. O Diabo discursa no púlpito; gesticula, enquanto câmeras de TV mostram sua imagem em grandes telões do lado de fora da igreja. Os fiéis batem palmas, sorriem, gritam aleluia a cada frase de efeito do Diabo. Bajuladora-mor comanda um coro vestido de vermelho. A roupa é rica, semelhante à dos destaques de chão das escola de samba, sem os adornos na cabeça e nas costas, porém. &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIABO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;(com grande eloquência)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Pois eu lhes digo: de que valem as vinhas do Senhor, se as vinhas do Diabo são muito mais prósperas e belas?! Nas minhas vinhas, que são linguagens diretas e verdadeiras, nunca, eu disse NUNCA, faltará a cada um de vocês os mais belos frutos do mundo. Eu disse NUNCA!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;MULTIDÃO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;(grita com entusiasmo)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Aleluia! Aleluia!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIABO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Durante séculos e séculos lhes foi dito que a fraude, a mentira é algo pecaminoso. Pois eu lhes digo, digo com todas as letras possíveis, que a FRAUDE é o BRAÇO ESQUERDO do homem. O braço direito é a FORÇA. Muitos homens são canhotos, eis tudo. Aceito que os homens possam escolher serem canhotos, usando a fraude, ou destros, usando a força. Porém não admito, não admito de forma alguma!, que um fiel meu seja NADA, nem canhoto, nem destro. Esse negócio &lt;em&gt;(fala com desprezo)&lt;/em&gt; de amor ao próximo, caridade… qual o quê! Pois sim, isso nunca deu nada a ninguém! O mundo precisa ser conquistado! Vocês querem conquistar o mundo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;MULTIDÃO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;(detalhe no rosto de uma perua)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Simmmmmmm! &lt;em&gt;(detalhe de um homem comum) &lt;/em&gt;Simmmmm! &lt;em&gt;(detalhe do rosto de um executivo) &lt;/em&gt;Simmm! &lt;em&gt;(detalhe de uma senhora idosa) &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIABO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Querem ou não querem?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;MULTIDÃO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Simmmmmm!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIABO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Cada homem e mulher tem seu preço, e você&lt;em&gt; (diz apontando a um da plateia)&lt;/em&gt; deverá cobrar caro, se quiser ter valor. Apenas o dinheiro importa. É a coisa mais importante desta vida. Dinheiro, beleza, poder e sexo. Se tiver dinheiro, tudo mais virá a reboque.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;MULTIDÃO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Aleluia!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIABO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;A venalidade é o exercício de um direito superior a todos. Se você pode vender a sua casa, o seu boi, o seu sapato, o seu chapéu, coisas que são suas por uma razão jurídica e legal, mas que, em todo caso, estão fora de você, como é que não pode vender a sua opinião, o seu voto, a sua palavra, a sua fé, coisas que são mais do que suas, porque são a sua própria consciência, isto é, você mesmo?! Pois não há mulheres que vendem os cabelos? Por que não pode o homem vender uma parte do seu sangue para transfundi-lo a outro homem anêmico? Me digam?! Por que não pode?! Francamente. VOCÊ PODE TUDO! Tudo o que desejar será seu se me adorares. &lt;em&gt;(aponta para uma pessoa da plateia)&lt;/em&gt; Você aceita?!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;JOVEM&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;(detalhe do rosto de um jovem na multidão)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Sim!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIABO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;E você aceitará ser meu fiel? Promete cumprir o que eu determinar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;VELHO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Sim, sim!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIABO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Eu não exijo muito. Não estou aqui a pedir igual ao Outro lá de cima &lt;em&gt;(aponta o céu com desprezo)&lt;/em&gt; nada do que vocês já não fazem. Uns mais constantemente; outros, às vezes. O que peço é que cada um deixe esse negócio de amor ao próximo de lado. Com efeito, o amor ao próximo é um grave obstáculo à nossa igreja. Essa regra foi inventada por Aquele lá de cima e seu Filhinho insuportável!&lt;em&gt; (com desprezo) &lt;/em&gt;É uma simples invenção de parasitas e negociantes inadimplentes. Não se deve dar ao próximo senão indiferença, em alguns casos, desprezo ou mesmo ódio. Entenderam? Amor ao próximo está proibido, terminantemente proibido!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;MULTIDÃO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Sim!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIABO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;(olhar irônico e malicioso) &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Há apenas uma exceção. Você pode amar ao próximo quando este se tratar de uma dama alheia, porque essa espécie de amor tem a particularidade de não ser outra coisa mais do que o amor do indivíduo a si mesmo. Vão e pequem, pequem muito!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;CORTA PARA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CENA 14 – INT/DIA/ESCRITÓRIO DO DIABO NA TERRA&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;Diabo está sentado em frente à sua mesa de trabalho, mexendo no computador. O telefone toca, ele atende. A cena é composta de silêncio e fala do Diabo. Ele escuta o que diz a pessoa que está do outro lado da linha. Não ouvimos a voz de quem telefonou.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIABO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Sim. &lt;em&gt;(silêncio)&lt;/em&gt; Mas isso não é possível. Deve estar havendo algum engano… (&lt;em&gt;silêncio)&lt;/em&gt; Mas… Não, você deve estar enganado, não… Não posso acreditar que… &lt;em&gt;(silêncio).&lt;/em&gt; Eu mesmo vou averiguar isso! &lt;em&gt;(diz batendo o telefone com força no gancho)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;CORTA PARA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CENA 15 – EXT/MADRUGADA/RUA QUASE DESERTA&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;Um grupo de voluntários dá sopa para uns mendigos. Um desses mendigos é o Diabo, disfarçado. Um voluntário aproxima-se e, sorrindo, oferece-lhe um prato de sopa.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIABO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Eu acho que conheço o senhor de algum lugar…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;VOLUNTÁRIO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Deve ser porque toda sexta-feira venho aqui dar sopa para irmãozinhos como você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIABO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;É… pode ser… &lt;em&gt;(silêncio, toma algumas colheradas)&lt;/em&gt; Mas você não frequenta a Igreja do Diabo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;VOLUNTÁRIO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;(assustado, para de sorrir na mesma hora e vai se afastando)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Não…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIABO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;(vai atrás do homem que se afasta)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Mas não foi você que esteve junto com o Diabo no último sábado?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;VOLUNTÁRIO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Não, é claro que não. Eu não conheço esse senhor. Nunca o vi. &lt;em&gt;(diz, tentando fugir do Diabo) &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIABO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Não é você discípulo do Diabo? Não é?! &lt;em&gt;(pressiona)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;VOLUNTÁRIO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Não! Já disse que não! Me deixe em paz!&lt;em&gt; (sai correndo) &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;CORTA PARA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CENA 16 – EXTERIOR/DIA/PORTA DE UMA IGREJA CRISTÃ&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;Diabo disfarçado de vendedor de cachorro-quente. Em sua companhia, a Bajuladora-mor, que o ajuda a vender o produto. As pessoas saem de um templo religioso. É bom que se diga que não é a igreja do diabo.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIABO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Veja, Bajuladora-mor, aquele ali não é o maior ladrão de jóias da cidade?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;BAJULADORA-MOR&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Sim, Alteza Perversa. É ele, sim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Detalhe do rosto do homem, que tenta esconder o rosto usando um chapéu. Desce as escadas e, disfarçadamente, dá algumas notas para a criança mendiga que está à porta. Detalhe do rosto do Diabo: fica furioso.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;CORTA PARA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CENA 17 – INT/NOITE/ESCRITÓRIO DO DIABO NA TERRA&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;Diabo, disfarçado de vendedor de balas, entra seguido pela Bajuladora-mor. Vai tirando o disfarce conforme caminha para sua mesa. Xinga e blasfema.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIABO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Não, não é possível que esses desgraçados tenham feito isso! Não é possível! Eles estavam indo tão bem… Como eles podem ter me traído desta maneira! Por quê? Por quê?… &lt;em&gt;(indaga-se, desesperado) &lt;/em&gt;Me dá a lista dos que me traíram…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Bajuladora-mor busca a lista em cima da mesa. São vários papéis. Diabo folheia a lista, que tem umas 50 folhas.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIABO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Veja só isso! Um absurdo! Ah, mas isso não vai ficar assim, não! Quem Ele &lt;em&gt;(aponta para cima)&lt;/em&gt; pensa que é?! Deus?! Pois sim! Eu vou tomar satisfação com aquele sujeitinho! Eu fui honesto, fui lá, avisei, e agora Ele quer me puxar o tapete desta maneira?! Ele vai ver com quantos paus se faz uma crucificação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Diabo caminha, resoluto, para a porta.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;CORTA PARA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CENA 18 – INT/DIA/SALA DE DEUS&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;O ambiente tem uma suave e bela luz. É uma sala grande, mas vazia de objetos e adornos. Deus conversa com um grupo de crianças. Está sentado e conta uma história. As crianças riem. Entra o Diabo, pisando duro e gritando. Alguns serafins tentam impedi-lo de se aproximar de Deus, mas Deus faz sinal para deixar que o Diabo passe. Deus continua com o mesmo roupão marrom.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIABO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;(com o dedo em riste, gritando)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Você não tinha o direito de fazer isso! Não tinha, ‘tá ouvindo?!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DEUS&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;(calmamente)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;De que você me acusa, Diabo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIABO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Eu quero saber, eu exijo saber o que você fez! O que você fez para que as pessoas começassem a fazer o bem, mesmo tendo se filiado à minha igreja! Minha igreja é ótima! Elas estavam ótimas, sendo sovinas, roubando, nadando na luxúria e na comilança, não se importando com o próximo. Agora, DE UMA HORA PARA OUTRA, uma lista grande de meus fiéis começou a dar sopa aos pobres, esmolas aos mendigos, auxiliar os doentes… &lt;em&gt;(indignado)&lt;/em&gt; Isso é um absurdo! Eu SEI que VOCÊ fez alguma coisa, EU SEI! (diz, bufando e apontando o dedo para Deus)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DEUS&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;O que você quer, pobre Diabo? Você não disse que as capas de algodão têm agora franjas de seda como as de veludo tiveram, outrora, franjas de algodão? Que quer você, Diabo? &lt;em&gt;(sorrindo e abrindo os braços mansamente) &lt;/em&gt;É a eterna contradição humana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;FIM&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Adaptação do conto de Machado de Assis, A igreja do Diabo&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-7001383316379163784?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/7001383316379163784/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=7001383316379163784&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/7001383316379163784'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/7001383316379163784'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2010/08/igreja-do-diabo-serie-adaptacao.html' title='A Igreja do Diabo - Série Adaptação'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-6688956973350976575</id><published>2010-08-19T16:43:00.000-07:00</published><updated>2010-08-19T16:49:33.907-07:00</updated><title type='text'>A igreja do Diabo  - Série Adaptação/Escaleta Dramática</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;strong&gt;•Diabo em sua sala entediado:&lt;/strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;O Diabo está na sala tendo por companhia sua Bajuladora-mor. Tem a ideia de fazer uma igreja, pois cansou de seu lugar secundário na história.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;•Diabo encontra com Deus: &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;O Diabo encontra com Deus e anuncia que fará uma igreja. Deus aceita, não se importando com o projeto do Diabo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;•Diabo começa a convencer os homens a ingressarem em sua igreja:&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;O Diabo conversa com grupos de homens e mulheres. É um grupo pequeno. Depois aparece na TV. Posteriormente, compra um espaço na TV e tem um programa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;•Diabo contabiliza o grande número de adeptos de sua igreja&lt;/strong&gt; &lt;strong&gt;e, seu sucesso:&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Diabo contabiliza o número de adeptos. A Bajuladora-mor aparece dizendo que há boatos de que os homens estão indo contra os seus mandamentos. O Diabo constata que é verdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;•Diabo encontra-se com Deus, queixando-se:&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Diabo encontra-se com Deus e queixa-se da situação. Diz que, apesar do número enorme de adeptos conseguidos, várias vezes encontrou seus fiéis praticando o amor ao próximo. Deus responde que isso faz parte da natureza humana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(*) Texto adaptado do conto A igreja do Diabo de Machado de Assis&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-6688956973350976575?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/6688956973350976575/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=6688956973350976575&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/6688956973350976575'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/6688956973350976575'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2010/08/igreja-do-diabo-serie-adaptacaoescaleta.html' title='A igreja do Diabo  - Série Adaptação/Escaleta Dramática'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-2097477630351346077</id><published>2010-07-26T11:15:00.000-07:00</published><updated>2010-07-26T11:16:23.629-07:00</updated><title type='text'>Encapotada - Série "Eu me lembro muito bem..."</title><content type='html'>Eu me lembro muito bem de um casaco que minha vó Maria usava. Era grande, pesado, próprio para os invernos rigorosos de São Paulo. Acostumada com o calor das praias cariocas, aquele casaco com estampa xadrez em preto e branco sempre me lembrou aconchego. O xadrez era pequenininho e, quando o via sendo usado por vó Maria, ficava contando os quadradinhos sem nunca ter chegado a um resultado.&lt;br /&gt;Quando ela saía de noite e eu ficava em casa, tinha a certeza de que na volta os bolsos dela trariam pequenas guloseimas, como um saco de pipoca ou amendoim, balas, jujubas ou alguma cocada preta, a minha preferida.&lt;br /&gt;Nada melhor havia para uma menina de sete anos do que sentar em seu colo e ser envolvida pelos braços amorosos, com o corpo aconchegado no casaco. Ele se transformava num grande cobertor, em que meu corpo e o de vó Maria eram protegidos do frio.&lt;br /&gt;Anos mais tarde, quando viajei para a Europa e enfrentei em Paris um inverno rigoroso, fui obrigada a procurar um casaco num brechó, já que em tempos de estudante a grana era curta e as compras não podiam ser feitas nas ricas boulevards.&lt;br /&gt;Caçando uma roupa apropriada que diminuísse o frio de uma carioca tropical, encontrei um casaco semelhante ao de vó Maria. Não igual, porque o xadrez francês era um pouco maior. Mas pode-se dizer que os dois casacos eram primos-irmãos. Levei-o para casa e, durante todo aquele inverno infernal e os que se seguiram, usei-o. A saudade ficou mais fácil de ser suportada. Tinha o aconchego proustiano a me envolver.&lt;br /&gt;Vó Maria morreu há décadas. Seu casaco não sei que fim levou. Mas o meu continua guardado no armário e, quando a saudade bate forte, ligo o ar-condicionado na potência máxima e vou dormir encapotada.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-2097477630351346077?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/2097477630351346077/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=2097477630351346077&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/2097477630351346077'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/2097477630351346077'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2010/07/encapotada-serie-eu-me-lembro-muito-bem.html' title='Encapotada - Série &quot;Eu me lembro muito bem...&quot;'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-308824948901620428</id><published>2010-07-23T17:22:00.000-07:00</published><updated>2010-08-21T07:42:51.821-07:00</updated><title type='text'>Mera coincidência/Série Adaptação</title><content type='html'>&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;1 – INT./DIA/CAPELA MORTUÁRIA &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A história se passa em 1950. No caixão, detalhe do rosto de Carapebus. O defunto aparenta ter 40 anos. Uma lágrima desliza do olho esquerdo do defunto , interruptamente. Estão no local seis pessoas: Cidinha, 35 anos, morena, que chora compulsivamente; Eusébio, branco, 45 anos, que a conforta; Maria Gertrudes, loira, 40 anos; duas crianças, uma menina de sete anos e um menino de oito anos; Raul Alfredo, 55 anos, branco. As crianças correm de um lado pro outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;RAUL ALFREDO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;(Dá um suspiro)&lt;br /&gt;Um grande homem, esse Carapebus...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;MARIA GERTRUDES &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;(Espantada)&lt;br /&gt;Francamente! Justo você me dizendo isso! Ontem mesmo eu ouvi quando falou que Carapebus era um imprestável, que não servia pra nada! Que tinha dado o golpe do baú casando com a Hermengarda!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;RAUL ALFREDO&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;(Irônico)&lt;br /&gt;Mas você não sabe que basta morrer para alcançar a santidade?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;MARIA GERTRUDES &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;(Falando para o filho)&lt;br /&gt;Para com isso, Joãozinho! Vem cá, menino!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;CENA 2 – INT./DIA/CAPELA MORTUÁRIA&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Cidinha caminha em direção ao caixão. Eusébio tenta segurar Cidinha, sem sucesso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;CIDINHA &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;(Chora compulsivamente)&lt;br /&gt;Não, não! Você não podia ter me deixado...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;EUSÉBIO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Para Cidinha... Daqui a pouco a viúva chega e nem é bom pensar... (olha para Maria Gertrudes e Raul Alfredo e sorri sem graça)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CORTA PARA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maria Gertrudes conversa com Raul Alfredo enquanto as crianças correm pela capela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;MARIA GERTRUDES&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;(Cochicha)&lt;br /&gt;Cadê a viúva?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;RAUL ALFREDO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;(Baixinho)&lt;br /&gt;Ainda não chegou. Dizem que 'tá muito abatida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;MARIA GERTRUDES&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;(Irônica)&lt;br /&gt;Pois sim! Depois de enterrar quatro, já tem know-how suficiente. Tira isso com os pés nas costas, isso sim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;RAUL ALFREDO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;(Sussurra)&lt;br /&gt;Fala baixo que os outros podem ouvir!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;MARIA GERTRUDES&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;(Indignada e irritada)&lt;br /&gt;Mas eu tô falando alguma mentira? Lá na Vila chamam Hermengarda &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;de viúva negra do Tatuapé, né não?!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;RAUL ALFREDO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;(Exasperado)&lt;br /&gt;O que sei é que a sua língua é maior do que a sua boca, isso sim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;MARIA GERTRUDES&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Ah, você diz isso porque... (interrompe e grita para a menina) Maria Emília, para de beliscar o seu irmão, para!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;CENA 3 – INT.-EXT/DIA/PORTA DA CAPELA MORTUÁRIA&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Cidinha e Eusébio caminham para o lado de fora da Capela Mortuária.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Cidinha é amparada por Eusébio na caminhada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;CIDINHA&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;(Chorando)&lt;br /&gt;Minha vida acabou! O que será de mim? Como viverei sem Carapebus? Minha vida acabou!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;EUSÉBIO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Se acalma, Cidinha. As pessoas estão olhando... Daqui a pouco a viúva chega e...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;CIDINHA&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;(Exasperada)&lt;br /&gt;Aquela bruxa! Aquela sanguessuga! Ninguém me tira da cabeça que foi ela que matou Carapebus. Ninguém me tira da cabeça. Ela tem o apelido de viúva negra não é à toa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;EUSÉBIO &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Ninguém nunca descobriu nada, Cidinha. Por que ela mataria Carapebus ou qualquer dos outros maridos, hein?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;CIDINHA &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Sei lá. Dinheiro. Poder. Sabe-se lá o que vai numa mente de uma viúva negra! Lembra como morreu o primeiro marido? Aquele que era metido a fazer versos na Revista Almanaque Família, lembra?!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FUSÃO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;FLASH –BACK/CENA 4 – INT./DIA/ESCRITÓRIO DA CASA DA HERMENGARDA&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Primeiro marido de Hermengarda sentado em frente à escrivaninha. À sua volta, exemplares da Revista Almanaque da Família, dicionários e livros de poetas parnasianos. O Primeiro Marido é baixo, gordinho, cabelo caindo no olho e tem 30 anos. Barulho de porta se abrindo e passos caminhando pelo assoalho. Detalhe apenas de uma mão jovem e gorda colocando uma xícara com líquido fumegante ao lado do Primeiro Marido; ele não lhe dá muita atenção e diz distraído.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;PRIMEIRO MARIDO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Ah, obrigada, Hermengarda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passos se afastando. O Primeiro Marido se concentra no que está escrevendo. Para um pouco, pensa. Murmura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;PRIMEIRO MARIDO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Flor... hum... flor...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Toma um gole do líquido da xícara fumegante. Olha para o papel e diz com entusiasmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;PRIMEIRO MARIDO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Amor! (Escreve com cuidado a palavra o papel. Depois olha a página, dá um sorriso e tomba com a cabeça, morto.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CORTA PARA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;CENA 5 – EXT/DIA/PORTA DA CAPELA MORTUÁRIA&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Eusébio tenta acalmar Cidinha, mas esta continua nervosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;EUSÉBIO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Tsiu, Cidinha... (olha para os lados) alguém pode escutar você falando contra a dona Hermengarda. Ela é uma mulher muito rica e poderosa. Não mexa nesse vespeiro, não, minha amiga... A corda sempre arrebenta pelo lado mais fraco e VOCÊ é esse lado .&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;CIDINHA&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;(Indignada)&lt;br /&gt;Mas você pensa que sou só EU que desconfio dela? Acha mesmo? Hum!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;CENA 6 – INT/DIA/ CAPELA MORTUÁRIA&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;MARIA GERTRUDES&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;(Em tom de fofoca)&lt;br /&gt;Você nunca achou estranha a forma como o segundo marido da dona Hermengarda morreu? Dizem que suas últimas palavras foram sobre um tal balancete... Não é estranho isso? Que balancete é esse, afinal?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;RAUL ALFREDO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;É, realmente, o Souza tinha saúde de ferro, era muito metódico, e sua morte causou muito espanto lá na firma de Secos e Molhados. Mas daí a dizer que a dona Hermengarda matou o marido a sangue frio já é outra coisa... Acho que tudo isso não passa de mera coincidência, apenas isso. Dona Hermengarda não seria capaz de um ato tal vil, tenho certeza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FUSÃO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;FLASH –BACK/CENA 7 – INT./DIA/CASA DA HERMENGARDA&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Barulho de chave na fechadura, e a porta da frente da casa de Hermengarda se abre. Surge a figura de Souza. Um homem muito alto, muito magro. Nariz comprido e de óculos fundo de garrafa. Souza caminha silenciosamente até a sala, segurando uma pasta. Usa uma capa de chuva e carrega um guarda-chuva, além da pasta. Souza tira a capa, dobra-a com todo o cuidado e a coloca no encosto da cadeira. Tira o chapéu e o coloca, junto com o guarda-chuva, num armário daquele que vemos em filmes americanos. Senta numa poltrona de encosto alto, coloca a pasta nas pernas e puxa um cachimbo do paletó. Acende-o calmamente e, depois de dar uma longa tragada e diz: .&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;SOUZA&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Hermengarda, minha filha. Já cheguei. (abre a pasta e quando ouve o som de passos para o que está fazendo)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Som de passos pesados caminhando e barulho de carrinho. Aparece o carrinho e duas mãos jovens e gordas empurrando-o. Detalhe nas mãos. Detalhe do carrinho: um bule com um líquido fumegante, uma xícara ricamente trabalhada e um pratinho com guloseimas. Souza sorri na direção de Hermengarda, serve-se do líquido fumegante, toma um gole, pega um bolinho e o come. Bebe com prazer o chá e com um sorriso de agradecimento fala para Hermengarda, que não aparece em cena.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;SOUZA&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Obrigada, minha filha. O chá está divino!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Detalhe do corpo da frente de Hermengarda. Não aparece seu rosto, só o vestido preto, com pequenas flores vermelhas e suas mãos gordas cruzadas na frente da barriga. Souza bebe mais um gole, sorri na direção de Hermengarda e deixa a xícara no carrinho. Pega a pasta e, quando vai tirar os papéis de dentro, olha espantado para o alto, como se tivesse sentindo uma dor, leva a mão à garganta e sussurra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;SOUZA&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Hermengarda, minha bondosa Hermengarda. Só levo dessa vida uma tristeza. A de não ter podido fechar o balancete de 1922.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CORTA PARA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;CENA 8 – EXT./DIA/PORTA DA CAPELA MORTUÁRIA&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Cidinha e Eusébio fumam. Ela está mais calma. Dá uma baforada e diz mordaz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;CIDINHA&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Lembra de como morreu o capitão Albernaz de Melo? Um homem como aquele, vendendo saúde por todos os poros! No dia em que morreu, encontrei-o na Academia Militar. O terceiro marido da Hermengarda era metido a fazer discursos e na ocasião ficou falando por mais de duas horas sobre o marechal Floriano Peixoto e Rui Barbosa. Ninguém aguentava mais aquele discurso enfadonho. Quando mais tarde fiquei sabendo de sua morte, levei um susto enorme. Saiu da academia, foi pra casa e catapoum! Esticou as canelas... Ninguém me tira da cabeça que foi coisa da bruxa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FUSÃO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;FLASH –BACK/CENA 9 – INT./DIA/COZINHA DA CASA DA HERMENGARDA&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Capitão Albernaz de Melo sentado à mesa. Detalhe da mesa: uma sopeira com uma concha dentro, o prato do capitão está com restos de comida. Ele acabou de comer. Detalhe no prato: restos de feijoada e laranja. O capitão tem 50 anos, cabelos e barba grisalha. Ele veste uma farda do Exército e em frente a esta há um guardanapo grande servindo de babador. Limpa a boca com o guardanapo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;CAPITÃO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;(Diz autoritário)&lt;br /&gt;É só isso, Hermengarda?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Barulho de louça. Detalhe apenas de uma mão de uma mulher madura e gorda, que oferece a xícara com um líquido fumegante para o capitão. Ele pega a xícara e toma um gole. Olha na direção da mão, toma mais um gole, vira os olhos e cai com o rosto dentro do prato com restos de feijoada. Som de um suspiro feminino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;HERMENGARDA&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;(Diz com pesar, sem aparecer sua imagem)&lt;br /&gt;Coitado! Mais um que morre logo depois de fazer o seguro de vida. (suspiro) 'Tadinho!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CORTA PARA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;CENA 10 – EXT./DIA/PORTA DA CAPELA MORTUÁRIA&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Eusébio mais uma vez tenta acalmar os ânimos de Cidinha, sem sucesso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;EUSÉBIO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Calma, Cidinha. O carro da dona Hermengarda está chegando. Vê se não vai fazer nenhum escândalo. Você não tem nenhuma prova. Tudo pode ter sido mera coincidência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comboio de carros pretos chega à Capela Mortuária. O carro preto mais luxuoso para em frente ao lugar onde está Eusébio e Cidinha. A porta se abre e aparece o detalhe de uma perna de mulher gorda e velha. Depois o detalhe do corpo da mulher obesa, que vai aparecendo aos poucos. Hermengarda é uma mulher imensa, com papadas e óculos de gatinho. Caminha altiva em direção à capela. Usa um vestido preto muito chique, com várias joias em ouro, diamantes e rubis. Hermengarda tem aparência de 60 anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CORTA PARA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;CENA 11 – INT./DIA/CAPELA MORTUÁRIA&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Hermengarda em frente ao caixão de Carapebus. Olha com superioridade para o morto. Uma lágrima escorre do olho esquerdo do defunto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CORTA PARA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maria Gertrudes sussurra para Raul Alfredo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;MARIA GERTRUDES&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Quem será o próximo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FIM&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;PS: Exercício feito em cima do conto de José Cândido de Carvalho Viúva em quatro maridos, que consta no livro Os mágicos municipais. O exercício fez parte do curso da Caixa Cultural do Rio de Janeiro, cujo tema foi Adaptação: a literatura no cinema, julho de 2010. &lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-308824948901620428?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/308824948901620428/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=308824948901620428&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/308824948901620428'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/308824948901620428'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2010/07/mera-coincidencia.html' title='Mera coincidência/Série Adaptação'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-6924838088040610796</id><published>2010-07-14T06:11:00.000-07:00</published><updated>2010-07-26T11:15:13.739-07:00</updated><title type='text'>Um passado que não passa (*) - Série "Eu me lembro muito bem..."</title><content type='html'>Eu me lembro muito bem do medo. Do grande e implacável medo que sentia do sótão lá de casa. Escuro, denso, vazio de vida, cheio de teias de aranhas a tecer fantasmas do pretérito; eu nem tinha consciência de que existiam, mas os sentia. O medo nunca me deixou, era minha companhia toda vez que era obrigada a escalar os vinte e sete degraus que separavam o sótão do segundo andar. Para tomar coragem, o Poeta, meu cachorro vira-lata, sempre me acompanhava. Ele e minha boneca Julieta. Mas de nada adiantava ter a companhia desses parceiros constantes. O medo persistia. Insistia. Era implacável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O silêncio ora gritava, ora sussurrava, e espremia meus ossos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passados tantos anos, ainda consigo sentir aquela sensação de terror, como se a qualquer momento fosse descobrir o cadáver mal enterrado de alguma lembrança do meu avô, do meu tio ou mesmo de mamãe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca vi nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ninguém nunca me contou nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Absolutamente nada, mas eu senti.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje a casa já não há. Construíram uma igreja no local. Dessas que culpam o diabo por tudo. A rua já não é mais a mesma. Algumas árvores foram cortadas. Várias casas foram demolidas também, não só a minha. A vida é outra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas toda vez que passo em frente ao novo prédio, sinto como se o passado e os fantasmas do sótão viessem me chamar. Viessem me saudar. Acenar com o lenço da memória. Um passado que não passa. Uma dor que ficou. Um medo de não sei quê, que não sei por que, mas ainda existe. Um medo de triturar ossos. Insiste. Persiste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(*) Homenagem ao escritor Lobo Antunes. Exercício feito no curso da Caixa Cultural do Rio de Janeiro, cujo tema foi Adaptação: a literatura no cinema, julho de 2010.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-6924838088040610796?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/6924838088040610796/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=6924838088040610796&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/6924838088040610796'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/6924838088040610796'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2010/07/um-passado-que-nao-passa.html' title='Um passado que não passa (*) - Série &quot;Eu me lembro muito bem...&quot;'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-621309481630940610</id><published>2010-04-05T11:28:00.000-07:00</published><updated>2010-04-05T13:35:00.148-07:00</updated><title type='text'>Pires</title><content type='html'>Ele é um pires. Um pires que não faz parte de nenhum conjunto. Não tem por família nenhum bule de café, nenhuma xícara, nenhum açucareiro. Não é sequer par de um pequeno bule de leite. Não tem ninguém a fazer-lhe companhia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É um pires bonito. Não excepcional, isso não. Mas é simpático e está ali na feira &lt;em&gt;hype&lt;/em&gt;, que vende quinquilharias antigas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um pires solitário, com ar de quem não foi criado na pós-pós-&lt;em&gt;mudernidade.&lt;/em&gt; Nasceu num mundo em que o conceito de design sequer tinha sido pensado. Um mundo artesanal, onde o bonito era bonito, e pronto. A feiúra não era nunca considerada bela, e as pessoas carregavam certezas absolutas que mudavam instantaneamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Branco, com pequenos detalhes dourados, esses aspectos lhe dão jeito de nobreza decadente. Não é um pires feminino, desses que as mulheres da elite econômica usam ao se reunirem com as amigas para tomar chá e falar das últimas modas na Europa enquanto a guerra campeia nas ruas. Não, ele certamente não é um pires que se sirva para esses fins.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem sabe, com seus ares de aristocrata empobrecido, não tenha sido par de um conjunto cujo dono fosse um grande intelectual? São conjecturas sobre as quais ninguém tem certeza. Mas olhar aquele pires, tristemente solitário, faz qualquer pessoa levantar suas suspeitas. Afinal, o que aconteceu aos seus pares?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem foi seu dono?&lt;br /&gt;De onde vem?&lt;br /&gt;Para onde vai?&lt;br /&gt;Perguntas fazem parte da natureza do homem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pires não dá respostas. Mas é possível imaginar sua existência solitária, seu jeitão encalhado a olhar quem passa, com a certeza de que dificilmente será comprado.&lt;br /&gt;Se ainda fosse um prato!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não. É um simples pires com um passado desmemoriado.&lt;br /&gt;Ninguém dirá: Getúlio Vargas bebeu nesse pires. Ou: a Princesa Isabel comeu nesse pires.&lt;br /&gt;Triste é a sina de quem é pires na vida.&lt;br /&gt;De quem nasceu para ser par, mas a existência lhe fez uno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem poderá dizer seu destino?&lt;br /&gt;Será vendido?&lt;br /&gt;Ficará encalhado?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou algum gato mais desavisado passará por ali, esbarrando nele e levando-o ao chão?&lt;br /&gt;Mil pedaços quebrados. Fragmentos de uma história que ninguém contou, perdendo-se entre paralelepípedos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-621309481630940610?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/621309481630940610/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=621309481630940610&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/621309481630940610'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/621309481630940610'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2010/04/pires.html' title='Pires'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-4714964193700108559</id><published>2010-02-01T12:38:00.000-08:00</published><updated>2010-02-01T12:40:27.124-08:00</updated><title type='text'>Diário de Mel</title><content type='html'>É duro ter 15 anos. Odeio do fundo do meu coração a idade que tenho. &lt;br /&gt;Agora fico eu aqui, igual a uma idiota, em pleno sábado, não podendo me encontrar com a Carol e a Duda, porque a babaca de minha mãe se lembrou de ser mãe e acha que pode mandar na minha vida!&lt;br /&gt;Tô doida para completar 18 anos e poder sair deste inferno que é a minha casa. Este clima de ‘família Doriana’ é um saco! Papai e minha mãe só vivem para brigar. É uma batalha para decidir se o café deve levar adoçante ou açúcar, e eu ali, no meio, presenciando esta merda de família que se perde a cada dia mais.&lt;br /&gt;Odeio isso.&lt;br /&gt;Odeio minha mãe.&lt;br /&gt;Odeio minha vida.&lt;br /&gt;Merda!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-4714964193700108559?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/4714964193700108559/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=4714964193700108559&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/4714964193700108559'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/4714964193700108559'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2010/02/diario-de-mel.html' title='Diário de Mel'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-6568888566906191618</id><published>2009-12-23T16:54:00.000-08:00</published><updated>2009-12-23T16:57:19.692-08:00</updated><title type='text'>Conversa no elevador - Episódio: Natal</title><content type='html'>Vigésimo segundo andar. Um casal de idosos entra no elevador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- .... aí eu disse para ela que neste Natal eu não vou ficar me matando na cozinha enquanto a &lt;em&gt;belezoca &lt;/em&gt;da Zumira fica na sala como se fosse uma visita muito importante! Eu, não. Nunca mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O marido abre a boca, mas logo é interrompido pela mulher.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Onde já se viu! Lembra do ano passado, quando a Ruth foi fazer as compras para a ceia às seis horas da tarde?! O peru ficou um horror, com gosto de sangue na boca, lembra?! – olha para o marido com impaciência – Você nunca lembra de nada mesmo, né, Adamastor? – diz bufando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adamastor mais uma vez tenta responder, mas é interrompido novamente pela mulher.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A palhaça aqui este ano está aposentada, isso eu garanto! – diz indignada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O marido dá um longo suspiro. A mulher olha para ele com raiva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não acredita, não?! Pois eu garanto que este ano serei visita na casa da Ruth, não moverei uma palha. E não adianta você querer chegar mais cedo para ver o jogo na TV a cabo, que só sairemos de casa depois das nove horas da noite, talvez só depois da novela! Onde já se viu! Todo ano é assim, eu e Isabel nos matamos na cozinha, a Ruth correndo igual a uma barata tonta, deixando para comprar tudo na última hora, e &lt;em&gt;a lindeza&lt;/em&gt; da Zumira lá no bem-bom! O pior é que traz aquelas pragas de netos, filhos e noras que não têm nenhuma educação!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O marido olha para visor e nota que estão na metade do caminho. A mulher continua com sua metralhadora giratória.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Lembra que no ano passado a neta da Zumira chegou para a ceia com um tipo mal encarado? Lembra? O rapaz era todo tatuado e cheio de… como é mesmo o nome daqueles negócios que as pessoas dependuram na orelha, nariz, colocam na boca? Como é o nome, Adamastor?!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adamastor arrisca falar, mas é mais interrompido pela mulher:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você não sabe de nada mesmo, né, Adamastor?! – diz, bufando – Bem, não importa. Você sabe do que estou falando. Sinceramente, eu não sei por que hoje isso 'tá na moda. Uma perdição, isso sim. Artista faz isso porque é artista, quer chocar, e aí vem um Zé Ninguém e faz o mesmo. Ridículo, isso sim! Todo mundo agora quer ser artista hoje em dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O marido olha para o relógio e depois confere o visor do elevador. Faltam quatro andares. Dois segundos de silêncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ah, não me deixa esquecer de comprar as passas para a farofa e o arroz &lt;em&gt;à grega&lt;/em&gt;, viu, Adamastor?! Não vai esquecer, 'tá? No ano passado você não me lembrou e ficou faltando a ameixa preta e a &lt;em&gt;dondoca&lt;/em&gt; da Zumira logo disse que…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O elevador chega ao térreo e o marido sai rapidamente, sendo seguido pela mulher, que apressadamente anda atrás dele.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-6568888566906191618?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/6568888566906191618/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=6568888566906191618&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/6568888566906191618'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/6568888566906191618'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2009/12/conversa-no-elevador-episodio-natal.html' title='Conversa no elevador - Episódio: Natal'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-5232866297831932115</id><published>2009-12-10T17:21:00.001-08:00</published><updated>2009-12-10T17:27:56.795-08:00</updated><title type='text'>Par perfeito</title><content type='html'>Ele vivia com sono. Desde que nasceu, era um ser adorava dormir. Os pais, inicialmente, ficaram maravilhados com aquele bebê rosinha, que só queria saber de dormir e comer. Dormia a noite inteirinha, e esse negócio de dizer que, tendo criança nova em casa, a mãe pode esquecer o sossego do travesseiro não aconteceu com a genitora do pequeno Augusto Manoel Oliveira Sampaio Brito. Sim, esse era o seu nome de batismo, que logo foi esquecido. Por ser tão dorminhoco, rapidamente ganhou a alcunha, ainda no berço, de Morfeu. Até entrar para o colégio, o menino Morfeu pensava que esse era na realidade o seu nome. Seus pais, inicialmente, não ligavam muito por ver o guri dormindo tanto. &lt;em&gt;“Antes dormir do que ficar fazendo arte e aprendendo o que não deve”, &lt;/em&gt;diziam. Contudo, com o passar do tempo, eles começaram a ficar preocupados. Morfeu só queria saber de dormir. Dormia, dormia, dormia, e a preocupação dos pais crescia, crescia, crescia. O médico constatou: Augusto Manoel Oliveira Sampaio Brito não tinha nada. Apenas gostava de dormir, ponto final.&lt;br /&gt;Com o laudo médico em mãos, os pais de Morfeu se acostumaram com a ideia de que tinham um filho preguiçoso. O único filho – diga-se de passagem – era muito preguiçoso. &lt;em&gt;“Fazer o quê, né mesmo? Pior seria se fosse marginal”,&lt;/em&gt; argumentavam aos amigos e parentes que sempre comentavam, admirados, o quanto Morfeu dormia.&lt;br /&gt;Morfeu crescia e continuava a dormir. Era um custo fazê-lo levantar para ir ao colégio. O problema era tão sério, que ele chegou a repetir alguns anos porque não conseguia levantar cedo para ir às aulas na parte da manhã. Resultado: tiveram que matriculá-lo no curso da tarde. Não que isso melhorasse muito coisa, não; não melhorou, mas pelo menos ninguém começava o dia estressado ao tentar fazê-lo levantar da cama.&lt;br /&gt;O problema percorreu todo primário, ginásio e segundo grau. Quando arrumou o primeiro emprego, os pais desistiram de sonhar com uma faculdade. O problema continuou, mas, aí, como ele já era adulto, entregaram a situação para Deus. Só Ele mesmo é que daria jeito na preguiça do filho, falavam, conformados.&lt;br /&gt;A vida de Morfeu se resumia, então, a dormir a maior parte do tempo, ficando acordado o suficiente para ir bater o ponto de oito horas no trabalho. Mas, mesmo lá, na hora do almoço, ele dava o seu cochilinho, porque, afinal, ninguém de ferro!&lt;br /&gt;Contudo, a vida de Morfeu se transformou quando chegou ao escritório uma nova funcionária: Sonia Terezinha Madeira de Carvalho Brandão. Era uma menina tímida, que tinha olhos enormes, meio arregalados, e olhavam para o mundo como se tivesse acabado de receber um susto de algum engraçadinho. Não era bonita, mas também não se poderia dizer que fosse feia; isso certamente ela não era. Talvez faltasse um pouco de cor na face, um batom mais vermelho, uns dez centímetros a mais no quadril, uns 25 no busto, uma atitude mais... como direi?... uma atitude mais firme na vida. Sim, é isso. Faltava a Sonia uma atitude pró-ativa na vida. Muito magra, muito pálida e com aqueles dois olhões, não era uma figura feminina que despertasse interesse imediatamente. Não, não era. Contudo, entre uma cochilada e outra, Morfeu a notou. Na verdade, o dorminhoco de plantão não notou Sonia primeiramente, não. Ele ouviu comentários sobre ela, para depois notar sua presença. Uma tarde, logo depois do almoço, quando ele estendeu tanto a &lt;em&gt;siesta &lt;/em&gt;que seu chefe lhe chamou a atenção, Morfeu estava tomando o seu cafezinho básico, para ver se espantava o sono, quando ouviu a maledicência entre as fofoqueiras da &lt;em&gt;rádio corredor&lt;/em&gt;, envolvendo o nome da mais nova contratada da firma. O que mais chamou a atenção de Morfeu foi quando ouviu que Sonia sofria de um grande mal, &lt;em&gt;a insônia&lt;/em&gt;. As comadres atribuíam sua fragilidade física e emocional – por isso sua aparência, seus grandes olhos arregalados, sua constante tensão – à doença crônica que a quase beldade tinha.&lt;br /&gt;Morfeu ficou curioso e começou a olhar Sonia com olhos mais... como direi?... compridos. Contudo, o rapaz era muito tímido. Ele tinha pouca experiência no trato com o sexo oposto, já que passava a maior parte do tempo dormindo. Morfeu não trocava sua cama por hipótese nenhuma para ir se balançar numa balada. Não! A cama era seu lugar predileto, sempre. Porém os colegas de trabalho começaram a notar os olhares de Morfeu, já que Sonia, com aquele jeitão estressado, nunca notaria mesmo. Notaram e incentivaram que o dorminhoco de plantão se aproximasse da quase beldade. Mas sempre que surgia uma oportunidade, Morfeu rateava, saía de escanteio, pulava fora, &lt;em&gt;sartava de banda&lt;/em&gt;, enfim, escapulia mesmo. Um amarelão, era o que diziam os homens do escritório.&lt;br /&gt;Mas o final de ano estava chegando, e os funcionários se arregimentaram para planejar uma estratégia de guerra para juntar o casal de quase pombinhos. Sim, porque, com aqueles dois, só mesmo um detalhado plano de combate para derrubar a artilharia inimiga. Sabe como é, final de ano, em festa de escritório, as pessoas sempre ficam... como direi?... mais soltas, mais livres, mais desinibidas, mais... ah, você já entendeu o que estou falando, né ? Pois é.&lt;br /&gt;Então, resolveram oferecer várias opções de bebidas na festinha do escritório. Sonia já dizia para Deus e o mundo que não gostava de bebida alcoólica e que a única exceção era um ponche de maçã, bem fraquinho, a que ela se aventurava uma vez por ano, normalmente no Natal. Sabendo desta fraqueza, os colegas dos dois pombinhos logo incluíram na carta de bebidas &lt;em&gt;o drink&lt;/em&gt; preferido da quase beldade. Detalhe: a bebida da moça estava devidamente &lt;em&gt;batizada.&lt;/em&gt; Morfeu também nada bebia, pois imagine uma pessoa com tanta facilidade para dormir bebendo? No primeiro gole já cairia para trás. Contudo, os colegas do escritório – mal intencionados – colocaram um energético no seu vinho tinto e aí... Nas primeiras cinco horas, o dorminhoco de plantão ficou mais aceso do que fogueira de São João. Com essas duas estratégias de guerra, juntar o casal poderia parecer aos desavisados uma coisa fácil. Não foi, ambos ratearam, ratearam, cada um num canto do escritório. Mais &lt;em&gt;soltinhos,&lt;/em&gt; é bem verdade, mas ainda sem coragem suficiente para se aproximarem.&lt;br /&gt;Você já viu história de amor de filme romântico sem trilha sonora? Não, certo? Pois é. Algum romântico de plantão decidiu escolher uma trilha sonora para incentivar a aproximação. Quando os primeiros acordes de Roberto Carlos começaram a ecoar no salão, os olhares de Morfeu e Sonia se encontraram e aí, meu amigo, o Cupido fez o seu trabalho, direitinho, direitinho.&lt;br /&gt;Bem, para encurtar esta prosa, pois estou me estendendo muito: em menos de seis meses estavam os dois subindo ao altar. Claro que o escritório foi em peso e cada funcionário atribuía a si mesmo a ideia de juntar o mais novo casal.&lt;br /&gt;Resumo da ópera: depois que Sonia caiu nos braços de Morfeu, nunca mais sofreu de insônia. Por sua vez, Morfeu, desde que beijou Sonia, não conseguiu dormir com tanta facilidade assim. Hoje ele continua na firma, só que no cargo de chefia. Fez faculdade de Administração de Empresa, pós-graduação em marketing e MBA em gerência. Sonia saiu do escritório. Optou por cuidar dos pimpolhos: Soninha e Júnior.&lt;br /&gt;E foram felizes para sempre, acredite.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-5232866297831932115?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/5232866297831932115/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=5232866297831932115&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/5232866297831932115'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/5232866297831932115'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2009/12/par-perfeito.html' title='Par perfeito'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-6928035117055539754</id><published>2009-11-02T15:03:00.000-08:00</published><updated>2009-11-02T15:07:12.643-08:00</updated><title type='text'>Herança</title><content type='html'>Mariinha ganhou um par de brincos de água marinha quando completou 15 anos. Desde então, o acessório fez parte de sua longa existência. A delicada peça, uma pedra de límpido azul num engaste de prata artisticamente trabalhado, foi presente que o pai lhe deu pelo rito de passagem, num tempo em que o acessório era usado exclusivamente pelas representantes do sexo frágil. Não havia as modernidades de hoje.&lt;br /&gt;O brinco foi testemunha de sua vida. Em vários momentos – se não em todos – esteve presente: foi assim quando se formou no Curso Normal. Depois, quando concluiu a Universidade de Geografia. Ela o usava quando foi ao enterro do irmão, morto de repente num acidente na Dutra. Depois, no falecimento dos pais. Sempre em alguma data especial, estava lá o penduricalho sendo usado por ela.&lt;br /&gt;O brinco foi presença também em várias fases de sua vida, desde mocinha até hoje, quando ela se olha no espelho e não reconhece aquela senhora enrugada que já não traz nos olhos o brilho de outrora. Ah… o brinco de pedra azul combinava tantos com seus olhos verdes! Os rapazes diziam que pareciam duas esmeraldas. A pedra mais preciosa, a mais pura que a natureza foi capaz de criar! Agora são duas gemas opacas que ela só enxerga colocando os óculos. A vida é assim e ela já se conformou.&lt;br /&gt;Quer dizer, nem sempre. Há momentos em que Mariinha olha para os brincos e também para sua existência e vê o que foi capaz de fazer, ou melhor, o que não fez. Sente raiva. Sente ressentimento, e ressentir é sentir novamente, numa dor eterna.&lt;br /&gt;Se houvesse um Deus lá em cima não deixaria que todos fossem embora para bem longe. Muito longe. Mas aí o momento passa, é apenas um instante de rebeldia.&lt;br /&gt;Normalmente, depois do acesso de raiva e ressentimento, vem uma grande tristeza. Sim, tristeza por não ter para quem deixar os brincos, os lindos brincos que a acompanharam e que poderiam se eternizar nas orelhas de outrem. Uma neta, quem sabe até uma bisneta, talvez? Mas a vida não lhe agraciou com descendentes. Foi estéril de emoções.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-6928035117055539754?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/6928035117055539754/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=6928035117055539754&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/6928035117055539754'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/6928035117055539754'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2009/11/heranca.html' title='Herança'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-8803641919006556993</id><published>2009-10-19T14:17:00.000-07:00</published><updated>2009-10-19T14:20:08.267-07:00</updated><title type='text'>Unha</title><content type='html'>Era um homem comum. Quem o visse à primeira vista poderia até dizer: &lt;em&gt;“É um homem comum”&lt;/em&gt;. E era mesmo. Quer dizer, era comum até o momento em que tirasse os sapatos fechados. Ele usava um daqueles que são amarrados com cadarços, sabe?&lt;br /&gt;No momento em que tirava os sapatos, meu amigo!, não havia quem não virasse o rosto ou fizesse uma cara de espanto. O motivo? As grandes unhas dos seus pés. Imagine uma unha grande. Imaginou? Pois posso garantir: era maior. Muito maior. Maior do que possa imaginar sua vã filosofia! Isso eu garanto.&lt;br /&gt;Mas a unha não era apenas grande. Era grande, imensa, curvada e… como direi?… não quero ferir &lt;em&gt;temperamentos mais sensíveis…&lt;/em&gt; mas, vamos dizer, esbanjando eufemismo, que a unha do dito cujo não primava pela limpeza. Não que ele fosse parente de algum mamífero suíno, não, de jeito nenhum, posso garantir. Contudo, a unha era tão grande que não havia condição de ele próprio cuidar. Procurar um podólogo? Ele sequer era capaz de levar o pensamento em consideração. Tinha medo de o profissional querer lixar, cortar ou fazer sei lá o quê com aquelas garras, que ele tanto amava. Sim, porque era um grande amor o que o homem sentia por suas garras. É verdade, acredite. O aspecto era esse mesmo. Grandes garras agarradas nos seus pequeninos pés. Sim, porque ele não era um homem alto, mas também não poderíamos dizer que era um anão. Não, isso ele não era. Contudo, seus pés eram pequenos, diminutos até, poderíamos dizer que mais pareciam pés infantis, eram pés delicados como aquelas mulheres japonesas que usam lindos quimonos e têm de usar sapatos de madeira, para disciplinar as duas extremidades inferiores. Ele se sentia mal por ter pés tão femininos. Afinal, era macho sim, senhor, e ai de quem duvidasse! Não dizem que todo baixinho é invocado? Pois é. Ele confirmava a regra.&lt;br /&gt;Ter as unhas dos pés tão grandes não era fácil. Ele penava e pagava muitas vezes um alto preço por isso. Namoradas? Eram poucas as que se sujeitavam em ir para a cama com uma figura tão exótica. Se quisesse manter um relacionamento mais duradouro tinha que usar meias ou então abrir mão de sexo, porque invariavelmente, quando a garota olhava para os seus dois pés com aquelas garras enormes, o tesão ia para o ralo. Não havia chamego que fizesse a dita cuja esquecer as garras e se entregar aos prazeres de Vênus. Mas o homem seguia sua vida, conformado com sua condição e pagando o preço por ser um humano com garras. Mas aí um dia ele encontrou Zuleide. Sim, Zuleide era uma linda cabocla, de olhos negros, ligeiramente puxados, que faziam lembrar a noite sem lua. Uma nordestina arretada, um pouco acima do peso, é bem verdade, mas o homem não se importava. Ele gostava de pegar em carnes, esse negócio de mulher magrela demais não o agradava. Ao ver Zuleide, logo raciocinou: &lt;em&gt;“Isso sim é que é mulher!”&lt;/em&gt; Gostou do seu sorriso fácil, sua gargalhada espalhafatosa, mas o que o fez apaixonar-se verdadeiramente foi o tamanho de suas unhas. Sim, Zuzu – ele logo chegou cheio de intimidade com a cabocla – tinha umas senhoras unhas, destas de fazer inveja a qualquer mulher que se preze. Eram unhas enormes e muito bem cuidadas. Quando a cabocla disse sua profissão, o homem logo atinou com seus botões: &lt;em&gt;“É ela! Sim, Zuleide é a mulher da minha vida! Tinha que ser ela!”&lt;/em&gt; Sabe qual era a profissão da morena sestrosa? Acertou: manicure. Sim, manicure. Zuleide logo deu trela para o homem e foi lhe contando toda sua trajetória; como saiu de uma cidadezinha do interior da Paraíba e veio parar no Sudeste em busca de seu sonho e fugindo da miséria. Ao ser elogiada por sua beleza de unha, toda garbosa e sem um pingo de modéstia, disse: &lt;em&gt;“É bonita mesmo, não? Eu não tenho uma maior porque a profissão não deixa. Mas o meu sonho era ter uma unha tão grande como garras de uma poderosa águia. Sou portelense roxa! Adoro unha grande!” &lt;/em&gt;– confidenciou, dando uma risada escandalosa.&lt;br /&gt;Resultado: em menos de três meses estavam os dois subindo ao altar, na frente do padre e também do juiz.&lt;br /&gt;Não dizem que todo pé cansado tem seu chinelo velho aí perdido no mundo, pronto para ser encontrado? Pois é. O homem encontrou seu par, e hoje suas unhas dos pés continuam grandes, imensas, só que muito bem cuidadas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-8803641919006556993?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/8803641919006556993/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=8803641919006556993&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/8803641919006556993'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/8803641919006556993'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2009/10/unha.html' title='Unha'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-8848066039391797772</id><published>2009-09-28T09:39:00.000-07:00</published><updated>2009-09-28T09:42:43.225-07:00</updated><title type='text'>A menina de saia xadrez</title><content type='html'>Sempre de tarde, quando era um jovem mancebo – e isso já faz muito tempo! – via uma menina passar por mim vestindo uma graciosa saia xadrez. A moleca, sim porque era uma garotinha que sempre desfilava sorrindo de um jeito de quem iria dar muito trabalho aos pais dali a uns dez ou quinze anos, caminhava – lembro-me bem – com os cabelos negros balançando. Eram duas tranças artisticamente trabalhadas, que sempre terminavam com laços de fitas coloridas. Ela andava pela calçada, pisando como se o longo passeio público tivesse se transformado em um grande jogo de amarelinha.&lt;br /&gt;Não me pergunte o seu nome. Não sei. Não me pergunte onde morava, também não poderei dizer. Só sei do sorriso largo que ela me dava quando passava saltitando em frente à farmácia onde eu trabalhava. Um sorriso infantil, com uma charmosa ausência de dois dentinhos frontais. A saia xadrez fazia parte fazia parte do uniforme que ela usava para ir ao colégio, também não sei onde.&lt;br /&gt;Passados tantos anos, pergunto-me: Onde andará aquela menininha? Será que casou? Teve filhos? Encontrou um grande amor? Ou será que a vida – sempre ela – a tragou, a levou para as correntezas da desilusão?&lt;br /&gt;Não sei, não sei. Como posso saber, não é mesmo ?!&lt;br /&gt;O que sei é que eu não sou mais aquele mancebo, hoje sou um velho ancião. Eu sei… eu sei, estou me repetindo, pois ancião quer dizer que sou velho. Mas permita-me intensificar a minha idade. Demonstrar para você, que me lê – e não me vê –, o quanto de peso do tempo tenho acumulado nos ossos…&lt;br /&gt;O tempo passa como se fosse areia a se perder entre os dedos. Quando jovem, não tinha noção da rapidez e do poder de Cronos: um dia nasci e, sem saber o porquê, me vejo velho, tendo saudade de uma menininha de quem nem sei sequer o nome.&lt;br /&gt;Hoje vejo que meu menino interno, aquele que a vida volta e meia quis matar, queria sair e brincar com aquela menininha, como se fossem dois irmãos, dois primos, dois (quem sabe?) futuros amantes. Todavia, a vida me tragou e o menino que habitava em mim teve que crescer muito rápido, teve que sair, pagar contas, batalhar por um espaço na vida – docemente amarga vida. Com isso, a menininha ficou sem par. Hoje, lembro-me daquela garotinha de tranças negras com laços de fitas combinando com a graciosa saia colegial. Faço uma prece para que ela tenha sido feliz.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-8848066039391797772?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/8848066039391797772/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=8848066039391797772&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/8848066039391797772'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/8848066039391797772'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2009/09/menina-de-saia-xadrez.html' title='A menina de saia xadrez'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-5376891863746819611</id><published>2009-09-22T07:20:00.000-07:00</published><updated>2009-09-22T07:22:40.961-07:00</updated><title type='text'>O par de brincos</title><content type='html'>O brinco largado na mesinha de cabeceira do quarto. Foi isso o que ela deixou. Saiu apressada, sem escrever sequer uma despedida de batom no espelho. Foi embora, largando tudo, largando todos, largando o mundo… se largando. Nem do cachorro se despediu. Eles, o Poeta e Sérgio, ficaram lá, vendo-a sair com olhar perdido, de cão que caiu da mudança. Os dois. Órfãos.&lt;br /&gt;Sérgio não soube o que dizer, o que falar, como argumentar que ela não fosse embora. Diante do fato consumado, não houve argumentação possível. Não adianta argumentar com uma pessoa que não quer ser convencida, que não está aberta a possibilidades. É triste, mas é a pura verdade, ele constatou.&lt;br /&gt;Poeta ficou lá, olhando com aqueles dois olhos negros, de cachorro pidão, carente de afeto. Ele não teve força para abanar o rabo. A letargia de Sérgio contagiou o Poeta e sequer um tímido latido saiu de sua garganta. Ele não pensou nem ao menos em fazer alguma gracinha, recém-aprendida com ela, para elevar o moral do seu dono. Dono? Ele nem sabia quem era o seu dono. Poeta não se lembrava de quem ele elegeu para ser  seu dono. Dizem que os animais é que elegem  seus proprietários. Foi sempre assim, desde que o mundo é mundo, mas Poeta não se lembrava. A dor de vê-la sair era maior do que qualquer memória. Cachorro sente, caso você não saiba.&lt;br /&gt;E o apartamento ficou em silêncio. Se houvesse um relógio daqueles tic-tac na sala eles poderiam ouvi-lo em seu esplendor, mas marcador de tempo não havia. Ela levou também o rádio-relógio que  estava sobre a cabeceira da cama. Com isso, o tempo estacionou. Ficou um hiato pairando no ar. &lt;br /&gt;Ela levou quase tudo, mas esqueceu o brinco. E o silêncio da tarde se estendeu para a noite, passando pela madrugada e chegando ao amanhecer de um esplendido dia. Contudo, a tristeza pairava pelo apartamento no Catete. Os carros e a vida se movimentam lá fora. Mas no apartamento não havia vida, não havia esperança, não havia ela. Apenas o brinco. E o Poeta chorou.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-5376891863746819611?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/5376891863746819611/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=5376891863746819611&amp;isPopup=true' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/5376891863746819611'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/5376891863746819611'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2009/09/o-par-de-brincos.html' title='O par de brincos'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-1120632628102034736</id><published>2009-05-20T07:37:00.000-07:00</published><updated>2009-05-20T07:40:13.713-07:00</updated><title type='text'>Boa de cama</title><content type='html'>Sou boa de cama. Calma. Não vá pensar, leitor(a) amigo(a), que neste texto falarei sobre minhas intimidades na alcova. Não! Sou uma garota do interior e nascida no século passado. Tenho pudores.&lt;br /&gt;O que quero dizer é que na maioria das vezes durmo com facilidade. Ás vezes até aparece uma insoniazinha aqui, outra ali… Mas nada que me apoquente. Não perco o sono com a falta de sono. Por isso, na minha farmacinha, localizada numa gaveta do banheiro, não consta nenhum remédio que possa jogar-me nos&lt;em&gt; braços de Morfeu.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Contudo, dias atrás, não consegui dormir. O pior é que não havia motivo aparente para a insônia. As contas estavam em dia, a TPM já tinha sido concluída e o filho metaleiro da vizinha do 702 tinha viajado… Ou seja: tudo normal. Normalíssimo. Então por que não dormia?&lt;br /&gt;Sei lá!&lt;br /&gt;Não dormia, ora!&lt;br /&gt;E o que se faz numa hora dessas? Eu, normalmente, leio. Caso não adiante, vejo TV. Detalhe: com o som baixo para não incomodar o soninho do &lt;em&gt;pimpolho&lt;/em&gt; do 702. Normalmente esses dois instrumentos sempre me levam para os &lt;em&gt;braços do Morfeu&lt;/em&gt;  rapidamente.&lt;br /&gt;Escrever não é bom, já descobri, porque senão me empolgo e só paro às 13hs do dia seguinte.&lt;br /&gt;Mas e quando tudo falha? Meditar pode ajudar, mas tenho muita dificuldade de não pensar em nada. Fico sete segundos com a mente envolta numa tela branca e aí penso: &lt;em&gt;“Que bom! Não tô pensando!”&lt;/em&gt; Ou seja, já pensei!&lt;br /&gt;Sair e caminhar pelas ruas de madrugada poderia ser inspirador, mas a violência que impera faz com que não me empolgue com a ideia.&lt;br /&gt;Ligar para alguém, nem pensar! Telefone quando toca fora de hora é desgraça na certa. Olha o susto que poderia dar no(a) amigo(a) infeliz! Nem pensar. Fora de cogitação. Fico com a insônia, mas não perco a amizade.&lt;br /&gt;Outra coisa que pra mim não adianta: navegar pela internet. Fico entusiasmada e viro a noite, &lt;em&gt;facinho, facinho&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;Então o que fiz neste momento crucial? Bem, lembrei do conselho de uma ex-ministra: relaxei e gozei. Fui dormir depois das 5hs da manhã. Sem culpa, sem remorso, sem neura. Foi difícil, porque tenho um relógio interno que funciona pontualmente entre 6h15 e, no máximo, 6h30, e que me faz acordar. Mas nesse dia, no horário esperado, despertei, olhei para o relógio, virei para o canto e voltei a dormir. E ponto final.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;OBS.:&lt;/em&gt; Agora, aos(às) insistentemente curiosos(as) para saberem se sou ou não boa de cama: a modéstia faz com que fique calada.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;hehehehehehehehehe…&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-1120632628102034736?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/1120632628102034736/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=1120632628102034736&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/1120632628102034736'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/1120632628102034736'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2009/05/boa-de-cama.html' title='Boa de cama'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-1433595826953933385</id><published>2009-04-29T17:15:00.000-07:00</published><updated>2009-04-29T17:17:56.776-07:00</updated><title type='text'>O minuto eternizado</title><content type='html'>Domingo: o sol de abril brilhava como se fosse uma primavera européia e eu andava pela Rua do Catete quando me deparei com uma situação curiosa. Vi um pequeno aglomerado de pessoas olhando uma série de fotografias em preto e branco. Um camelô as vendia e gente de variadas idades circulava ao redor das araras onde estavam dependuradas. Tinha velhos (melhor dizendo, em época do &lt;em&gt;politicamente correto&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;“pessoas da melhor idade”&lt;/em&gt; ou &lt;em&gt;“gente da Terceira Idade”&lt;/em&gt;); havia adolescentes e também homens e mulheres nem tão novos, nem tão velhos. Mãe empurrando um carrinho de bebê também olhava para as imagens do passado, assim como donas de casa, turistas, domésticas, surfistas e gatinhas douradas pelo &lt;em&gt;“sol que resplandecia no firmamento”&lt;/em&gt;. Ou seja: um amontoado de gente interessada naquelas fotografias do Rio antigo. O passado chegou aos olhos das pessoas que olhavam os instantâneos de uma realidade que não volta mais.&lt;br /&gt;A fotografia tem essa capacidade mesmo. Sempre fui apaixonada por foto em preto e branco, porque ela traz em seu bojo uma dramaticidade que a colorida não tem. As cores distraem a visão do que vemos da vida, o preto e branco não.&lt;br /&gt;Mas não era isso que queria contar. O interessante foi ver a fisionomia e a reação de cada um. Pouco mirei as fotos, porém o que fiz mais foi o exercício de apreciar a alma humana.&lt;br /&gt;Havia um senhor (com cerca de 80 anos) que olhava os Arcos da Lapa como se tivesse saudade do quintal de sua casa, com um olhar serenamente triste.&lt;br /&gt;Um turista espiava as fotos sem entender direito e ria, comentando (em inglês) com o colega as cenas curiosas que via. Nada muda. Nós sempre fomos encarados - e ainda continuamos sendo - pelos europeus como algo estranho, uma espécie que merece ser estudada e analisada perante a grande cultura do Velho Mundo.&lt;br /&gt;Uma jovem sorria ao ver a imagem dos transeuntes caminhando na Avenida Rio Branco. Era outro tempo, um tempo em que as mulheres vestiam elegantemente chapéus e os homens cerimoniosamente usavam gravata e terno, como se fossem para algum evento formal. A vida era mais formal. Havia o certo e o errado apenas, a teoria da relatividade ainda não tinha chegado ao convívio social. Bons tempos, bons tempos...&lt;br /&gt;Fui para casa e peguei minhas próprias fotos. Busquei o álbum amarelado, esquecido numa caixa qualquer, e revi gente querida, pessoas que se foram de uma maneira ou de outra. Vininha (perdoe-me a intimidade como trato o poeta Vinícius de Morais) sempre disse que a vida é a arte dos encontros e desencontros. É verdade, poeta amado. E a foto tem esta capacidade de trazer o que passou. O abstrato e o imponderável se concretizam no minuto eternizado.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-1433595826953933385?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/1433595826953933385/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=1433595826953933385&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/1433595826953933385'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/1433595826953933385'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2009/04/o-minuto-eternizado.html' title='O minuto eternizado'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-7961322070060671485</id><published>2009-04-15T09:03:00.000-07:00</published><updated>2009-04-15T09:05:57.173-07:00</updated><title type='text'>Mãe (*)</title><content type='html'>O tempo passou, o mato cresceu e hoje sequer preciso fechar os olhos para ver sua figura risonha a abrir os braços para que pudesse aconchegar-me. Eu sabia ser o feliz proprietário de um abrigo seguro e reconfortante, onde podia esconder-me do mundo. Sim, porque, diferente de outros meninos, fui muito temeroso da vida, desde pequeno. O mundo parecia - aos meus olhos infantis - um lugar assustador. Ficar no escuro era motivo de temor, porque o &lt;em&gt;bicho papão&lt;/em&gt; se escondia dentro do guarda-roupa, esperando que você saísse para me atazanar, logo depois de sua figura maternal dar-me o último beijo da noite.&lt;br /&gt;Eu dizia, rotineiramente, que nunca cresceria, nunca, nunca, nunca! Que ficaria sempre assim, infante, um eterno Peter Pan na &lt;em&gt;Terra do Nunca&lt;/em&gt;, para que você estivesse ao meu lado sempre, sempre e sempre. Você lembra? Pois é...&lt;br /&gt;Era também categórico ao afirmar que você sempre estaria aqui comigo, dizia apontando o lado do coração. Nunca fui bom em distinguir o lado direito do esquerdo, por isso invariavelmente apontava o esquerdo quando na verdade queria dizer o direito – ou vice-versa. Lembra? Você ria e explicava o lado certo, mas não tinha jeito: eu errava, sempre.&lt;br /&gt;Agora mesmo sou capaz de ouvir seu riso, suave, parecendo aqueles sininhos que ficam dependurados nas árvores de Natal e a brisa faz balançar suavemente.&lt;br /&gt;Pois é, mamãe, o tempo passou e eu cresci, mas continuo tendo você no meu coração, na minha mente, em minha alma.  O amor permeia  nossa relação até hoje e nos une como se fosse cola feita no céu, que nenhuma ação humana pode separar.&lt;br /&gt;Sinto saudades, muitas saudades.&lt;br /&gt;Há momentos em que sou ainda aquele menino temeroso do mundo, do  vasto mundo que é grande, muito grande, maior do que eu ou você. Mas, hoje, tenho que tomar decisões, trabalhar, competir e viver nesse planeta chamado Terra. Contudo, se hoje me tornei este ser capaz de lidar minimamente com a vida, foi por sua causa, por seu carinho, por seu incentivo. Eu, que fui um menino temeroso, amedrontado pelo &lt;em&gt;bicho papão &lt;/em&gt;que morou escondido no armário, conheci o mundo, cidades, países… O mundo se abriu, e hoje sei que posso derrotar o &lt;em&gt;bicho papão,&lt;/em&gt; porque tenho certeza de que sua força, carinho e amor estão aparando-me. Sou um adulto feliz e seguro, cresci, mas uma coisa não mudou: eu nunca, nunca, nunca vou me afastar de você, mãe. Você está sempre aqui e aqui – do lado esquerdo e também do direito –, a me inundar o peito, sua doçura me forra a alma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(*) Texto inspirado na obra &lt;em&gt;“Nazarenas e Matrioskas”,&lt;/em&gt; de Margarida Rebelo Pinto.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-7961322070060671485?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/7961322070060671485/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=7961322070060671485&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/7961322070060671485'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/7961322070060671485'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2009/04/mae.html' title='Mãe (*)'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-6791158375010930045</id><published>2009-03-30T10:31:00.000-07:00</published><updated>2009-04-05T07:55:48.018-07:00</updated><title type='text'>Cena de Ciúme</title><content type='html'>&lt;strong&gt;SEQ. 01 – QUARTO DE LÚCIA/INTERIOR/NOITE&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;No vão da porta, Laís, 20 anos, olha demoradamente Lúcia, 42 anos, se arrumando. Lúcia veste minissaia de couro preto, blusa rosa-choque transparente e sutiã de renda preto; nos pés, sapatos Luiz XV, pretos.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;LAÍS&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Vai sair?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;LÚCIA&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Querida &lt;em&gt;(irônica),&lt;/em&gt; em plena sexta-feira VOCÊ acha que ficaria em casa curtindo novelinha de TV? Ah, fala sério! &lt;em&gt;(passa o batom e ajeita o cabelo).&lt;/em&gt; E você? Não vai sair com a Paulinha e a Bárbara?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;LAÍS&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Não! &lt;em&gt;(desanimada)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;LÚCIA&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Brigaram? &lt;em&gt;(indo ao guarda-roupa e trocando o cinto que usa na minissaia)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;LAÍS&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Não, não brigamos. Não vou sair porque amanhã tenho prova de inglês.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;LÚCIA&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Graças a Deus, já passei por esta etapa na vida! Há vantagens em não ter mais 20 anos! &lt;em&gt;(diz, sorrindo)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;LAÍS&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Mãe, você não acha que esta saia está muito curta?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;LÚCIA&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(olhando para as pernas)&lt;/em&gt; Curta? Você acha?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;LAÍS&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Sim, acho.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;LÚCIA&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Por quê? Tá vendo varizes? Tô com celulite? &lt;em&gt;(olhando com atenção em frente ao espelho, na frente e por trás).&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;LAÍS&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Não, mãe. Não tem varizes ou celulite.&lt;em&gt; (suspirando)&lt;/em&gt; Só acho que não fica bem você nesta idade usar uma roupa tão curta. &lt;em&gt;(diz, desgostosa)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;LÚCIA&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(olha para Laís por alguns instantes)&lt;/em&gt; Eu não acredito que ouvi isso de você, Laís. Estamos em pleno século XXI! Se fossem meus avós que estivessem vivos ainda falando isso, podia até ser… Mas VOCÊ?! Ah, fala sério, Laís! Tem dó. &lt;em&gt;Mi mira&lt;/em&gt;, mas me erra!&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;LAÍS&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Tá vendo, mãe?&lt;em&gt; (indignada)&lt;/em&gt; Até seu palavreado é adolescente! Eu é que deveria estar dizendo “fala sério”. Você tem idade para ser avó e fica aí usando minissaia como se tivesse 15 anos! Mãe, você já passou dos 40! &lt;em&gt;(indignada)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;LÚCIA&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Amada filhinha do meu coração, no tempo de Balzac uma mulher de 30 poderia ser considerada velha. Mas hoje, uma mulher de 50 anos é ainda uma gatona, convidada pra pousar para a Playboy e tudo mais. Desencarna, Laís. Vai curtir sua vida e me deixa em paz, curtindo a minha!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;LAÍS&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Você faz isso porque papai não está mais aqui. Se ele estivesse, duvido que fizesse metade do que tá fazendo agora. Daqui a pouco vai me apresentar um garoto de 18 anos como seu namorado! &lt;em&gt;(gritando)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Laís sai do vão da porta do quarto de Lúcia e caminha pelo corredor até a sala. Lúcia a segue. Câmera deriva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;LÚCIA&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Só que seu querido paizinho não está mais aqui, Laís! &lt;em&gt;(gritando)&lt;/em&gt; Tá ouvindo??! &lt;em&gt;(gritando mais alto)&lt;/em&gt; Tá ouvindo??!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;LAÍS&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;É claro que ele não tá mais aqui! Por que ficaria aqui tendo uma megera indomada como mulher? &lt;em&gt;(diz, se atirando no sofá)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;LÚCIA&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Sabe qual é o seu problema? Você tem ciúme de mim, Laís! Ciúme e inveja, porque eu não morri quando o seu pai saiu desta casa! A opção foi dele, não minha! Foi ele que nos deixou para viver uma crise de meia-idade com uma ninfeta de 18 anos! Foi ELE que colocou uma garota de 18 anos aqui nesta casa, não eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;LAÍS&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Ah, faz favor, mãe! Se meu pai foi embora foi porque você não era boa esposa. Você pensa que eu não escutava as brigas de vocês de madrugada, falando baixinho? A quem você pensa que engana? A mim?! &lt;em&gt;(revoltada)&lt;/em&gt; Sabe qual é o seu problema?! O seu problema é que você não aceita que não tem mais 18 anos, que já passou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;LÚCIA&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Eu sei que não tenho 18 anos, tá ouvindo, Laís?!&lt;em&gt; (revoltada)&lt;/em&gt; Eu SEI, VIU ? Só que eu  sou uma mulher bonita e cheia de vida. Se SUA vida é uma merda, não venha descontar em mim! TÁ ouvindo? Cresça, Laís. Cresça!&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;LAÍS&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Se tô com dificuldade para crescer deve ser por herança genética! &lt;em&gt;(irônica)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;LÚCIA&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Qual é o seu problema, hein? &lt;em&gt;(um grande suspiro de desanimo)&lt;/em&gt; Por que você não pode me ver feliz, hein, minha filha?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lúcia e Laís se olham demoradamente, até que Laís sai correndo da sala, chorando. Lúcia faz um movimento de seguir Laís, mas desiste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;CORTA PARA&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-6791158375010930045?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/6791158375010930045/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=6791158375010930045&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/6791158375010930045'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/6791158375010930045'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2009/03/cena-de-ciume.html' title='Cena de Ciúme'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-2733844893003870977</id><published>2009-03-17T05:46:00.000-07:00</published><updated>2009-03-17T05:50:52.998-07:00</updated><title type='text'>Procura-se uma viúva</title><content type='html'>Interior da Capela Mortuária São José Carpinteiro. Matilde e Donana, duas senhoras de 80 e 82 anos, respectivamente, entram ao local e percorrem os olhos no ambiente, como se procurassem alguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Donana, quem é a viúva? – sussurra Matilde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você sabe que não sei, Matilde – diz Donana, mal disfarçando a irritação. – Só sei que é uma mulher muito jovem. Não sei onde Osvaldo estava com a cabeça de casar com uma garota que tem idade para ser sua neta!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Neta?! Você está sendo muito generosa, Donana! Pelo que ouvi falar, a garota tem idade para ser bisneta dele. Realmente, homem não pensa com a cabeça de cima! Onde já se viu uma coisa dessa?! – diz ironicamente indignada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É claro que ela deu o golpe do baú, porque convenhamos, ninguém é capaz de se apaixonar por um velho de 87 anos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas como vamos descobrir a viúva no meio de tanta gente? – indaga Matilde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ah, basta ver uma garota que seja nova e que esteja chorando – argumenta Donana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Chorando de mentirinha, né? Pois com a polpuda pensão que receberá do Exército, ela deve estar mesmo é soltando rojões! – diz invejosamente Matilde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Venha, vamos olhar as pessoas. Precisamos dar os pêsames à viúva. – diz Donana, puxando a amiga na direção do caixão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No caminho, ficam observando para ver se encontram a jovem viúva do amigo de infância. Há pessoas de todas as idades no velório do general Osvaldo Viana. Há, inclusive, uma mulher jovem, com &lt;em&gt;piercing&lt;/em&gt; e tatuagens, fumando e soltando gargalhadas que chamam a atenção de Matilde e Donana. Elas se olham, questionando se a tal figura poderia ser a viúva do general, mas desistem da ideia. Osvaldo não estava tão senil assim.&lt;br /&gt;As duas velhinhas caminham e, ao se aproximarem do caixão, veem uma bela jovem pálida, de óculos escuros, com um vestido sóbrio e fisionomia triste. Olham entre si e concordam simultaneamente, sem falar nada: “É ela!”&lt;br /&gt;Penalizadas com a dor da viúva, as amigas do general esquecem as maledicências de há pouco e tentam consolar a jovem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Minha filha, não fique assim! – diz Matilde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você tem uma vida pela frente! – emenda Donana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A jovem tira os óculos escuros e olha para as duas com espanto. Tenta falar alguma coisa, explicar, mas nenhuma das velhinhas deixa que ela emita qualquer palavra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você é jovem, encontrará um homem bom! Osvaldo certamente abençoará a nova união! Você vai ver, Nosso Senhor Jesus Cristo vai ajudar. Faça uma novena para São Benedito que logo, logo, você arranjará outro amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A jovem ainda tenta explicar, mas é interrompida por Donana:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não precisa falar nada, nós entendemos a sua dor. Eu também fiquei desolada quando perdi meu marido, há quase 20 anos. Mas a vida continua. Você vai ver. Vai passar – diz a velhinha, dando dois tapinhas amigáveis na mão da jovem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A garota faz uma cara esquisita, entre choro e riso e, pegando um lenço da bolsa, segura-o em frente à boca e começa e emitir sons como se estivesse soluçando. Matilde e Donana, desoladas, não sabem o que fazer com a jovem. Cada vez que elas tentam consolá-la, a garota soluça mais e mais forte. Donana sai em busca de um copo de água para dar à garota. No meio do caminho, encontra o irmão do general, Paulo, e diz aflita:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Arrume um copo de água para a viúva, ela está desesperada ali no caixão!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas aquela ali não é a viúva de Osvaldinho! – diz espantado Paulo – A viúva de meu irmão é aquela ali, perto da saída – e mostra a moça com &lt;em&gt;piercing&lt;/em&gt; e tatuagens, que fumava e gargalhava a plenos pulmões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quê?! Mas então quem é aquela jovem ali no caixão, com cara de desolada? – indaga espantada Donana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Aquela é a Glorinha, filha do general Roberto Duval, que morreu há poucos dias. Ela está assim triste pela morte do pai. Duval era muito ligado ao meu irmão.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-2733844893003870977?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/2733844893003870977/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=2733844893003870977&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/2733844893003870977'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/2733844893003870977'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2009/03/procura-se-uma-viuva.html' title='Procura-se uma viúva'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-5874852624053822636</id><published>2008-12-05T09:13:00.001-08:00</published><updated>2009-05-06T13:45:40.691-07:00</updated><title type='text'>Além da porta (*)</title><content type='html'>Uma porta que não se abre nunca nunca nunca nunca nunca nunca nunca nunca nunca nunca nunca nunca… nunca. Nunca é um tempo muito longo e eu estava lá em frente desta porta e continuava a chover, chover, chover e eu parado dentro da chuva. O maço de cigarro que antes estava molhado agora se encontrava encharcado de dar dó, irremediavelmente molhado e tudo o que eu queria era entrar para podermos juntos tomar o conhaque e assim, em algum momento da noite esta friagem úmida - que me entorpecia a alma e os ossos - parasse de me castigar, esta era a minha esperança. Mas a porta continuava lá, impávida e colosso e eu insistia batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo e ela parada minando a minha esperança sem nunca abrir nunca nunca nunca nunca nunca nunca nunca nunca nunca nunca nunca nunca… nunca. Os pulsos castigados pela ação insana mostravam já sinais de fadiga, a pele delicada se tornara vermelha e dói uma dor que não vem do corpo, mas um sofrimento que vem do ser antes do ego, numa pré-existência. Chovia, chovia, chovia e eu lá parado, dentro da chuva esperando que a porta se abrisse. Sou insano, pensei num momento de lucidez. E fui pensando que ele iria pensar que sou insano e não queria que ele pensasse que sou, mas sou. De nada adianta saber tantas coisas, de nada adianta, nada nada nada nada nada… minha vida é um nada, pensei com o coração condoído. Não quero que ele pense que minha vida é um nada, apesar de ser. Não quero, não quero, mas ela é. Chovia, chovia, chovia e eu lá parado. Escurecia e a porta continuava o que sempre foi, quieta, impossibilitando de concretizar a minha esperança de afinal sair do sofrimento e da dor. Chovia e parecia que estava vivenciando um sonho um pesadelo uma experiência metafísica, sei lá. Não sei de nada e não quero que ele pense que não sei nada mesmo sabendo que não sei. O breu da noite me envolveu completamente enquanto chovia. Será que estou vivendo um pesadelo? Será que esta porta realmente existe? Será que morri? E se morri não sei onde estou. Ah, pensei encostando com a cabeça na porta sem deixar de continuar a bater, seria tão bom se ele estivesse ali para abrir aquela bendita porta! Minhas pernas entorpecidas pelo frio pela chuva pela umidade pela friagem e pela vida não eram confiáveis, não se confia em que não merece confiança. Não quero que ele pense que minhas pernas não são confiáveis e elas não são. Não sei o que quero, quero – talvez – que ele me veja mas não muito profundamente apenas na superfície de um prato raso onde se possa colocar um morno leite para se dar a um gato.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(*) Inspirado no texto de Caio Fernando Abreu:&lt;em&gt; Além do ponto&lt;/em&gt;. Este texto é o resultado de um exercício que fiz. A professora pediu que continuássemos o texto do Caio e o resultado foi a história acima.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-5874852624053822636?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/5874852624053822636/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=5874852624053822636&amp;isPopup=true' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/5874852624053822636'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/5874852624053822636'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2008/12/alm-da-porta.html' title='Além da porta (*)'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-6661316645765784733</id><published>2008-11-28T15:54:00.000-08:00</published><updated>2010-07-24T19:11:42.002-07:00</updated><title type='text'>João Valentão (*)</title><content type='html'>João Valentão. Este era o seu nome. Conhecido pelas redondezas e também pelas bandas de lá e de cá, sua fama corria estrada, chegando até onde a vista não alcança. Desde pequeno, quando ajudava o portuga do armazém a descarregar sacos de batata e de farinha, já mostrava seu dom para a briga. Com a lida de carregar peso, os músculos cresceram e também sua valentia, tornando-o uma figura notória. Bastava ele chegar para que a conversa diminuísse, quem estivesse por perto logo ficava pianinho, não importava se era doutor, juiz, padre ou sacristão. Qualquer mortal tremia na base quando aquele negro, de quase dois metros de altura e com um peito de remador, concentrava seu olhar avermelhado e penetrante em cima do dito cujo.&lt;br /&gt;Moça de família não se atrevia a olhar mais do que duas vezes para sua figura lendária. Mesmo as meninas da &lt;em&gt;Luz Vermelha&lt;/em&gt; tinham medo quando ele chegava à casa da polaca Madame Fifi, que tinha um falso sotaque francês. Elas temiam ir para cama com ele e fazer alguma coisa que desagradasse, mas também tinham medo de recusar carinhos e padecer pela ofensa praticada. Quando ele ia ao local uma tensão pairava no ar e quem fosse a escolhida era olhada com compaixão pelas outras. Afinal, a infeliz teria que se deitar com o diabo em forma de gente.&lt;br /&gt;Contudo, vida de valentão não é fácil não, seu moço. Posso garantir. Não é sem esforço. É como minha avó sempre dizia: &lt;em&gt;Cria fama, deita na cama.&lt;/em&gt; Fazer sucesso não é simples, mas se manter no topo, ah, isso sim é muito difícil. Volta e meia aparecia algum filho de uma boa mãe querendo medir força com ele. Com seus bíceps de aço, que tinham a circunferência de três palmos de mão de um homem adulto, João sempre conseguia uns trocados extras em disputa de queda de braço. Isso enchia de coragem aqueles que não tinham valentia suficiente para xingar o valentão, chamando para uma briga, tendo uma atitude de homem. Então apostavam com ele uma queda de braço. João sabia que quando perdesse uma queda de braço, seria o início do fim do seu reinado naquelas bandas de meu Deus. João Valentão não tinha ilusão de que se não fosse por sua força e cara de anjo caído, seria apenas mais um João, pobre, analfabeto de pai e mãe, comendo quando Deus quisesse e padecendo de frio. Um esquecido. Por isso, quando algum homem aparecia querendo enfrentá-lo, João Valentão logo sentia o peito oprimir, não importando se o cabra em questão fosse parrudo ou não. João tinha medo de perder o poder e se transformar em apenas um simples &lt;em&gt;João.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Como tudo aquilo de que se tem um grande medo normalmente se concretiza, materializando os mais temidos pesadelos, um dia surgiu um adversário para o valentão das redondezas. Mas não era um adversário comum não, conforme esperava o João. Na verdade era uma adversária. Isso mesmo, uma mulher de saia esvoaçante e com nome de mar: Marina. Realmente, seu moço, a mãe da pequena estava inspirada pelo &lt;em&gt;Padim Ciço&lt;/em&gt; ao escolher o nome da filha, pois os olhos da mulata eram tão verdes como o mar de Itapuã em dia ensolarado, sem nenhuma nuvem. Uma belezura de fazer gosto a qualquer poeta de botequim ou mesmo àqueles que apareciam com versos na Gazeta.&lt;br /&gt;João logo quis se aproximar de tão bela formosura, mas a moça, de família, não lhe dava bola e de nada adiantavam os agrados que enviava por moleques. João tinha interesse sério pela mulata brejeira, do tipo fazer promessa em frente ao juiz e do padre. Mas Marina não se comovia e certa vez mandou recado dizendo que parasse de enviar tantos agrados, que os presentes de nada valiam, pois ela não queria acabar a vida sendo viúva antes do tempo por ter casado com o valentão daquelas bandas. Se ele realmente a quisesse, teria que largar a vida de valentia e se tornar um homem comum, um João qualquer. O amor, seu moço, é capaz disso. De transformar a sina de um valentão em um João como tantos os outros Joões. O Valentão deixou a valentia de lado, pegou a morena e sumiu num galope, neste mundo de meu Deus. Hoje ninguém sabe mais que fim levou. Há quem diga que eles moram lá depois da Mata Seca, num fim de mundo de &lt;em&gt;Padim Ciço&lt;/em&gt;, com um bando de filhos de olhos verdes. João planta e colhe apenas macaxeira, vivendo da terra com a valentia do seu suor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(*) Inspirado na música de Dorival Caymmi: “João Valentão”. Exercício feito na Faculdade de Letras/Formação de Escritor em cima da música de Caymmi.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-6661316645765784733?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/6661316645765784733/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=6661316645765784733&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/6661316645765784733'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/6661316645765784733'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2008/11/joo-valento.html' title='João Valentão (*)'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-4440519466396245232</id><published>2008-11-21T14:17:00.000-08:00</published><updated>2008-11-24T09:45:39.566-08:00</updated><title type='text'>Aniversário (*)</title><content type='html'>&lt;span style="color:#000000;"&gt;A vida passa e, na soma dos anos, as lembranças vão-se acumulando nas dobras do coração. Não sei quando comecei a sentir-me velha. Talvez nunca tenha me dado conta de que estava envelhecendo, até ouvir os outros começarem a me chamar de &lt;em&gt;senhora.&lt;/em&gt; Hoje completo 78 anos, e mais uma velinha colocarei em cima do bolo – se houver, é claro… se alguém lembrar que hoje é a data em que nasci.&lt;br /&gt;Desde a hora em que acordei, o gosto do bolo de aniversário que mamãe fazia –quando eu era pequena – surgiu na boca. Adorava seu bolo. Ele era feito – a cobertura - com glacê de açúcar, e não de manteiga, no estilo de receita de suspiro, só que sem levar ao forno. A cobertura do bolo era com este glacê e coco ralado. Uma delícia! Melhor alquimia não há. O recheio? Doce de leite cremoso comprado da dona Ritinha, uma sitiante que vivia aparecendo lá em casa para vender coisas da roça. Bons tempos, bons tempos.&lt;br /&gt;Hoje, aniversário de criança já começa no primeiro ano. No meu tempo só se fazia festa para comemorar os anos quando o pequeno, ou a pequena, podia desfrutar, ou seja: depois dos cinco anos. Comigo foi assim, com meu irmão Otavinho também e do mesmo jeito aconteceu com meus primos e primas.&lt;br /&gt;Minha festa era muito simples, mas a alegria imperava e vejo, com os olhos do coração, hoje, aqueles momentos com muita saudade. No meu aniversário tinha bolo, ponche de maçã - sem álcool - com pedacinhos da fruta boiando e bala de coco enrolada em papel cor de rosa. Naquele tempo não tinha bola ou enfeites de festa temática com personagens do mundo infantil. Contudo, havia o cuidado ao se escolher a melhor toalha. Minha mãe usava uma bordada, da Ilha da Madeira, que ela sempre dizia que ficaria para o meu enxoval. Nas festas, os talheres e pratos que não se usavam no dia-a-dia saíam das gavetas e armários e os utilizávamos com toda a cerimônia que o ritual exigia. A casa ficava completamente iluminada e não havia quem não fosse convidado.&lt;br /&gt;Os anos passaram, e estou aqui a relembrar o poema de Fernando Pessoa: &lt;em&gt;“Hoje já não faço anos. Somam-se-me dias. Serei velho quando o for. Raiva de não ter trazido o passado guardado na algibeira.” &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;(*) Texto inspirado no poema "Aniversário" de Fernando Pessoa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-4440519466396245232?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/4440519466396245232/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=4440519466396245232&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/4440519466396245232'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/4440519466396245232'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2008/11/aniversrio.html' title='Aniversário (*)'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-4868670275719705041</id><published>2008-09-12T17:43:00.000-07:00</published><updated>2008-09-19T16:47:14.698-07:00</updated><title type='text'>O amor (*)</title><content type='html'>Mas o que é o amor? Disse o poeta que&lt;em&gt; "o amor é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói e não se sente, é um contentamento descontente entre a gente".&lt;/em&gt; Mas somos todos capazes de amar? Existe amor incondicional neste mundo, onde o mal parece imperar dos dois lados do hemisfério?&lt;br /&gt;Ah, você dirá que sim! Afinal as mães estão aí mesmo para provar o quanto se pode amar.&lt;br /&gt;Disse outro poeta (como você pode notar, eu adoro poesia) que amar é um verbo que se conjuga no intransitivo. É verdade. O amor, o verdadeiro amor, é intransigente, não se negocia, tão obstinado que às vezes vira burro.&lt;br /&gt;Tantos poetas, filósofos e bebuns podem dizer coisas tão mais bonitas do que esta que lhe escreve!&lt;br /&gt;Sinceramente, meu querido, não sei o que é o amor. Sei que ele mora no meu coração quando vejo uma foto dos meus pais, quando recebo algum e-mail de um amigo ou mesmo quando leio um texto de Shakespeare – não importa se tragédia ou comédia. Nesse momento, sinto o amor pulsando em meu ser. Ah, o amor me invade, quando vou ao cinema, e lá na escuridão da sala, aquela tela imensa me absorve! E olha que nem precisa ser filme romântico para sentir tal sentimento!&lt;br /&gt;Vou repetir o que meu tio Plínio sempre me disse: o amor não se explica, se sente, e quem o abriga no coração tem a existência mais rica, é feliz, mesmo enfrentando todos os entraves que a vida traga – e ela, acredite, sempre traz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(*) Texto inspirado no poema de "Claro enigma" de Carlos Drummond de Andrade&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-4868670275719705041?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/4868670275719705041/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=4868670275719705041&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/4868670275719705041'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/4868670275719705041'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2008/09/o-amor.html' title='O amor (*)'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-1464085963914486392</id><published>2008-09-01T18:43:00.000-07:00</published><updated>2008-09-01T18:46:09.336-07:00</updated><title type='text'>Carta de exoneração</title><content type='html'>Rio de Janeiro, 15 de agosto de 2008&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ilmª. Sra. Dra. minha juíza-generala&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Venho por meio desta comunicar-lhe  que a partir de hoje a senhora está exonerada do cargo de minha juíza-generala. A justificativa para o desligamento em minha vida se dá pelo simples fato de que seus trabalhos não são mais necessários. Durante muitos anos, sua presença foi fundamental para formar o caráter que tenho hoje e lhe agradeço por isso. Contudo, os tempos são outros. É desnecessário lembrar que hoje sou uma mulher adulta, vacinada, dona do meu próprio nariz e que tenho discernimento para decidir o que é melhor ou não.&lt;br /&gt;Nossa convivência diária fez com que me tornasse uma pessoa detalhista, preocupada em apresentar o meu melhor sempre. Tal aprendizagem tem seu caráter positivo. Problemas começaram a ocorrer quando esta qualidade ultrapassou seus limites e não ser perfeita se transformou em uma grande dor. A cada pequeno erro, a vergonha e a decepção se acumulavam no peito, tornando a vida difícil. Ora, a senhora e eu sabemos que não existe perfeição absoluta na Terra. Mesmo os objetos, pensamentos ou seres humanos que podem ser considerados perfeitos em determinada época, não o são para posteriores gerações. A vida é um moinho, como já disse o poeta, e na boca do tempo tudo se acaba, tudo se desestrutura e o pó se faz presente, transformando a existência em dunas e desertos.&lt;br /&gt;Mesmo sabendo que nenhum ser humano é perfeito, paradoxalmente teimo em sofrer por não sê-lo. Atribuo minha insana insistência ao convívio diário com a senhora. É bem verdade, e isso preciso admitir, que nossa relação hoje não é mais a mesma. O tecido social de nosso convívio, sinto-o desgastado. Convém lembrar que antes a senhora era dada a gritos, exaltações, berros que atordoavam minha alma juvenil e insegura, própria de adolescente que busca a aprovação do outro. Hoje, nosso convívio é diferente: a Ilmª. senhora já não mais grita e muito menos berra, apenas sussurra. Porém, quero lhe falar que muitas vezes sua voz sussurrante e delicada atinge minha couraça mais profundamente do que seus berros do pretérito. Com o passar dos anos, a senhora – que é extremamente inteligente, admito – aprendeu a lidar com meu crescimento e utiliza como arma a sutileza nas colocações. Sua acidez e ironia, muitas vezes, maltratam meu coração, apesar da idade acumulada na roda da vida. Por tudo isso, acredito que nosso relacionamento se tornou insuportável e não convém mais insistir numa relação tão saturada.&lt;br /&gt;Creio que uma separação amigável é sempre mais conveniente do que brigas litigiosas de qualquer espécie. Que cada uma vá para o seu lado e desfrute das lembranças dos momentos bons que vivemos. O resto é resto e não vale a pena ressenti-se dele eternamente.&lt;br /&gt;Por isso, venho lhe comunicar o caráter definitivo desta exoneração. Convém ressaltar que a senhora não poderá apelar para nenhuma instância superior, seja neste planeta Terra ou mesmo fora da órbita solar.&lt;br /&gt;Seja feliz, eu estou sendo.&lt;br /&gt;Atenciosamente,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Carla Giffoni&lt;br /&gt;Cumpra-se!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-1464085963914486392?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/1464085963914486392/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=1464085963914486392&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/1464085963914486392'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/1464085963914486392'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2008/09/carta-de-exonerao.html' title='Carta de exoneração'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-2540242635559256112</id><published>2008-08-25T16:39:00.000-07:00</published><updated>2008-08-25T16:41:41.050-07:00</updated><title type='text'>Diário de bordo - IX parte</title><content type='html'>&lt;em&gt;ATENÇÃO: Esse é diário que elaborei para a aula de Formação do Leitor da Faculdade de Letras. Adorei cada minuto que tive estudando esse assunto e gostaria de compartilhar com você, pois além de ser um diário de bordo, há também uma reflexão sobre vários assuntos.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Rio de Janeiro, 2 de abril de 2008.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na décima aula de Formação do Leitor, analisamos as versões dos textos de Antonio Callado e Lygia Fagundes Telles para a história de Machado de Assis.&lt;br /&gt;No texto do Callado, minha interpretação foi correta. Consegui ver que no texto há um narrador onisciente, e que a sogra entra em alguns momentos; que o autor sai do texto do Machado, e ao fazer isso, descortina esta personagem, abrindo um universo não desbravado pelo autor.&lt;br /&gt;A visão não mais tão moralizante da sogra humaniza o personagem. Callado reconta o universo de Machado, num desejo de fidelidade Machadiana.&lt;br /&gt;Durante a aula, levantou-se a hipótese da velha ser como se fosse uma voz arcaica de Capitu. Achei isso muito interessante.&lt;br /&gt;Consegui ver tudo isso na narrativa de Callado, mas no texto da Lygia foi um grande fiasco! Entendi tudo errado, e me senti uma grande burra! A Ana ainda tentou consolar-me, dizendo que &lt;em&gt;não existe errado em interpretação.&lt;/em&gt; Pode ser. Mas o correto é que me senti uma grande &lt;em&gt;burralda.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Entendi que a autora tinha colocado as empregadas para fofocarem sobre as questões familiares dos patrões. Acho que isso aconteceu porque me deixei contaminar com a situação. Quando comecei a ler as versões pensei:&lt;em&gt; “Se tivesse que escrever um ponto de vista seria o da mulher, ou então colocaria alguém de fora, como uma empregada para abordar o assunto”. &lt;/em&gt;Acredito que tal pensamento tenha contribuído de alguma forma para que minha visão ficasse contaminada, e assim não pudesse ler da maneira correta. Essa é a minha única justificativa para ter errado tanto.&lt;br /&gt;Ok, admito: sou perfeccionista!&lt;br /&gt;Tenho uma amiga que garante que não há mal nenhum em buscar a perfeição. O mundo chegou onde está porque as pessoas quiseram a perfeição da roda, com isso inventaram o pneu e o homem já chegou à lua. O meu problema é que sofro por não ser perfeita. Tenho trabalhado essa questão, estou melhor, mas ainda sofro por não ser perfeita.&lt;br /&gt;Esta amiga, muito querida, disse: &lt;em&gt;“Não busque a perfeição, e sim o progresso”, &lt;/em&gt;ela aconselhou. Desde então, estou tentando.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-2540242635559256112?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/2540242635559256112/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=2540242635559256112&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/2540242635559256112'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/2540242635559256112'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2008/08/dirio-de-bordo-ix-parte.html' title='Diário de bordo - IX parte'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-136768609143688621</id><published>2008-08-15T18:35:00.000-07:00</published><updated>2008-08-15T18:48:19.521-07:00</updated><title type='text'>Diário de bordo - VIII parte</title><content type='html'>&lt;em&gt;ATENÇÃO: Esse é diário que elaborei para a aula de Formação do Leitor da Faculdade de Letras. Adorei cada minuto que tive estudando esse assunto e gostaria de compartilhar com você, pois além de ser um diário de bordo, há também uma reflexão sobre vários assuntos.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rio de Janeiro, 31 de março de 2008.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na nona aula do curso de Formação do Leitor, a Ana falou sobre a prova G1. A data foi modificada, passou a ser no dia 5 de maio. Estou preocupada, pois também terei que fazer as provas da Miriam &lt;em&gt;(Teatro antigo)&lt;/em&gt; e da Marília (&lt;em&gt;Produção de Texto Acadêmico)&lt;/em&gt; na mesma ocasião. No dia seguinte, tem a Heidrun. Queria ter mais tempo para estudar e conseguir uma boa nota. Tenho me dedicado com afinco ao curso de Letras e baixar o meu CR, não é legal. No semestre passado consegui CR de 9,2. O CR global foi de 8,8.       &lt;br /&gt;Depois de alterar o calendário, os grupos começaram a falar sobre os textos do livro &lt;em&gt;Missa do Galo &lt;/em&gt;e as variações feitas por diversos escritores. Gostei muito do livro. Ver como se desenvolveu o enfoque de cada autor foi muito interessante. Os textos que mais apreciei foram o da Julieta e da Lygia. Uma coisa aconteceu comigo quando li a obra: o primeiro texto que li foi o do Machado, o segundo o da Julieta já que este era a história que meu grupo analisaria. Antes de começar a ler os outros pensei que se tivesse que fazer uma história, escolhendo um personagem para escrever seu enfoque, seria sobre Conceição ou inseriria um outro personagem que não tivesse na história original. Pensei numa escrava que falasse sobre a questão. Aí, leio o texto, e vejo que alguém já tinha tido pensamento semelhante. Foi legal. Demonstra que estou na sintonia do escritor, e isso é muito bom.&lt;br /&gt;Apenas dois grupos apresentaram suas análises. O primeiro foi sobre o texto do Osman Lins que tratava sobre a experiência do jovem, e o segundo, o meu grupo que apresentou, a visão da Conceição escrita por Julieta.&lt;br /&gt;No texto de Lins, o jovem endeusa a figura de Conceição. O amor romântico tem este aspecto: é um sentimento que não pode se realizar. Basta lembrar-se do livro de Goethe, &lt;em&gt;O sofrimento do jovem Werther,&lt;/em&gt; que trata de um amor impossível de se concretizar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-136768609143688621?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/136768609143688621/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=136768609143688621&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/136768609143688621'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/136768609143688621'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2008/08/dirio-de-bordo-viii-parte.html' title='Diário de bordo - VIII parte'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-417051894511005949</id><published>2008-08-07T17:57:00.000-07:00</published><updated>2008-08-07T18:05:21.564-07:00</updated><title type='text'>Diário de bordo - VII parte</title><content type='html'>&lt;em&gt;ATENÇÃO: Esse é diário que elaborei para a aula de Formação do Leitor da Faculdade de Letras. Adorei cada minuto que tive estudando esse assunto e gostaria de compartilhar com você, pois além de ser um diário de bordo, há também uma reflexão sobre vários assuntos.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Rio de Janeiro, 24 de março de 2008.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na sétima aula de &lt;em&gt;Formação do Escritor&lt;/em&gt;, quer dizer, do &lt;em&gt;Leitor&lt;/em&gt;...É sempre assim quando vou escrever esse diário, digito &lt;em&gt;escritor&lt;/em&gt; ao invés de &lt;em&gt;leitor,&lt;/em&gt; em 99,99% dos casos. Eu sei que a matéria é para estudar o leitor, mas na minha cabeça este é um curso que trata diretamente de minha escrita como escritora (perdoe a redundância). Estudo a mim mesmo, e não o leitor que está sendo formado.&lt;br /&gt;Tenho adorado as aulas. Tem sido apaixonante, e não escrevo isso para ganhar dois pontos de conceito. Quando estava no ginásio, uma de minhas professoras, a Dona Ifigênia, dava dois pontos de conceitos para o aluno que fosse dedicado. Isso tudo ajudava na média geral de sua matéria. Sempre tenho medo de que qualquer professor pense que estou elogiando sua aula porque &lt;em&gt;quero ficar bem na foto&lt;/em&gt;. Sofri perseguição dos alunos quando estava no ginásio, que me acusaram de estar querendo puxar o saco da professora para ganhar os conceitos. Foi inclusive com essa professora que... Bem, não se trata disso este diário, apesar da Ana ter dado a oportunidade da gente divagar um pouco. Contudo, estou divagando demais.&lt;br /&gt;Voltando então à vaca fria: Na sétima aula da Ana Paula, estudamos dois textos do Luiz Fernando Veríssimo e as cartas que os leitores enviaram ao jornal O Globo referentes aos textos. Já escrevi isso e torno a repetir: O talento de Veríssimo é superlativo, o cara é &lt;em&gt;o cara&lt;/em&gt;. Quando vejo gente assim, a vontade que tenho é de pegar um canudinho, abrir um pequeno orifício no crânio e chupar avidamente. Ele é demais!&lt;br /&gt;Bem, depois desta tietagem retorno à questão da aula (hoje estou divagando muito, né?! Desculpe. Tentarei me comportar). No texto, Veríssimo utiliza a ironia como mote para o desenvolvimento de sua história, que foi baseada num fato real: Lula tomou um gole de um vinho carésimo, justo ele, um pau-de-arara, um Zé Ninguém, um torneiro mecânico nordestino semi-analfabeto, praticamente. Veríssimo expõe a ferida ao mostrar como a elite reagiu a essa questão, externando todos seus preconceitos enraizados e mesquinhos. Só que do outro lado tem o receptor, e se há um ruído qualquer a comunicação não se concretiza, segundo teoria de comunicação que estudei lá atrás, quando fiz a faculdade de jornalismo.&lt;br /&gt;Já senti isso na pele. Em minha cidade, Barra Mansa, trabalhava na editoria de Política, minhas maiores experiências profissionais sempre foram nessa editoria e na de Cultura. Porém, também, atuei em outras como Cidades, Internacional, Economia Popular, Polícia (eu odiava trabalhar nesta área com toda a força do meu ser!).  Bem, então, tinha uma coluna política chamada &lt;em&gt;Registrando&lt;/em&gt;, e, como era repórter setorista, cobria a Câmara Municipal, sempre que tinha notícias. No dia 31 de março, sugeri ao meu amado, idolatrado, salve, salve, então, editor Antonio Carlos, que me autorizasse a escrever uma coluna falando de coisas impossíveis de acontecer, já que o dia seguinte seria 1º de Abril. Ele topou, e o prazer que senti ao escrever essa coluna foi inenarrável. Disse que a prefeita tinha se encontrado com os dois piores inimigos políticos que atuavam no Legislativo para fazer um tratado de paz; depois contei que o BNDES iria investir a fundo perdido uma quantia absurda, tipo 250 milhões de dólares, para a retirada do pátio de manobras – um problema que assola a cidade há mais de 50 anos, mas que antes disso o Spilberg iria filmar a saga da remoção do pátio para um filme em Hollywoody; disse também que a cidade de Barra do Piraí estava recebendo geógrafos para analisar o solo, pois havia a suspeita de que o município teria no seu subsolo uma bacia de petróleo inexorável, mas que o governo da cidade ao ser questionado negava tudo.... enfim, fiz a festa.&lt;br /&gt;No final do texto, dizia que o &lt;em&gt;Jornal A Voz da Cidade&lt;/em&gt; lamentava a perda de dois dos seus melhores profissionais: o editor Antonio Carlos, que tinha sido convidado para trabalhar na Central Globo de Jornalismo e de Carla Giffoni, que foi contratada pela Veja de São Paulo. Para terminar, eu explicava ao leitor o seguinte: &lt;em&gt;Tudo como antes no quartel de Abrantes. É primeiro de abril e tudo que você leu...&lt;/em&gt; E assim terminava.&lt;br /&gt;Algumas pessoas ligaram indignadas porque elas tinham a certeza que a reunião que aconteceu numa fazenda da prefeita nunca teria sido realizada, já que no final de semana quando aconteceu o suposto encontro, ela estava participando de outro evento e a pessoa era testemunha do ocorrido. Outros leitores se mostraram temerosos. O ex-prefeito da cidade, inimigo político da então prefeita, veio me perguntar à boca pequena se era realmente verdade que o BNDES iria investir aquela fortuna na cidade para a retirada do pátio de manobras.  Se isso acontecesse, seus projetos políticos naufragariam.  Eu e o meu editor fomos parados na rua em diversas ocasiões para recebermos parabéns da nossa suposta contratação. Outros ligaram elogiando, dizendo que o texto era muito bom e bem sacado. Enfim, a controvérsia foi criada e &lt;em&gt;quem cria a fama, deita na cama.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Esse foi um dos textos que mais tive prazer em escrever, como disse. Ria muito na hora que estava redigindo. Fiz inclusive uma pesquisa para ver como o petróleo poderia se formar, e disse na matéria que o indício de petróleo ocorria porque os cientistas tinham encontrado ossos de dinossauros na cidade.&lt;br /&gt;A força da palavra impressa é muito grande porque quando alguém fala, dá-se a inflexão que se quiser, mas quando o outro é que lê, ele que impõe sua inflexão, e este leitor pode não ter acordado de bom humor porque sua mulher dormiu de calça jeans.&lt;br /&gt;É um risco que todo escritor corre. Eu e Veríssimo temos alguma coisa em comum (nem que seja o branco do olho). Chique, né?!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-417051894511005949?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/417051894511005949/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=417051894511005949&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/417051894511005949'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/417051894511005949'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2008/08/dirio-de-bordo-vii-parte.html' title='Diário de bordo - VII parte'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-2148693393495542714</id><published>2008-08-02T16:58:00.000-07:00</published><updated>2008-08-02T17:01:43.716-07:00</updated><title type='text'>Diário de bordo - VI parte</title><content type='html'>Rio de Janeiro, 19 de março de 2008.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na sexta aula, tratamos sobre a realidade ao trabalharmos o texto &lt;em&gt;O príncipe e o mago &lt;/em&gt;de John Fowles. Gostei muito deste texto, mas entre a história da Marina e este, prefiro o primeiro. Na verdade, os dois são excelentes, mas se tivesse que escolher um seria o da &lt;em&gt;Moça Tecelã.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;O texto do &lt;em&gt;Príncipe &lt;/em&gt;trata sobre os limites da palavra e da ficção. Realmente, a linha divisória destes dois mundos é muito tênue, no meu caso. Meu pacto com a fantasia é grande. Isso não quer dizer que não funcione na realidade. Sou uma mulher adulta, vacinada, pago as minhas dívidas, trabalho, lavo minha calcinha, faço minha comida e arrumo a casa. Tudo que uma pessoa adulta é capaz de fazer. Contudo, mesmo assim meu pacto com a fantasia ainda é grande, isso não me torna uma pessoa irresponsável, mas sim uma escritora. Sempre quando vejo algo interessante, anoto no meu caderninho. Eu tenho um caderninho, e não é de hoje.&lt;br /&gt;Quando entrei para a faculdade, uma das primeiras aulas que tive foi com a Pina e ela falava sobre a necessidade de se ter um caderninho para anotar as idéias, e que o aluno deveria carregar o objeto para cima e para baixo. Eu já tinha o meu antes mesmo dela falar. O engraçado é que nunca me toquei que ter aquele caderno era uma atitude positiva e própria de alguém que escreve. Tal atitude era tão natural que não conseguia validar a iniciativa.&lt;br /&gt;Outra coisa que me chamou a atenção no texto de Fowles foi a temática da verdade e mentira. Sempre fui fascinada por este tipo de assunto: verdade X mentira; beleza X feiúra; bom X mau ... Sempre. São temas apaixonantes, e isso sempre me levou à reflexão.&lt;br /&gt;Ao longo dos séculos, muitas das verdades que antes se acreditavam piamente vêm sendo derrubadas uma a uma, como, por exemplo, a verdade que a Terra é o centro do universo; que o coração é o órgão mais importante do corpo. Muito já foi descoberto, e outras verdades nos serão ainda reveladas, e isso é o que dá o tempero da vida. É assustador, tenho que admitir, mas a possibilidade de se ser surpreendida num virar da esquina é que faz com que cresça emocional e espiritualmente, e com isso minha escrita tende a se aprimorar. Minha mãe sempre dizia: &lt;em&gt;crescer é ter opção de escolha e ser responsável por aquilo que se escolheu.&lt;/em&gt; Sábia dona Carla (tenho o seu nome)! Não é fácil se manter fiel no que se acredita. Muitas vezes se paga um preço alto por isso, mas não tem jeito. Quando se vai contra aquilo em que se acredita, uma parte da pessoa morre, fica semelhante a um zumbi, caminhando pelo mundo. Não quero isso.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-2148693393495542714?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/2148693393495542714/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=2148693393495542714&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/2148693393495542714'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/2148693393495542714'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2008/08/dirio-de-bordo-vi-parte.html' title='Diário de bordo - VI parte'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-325774826436084791</id><published>2008-07-31T17:34:00.000-07:00</published><updated>2008-07-31T17:37:24.827-07:00</updated><title type='text'>Diário de bordo - V parte</title><content type='html'>Rio de Janeiro, 17 de março de 2008.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na quinta aula, a Ana falou sobre várias coisas que fizeram com que refletisse sobre a questão do autor. Ela ainda utilizou o texto da Marina Colassanti. Como é interessante olhar a escrita desta autora com outros olhos, ver a possibilidade de várias interpretações como, por exemplo, analisar o texto pela ótica feminista ou marxista!&lt;br /&gt;É isso que quero fazer! Poder ver as várias nuances de uma interpretação, e para isso acontecer preciso treinar o meu olhar, instrumentalizando-o com o conhecimento teórico.&lt;br /&gt;Hoje, um pouco mais cedo, tive aula com o (meu amado, idolatrado, salve, salve!!!) professor Zé Carvalho e lhe falei que ao ver o Je vous salue, Marie interpretei de modo diferente a temática da obra de Jean-Luc Godard, diferente do que ele falou em sala.&lt;br /&gt;Vi que Godard estava tratando ali não a temática da mulher, mas sim a questão do sensório e a espiritualidade. Aí chega a aula da Ana, e falamos de várias interpretações que se pode ter sobre determinada obra. Tal possibilidade é enriquecedora, é desler e reler de outro jeito. Quando consigo fazer esse tipo de interpretação, sinto que minha escrita ganha.&lt;br /&gt;Na hora que a Ana estava falando sobre essas questões, fiquei pensando sobre a trilogia que escrevi sobre as Margaridas. São três contos infanto-juvenis que têm como temática estas flores:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;A Margarida que sonhava em ser Rosa&lt;br /&gt;A Margarida que se pintou de Paixão&lt;br /&gt;A revolução das Margaridas&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei pensando em como as pessoas poderiam ler esses textos que escrevi. Deu vontade de pedir para ler em sala, mas depois recolhi a viola no saco e fiquei quieta.&lt;br /&gt;Como escritora, tenho essa necessidade der ser lida. Drummond retratou muito bem isso ao escrever: &lt;em&gt;Por isso me dispo, por isso me exponho nas livrarias. Preciso de todos &lt;/em&gt;(vai escrever bem assim, lá em casa!!!!).&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-325774826436084791?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/325774826436084791/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=325774826436084791&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/325774826436084791'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/325774826436084791'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2008/07/dirio-de-bordo-v-parte.html' title='Diário de bordo - V parte'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-479274203808892239</id><published>2008-07-26T18:33:00.000-07:00</published><updated>2008-07-26T18:35:40.625-07:00</updated><title type='text'>Diário de bordo - IV parte</title><content type='html'>Rio de Janeiro, 12 de março de 2008.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No quarto dia de aula, tive a oportunidade de ler o meu diário. Parece que a Ana e os alunos gostaram. Fiquei feliz porque assim pude sanar a dúvida se estava ou não escrevendo certo. Seria ruim se estivesse fazendo errado e só descobrisse isso lá na frente.&lt;br /&gt;Durante a aula, os grupos falaram das suas interpretações das imagens, aquelas que na aula anterior tinham mensagens em hebraico e japonês, lembra? Pois é.&lt;br /&gt;Foi interessante o exercício porque os grupos mais ou menos tiveram conclusões semelhantes. Só senti falta de uma coisa: pensei que depois a Ana fosse apresentar as traduções. Isso não aconteceu. Uma pena.&lt;br /&gt;Depois a professora falou sobre a leitura descritiva, projetiva, contexto, estranhamento e reconhecimento. Tudo isso ainda baseado nas imagens que tinham textos hebraicos e em japonês.&lt;br /&gt;Ana falou também sobre o dicionário ser apelidado no Brasil &lt;em&gt;de Pai dos burros&lt;/em&gt;. Ela está certa ao dizer que tal alcunha é uma maneira de brecar a literatura. Realmente, a falta de incentivo à educação no Brasil é algo que assola o país desde que Cabral desceu na Terra de Santa Cruz. Tivemos que esperar cerca de 300 anos para termos o direito de imprimir qualquer coisa. Porque o rei de Portugal saiu de fininho por causa de Napoleão é que conseguimos ter a primeira imprensa (máquina de imprimir).&lt;br /&gt;O Brasil tem autores maravilhosos, e isso aconteceu pela obra e graça de Deus, porque se fosse para os homens aqui olharem (lê-se autoridades)...estaríamos perdidos. Quando estava no ginásio, o professor Afonso dizia que deveríamos estudar inglês para poder ler Shakespeare no original. Pois eu digo aos &lt;em&gt;gringos:&lt;/em&gt; aprendam português para poderem ler Nelson, Drummond, Leminski, Bilac, Alencar, Macedo e Rosa, para citar apenas alguns. O que não falta no Brasil é talento, apesar dos pesares e da falta de incentivo das autoridades.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-479274203808892239?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/479274203808892239/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=479274203808892239&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/479274203808892239'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/479274203808892239'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2008/07/dirio-de-bordo-iv-parte.html' title='Diário de bordo - IV parte'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-135504454070132612</id><published>2008-07-21T18:09:00.000-07:00</published><updated>2008-07-21T18:18:21.393-07:00</updated><title type='text'>Diário de bordo - III parte</title><content type='html'>Rio, 10 de março de 2008.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tive o terceiro dia de aula de Formação de Leitor hoje. Foi bom. Pela primeira vez, um aluno leu seu diário de bordo sobre as aulas. Foi legal. Mas fiquei na dúvida se estou ou não fazendo a coisa certa. Acho que estou, sim, elaborando o diário corretamente, mas, sinceramente, não tenho certeza.&lt;br /&gt;Outros dois estudantes também leram os seus textos. Adoro isso. Gosto muito de ouvir o que o outro escreve. Isso me inspira e sinto-me renovada com a escrita do outro. Vejo ângulos que não tinha notado anteriormente.&lt;br /&gt;Também fizemos um exercício em grupo sobre imagens que tinham textos em japonês e hebraico, línguas que ninguém dominava. Então, tivemos que pensar o que seria aqueles símbolos que não podíamos ler. Ao fazer este exercício, senti na pele o que pensa um analfabeto que não entende ou decifra aquele código de leitura. Acho que meu grupo &lt;em&gt;deslizou na maionese&lt;/em&gt; ao pensar que a figura de um garotinho chorando seria porque ele estaria supostamente perdido. Pode até ser isso mesmo, mas..... sei lá! Japonês pensa tão diferente de ocidental, ainda mais ocidental latino-americano! Vamos ver no que vai dar na próxima aula.&lt;br /&gt;Ana também iniciou uma explanação sobre opinião e interpretação. Tenho que confessar: senti-me altamente ignorante! Há certas construções de linguagens que sinto como se fosse um tipo de pegadinha &lt;em&gt;teórico-lingüístico-literário&lt;/em&gt;. É como se alguém ficasse horas e horas pensando em como pegar o outro para embaralhá-lo e confundi-lo. Sei, intelectualmente, que não é assim, mas emocionalmente sinto que é. Afinal: &lt;em&gt;Tostines está sempre fresquinho porque vende mais, ou vende mais porque está sempre fresquinho?&lt;/em&gt; Oh, dúvida cruel!&lt;br /&gt;Além disso, a professora Ana deu o texto de Luiz Fernando Veríssimo, adoro esse homem! Seu talento pode ser classificado em superlativo: talentosíssimo, engraçadíssimo, ironíssimo, e assim vai. Quando crescer, quero escrever como ele. Na verdade, não só como ele, mas uma mistura de todos aqueles a quem admiro: porções generosas de Nelson, com a construção de imagens de Josué, com a subjetividade e a poesia de um Drummond misturado homogeneamente com Vinhinha. Sem esquecer aqui e ali de pitadas de Raquel, Balzac, Machado e Pessoa, fazendo nascer bolhas proustianas ao colocar no forno para assar. Esse é meu desejo. Esse é meu objetivo. Pretensão? Não sei. &lt;em&gt;Só sei que canto e a canção é tudo. Tem sangue eterno e a asa é ritmada. Um dia sei que estarei mudo e mais nada. &lt;/em&gt;Salve, salve, Santa Cecília!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-135504454070132612?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/135504454070132612/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=135504454070132612&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/135504454070132612'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/135504454070132612'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2008/07/dirio-de-bordo-iii-parte.html' title='Diário de bordo - III parte'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-5019579854233106975</id><published>2008-07-16T16:01:00.000-07:00</published><updated>2008-07-21T13:50:14.838-07:00</updated><title type='text'>Diário de bordo - II parte</title><content type='html'>Rio, 5 de março de 2008.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje foi a segunda aula da Ana. Foi boa. Ela apresentou o calendário do curso e disse que não haverá aula no dia 7 de abril. Para os dias 14 e 16 de abril, a professora está programando que suas alunas de mestrado estejam nos dando aula.&lt;br /&gt;A professora também pediu que lêssemos os textos referentes ao diário das aulas, conforme já havia solicitado na primeira aula dizendo que a cada encontro um aluno seria sorteado para ler o seu diário. Alguns colegas levaram textos referentes a diário. Teve uma menina que leu o seu, um rapaz leu um texto que se referia ao livro de Bernardo Carvalho (acho que era esse o nome do autor). Eu também participei. Falei sobre minha experiência de escrever diários na oficina que fiz com a Pina, e li o texto que escrevi sobre o diário de uma mulher de 78 anos. Foi bom, mas fiquei nervosa. É difícil eu ficar nervosa lendo alguma coisa, mas fiquei e nem sei o porquê. Deve ser porque ainda não me acostumei com a turma.&lt;br /&gt;Depois, Ana falou sobre as características do leitor, lemos o folheto &lt;em&gt;Direito imprescindível do leitor,&lt;/em&gt; gostei muito. Interessante os tópicos divididos pelo autor, como o direito de pular páginas, de ler qualquer coisa, de ler em qualquer lugar. Desses tópicos o que mais me chamou atenção foi o de ler qualquer coisa. Como leitora, nem todo dia estou disposta a refletir sobre a profundeza do instante da leveza do ser. Há momentos que leio apenas para entretenimento, para distrair, para passar o tempo... sei lá. Pego um gibi do &lt;em&gt;Donald&lt;/em&gt;, da &lt;em&gt;Mônica&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;Cebolinha,&lt;/em&gt; ou mesmo uma revistinha &lt;em&gt;Júlia &lt;/em&gt;e leio. Isso me torna uma leitora menos requintada?Afinal, que critério é este que torna uma pessoa mais ou menos requintada? Leitora é leitora, e quem diz o contrário vejo que está aí imbuído é de uma grande carga de preconceito. Tudo bem, até admito que quem ler mais traz em sua bagagem janelas de entendimentos que um leitor menos freqüente não tem. Mas isso não torna ninguém superior ou inferior ao outro. Tive a sorte de ter tido a oportunidade de ler desde muito cedo. Nasci num ambiente em que os livros eram presenças constantes. Presenciei meu pai, minha mãe e tios lendo muito, diariamente, e isso tudo contribuiu para que me tornasse uma leitora voraz. Pelo menos é assim que me classificam. Eu não me taxo como uma leitora tão voraz assim, na verdade gostaria de poder ler mais do que normalmente leio. Mas, enfim, essa é apenas uma opinião.&lt;br /&gt;Outro tópico que gostei muito foi o de ler em qualquer lugar. Adoro ler no banheiro. Não estou sozinha. Tenho algumas amigas e também amigos que têm em seus banheiros um &lt;em&gt;kit leitura&lt;/em&gt;, com livros, gibis e revistas. A Janete, por exemplo, que tem o banheiro grande, chega ao cúmulo de ter um pequeno armário com livros. Quando vou à sua casa, faço a festa, sinto-me uma rainha. Esqueço da vida e nem preciso estar utilizando propriamente o vaso sanitário. É muito bom.&lt;br /&gt;Ela brinca dizendo que dependendo do seu estado intestinal é que faz a escolha da obra&lt;br /&gt;para ser lida enquanto estiver no trono. A variedade de sua biblioteca é grande. Se pode encontrar romances sentimentais, de polícia, históricos, livros de reflexões diárias, de auto-ajuda, Shakespeare, Voltaire, Drummond, Bilac, Cecília, além, é claro, das revistinhas como &lt;em&gt;Tio Patinhas, Donald, Cebolina e Mônica, Superman,&lt;/em&gt; entre outros .... a lista é grande. Um verdadeiro paraíso. O melhor de tudo é que a família toda já aderiu à sua proposta: os dois filhos em idade escolar, ela e o novo marido lêem naquele ambiente. O problema é quando os dois banheiros (sim, há dois. É preciso) estão ocupados. A porta quase é derrubada na ânsia de utilizar o &lt;em&gt;trono.&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-5019579854233106975?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/5019579854233106975/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=5019579854233106975&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/5019579854233106975'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/5019579854233106975'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2008/07/dirio-de-bordo-ii-parte.html' title='Diário de bordo - II parte'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-2925315570706371342</id><published>2008-07-13T16:39:00.000-07:00</published><updated>2008-07-13T16:50:50.074-07:00</updated><title type='text'>Diário de bordo - I parte</title><content type='html'>&lt;em&gt;ATENÇÃO: Esse é diário que elaborei para a aula de Formação do Leitor da Faculdade de Letras. Adorei cada minuto que tive estudando esse assunto e gostaria de compartilhar com você, pois além de ser um diário de bordo, há também uma reflexão sobre vários assuntos.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Rio, 3 de março de 2008&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje foi o primeiro dia da aula &lt;em&gt;Formação do Leitor&lt;/em&gt;. Tudo correu bem. A professora é a Ana Paula, minha conhecida. No último semestre do ano passado, ela me deu aula de &lt;em&gt;Literatura e Cultura Brasileira &lt;/em&gt;em que se falava sobre a identidade nacional.&lt;br /&gt;Como hoje foi o primeiro dia, Ana conversou apenas sobre a ementa do curso, a bibliografia que será usada e explicou que precisávamos fazer um diário, e que quem não fizesse o texto e seu nome fosse sorteado, ela tiraria meio ponto na prova.&lt;br /&gt;A turma é composta de estudantes muito novos, acho que deve ter apenas umas três ou quatro pessoas na minha faixa etária. Mas foi legal. Não me importo de estudar com gente nova, aprendo muito. Gosto da diversidade cultural.&lt;br /&gt;Estou cheia de entusiasmo com esse curso, pois desde que entrei na Faculdade de Letras, no início de 2007, fiquei aflita para ter essa matéria. Naquela ocasião, a Manú havia se matriculado na disciplina, e ela me mostrou um texto que falava sobre um conto de fada politicamente correto. Um texto leve, engraçado, espirituoso e tudo de bom. Fiquei apaixonada pela narrativa, mas o De-Para já tinha terminado, e não pude me inscrever. Tive que esperar um ano para poder me matricular na disciplina. Vamos ver!&lt;br /&gt;A bibliografia parece ser interessante. Se a matéria trilhar o mesmo caminho da &lt;em&gt;Literatura e Cultura Brasileira,&lt;/em&gt; as aulas serão ótimas. Adorei ler no outro semestre textos como os de Andrade (Mário e Osvald), Zuenir Ventura, Heloísa Buarque de Holanda, Josué de Castro... foram muitos e não teve nenhum texto que desgostasse. Talvez gostasse mais de uns do que de outros, mas todos foram de alto nível e me levaram à reflexão.&lt;br /&gt;Porém, o que mais gostei foram os seminários que a professora propôs. O meu grupo escolheu o tema &lt;em&gt;Violência e literatura&lt;/em&gt; e amei pesquisar sobre o assunto. Acredito que todos do grupo se saíram bem, e foi muito bom!&lt;br /&gt;Será que no curso de &lt;em&gt;Formação do Leitor&lt;/em&gt; haverá seminário?  Ela disse que dividirá a turma em pequenos grupos. Não sei como será a dinâmica. Vamos ver. Quem viver, verá.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-2925315570706371342?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/2925315570706371342/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=2925315570706371342&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/2925315570706371342'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/2925315570706371342'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2008/07/dirio-de-bordo-i-parte.html' title='Diário de bordo - I parte'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-5666256141658577640</id><published>2008-07-10T16:55:00.000-07:00</published><updated>2008-07-10T17:13:49.680-07:00</updated><title type='text'>“A mancha do pecado no nosso amor” - um drama burguês no tempo de Édipo Rei (parte final)</title><content type='html'>&lt;strong&gt;(SOM DE MÚSICA INCIDENTAL – DE SUSPENSE. DURANTE TODO O DIÁLOGO, A MÚSICA SOBE E ABAIXA CONFORME A GRADAÇÃO DAS EMOÇÕES E TENSÕES DOS PERSONAGENS)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Jocasta&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Por que razão, senhor meu marido, permites que esta raiva feroz o domine?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Édipo&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Por muito estimá-la, minha senhora, é que vou dizer, apesar de temer que se volte contra mim ao falar mal de seu irmão: a raiva que sinto vem da acusação feita por Creonte!&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;Jocasta&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;(ENTRE CURIOSA E COMEÇANDO A FICAR AFLITA)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Mas o que ele falou de tal vil, senhor meu marido?!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;(MÚSICA DRAMÁTICA, CRIANDO UM CLIMA TENSO)&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Édipo&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Creonte me acusa de ter matado Laio, seu primeiro marido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Jocasta&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Mas senhor, por que Creonte acusa você de ter matado Laio? Ele ouviu falar ou presenciou o fato? Por que meu irmão o acusa de tamanho crime?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Édipo&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Creonte diz que foi um pai de santo que leu nos búzios que eu era o assassino de Laio...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Jocasta&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Mas é isso?! Ora, meu marido, fique sabendo que nosso Senhor Jesus Cristo não concedeu o dom de adivinhação a nenhum dos cristãos. Veja: meu primeiro marido dizia ter sido amaldiçoado por uma escrava que falou que ele seria morto pelo filho. Nada disso aconteceu. No início, Laio não deu ouvidos à maldição da preta velha, contudo com a aproximação do parto, Laio começou a ficar obsessivo, e, no final, quando dei à luz, ele pegou o menino e mandou que o capataz sumisse com a criança. Chorei muito, quando soube o que ele tinha feito com o nosso filho. Laio confessou o crime, pois estava carregado de culpa. Meu ex-marido disse que o capataz amarrou a criança pelos pés, dependurando-a numa árvore para que os bichos comessem. Nosso casamento nunca mais foi o mesmo, nem ele quis mais ter nenhum filho. Como vê, as maldições da escrava de nada valeram. A criança morreu, e Laio foi assassinado numa encruzilhada, por um assaltante, e a praga não se concretizou. Não acredite e nem tema as palavras do pai-de-santo ou de meu irmão Creonte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;(TEMA DE TENSÃO CRESCENTE)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SILÊNIO POR ALGUNS INSTANTE, AUMENTANDO A TENSÃO&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Édipo&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;O que me dizes, mulher! Suas palavras me enchem de temor e medo &lt;strong&gt;(DIZ AFLITO)&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Jocasta&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Mas.... por que, senhor meu marido?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Édipo&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;É verdade mesmo que Laio foi morto numa encruzilhada? Confirmas isso? &lt;strong&gt;(FALA COM DESESPERO)&lt;/strong&gt; Confirma?!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Jocasta&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Sim, &lt;strong&gt;(SEM ENTENDER ONDE ÉDIPO QUER CHEGAR, HESITANTE),&lt;/strong&gt; sim... sim, senhor meu marido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Édipo&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Onde? &lt;strong&gt;(AFLITO)&lt;/strong&gt; Onde??!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;(JOCASTA FALA COMO SE ÉDIPO TIVESSE SEGURADO ELA PELOS OMBROS E SACUDIDO SEU CORPO)&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Jocasta&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Calma... o senhor está me machucando, segurando-me assim.... &lt;strong&gt;(HESITANTE E DESCONFIADA RESPONDE):&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Laio foi morto na região da Serra de Petrópolis, na estrada que liga Petrópolis e Teresópolis, foi lá que o crime aconteceu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Édipo&lt;br /&gt;(EM DESESPERO CRESCENTE)&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Não! Deus!!!!! &lt;strong&gt;(GRITA DESESPERADAMENTE DRAMÁTICO)&lt;/strong&gt; Jesus, onde estavas?!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;(INCIDENTE MUSICAL CRESCE ÀS ALTURAS)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CORTE PARA COMERCIAL:&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;COMERCIAL 1 (principal anunciante da novela)&lt;br /&gt;Jingle do sabão em pó Fada Madrinha:&lt;br /&gt;VOZ DO LOCUTOR 1:&lt;br /&gt;Sabão em pó Fada Madrinha, aquele que faz com que sua roupa fique mais branca e suas mãos mais macias, e você continua reinando como a Rainha do seu lar.&lt;br /&gt;Jingle do sabão.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;COMERCIAL 2&lt;br /&gt;VOZ DE LOCUTOR 2:&lt;br /&gt;Você que é uma mulher moderna não pode deixar de ter em sua cozinha o revolucionário liquidificador Walita Plus Master. Em poucos minutos, você faz sucos para o lanche das crianças, bate a papinha para o bebê e oferece um delicioso drink para o marido que chega em casa depois do trabalho. Mostre que é uma mulher moderna e inteligente, pense: WALITA PLUS MASTER.&lt;br /&gt;Coral repetindo o nome em forma de jingle.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;COMERCIAL 3&lt;br /&gt;VOZ DE MENINO&lt;br /&gt;“Ah, mamãe, não quero comer”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VOZ DO LOCUTOR 3:&lt;br /&gt;“Se seu filho se recusa a comer, se está fraco e magro não se desespere, já há uma solução: Biotônico Fontoura para o garotão!&lt;br /&gt;Dê uma colher de sopa três vezes ao dia e notará a diferença. Biotônico Fontoura, o único que deixa seu filho forte como um leão”!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;COMERCIAL 4&lt;br /&gt;VOZ DE LOCUTORA 1, VOZ SUAVEMENTE ESTRIDENTE:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dicas para o lar!&lt;br /&gt;Você que não sabe como fazer para tirar aquela mancha de tinta na camisa do marido, basta pingar três gotas de vinagre que aquela mancha na camisa branca sumirá imediatamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VOZ DO LOCUTOR 4&lt;br /&gt;Dicas para o lar é um oferecimento das Drogarias Pacheco, aberta até as vinte e duas horas, todos os dias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;strong&gt;VOLTA PARA A NOVELA:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;REPETINDO A ÚLTIMA FALA DE ÉDIPO:&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Édipo&lt;br /&gt;(EM DESESPERO CRESCENTE)&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Não! Deus!!!!! &lt;strong&gt;(GRITA DESESPERADAMENTE DRAMÁTICO)&lt;/strong&gt; Jesus, onde estavas?!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;(INCIDENTE MUSICAL DÁ UMA LIGEIRA CRESCIDA E CORTA LOGO EM SEGUIDA NA HORA QUE JOCASTA INDAGA. SOM DE VIDRO QUEBRANDO, DOIS OU TRÊS JARROS)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SOM DE VIDRO QUEBRANDO E JOCASTA FALANDO POR CIMA:&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Jocasta&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;O que aconteceu, senhor meu marido?! &lt;strong&gt;(AFLITA)&lt;/strong&gt; Por que quebras estes vasos, que fúria é esta translouca que o acomete? Por que, meu santo Deus?!!! &lt;strong&gt;(EM DESESPERO, SEM SABER O QUE FAZER)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(SOM DE MAIS DOIS JARROS QUEBRANDO)&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;Édipo&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;(AFLITO E DESESPERADO)&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Responde-me mulher! Não minta! Diga agora: Como era Laio, e quantos anos tinha, então, quando morreu? Responde já, mulher!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Jocasta&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Laio era alto, seus cabelos eram brancos e até parecia fisicamente com você, senhor meu marido. Ele estava junto com alguns escravos e o antigo capataz. Eles foram atacados na encruzilhada, e apenas um escravo sobreviveu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Édipo&lt;br /&gt;(DRAMATICAMENTE DESESPERADO)&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Não!!!!! Não pode ser!!! Deus não seria tão vil, tão impiedoso! Não, mil vezes não!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Jocasta&lt;br /&gt;(NUM DESESPERO CRESCENTE, SEM SABER O QUE FAZER, COM VOZ CHOROSA)&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Édipo, senhor meu marido, o que houve?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Édipo&lt;br /&gt;(ENQUANTO JOCASTA FALA, EDIPO VAI REPETINDO A PALAVRA “NÃO” DRAMATICAMENTE, COM DESESPERO, INTERCALANDO A FALA DE SUA MULHER)&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Não!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Jocasta&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Por Deus, diga-me o que o aflige?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Édipo&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Não!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Jocasta&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Diga, me diga, por favor!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Édipo&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Não!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Jocasta&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Que desespero é esse? Fala-me, pelos Céus!!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Édipo:&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Que horror, meu Deus! Agora me responde, diga-me a verdade, agora, não minta: o grupo que estava acompanhando Laio era grande ou reduzido?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Jocasta:&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Eram cinco pessoas ao todo, incluindo meu ex-marido. Como lhe disse, apenas um escravo conseguiu fugir e não foi morto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Édipo&lt;br /&gt;(HORRORIZADO E COM VOZ ANGUSTIADA, BAIXA, DENSA, COMO SE FALASSE CONSIGO MESMO – SOM INCIDENTAL DRAMÁTICO)&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Tudo está claro agora! Agora entendo tudo! Vejo tudo, e antes fosse cego para não enxergar esta triste realidade, a grande tragédia que se abateu sobre nossa vida, nossa família, nossos filhos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Jocasta&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Mas, dize-me, senhor meu marido, o que aconteceu? Por que vejo tanto horror no seu rosto? Que olhar de desespero é este? Por Deus, o senhor está me deixando com medo, o pavor toma-me a alma, e não sei mais o que pensar! Diga-me por Deus, o que houve?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;(SOM DE PASSOS, DELA INDO EM SUA DIREÇÃO E TENTA TOCÁ-LO. COMO É RÁDIO ISSO NÃO PODE SER VISUALIZADO, MAS ÉDIPO FALARÁ REFERINDO-SE A ISSO)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Édipo&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Não tente me tocar, mulher! Nunca mais se aproxime de mim &lt;strong&gt;(PAUSA).&lt;/strong&gt; Mas fala-me: onde está esse escravo? Ele ainda mora nesta casa? Conseguiu sobreviver?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Jocasta&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Esse escravo, o Bento, vivia aqui até nos casarmos, mas, logo depois do anúncio de nosso noivado, ele veio pedir-me encarecidamente que o enviasse para a casa do meu pai, onde vivia antes de unir-me a Laio. Como Bento sempre foi um servo fiel, atendi-lhe o pedido e, desde então, ele vive na casa de papai. Hoje, Bento continua lá, apesar da idade avançada. &lt;strong&gt;(PAUSA)&lt;/strong&gt; Mas, dize-me, vejo o senhor falar, falar e a cada palavra demonstra um desespero crescente, e com isso um sentimento idêntico se concretiza no meu coração, e faz nascer uma amargura atroz no meu peito porque o senhor não explica o porquê de tanto desespero, o porquê de tanta dor! Não me escondas nada, senhor meu marido, dize-me sem demora o que lhe causa tanta dor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Édipo&lt;br /&gt;(SEM DAR ATENÇÃO AO SEU PEDIDO, MANDA IMPERATIVAMENTE BRUSCO)&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Mande chamar já esse Bento! Mande um escravo ir à fazenda do seu pai agora! Dê-lhe o cavalo mais veloz, e diga que volte até amanhã com esse negro velho. Quero Bento aqui, o mais rápido possível. &lt;strong&gt;(PAUSA)&lt;/strong&gt;Vá, mulher! Não fique aí parada, chame qualquer escravo agora!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;(SOM DE PASSOS SE AFASTANDO. ÉDIPO FALA SOZINHO)&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Queira Deus que todos meus presságios não se concretizem. Que Nossa Senhora dos Aflitos nos protejam, e que não deixe que a desgraça caia sobre esta casa!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;(PAUSA, SOM DE PASSOS VOLTANDO, ÉDIPO COMEÇA A CONTAR PARA A MULHER SUA ORIGEM)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Édipo&lt;br /&gt;(HESITANTE)&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Senhora, minha mulher, nunca antes tinha lhe contado sobre o meu passado, minha origem, de onde vim, e qual era a minha família. Senta aqui para que possa lhe contar. Tentemos manter a serenidade neste momento tão difícil de nossa vida. &lt;strong&gt;(Pausa)&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Meu pai se chama Vicente e minha mãe tem o nome de Maria Amélia. Ambos nasceram em Minas Gerais, Diamantina, e lá vivíamos. Meus pais são fazendeiros e desfrutávamos de um certo prestígio na cidade, pois o senhor meu pai tinha uma pequena fazenda que foi crescendo, e conseguimos abrir na cidade um estabelecimento de secos e molhados com o que produzíamos na fazenda. Tudo seguia bem, trabalhávamos na fazenda e abastecendo o mercado, até que um dia, numa festa no mês de maio, consagrado à Virgem Maria, o ferreiro da cidade que tinha se embebedado de maneira vil, me revelou uma drástica verdade &lt;strong&gt;(INCIDENTE MUSICAL TENSO):&lt;/strong&gt; que não era filho de Vicente e Maria Amélia. &lt;strong&gt;(SOM INCIDENTAL DRAMÁTICO)&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Jocasta&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Mas, como???... &lt;strong&gt;(É INTERROMPIDA POR ÉDIPO, QUE CONTINUA A FALAR)&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Édipo&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Escuta. Não me interrompa! Ouça minha história, e tire suas próprias conclusões. Quem sabe Deus ajuda, e coloque em sua boca palavras que me façam ver que tudo não passa de uma grande coincidência, e que nenhum dos fatos que vou narrar tem a ver com a morte de seu ex-marido Laio. Escuta-me gentil e amada esposa. Ouça seu marido que traz o coração atravessado de dúvidas e temores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Jocasta&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Está bem, senhor meu marido. Ouvirei tudo que quiseres falar. Nossa Senhora há de nos proteger de todo mal, e ainda vamos rir da dor e do desespero que vejo em seu rosto. Tenhamos fé!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;CORTE PARA COMERCIAL&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;COMERCIAL 1&lt;br /&gt;Jingle do sabão em pó Fada Madrinha:&lt;br /&gt;VOZ DO LOCUTOR 1:&lt;br /&gt;Sabão em pó Fada Madrinha, aquele que faz com que sua roupa fique mais branca e suas mãos mais macias, e você continue reinando como a Rainha do seu lar.&lt;br /&gt;Jingle do sabão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;COMERCIAL 2&lt;br /&gt;VOZ DE LOCUTOR 2:&lt;br /&gt;Você que é uma mulher moderna não pode deixar de ter em sua cozinha o revolucionário liquidificador Walita Plus Master. Em poucos minutos, você faz sucos para o lanche das crianças, bate a papinha para o bebê, e oferece um delicioso drink para o marido ao chegar em casa. Mostre que é uma mulher moderna e inteligente, pense: WALITA PLUS MASTER.&lt;br /&gt;Coral repetindo o nome em forma de jingle.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;COMERCIAL 3&lt;br /&gt;VOZ DE MENINO&lt;br /&gt;“Ah, mamãe, não quero comer”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VOZ DO LOCUTOR 3:&lt;br /&gt;“Se seu filho se recusa a comer, se está fraco e magro não se desespere, já há uma solução: Biotônico Fontoura para o garotão!&lt;br /&gt;Dê uma colher de sopa três vezes ao dia, e notará a diferença. Biotônico Fontoura, o único que deixa seu filho forte como um leão!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;COMERCIAL 4&lt;br /&gt;VOZ DE LOCUTORA 1, VOZ SUAVEMENTE ESTRIDENTE:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dicas para o lar!&lt;br /&gt;Você que não sabe como fazer para tirar aquela mancha de tinta na camisa do marido, basta pingar três gotas de vinagre que aquela mancha na camisa branca sumirá imediatamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VOZ DO LOCUTOR 4&lt;br /&gt;Dicas para o lar é um oferecimento das Drogarias Pacheco, aberta até as vinte e duas horas, todos os dias.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;VOLTA PARA A NOVELA:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jocasta&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Vamos, senhor meu marido. Não fique calado. Continue a contar sua história antes de nos casarmos. Meu coração continua apertado, e a angústia se faz presente em minha alma. Conta-me, continue agora sua história. Não pare.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Édipo&lt;br /&gt;(PAUSA, SUSPIRO, E ÉDIPO RECOMEÇA A FALAR)&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Ao escutar as palavras do ferreiro, logo busquei meu pai e mãe para saber o que era verdade. Eles negaram, mas no olhar de minha mãe, havia um desespero, uma dor, um sentimento que não sei explicar. A dúvida assolou meu coração, e não houve nada que me convencesse de que eles estavam falando a verdade.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;(PAUSA)&lt;/strong&gt; A dúvida fez morada no meu ser e não conseguia mais dormir com o tormento de que não era filho de meus pais. Um amigo de longa data, vendo a minha angústia, disse que havia uma vidente pelas bandas de Bom Jardim, que era capaz de dizer sobre passado, presente e futuro. Eu, que nunca fui crente destas coisas, busquei o búzio desta negra liberta que atendia por duas moedas de pratas. Considerei que o valor era baixo para que acabasse a minha aflição. Mal sabia eu, grande ingenuidade! Ao deparar-me com a escrava liberta, de vez, meus medos acabaram, foi como se jogasse vinho sobre o fogo. Um incêndio se formou em minh’alma quando a ex-escrava me disse com todas as palavras que uma maldição pairava sobre meu espírito: que mataria meu pai e me uniria carnalmente à minha mãe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;(SOM DE INCIDENTE DRAMÁTICO)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jocasta&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Oh!!!!!!! Não é possível senhor meu marido... &lt;strong&gt;(É INTERROMPIDA PELO MARIDO)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Édipo&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Não, não me interrompa, minha senhora. Se guardas no teu coração algum carinho por quem vos fala, não me interrompa. Guarde o silêncio até que termine toda minha narrativa. Acredite-me: só assim terei a coragem necessária para continuar. Peço a Oxalá que não deixe que as forças me faltem ao lhe relatar a minha história. Sossega e escute. Acalme seu coração feminino e ouça seu marido, que lhe devota um especial amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Jocasta&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Está bem. Guardarei silêncio, conforme o pedido do senhor, meu marido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Édipo&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Ao sair da casa da ex-escrava, a dor e o desespero cegavam meu coração. Cavalguei sem rumo, viajando por dias,léguas e léguas distantes, pouco comendo, pouco dormindo, pouco tendo consciência de meu corpo, só o sofrimento e a dor habitavam minha alma. Acredite-me senhora, era uma figura dilacerada pelas dúvidas e incertezas plantadas pelas profecias da negra vidente. Meu objetivo era exilar-me e nunca mais voltar a Diamantina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Jocasta&lt;br /&gt;(VOZ DE COMPAIXAO)&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Causa-me uma imensa dor ao ouvir seu relato, senhor meu marido. &lt;strong&gt;(PAUSA)&lt;/strong&gt; Mas me calarei para escutar o resto de sua história. &lt;strong&gt;(SUSPIRO).&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Édipo&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Quando me dei conta estava na capital da Corte, seguindo o caminho da residência de inverno do imperador. Numa encruzilhada, entre Petrópolis e Teresópolis, deparei-me com um homem branco, que tinha aparência de um capataz que liderava uma comitiva onde havia uma carruagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;(MÚSICA INCIDENTAL DRAMÁTICA QUE VAI AUMENTANDO CONFORME ÉDIPO CONTA A HISTÓRIA)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Eram cinco homens, três negros e dois brancos, um homem que tinha aparência de capataz, e, outro, com jeito de fidalgo. No caminho estreito, não me deixaram passar, empurrando-me para fora da estrada. Eu, possuído por uma cólera diabólica, reagi e, cego de raiva, matei quatro num só golpe, apenas um negro conseguiu fugir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;(MÚSICA INCIDENTAL DRAMÁTICA QUE VAI AUMENTANDO CONFORME ÉDIPO VAI CONTANDO A HISTÓRIA)&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Jocasta&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Oh!!!!! Mas, senhor meu marido...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Édipo&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Silêncio, mulher. Escuta-me! &lt;strong&gt;(PAUSA)&lt;/strong&gt; Se aquele homem era Laio? Não sei dizer &lt;strong&gt;(TOM DE AFLITO)&lt;/strong&gt;. Imploro para que Deus seja generoso conosco e nos proteja de qualquer maldição, que nossa família não seja refém da desgraça, e que possamos viver dias felizes depois de tudo isso que lhe contei, minha senhora. Agora, só nos resta esperar para que o fiel escravo chegue o mais rápido possível da casa de seu pai, e, com isso, meu coração seja uma terra de paz e serenidade novamente, desfazendo todas as angústias que me encobrem a alma. &lt;strong&gt;(TERMINA DE FORMA DRAMÁTICA A ÚLTIMA SENTENÇA)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ENCERRAMENTO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SOM COM TEMA DA NOVELA, AS VALQUÍRIAS, A MÚSICA VAI CRESCENDO E DEPOIS DIMINUI, ATÉ QUE SURJA A...&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;VOZ DRAMÁTICA DO LOCUTOR 5&lt;br /&gt;Será que Édipo terá paz? O que dirá o escravo de Jocasta quando chegar da fazenda?&lt;br /&gt;Como ficará Jocasta ao saber da verdade? Será o amor de Édipo e Jocasta capaz de quebrar a força da maldição que paira sobre a família Guimarães Brito?&lt;br /&gt;Não perca amanhã mais um capítulo desta eletrizante história: “A mancha do pecado no nosso amor”, num oferecimento do sabão em pó Fada Madrinha.&lt;br /&gt;Jingle do sabão.&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-5666256141658577640?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/5666256141658577640/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=5666256141658577640&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/5666256141658577640'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/5666256141658577640'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2008/07/mancha-do-pecado-no-nosso-amor-um-drama_10.html' title='“A mancha do pecado no nosso amor” - um drama burguês no tempo de Édipo Rei (parte final)'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-8242052516325695780</id><published>2008-07-06T15:13:00.000-07:00</published><updated>2008-07-06T15:40:28.614-07:00</updated><title type='text'>“A mancha do pecado no nosso amor” - um drama burguês no tempo de Édipo Rei (1ª parte)</title><content type='html'>&lt;em&gt;&lt;strong&gt;ATENÇÃO:&lt;/strong&gt; Este texto é uma adaptação que fiz sobre a peça Édipo Rei para a faculdade. O professor solicitou que usássemos a temática do drama burguês. Espero que você goste. Tirei a nota máxima, 10.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A história de Édipo e Jocasta será transformada em uma novela de rádio em 1950: “A mancha do pecado no nosso amor”. Na nova adaptação, a história se passa no final do século XVIII, na capital da Corte. Jocasta é filha de um fazendeiro que está à beira da falência, e que para salvar os bens da família casa sua filha de 12 anos com um rico comerciante, Laio, que tem idade para ser seu avô. Eles se casam e a menina um ano depois fica grávida. Laio é um senhor de escravo muito severo, e uma preta velha joga-lhe uma maldição dizendo que seu filho, se algum conseguir sobreviver, o matará.&lt;br /&gt;Por um ano consecutivo, Laio tenta, mas em toda gestação Jocasta perde o feto. Ele tem obsessão por ter um filho para poder deixar a grande fortuna. Após várias tentativas, Jocasta consegue “segurar” uma criança na barriga. No início, Laio não leva a sério a maldição da preta velha, mas conforme o tempo passa, e o nascimento da criança se aproxima, ele fica apavorado, tendo pesadelos de que é assassinado, e o comerciante vai surtando, surtando, até que chega um momento que surta completamente: quando sua mulher dá à luz. Laio - com a ajuda do capataz - se desfaz do menino, mandando que o empregado suma com o rebento, que o mate de qualquer maneira.&lt;br /&gt;Édipo é dado como morto, mas, na verdade, um caixeiro-viajante o vê jogado no mato para ser devorado pelos animais e o salva, levando-o para um casal de fazendeiro léguas e léguas distantes da propriedade onde morava o comerciante Laio.&lt;br /&gt;O tempo passou, o mato cresceu e a história segue semelhante à tragédia grega de Sófocles.&lt;br /&gt;O recorte que este trabalho fará será o momento em que Jocasta conta para Édipo que ele não pode ser filho de Laio, que os deuses africanos erraram ao prever a desgraça.&lt;br /&gt;A música de abertura e encerramento da novela de rádio é da ópera As Valquírias, de Wagner.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-8242052516325695780?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/8242052516325695780/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=8242052516325695780&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/8242052516325695780'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/8242052516325695780'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2008/07/mancha-do-pecado-no-nosso-amor-um-drama.html' title='“A mancha do pecado no nosso amor” - um drama burguês no tempo de Édipo Rei (1ª parte)'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-3906711163162066163</id><published>2008-06-10T18:00:00.000-07:00</published><updated>2008-06-10T18:01:23.041-07:00</updated><title type='text'>A Solidão que buscava o Amor (Capítulo 2)</title><content type='html'>Solidão ficou encantada por aquele ser que lhe tocava tão profundamente o coração. Notava todo seu aspecto, desde os cabelos loiros que pareciam que o sol havia ido visitá-lo logo pela manhã, até os olhos de um cinza azulado que a fizera ver o mundo numa nova dimensão. O sorriso do rapaz era largo e branco como as nuvens. Solidão demonstrou tanto encantamento que uma colega, notando seu entusiasmo, falou-lhe baixinho: &lt;em&gt;“Eu conheço ele...chama-se Amor”.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Solidão coloriu-se de um vermelho rubro ao sentir que sua colega havia notado o entusiasmo. Mas também uma alegria enorme encheu sua alma ao saber que aquele, cuja presença inspirou tanta quentura em seu coração, era o Amor e pela primeira vez na vida, de sua longa e solitária existência, Solidão sorriu. Um sorriso largo, profundo, envolvente e cheio de luz que iluminou o ambiente e todos a notaram e a olharam admirados.&lt;br /&gt;Mas o Amor não estava perto. Solidão teve que se contentar de ficar longe do Amor, sem poder lhe dizer ao menos algumas palavras.&lt;br /&gt;Quando chegou ao trabalho, Solidão procurou a colega e quis saber de todos os detalhes do Amor: como era, onde morava, do que gostava... queria saber de tudo, os menores detalhes e a cada resposta outras indagações surgiam, pois ela nunca tinha encontrado o Amor e agora, maravilhada perante a situação, não sabia o que fazer.&lt;br /&gt;Ao voltar para casa rezou para que o Amor estivesse no ponto de ônibus e assim pudesse se aproximar ... mesmo sem saber o que lhe dizer. &lt;em&gt;“Sei lá...pergunto as horas.... comento sobre o tempo...”,&lt;/em&gt; pensava  Solidão que queria a companhia do Amor.&lt;br /&gt;Mas de nada adiantou, Solidão não encontrou o Amor... O Amor não veio, foi embora... e isso a entristeceu muito. Mas Solidão não perdeu a esperança e no dia seguinte se arrumou ...colocou a melhor roupa, uma blusa presenteada há séculos, mas que nunca havia usado.... penteou-se e foi em busca do Amor.&lt;br /&gt;Nova decepção...mais uma vez o Amor não veio. Nem sinal do seu cabelo de sol, de seus olhos de céu... nada, e Solidão pesarosamente foi trabalhar. Arrastou-se até a empresa, pois o que ela queria realmente era estar perto do Amor... sentir seus braços em volta do corpo, ouvir sua voz, que ela imaginava rouca...mas o Amor mais uma vez não apareceu.&lt;br /&gt;E assim foram todos os dias seguintes. Solidão se arrumava, colocava a melhor roupa, rezava, ficava cheia de expectativas e esperança ... e mais uma vez o Amor não aparecia.&lt;br /&gt;Teve até uma vez que ela olhou e pareceu avistá-lo; ledo engano...não era... o Amor deveria estar longe...bem longe dali e ela, que sonhava tanto com sua presença, havia tido apenas uma visão ilusória do Amor.&lt;br /&gt;O tempo passou... os dias foram se somando e até hoje Solidão ainda procura o Amor...sem nunca mais tê-lo encontrado. Mas Solidão não perdeu a esperança, todo dia passa pelo ponto de ônibus, olha se o Amor  está presente e ela já se prometeu: quando isso acontecer, ela descerá e se entregará para o Amor de corpo e alma.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-3906711163162066163?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/3906711163162066163/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=3906711163162066163&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/3906711163162066163'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/3906711163162066163'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2008/06/solido-que-buscava-o-amor-captulo-2.html' title='A Solidão que buscava o Amor (Capítulo 2)'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-791974359483354150</id><published>2008-06-05T18:09:00.000-07:00</published><updated>2008-06-05T18:13:22.262-07:00</updated><title type='text'>A Solidão que buscava o Amor (Capítulo 1)</title><content type='html'>Há muito tempo, numa pequena aldeia perdida neste planeta, nasceu uma menina que logo recebeu o nome de Solidão. Ao sair das entranhas de sua mãe, não chorou, apenas olhou o mundo com os olhos marejados de lágrimas, tristemente. Na verdade, desde o início, em sua mais tenra infância, Solidão se mostrou uma criança triste. Minguada, corpo franzino, grandes olhos negros , cabelos escuros e lisos... a boca parecia querer aprender a sorrir, mas nunca concretizando a ação. Esse era o seu aspecto.&lt;br /&gt;Enquanto outras crianças se reuniam para as brincadeiras infantis, Solidão, triste em seu canto, apenas olhava sem nada dizer.&lt;br /&gt;Na adolescência o problema continuou. Ao ir aos bailes e festas, Solidão continuava sozinha, apesar da agitação reinante no ambiente.&lt;br /&gt;A garota se transformou em mulher, mas nada mudou no seu cotidiano. Até que um dia, ao ir para o trabalho, viu um rapaz pela janela de um ônibus, num ponto onde os coletivos paravam. Seu coração, pela primeira vez na vida se aqueceu, e sua face, normalmente pálida, ficou rosada, tamanha a emoção.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-791974359483354150?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/791974359483354150/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=791974359483354150&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/791974359483354150'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/791974359483354150'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2008/06/solido-que-buscava-o-amor-captulo-1.html' title='A Solidão que buscava o Amor (Capítulo 1)'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-5261970517930082403</id><published>2008-05-31T05:09:00.000-07:00</published><updated>2008-05-31T05:12:00.916-07:00</updated><title type='text'>A Borboleta Invisível (Capítulo 17)</title><content type='html'>Mais uma vez, o garoto foi para a floresta encontrar sua amiga, aceitando que talvez ela nunca lhe desse o tesouro por que tanto ansiava. Ao chegar na mata, logo encontrou a Borboleta. Contudo, em seguida, uma multidão de outras borboletas, primas de sua amiga, apareceram, e todos juntos começaram a brincar de pique-esconde. O menino ria feliz. Ele sentia o seu coração se expandir ao ter tantas amigas brincando com ele. Uma chuva fininha, destas que caem do céu para fazer orvalho nas folhas brilhantes das árvores, surgiu, e o guri gargalhava feliz, feliz como nunca foi na vida. É bem verdade que o moleque era feliz em sua casa, na sua escola, tendo seus pais e o avô a lhe amparar sempre. Porém aquela felicidade era diferente. Era como se um sol brilhasse dentro do peito. O mesmo Astro Rei que irradiava do lado de fora, apesar da chuva fininha que despencava. Uma chuva própria para se fazer arco-íris.&lt;br /&gt;E foi ali, naquela mata perdida neste mundão de meu Deus, no meio do planalto central, que o moleque foi agraciado com um verdadeiro tesouro. Ele se lembrou de uma história que seu nono volta e meia lhe contava. Era uma história de um menino que vivia num mundo muito pequeno e que ouvira certa vez de uma raposa: &lt;em&gt;"Somente com o coração enxergamos com clareza, porque o essencial é invisível aos olhos."&lt;/em&gt; Ele havia encontrado seu tesouro e nem se dera conta disso. A amizade com a fraterna Borboleta, que não lhe era mais invisível, o amor pela floresta e pelos bichinhos que ali habitavam, tudo isso era um tesouro que ele carregaria por toda a vida. Ao se dar conta disso, o moleque ria feliz debaixo da chuva fininha, tendo o sol e os amigos daquela mata por testemunhas.&lt;br /&gt;Não é uma linda história? Pois é… Eu também gostei de contar. Ah, você quer saber o que aconteceu com o menino? Tudo bem, eu conto: o garoto cresceu, virou homem. Ficou tão alto e sábio como o avô. Seu amor pela natureza, e principalmente pelas borboletas, levou-o a conhecer outras terras, muitas pessoas e até sentir na pele como era a neve. Ele virou doutor, com diploma na parede e tudo mais: o orgulho dos pais e da família inteira. Mas o guri não ficou besta, não. Apesar do sucesso, dos títulos e dos livros que escreveu, ele continua gostando de ir às matas e florestas deste mundo inteiro para encontrar outros bichinhos e fazer novos amigos.&lt;br /&gt;Hoje, ele já não é um menino, destes que correm pelas ruas assustando beatas. Transformou-se num senhor de cabelos brancos, e todos os que olham a fotografia do avô pensam que ele é vestido com roupas do passado. Hoje, ele tem quatro netos: dois meninos e duas meninas. Todos com olhos azuis e sardas no nariz. A cada período de férias, eles vão à floresta procurar também a sua Borboleta Invisível.&lt;br /&gt;E você? Já encontrou a sua?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-5261970517930082403?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/5261970517930082403/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=5261970517930082403&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/5261970517930082403'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/5261970517930082403'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2008/05/borboleta-invisvel-captulo-17.html' title='A Borboleta Invisível (Capítulo 17)'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-8877498610366642688</id><published>2008-05-26T14:01:00.000-07:00</published><updated>2008-05-26T14:03:27.664-07:00</updated><title type='text'>A Borboleta Invisível (Capítulo 16)</title><content type='html'>Os dias foram se passando, e mesmo aos sábados e domingos o menino não deixava de ir se encontrar com os amigos da mata. Contudo, o momento de maior alegria era quando a Borboleta Invisível, que não era mais invisível para ele, aparecia e pousava em seu nariz. Tudo levava a crer que ela gostava das sardas que povoavam o nariz do moleque, e ele não ligava. Afinal, eram amigos, e como tais tinham liberdade para brincar um com o outro.&lt;br /&gt;Porém, apesar de a amizade estar se firmando a cada nascer do sol, a Borboleta nunca havia lhe mostrado o tesouro relatado pelo avô. Uma parte do guri ficava imensamente feliz de só ter a presença angelical da amiga, mas outra parte se questionava o porquê de ela não ter lhe presenteado com o tesouro de valor inestimável. Ele ficava triste quando pensava que talvez fosse porque não merecesse tal preciosidade. Porém, nunca abriu a boca para reclamar de &lt;em&gt;nadica &lt;/em&gt;de nada com a fraterna amiga. Sim, porque não havia dúvida de que de eles conversavam entre si. Ela respondia sempre com um bailado que aos olhos dos outros poderia ser incompreensível, mas que o garoto entendia perfeitamente, tim-tim por tim-tim.&lt;br /&gt;Certa noite, depois do jantar, o garoto sentou-se na porta da sala e olhou para o céu estrelado. Seu silêncio chamou a atenção do avô,  que se aproximou devagarzinho e sentou do ladinho do neto. O ancião perguntou por que ele estava tão concentrado, e o guri explicou que pensava qual seria o motivo de a amiga Borboleta não lhe dar o tesouro. Ele queria tanto conhecer outros lugares, ver o mar, visitar outras terras, fazer amizades com pessoas e saber como era a neve. O sábio nono ficou primeiro em silêncio, e depois começou a falar com aquela voz mansa, pausada, que demonstrava toda a sabedoria acumulada ao longo dos anos. &lt;em&gt;"Preste atenção: às vezes, a resposta pode estar dentro de você. Precisa só abrir o seu coração. A resposta virá de uma forma ou de outra",&lt;/em&gt; aconselhou.&lt;br /&gt;O garoto acreditou. Ele sempre acreditava no que o avô falava, pois tudo o que dizia dava certo. &lt;em&gt;"Mas como ler o próprio coração?",&lt;/em&gt; se perguntava. Afinal, na escola ninguém era alfabetizado neste quesito. A professora Glorinha nunca lhe ensinou o abc do coração. Eles aprendiam a ler, escrever, fazer contas de somar, diminuir, multiplicar e dividir. Mas nunca, nunca mesmo, ninguém do colégio disse que o coração fala, que tem uma linguagem. Mas se o nono falou, deve existir mesmo, porque ele nunca mentiu para o neto.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-8877498610366642688?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/8877498610366642688/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=8877498610366642688&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/8877498610366642688'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/8877498610366642688'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2008/05/borboleta-invisvel-captulo-16.html' title='A Borboleta Invisível (Capítulo 16)'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-6343997958348815300</id><published>2008-05-21T18:59:00.001-07:00</published><updated>2008-05-21T19:00:28.145-07:00</updated><title type='text'>A Borboleta Invisível (Capítulo 15)</title><content type='html'>Ao raiar de um novo dia (aproveitando que estava de férias do colégio), o guri, cheio de entusiasmo, correu outra vez para a floresta, carregando três livros: um era o mesmo que havia lido no dia anterior; o outro tinha a história de um pirata; e, por último, colocou na algibeira uma obra que falava sobre as florestas. Como ele não sabia qual era o gosto da Borboleta Invisível, resolveu dar várias opções para que ela escolhesse o tipo de leitura que queria ouvir.&lt;br /&gt;Chegando à floresta, sentou-se no mesmo lugar e começou a ler em voz alta, sempre atento, procurando ver de rabo de olho se a Borboleta Invisível apareceria novamente. O ser angelical não se fez de rogado e, mais uma vez, pousou na ponta do seu nariz. Novamente, o garoto ficou vesgo e também surpreso com o aparecimento. Mas uma alegria imensa surgiu em seu coração quando se deu conta de que ela estava ali na sua frente, em carne e osso (quer dizer, o guri sabia que borboleta não tinha osso, era apenas um modo de dizer...). &lt;br /&gt;Mais uma vez ele se admirava ao ver o ser angelical que durante tanto tempo em seus sonhos bailou. Do mesmo jeito que no dia anterior, a Borboleta,  depois de ficar no nariz do moleque, foi para sua mão. Lentamente, para não espantar o bichinho, o guri abriu a palma, e, obediente, a Borboleta Invisível ficou ali pousada por minutos que pareceram uma eternidade. O menino não cansava de admirar tanta beleza, tanta formosura, tanta delicadeza. Ele nunca imaginou,  em toda sua longa existência de guri, que pudesse existir uma borboleta tão bela, um ser tão irremediavelmente encantador. E aquele ser estava pousado na palma de sua mão, ao alcance de sua respiração. O garoto, temendo que ela fugisse, prendeu a respiração o mais que pôde, até começar a ficar vermelho. Quando não agüentou mais, começou a soltar devagarzinho o ar dos pulmões, morrendo de medo que a Borboleta fugisse. Mas ela não foi embora, ficou ali numa camaradagem que dava gosto de ver. Ela e o garoto como se fossem velhos amigos, de longas datas. Depois de um tempo, ela abriu as asas e voou floresta afora. Só que, daquela vez, o menino não ficou temeroso de que nunca mais a visse. Nasceu no seu peito de moleque a certeza de que havia sido plantada ali uma bela amizade, e que esta duraria enquanto os dois vivessem. Ele sabia no seu íntimo que aquela Borboleta Invisível voltaria sempre para lhe fazer companhia. O garoto não ficaria mais sozinho na floresta. Teria sempre o amparo daquele ser angelical.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-6343997958348815300?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/6343997958348815300/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=6343997958348815300&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/6343997958348815300'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/6343997958348815300'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2008/05/borboleta-invisvel-captulo-15.html' title='A Borboleta Invisível (Capítulo 15)'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-1672690229929290194</id><published>2008-05-18T05:37:00.000-07:00</published><updated>2008-05-18T05:38:53.783-07:00</updated><title type='text'>A Borboleta Invisível (Capítulo 14)</title><content type='html'>Assim que teve consciência de que a Borboleta tinha realmente ido embora, o guri saiu numa disparada só, correndo pela floresta e depois pela estrada até chegar a casa com o coração saindo pela boca. Ele queria encontrar o avô e contar as novidades todinhas, todinhas, sem esquecer nenhum pequeno detalhe do encontro com a Borboleta Invisível. Assim que avistou a figura do ancião, que estava dando de comer ao canário, o garoto correu em sua direção. Como sempre acontecia depois de toda disparada, o menino não conseguia articular uma só palavra. Só saíam sons esquisitos de sua garganta. O nono, já sabendo que demoraria alguns minutos até a respiração do neto voltar ao normal, calmamente limpou a gaiola do passarinho, e, como sempre, deixou a portinha aberta para que o canário tivesse a liberdade de ir e voltar para casa no momento que quisesse. O canário de seu avô adorava a residência, mas também amava poder voar em liberdade e comer no pé das árvores as frutas maduras do pomar. Como era feliz, nunca deixou de voltar para a gaiola que era sua casa.&lt;br /&gt;Quando o menino conseguiu falar, contou os mínimos detalhes do encontro com o ser angelical. O avô ouvia atentamente, e seus olhos brilhavam cheios de entusiasmo, com o mesmo sentimento que se via nos olhos do neto. Realmente, encontrar a Borboleta Invisível e conseguir enxergá-la era um privilégio para poucos. Contudo, no final do relato, o menino explicou que a Borboleta apareceu, mas não lhe deu nenhum tesouro de valor inestimável.&lt;br /&gt;O sábio ancião pediu que o jovem tivesse paciência e fosse persistente. Ele lembrou ao neto que todas as lendas têm um fundo de verdade e que uma história tão antiga como a da Borboleta Invisível não teria passado de geração em geração à toa. &lt;em&gt;"É preciso também saber se você está pronto para receber tal riqueza",&lt;/em&gt; argumentou o pai da mãe do garoto.&lt;br /&gt;O menino foi dormir com aquilo na cabeça. Ficou pensando que talvez não merecesse mesmo o tesouro. &lt;em&gt;"Mas se é assim",&lt;/em&gt; ele atinava, &lt;em&gt;"a Borboleta não teria aparecido depois de tanto tempo!"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;E, desse modo, cheio de esperança, entregou-se aos braços de Morfeu.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-1672690229929290194?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/1672690229929290194/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=1672690229929290194&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/1672690229929290194'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/1672690229929290194'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2008/05/borboleta-invisvel-captulo-14.html' title='A Borboleta Invisível (Capítulo 14)'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-2905652293755859230</id><published>2008-05-14T15:55:00.000-07:00</published><updated>2008-05-14T15:57:10.254-07:00</updated><title type='text'>A Borboleta Invisível (Capítulo 13)</title><content type='html'>Então, num dia em que o menino estava sentado no tronco e quando parecia que a floresta inteira tinha parado para o escutar, pois ele lia a história de um anjo que havia visitado um casal de irmãos, a Borboleta tomou coragem, respirou fundo umas três vezes – &lt;em&gt;Funnn, Funnnnnn, Funnnnnnnnn!&lt;/em&gt; – e pousou na ponta do nariz do menino de olhos da cor do céu. O menino ficou vesgo ao notar aquele ser angelical parado no seu pequeno nariz de sardas espalhadas. O guri arregalou os olhos, abriu a boca e ficou paralisado porque soube no mesmo instante que aquela era a Borboleta Invisível que lhe daria um tesouro inestimável.&lt;br /&gt;Mexer?! Nem pensar! Respirar, então?! Impossível! Uma luz emanava daquele ser tão especial. Ela não era um pirilampo, é bom que se diga. Mas sua beleza era tão radiosa e exuberante, que parecia emanar uma luz própria dos céus, encontrada somente nos seres angelicais.&lt;br /&gt;A Borboleta Invisível era muito mais bonita do que seu nono falara. Muito mais! Suas asas pareciam bordadas, seu corpo delgado parecia ter sido esculpido por algum anjo marceneiro e seu vôo encantava até o mais duro coração de pedra ou gelo. Do nariz, a Borboleta foi pousar na mão que segurava o livro de história. Em seguida, na coxa, e, por último, na ponta de sua botina. Depois, saiu voando, num bailado de fada, arrebatando o menino com sua beleza, levando-o ao êxtase por apreciar tanta formosura assim na vida!&lt;br /&gt;A Borboleta começou a voar, e o menino no mesmo instante correu atrás do ser angelical, temendo perdê-la para sempre. Mas, do mesmo jeito que surgiu, a Borboleta desapareceu num piscar de olhos, e o garoto ficou temeroso de que tudo não tivesse passado de um belíssimo sonho.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-2905652293755859230?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/2905652293755859230/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=2905652293755859230&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/2905652293755859230'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/2905652293755859230'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2008/05/borboleta-invisvel-captulo-13.html' title='A Borboleta Invisível (Capítulo 13)'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-8232104595118704456</id><published>2008-05-11T17:31:00.000-07:00</published><updated>2008-05-11T17:32:01.045-07:00</updated><title type='text'>A Borboleta Invisível (Capítulo 12)</title><content type='html'>O convívio diário do menino com a floresta teve seus resultados. Durante todo o tempo, a Borboleta Invisível ficou por ali rondando, escutando sua voz, as histórias que contava sobre piratas de uma terra distante e foi aos poucos tomando confiança no moleque. Ela, que sempre foi desconfiada, começou a acreditar que o guri não era perigoso, e, quando viu, já ansiava por sua presença na mata, que era sua casa. O ser angelical queria muito que as pessoas a enxergassem, ansiava verdadeiramente por isso, mas, no fundo do seu coração de renda, ela temia ser machucada. Temia que os seres humanos a prendessem e a colocassem dentro de um vidro, dependurada num quadro na parede. Volta e meia surgia alguém que aprisionava assim uma porção de primas suas e as levava para outro mundo, sabe lá Deus para onde.&lt;br /&gt;A Borboleta Invisível tinha medo, mas esse sentimento se misturava com o desejo de ser vista e amada. É bem verdade que ela não tinha certeza nenhuma de que, ao ser vista, seria automaticamente amada. Não havia garantia, como nada na vida. Mas a Borboleta Invisível tinha o desejo de tentar, de se arriscar, de dar o primeiro passo na direção dos seres humanos. E, numa linda manhã de verão, quando as flores e árvores com seus frutos mostravam todo seu esplendor, a Borboleta Invisível tomou a firme resolução de se mostrar para o menino. É bem verdade que ela não sabia se ele conseguiria enxergá-la. Afinal, ele não era o primeiro com quem ela tentava se comunicar, mas poucos, bem poucos conseguiram enxergá-la, mesmo quando ela aceitava ser vista. Não são todos que têm a capacidade de enxergar o que é realmente belo. Muita gente não consegue ver coisas que estão debaixo do nariz. Mas se a Borboleta não tentasse, como conseguiria saber o resultado, né?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-8232104595118704456?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/8232104595118704456/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=8232104595118704456&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/8232104595118704456'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/8232104595118704456'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2008/05/borboleta-invisvel-captulo-12.html' title='A Borboleta Invisível (Capítulo 12)'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-6761255737577093455</id><published>2008-05-09T09:54:00.001-07:00</published><updated>2008-05-09T09:56:54.440-07:00</updated><title type='text'>A Borboleta Invisível (Capítulo 11)</title><content type='html'>O verão chegou, depois surgiu o outono. No inverno, o garoto pegou uma gripe braba e teve que ficar de molho na cama, tomando caldo de galinha feito pela mãe e usando emplastro de angu no peito. Com isso, suas visitas à mata tiveram que ser adiadas. O menino ficou muito triste com isso, mas o avô lhe mostrou que ele poderia usar este tempo que estava de molho na cama para estudar mais sobre a natureza e, assim, mandou trazer da capital mais três livros grossos, desta vez dois azuis e um vermelho escuro.&lt;br /&gt;O menino acordava bem cedo e ficava até a noitinha devorando o presente do nono. Ele estava ansioso para sarar logo e poder ir à floresta comprovar tudo o que aqueles livros diziam. Seu amor pela natureza crescia a cada dia mais e, quanto mais lia, mais tinha curiosidade para saber e saber. Sua fome era tanta, que o moleque só tinha um assunto nas conversas: &lt;em&gt;era natureza pra cá, natureza pra lá, porque a natureza… &lt;/em&gt;Os pais, os empregados do sítio, até os amiguinhos da escola se cansaram de ouvir suas histórias e saberes. Apenas o avô, que tinha paciência de Jó, ouvia e o incentivava mais e mais. O velho ancião também era um apaixonado pela natureza. Sua maior paixão, contudo, eram as flores, principalmente as margaridas. O senhor de cabelos alvos sabia tudo a respeito de flores, e era um grande estudioso de margaridas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-6761255737577093455?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/6761255737577093455/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=6761255737577093455&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/6761255737577093455'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/6761255737577093455'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2008/05/borboleta-invisvel-captulo-11.html' title='A Borboleta Invisível (Capítulo 11)'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-6954284819459835938</id><published>2008-05-07T20:23:00.000-07:00</published><updated>2008-05-08T05:25:09.653-07:00</updated><title type='text'>A Borboleta Invisível (Capítulo 10)</title><content type='html'>Livre da implicância materna, o menino agora se sentia alforriado para passar a maior parte do tempo na sua floresta particular. Várias vezes, o avô lhe acompanhou na empreitada, sentando com o garoto no meio da mata para contar coisas que sabia sobre aquele universo verde, lembrar de quando tinha a idade do menino e corria pela estrada afora, sempre em companhia de seu nono também. Quando o menino ouvia aquilo, ficava espantado! Para o moleque, o avô já tinha nascido com aquela idade, de cabelos brancos. Mas seu nono contava as histórias, e isso sempre acalentava o seu coração. A voz pausada e suave encantava não apenas o neto, mas também os bichos que povoavam aquela floresta. O guri notou que, enquanto o sábio ancião contava as histórias, os pássaros, formigas, joaninhas e bichinhos de diferentes portes se avizinhavam atentamente. Aquilo deu uma idéia ao garoto. Se uma legião vinha escutar seu avô, quem sabe ele não poderia fazer o mesmo com a Borboleta Invisível? Durante aquele tempo, o menino ficou tão entretido em ler os livros presenteados pelo avô, que esqueceu, temporariamente, de seu maior objetivo em estar na floresta: conquistar a confiança e a amizade da Borboleta Invisível. No dia seguinte, o guri levou um dos livros de capa verde e começou a ler com a voz pausada, semelhante à que o nono usava quando lia histórias para ele dormir. Sua voz parecia ecoar na clareira. No silêncio suave da mata, a voz do garoto se assemelhava ao vento que corta as folhas das árvores. Os animais começaram a se aproximar para escutá-lo. Os dias foram passando, e o menino fez da leitura em voz alta um hábito. Ele notava que os seres da floresta gostavam mais quando lia as aventuras dos piratas de terras distantes. As borboletas ora voavam ao seu redor, ora pousavam nas pedras ou nos troncos das árvores que circundavam o local onde o guri tradicionalmente sentava para ler suas histórias. Mas o moleque não ficava apenas ali lendo, lendo, lendo… Não! Com o passar do tempo, cada pedacinho daquela mata era conhecido por ele. Não havia um tiquinho de terra, um cantinho qualquer que o garoto não conhecesse, de que não tivesse ciência. O menino conhecia todos os bichinhos, e os novos que nasciam já se tornavam seus amigos. Mas a Borboleta Invisível, nada. &lt;em&gt;Nadica &lt;/em&gt;de nada!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-6954284819459835938?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/6954284819459835938/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=6954284819459835938&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/6954284819459835938'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/6954284819459835938'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2008/05/borboleta-invisvel-captulo-10.html' title='A Borboleta Invisível (Capítulo 10)'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-3707652123707409015</id><published>2008-05-06T05:50:00.001-07:00</published><updated>2008-05-06T05:52:57.731-07:00</updated><title type='text'>A Borboleta Invisível (Capítulo 9)</title><content type='html'>E, assim, a cada amanhecer, o menino voltava à mata e aprendia um pouco mais daquele ambiente que pouco a pouco se ia revelando. Um novo mundo se abriu para ele. O guri começou a conhecer cada flor, cada folha, cada curva do rio que atravessava a densa floresta e agora não estava apaixonado apenas pelas borboletas, mas por todo aquele universo verde que tinha perto de casa. O interesse era tanto, mas tanto, que o avô, sempre ele, encomendou da capital – onde havia o mar que o menino queria conhecer com o tesouro que a Borboleta lhe traria – um livro grande, grosso, de capa dura e marrom, contendo os desenhos de várias borboletas. Parecia que todas as borboletas que existiam no mundo estavam ali retratadas. Menos uma, é claro. Como seu avô tinha lhe explicado desde o início, poucos, bem poucos conseguiam enxergar a Borboleta Invisível.&lt;br /&gt;No final, de tanto lidar com o livro, o menino já sabia distinguir cada uma das borboletas que lhe apareciam pela frente, quando sentava no meio da floresta e admirava o ambiente. O avô, incentivando o interesse do neto, resolveu encomendar dois novos livros da capital: um sobre as árvores e outro sobre os pássaros. Os dois tinham capa dura também, só que eram verdes e um pouco mais pesados do que o primeiro.&lt;br /&gt;A mãe do menino bem que quis ensaiar um protesto contra a ausência dele em casa e nos pequenos afazeres domésticos, mas o sábio avô lhe disse: &lt;em&gt;"Deixe estar. Ele está aprendendo a amar a natureza". &lt;/em&gt;Como boa filha , a mãe do guri acabou obedecendo ao velho pai.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-3707652123707409015?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/3707652123707409015/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=3707652123707409015&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/3707652123707409015'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/3707652123707409015'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2008/05/borboleta-invisvel-captulo-9.html' title='A Borboleta Invisível (Capítulo 9)'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-3281119625266931110</id><published>2008-05-04T06:00:00.000-07:00</published><updated>2008-05-04T06:03:37.322-07:00</updated><title type='text'>A Borboleta Invisível (Capítulo 8)</title><content type='html'>O garoto ficou pensando no que o avô disse. No dia seguinte, quando retornou à floresta, já foi sabendo que era preciso praticar a paciência, e que seu tesouro não seria encontrado rapidamente.&lt;br /&gt;Cheio de coragem e confiante de que conquistaria a Borboleta Invisível, o moleque saiu naquele dia de casa assim que o sol raiou munido, do firme propósito de fazer dela sua amiga. Como a mãe sempre disse que a melhor maneira de se chegar ao coração de um homem era cativando seu estômago, o menino resolveu levar uma porção extra de broa. É bem verdade que a Borboleta Invisível não era homem, mas se funcionava para um, porque não funcionaria para outro, né? &lt;em&gt;"Não é tudo filho de Deus?!",&lt;/em&gt; atinava o garoto esperto.&lt;br /&gt;E o guri passou o dia inteiro na floresta estudando seus barulhos. Viu um montão de pássaros, joaninhas, formigas, besouros, bichinho bem pititico, outros nem tanto. Naquele silêncio todo, o menino conseguiu escutar as vozes das águas que passavam por entre as pedras do rio. Um monte de passarinho comeu os farelos da broa que ele levou para conquistar a Borboleta Invisível.&lt;br /&gt;Ela não apareceu, pelo menos não que ele conseguisse ver, mas sua manhã não foi perdida porque, se não conseguiu conquistar a amizade da Borboleta Invisível, pelo menos ele semeou confiança nos vários passarinhos e formigas que vieram comer da iguaria de sua mãe.&lt;br /&gt;O guri não foi embora triste, quando retornou para casa no final da tarde. Ele tinha a certeza de que se conseguiu iniciar uma amizade com os amiguinhos da floresta, também conquistaria a da Borboleta Invisível.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-3281119625266931110?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/3281119625266931110/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=3281119625266931110&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/3281119625266931110'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/3281119625266931110'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2008/05/borboleta-invisvel-captulo-8.html' title='A Borboleta Invisível (Capítulo 8)'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-1500416942938318473</id><published>2008-05-02T05:48:00.000-07:00</published><updated>2008-05-02T05:51:03.050-07:00</updated><title type='text'>A Borboleta Invisível (Capítulo 7)</title><content type='html'>Mas como encontrar a Borboleta Invisível? Se ela morava naquela mata, em qual toca  dormia? Aliás, borboleta dorme? Borboleta mora em toca como os coelhos? Tantas perguntas... E nem seu avô nem o &lt;em&gt;"Pai do Conhecimento"&lt;/em&gt; estava por perto para lhe dar a resposta a tantas indagações. Era muita falta de sorte! Mas o menino não desistiu e continuou ali na floresta, tentando enxergar a Borboleta Invisível.&lt;br /&gt;As horas foram passando, a &lt;em&gt;"noite foi chegando devagarzinho com seu manto negro, salpicado de estrelas", &lt;/em&gt;e antes que sua mãe brigasse e o deixasse de castigo por chegar atrasado ao jantar, o menino resolveu ir embora. Contudo, ele se prometeu continuar na manhã seguinte à procura do ser que lhe bafejaria com a sorte.&lt;br /&gt;Chegando em casa, o neto foi procurar o avô para esclarecer várias questões que lhe surgiram enquanto estava na floresta. A conversa foi longa.Só houve uma parada durante o jantar, pois o pai sempre insistiu que a hora de comer era sagrada e que todos deveriam se concentrar no alimento, agradecendo ao Pai Maior. Nunca o silêncio à mesa incomodou tanto o guri. O avô, que sempre foi de comer compassadamente, saboreando a gostosa sopa que a filha havia feito, parecia mais lento do que os dias normais. Mas até que a refeição acabasse e o garoto pudesse continuar a prosa com o querido senhor de cabelos brancos penteados para trás, que tinha os olhos dos mesmos tons que os seus, pareceu uma eternidade. O nono lhe explicou que era difícil conseguir enxergar a Borboleta Invisível, porque ela era muito arisca e nem todo mundo conseguia vê-la; que só aparecia para alguns privilegiados que conquistassem sua confiança; que o neto deveria ter paciência e ganhar sua amizade, para que ela se sentisse segura ao seu lado. &lt;em&gt;"Para se confiar numa pessoa, é preciso comer um quilo de sal com ela. Todo dia um pouquinho",&lt;/em&gt; sentenciou o sábio ancião.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-1500416942938318473?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/1500416942938318473/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=1500416942938318473&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/1500416942938318473'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/1500416942938318473'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2008/05/borboleta-invisvel-captulo-7.html' title='A Borboleta Invisível (Capítulo 7)'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-6185792148460635608</id><published>2008-04-30T12:58:00.000-07:00</published><updated>2008-04-30T13:01:12.827-07:00</updated><title type='text'>A Borboleta Invisível (Capítulo 6)</title><content type='html'>No dia seguinte, o guri levantou novamente cedo, mais cedo ainda, junto com o galo, e novamente passou na cozinha, pegou um pedaço de pão recém-feito, e saiu em disparada na direção da mata. Não chegou sequer a tomar o seu café com leite, pois queria chegar cedo na floresta. Vai que a Borboleta Invisível madrugasse também! Se ele chegasse tarde, ela poderia já ter ido para outros lados, sabe-se lá!&lt;br /&gt;Chegando à mata, o menino ficou pesquisando cada pedacinho do terreno coberto de árvores, folhas caídas e flores silvestres. Encontrou os mais diferentes pássaros, com plumagens ricas e variadas. Borboleta, então?! Nem se fala! Cada uma mais linda e delicada que a outra, mas nada, nada mesmo, da Borboleta Invisível. O ser que lhe traria um tesouro de valor inestimável, conforme o avô lhe havia contado. Sentou-se na raiz de uma árvore e ficou pensando como seria encontrar um baú contendo um tesouro. Cheio de pedras coloridas, pérolas como as que sua mãe usava e que foram compradas na quitanda do &lt;em&gt;"seu Juca",&lt;/em&gt; só que essas teriam valor! O garoto não era ambicioso… Quer dizer, só um pouquinho. A descoberta do baú com o tesouro (porque todo tesouro que se preza tem que vir dentro de um baú), sim, lhe abriria as portas para conhecer outras terras, viajar. A mãe sempre dizia que não podia ir para a capital que não tinha dinheiro, que o pai precisava juntar para comprar semente boa para a próxima estação. Os anos se passavam, e o menino, que sempre acalentou o desejo de ir para a capital ver o mar, não conseguia realizar seu sonho. &lt;em&gt;"Afinal, já estou ficando velho"&lt;/em&gt;, pensava, &lt;em&gt;"Daqui a pouco, faço dez anos e não vivi a vida",&lt;/em&gt; argumentava consigo mesmo!&lt;br /&gt;Por isso lhe era tão importante encontrar a Borboleta Invisível e ser bafejado pela sorte. O tesouro de valor inestimável lhe abriria as portas para ver o mar e viajar nele por horas e horas. Seu nono lhe disse que o oceano era grande, mas tão grande, que se poderia navegar nele por meses antes de encontrar outro país, sim, senhor!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-6185792148460635608?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/6185792148460635608/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=6185792148460635608&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/6185792148460635608'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/6185792148460635608'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2008/04/borboleta-invisvel-captulo-6.html' title='A Borboleta Invisível (Capítulo 6)'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-2465447316345571990</id><published>2008-04-28T18:32:00.000-07:00</published><updated>2008-04-28T18:34:19.703-07:00</updated><title type='text'>A Borboleta Invisível (Capítulo 5)</title><content type='html'>O moleque, como todo garoto que se preza, sempre quis ser pirata. Mesmo nunca tendo visto o mar de perto, seu avô lhe dizia da imensidão e da profundidade inigualáveis do oceano. Seu sonho era conhecer as terras distantes que seu nono vivia a lhe contar. Terras onde existissem neve e montanhas tão altas que não daria para ver o topo escondido lá em cima, entre as nuvens. O garoto sonhava em fazer uma longa viagem, tendo sempre a tiracolo o avô, sua coleção de pedrinhas e mais meia dúzia de bugigangas que ele considerava essenciais para a sua vida. Coisas que qualquer menino carregaria para onde quer que fosse.&lt;br /&gt;E ele pensou, pensou, pensou... passou a tarde inteira na porta da cozinha, sentado nos degraus, atinando uma maneira de conseguir ver a Borboleta Invisível. A mãe logo foi ver se ele tinha febre ou algo parecido. Sim, porque, espevitado do jeito que era, só se estivesse muito doente é que ficaria quieto, num canto qualquer. Mas ele não tinha febre. Não a febre que a mãe pensava, mas sim um desejo intenso de ver a Borboleta Invisível!&lt;br /&gt;A noite chegou e as estrelas surgiram lá no alto, as luzes da casa foram se acendendo e o menino continuava na porta da cozinha, pensando num jeito, tentando atinar uma maneira de conseguir realizar o seu desejo.&lt;br /&gt;A mãe o chamou, o pai também, mas ele só entrou depois que o avô sentou-se na porta junto com ele, aconselhando-o que fosse jantar e depois dormisse, pois saco vazio não pára em pé e nada melhor do que uma boa noite de sono para &lt;em&gt;"desanuviar"&lt;/em&gt; as idéias.&lt;br /&gt;Como tudo o que o nono falava dava certo, o moleque seguiu seu conselho.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-2465447316345571990?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/2465447316345571990/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=2465447316345571990&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/2465447316345571990'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/2465447316345571990'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2008/04/borboleta-invisvel-captulo-5.html' title='A Borboleta Invisível (Capítulo 5)'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-2885741621573854485</id><published>2008-04-26T07:25:00.000-07:00</published><updated>2008-04-26T07:31:40.683-07:00</updated><title type='text'>A Borboleta Invisível (Capítulo 4)</title><content type='html'>Ficou tão impressionado com o que viu, que saiu correndo, deixando de lado a intenção primeira de ficar explorando o local, em direção à casa para falar com o seu avô. Seu nono – era assim que ele chamava o pai de sua mãe – era um homem muito sábio. Para o menino, ele era o homem mais sábio do mundo, pois tudo o que perguntava o avô sabia, e, quando não sabia, os dois juntos iam procurar num livro grande de capa preta que o nono havia apelidado de &lt;em&gt;"Pai do Conhecimento"&lt;/em&gt;. A curiosidade era tanta, mas tanta, que, quando o moleque conseguiu achar o avô, que estava debaixo de uma árvore frondosa, agachado, plantando margaridas, o coração parecia querer sair pela boca, e as palavras se embaralhavam com o ar, produzindo sons estranhos e desengonçados. O avô, conhecido por sua serenidade e jeito calmo no falar, sorriu e esperou, pacientemente, o neto se recuperar, para, então, entender o que ele tanto queria.&lt;br /&gt;Demorou uma eternidade para que isso acontecesse. Um minuto inteirinho de aflição do garoto querendo perguntar, e não conseguindo se fazer entender. O avô, sorrindo, pediu que ele respirasse fundo, profundamente, várias vezes, até que as palavras foram se tornando compreensíveis, e ele entendeu pelo que o neto tanto ansiava: queria saber tudo sobre as borboletas.&lt;br /&gt;O velho senhor sentou-se num banco que ficava debaixo de um caramanchão florido e contou tudo o que sabia. A cada relato, o menino fazia novas perguntas, e a prosa durou horas seguidas, sem que ambos notassem o tempo passar. No final, a mãe do garoto teve que os chamar várias vezes para irem almoçar, pois a comida esfriaria.&lt;br /&gt;O estômago dos dois já dava mostras de impaciência e a comida da mãe cheirava até alcançar o outro lado da cerca, mas, antes de se levantar, o avô lhe contou a lenda de que havia naquela floresta um ser muito especial: uma Borboleta Invisível. Quem a visse ficaria batizado pela sorte e, enquanto vivesse, teria em seu poder um tesouro de valor inestimável.&lt;br /&gt;Foram almoçar. A comida estava boa, mas, a cada garfada que o menino colocava na boca, tudo em que pensava era como faria para conseguir ver a Borboleta Invisível e, assim, ser o dono do tesouro que ela traria.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-2885741621573854485?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/2885741621573854485/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=2885741621573854485&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/2885741621573854485'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/2885741621573854485'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2008/04/borboleta-invisvel-captulo-4.html' title='A Borboleta Invisível (Capítulo 4)'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-6451285033350388381</id><published>2008-04-22T18:15:00.000-07:00</published><updated>2008-04-22T18:21:26.118-07:00</updated><title type='text'>A Borboleta Invisível (Capítulo 3)</title><content type='html'>Certa vez, num dia radioso de primavera, quando a Mãe Natureza mostrava todo o seu esplendor e glória desde os primeiros minutos do amanhecer, o menino saiu cedinho da cama, o galo mal havia cantado. Pegou um pedaço de broa que estava em cima da mesa da cozinha e se esgueirou de fininho pela porta dos fundos, em direção à floresta. Se a mãe ou o pai lhe visse, a aventura estaria perdida. Logo, logo, lhe incumbiriam de alguma tarefa: debulhar milho, varrer o quintal, ou mesmo tomar conta do gato da vizinha, que vivia querendo fazer do canário do seu avô a refeição principal do dia.&lt;br /&gt;Então o menino, depois de ter tomado uma distância considerável da porta da cozinha, e já confiante de que não poderia mais ser visto pelos pais, saiu em disparada, como se fosse um corisco, em direção à floresta que, na sua visão de moleque, era um local mágico e cheio de mistérios. Volta e meia, ele se refugiava ali, quando, é claro, conseguia se desvencilhar dos olhares materno e paterno. Nem sempre era fácil; porém, possível.&lt;br /&gt;O garoto, ao chegar na mata, foi logo envolvido por diferentes sons, que nunca o deixavam de encantar. As folhas das árvores ainda carregavam o orvalho da madrugada ainda não completamente evaporado. Molhadas, brilhantes, resplandeciam parecendo esmeraldas ao sol.&lt;br /&gt;De repente, um balé de borboletas passou em sua frente. Extasiado, olhava-as dançando como se namorassem. O menino ria vendo tanta beleza. As cores das borboletas pareciam terem sido tiradas do arco-íris. Uma variedade caleidoscópica que fazia o garoto arregalar os olhos e buscar identificar cada uma. Mas o dançar era rápido demais e, muitas vezes, ele não sabia onde começava uma cor e terminava outra. A visão durou poucos segundos, tempo suficiente para que o menino se apaixonasse pelas borboletas e resolvesse daquele momento em diante, vir sempre à mata admirá-las. Nascido e criado naquelas bandas,  sempre vinha à floresta, mas era a primeira vez que conseguia presenciar o dançar das borboletas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-6451285033350388381?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/6451285033350388381/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=6451285033350388381&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/6451285033350388381'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/6451285033350388381'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2008/04/borboleta-invisvel-captulo-3.html' title='A Borboleta Invisível (Capítulo 3)'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-7083255762577417500</id><published>2008-04-18T08:11:00.000-07:00</published><updated>2008-04-18T08:15:34.648-07:00</updated><title type='text'>A Borboleta Invisível (Capítulo 2)</title><content type='html'>Se você pensa, contudo, que a história termina por aqui, está enganado. Esqueci de contar que naquela aldeia havia um menino, um moleque destes bem levados, que vivia de calça curta e joelho ralado, curioso por natureza, de olhar esperto e vivaz e cuja íris mais parecia um céu azul em dia ensolarado sem nenhuma nuvem.&lt;br /&gt;Um garoto capaz de enxergar coisas a que os outros não dariam a mínima atenção. Um bichinho do mato que gostava de colecionar pedras pequenas, que colhia, escondido do pai, alface na horta e fruta no pomar para dar aos passarinhos, ou a qualquer criatura da natureza que sentisse fome de corpo e de atenção.&lt;br /&gt;Mas o garoto não era santo não! Adorava subir em árvores, dar susto nas beatas que passavam pela calçada em direção à igreja e que o desconjuravam, rogando pragas do inferno, dizendo que sua alma queimaria lá em baixo, com o Belzebu, só porque ele teimava em jogar pererecas sempre no momento em que elas passavam. Uma grande injustiça com o pobre do garoto, essas beatas faziam. Afinal, até que se prove o contrário, só se é menino uma única vez. Era, pelo menos, o que o padre jurava em suas missas matinais de domingo! O garoto sempre desconfiou do pároco com suas mãos melecadas de gordura de frango assado, que comia duas vezes ao dia, mas como ninguém tinha se manifestado, não seria ele a fazê-lo. Afinal, era apenas um menino, e criança não tinha querer, tampouco podia dar &lt;em&gt;pitaco &lt;/em&gt;em conversa de adulto. Se fizesse isso, sua mãe lhe puxaria as orelhas, e adeus sobremesa, durante uma semana inteirinha, inteirinha. Melhor ficar quieto.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-7083255762577417500?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/7083255762577417500/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=7083255762577417500&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/7083255762577417500'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/7083255762577417500'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2008/04/borboleta-invisvel-captulo-2.html' title='A Borboleta Invisível (Capítulo 2)'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-3928552270602558911</id><published>2008-04-16T17:19:00.000-07:00</published><updated>2008-04-16T17:22:02.793-07:00</updated><title type='text'>A Borboleta Invisível (Capítulo 1)</title><content type='html'>Talvez você não acredite nesta história que vou narrar. Ela foi contada por meu avô, que ouviu de seu avô, que, por sua vez, escutou de seu nono, que era de uma terra bem distante.&lt;br /&gt;Como todo bom &lt;em&gt;"causo"&lt;/em&gt;, este começa assim:&lt;br /&gt;Era uma vez uma aldeia, e, próxima a ela, existia uma floresta cortada por um rio cujas águas cristalinas nasciam numa distante montanha. A terra ficava perdida num planalto central deste mundão de Deus. Dentro desta floresta densa, habitava um ser angelical, de cuja existência poucos se davam conta. Naquela mata de vegetação cerrada, havia uma linda borboleta.&lt;br /&gt;Você pode até dizer: &lt;em&gt;"Mas que novidade é esta? Borboletas existem aos montes pelo planeta afora!"&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;É verdade. Mas esta era especial. Muito especial mesmo, pois era uma Borboleta Invisível.&lt;br /&gt;Poucos, muito poucos, podiam enxergá-la naquela floresta densa de tons de verde que pareciam ter nascido da paleta de um artista.&lt;br /&gt;As borboletas que havia naquela mata eram conhecidas por suas belezas e variedade de cores, mas se os habitantes daquela terra pudessem enxergar a Borboleta Invisível, aaah… Certamente a elegeriam como o ser mais belo deste planeta. Mas ninguém, ninguém mesmo, conseguia vê-la para apreciar tanta formosura.&lt;br /&gt;Suas asas lembravam rendas que pareciam criadas por alguma mão de fada que, certamente, habitava aquela mata. Cada pedacinho de seu corpo delgado era de uma perfeição que só mesmo a Mãe Natureza seria capaz de gerar.&lt;br /&gt;Mas, apesar de tudo isso, o povo daquela terra não conseguia vê-la pousada nos largos e extensos troncos das árvores que circundavam a floresta, o que não deixava de ser uma pena, porque tanta beleza não deveria ser apreciada apenas por alguns. Sua transparência era motivo de tristeza para a Borboleta Invisível. Ela queria muito ser vista, apreciada e amada, mas ninguém tinha enxergado suas asas bordadas, suas antenas delicadas e seu voar angelical.&lt;br /&gt;Triste é a sina de quem não consegue ser vista pelo outro. Dá um pesar danado no coração de quem se torna invisível para o mundo, principalmente quando tudo o que se almeja é ser admirado, é fazer brotar no peito de alguém um sentimento que acalente as entranhas como se fosse um colo quente e reconfortante.&lt;br /&gt;A Borboleta Invisível se sentia assim, entristecida em sua invisibilidade, embora conformada com seu destino.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-3928552270602558911?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/3928552270602558911/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=3928552270602558911&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/3928552270602558911'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/3928552270602558911'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2008/04/borboleta-invisvel-captulo-1.html' title='A Borboleta Invisível (Capítulo 1)'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-6832941242964873928</id><published>2008-04-14T14:52:00.000-07:00</published><updated>2008-04-14T14:58:04.060-07:00</updated><title type='text'>Testamento</title><content type='html'>Quando eu morrer, por favor, não chore: celebre a vida se aproximando mais desta Força Superior que habita em cada um.&lt;br /&gt;Quando eu morrer, e espero que ainda demore algum tempo, lembre-se dos bons momentos que tivemos, nunca o que deixamos de viver.&lt;br /&gt;Depois que partir, por favor, não me transforme em mito ou exemplo a ser seguido. Lembre-se que soltava pum, acordava com remela nos olhos, tinha TPM e, às vezes, apenas às vezes, aparecia eventualmente com comida entre os dentes.&lt;br /&gt;No dia de minha morte, por favor, cubra-me com margaridas, nunca com rosas. Se não for época de florescerem, pode ser qualquer prima delas, que já serve.&lt;br /&gt;Quero chegar onde tiver que chegar, coberta de margaridas que simbolizam para mim tudo que sempre busquei nesta vida.&lt;br /&gt;Se a direção do cemitério deixar, plante na minha cova, ou então perto dela, um pé de jabuticaba. Deixe que meu corpo, que naquele momento deixei, sirva de nutriente para uma das mais belas árvores. A jabuticabeira é a minha preferida, principalmente quando está em flor. Quero que quando a árvore der os frutos, alguém possa dizer:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Hummm, como a Mina tá gostosa este ano!&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Tudo bem, admito que não fui a primeira a pensar nesta metáfora, mas gostei tanto da idéia de ser gostosa mesmo depois da morte, que reproduzi a frase aqui.&lt;br /&gt;Caso morra de forma violenta, por favor, não se martirize pensando no quanto devo ter sofrido. Lembre-se da frase de William Shakespeare: “&lt;em&gt;Há mais coisa entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia”.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Se você orar ou mandar rezar uma missa, desde já agradeço.&lt;br /&gt;Mas se quiser realmente me alegrar, trazendo luz ao meu espírito, por favor, ouça um Chico Buarque, um Tom Jobim. Ahhh, um Vinícius também serve, qualquer música popular brasileira de boa qualidade.&lt;br /&gt;Ligue o som na sua sala de estar ou no quarto e dance, abra os braços e dance. Você não estará sozinho. Prometo estar contigo celebrando a vida!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PS: Mina é meu apelido de infância&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-6832941242964873928?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/6832941242964873928/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=6832941242964873928&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/6832941242964873928'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/6832941242964873928'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2008/04/testamento.html' title='Testamento'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-9148662057911157465</id><published>2008-04-07T13:37:00.000-07:00</published><updated>2008-04-08T19:05:17.611-07:00</updated><title type='text'>Íris</title><content type='html'>Ela é uma gata. Com profundos olhos azuis, vive rebolando entre as bancadas e prateleira de um sebo que fica na Rua Buarque de Macedo. Seu nome é Íris, uma homenagem a deusa grega que é mensageira dos deuses, em particular de Zeus e de Hera. Hermes é seu correspondente masculino. Íris simboliza o arco-íris e é tida como o elo entre o Céu e a Terra, entre as divindades e os homens, pobres mortais.&lt;br /&gt;Quando a vi pela primeira vez, veio logo aquela idéia que diz que escritores têm os gatos como fetiche. Íris com seus enormes olhos azuis, e o pêlo cor de areia da praia de Copacabana, fazia de colchão para sua soneca da tarde quatro escritores que, particularmente, aprecio muito, são cânones portugueses: Manuel Bandeira (&lt;em&gt;Estrela da vida&lt;/em&gt;), João Guimarães Rosa (&lt;em&gt;Noites do sertão&lt;/em&gt;) e José Saramago (&lt;em&gt;A jangada de pedra&lt;/em&gt;). Se gato, ou no caso de Íris, gata, é fetiche de escritor, não sei. O que sei é que a felina do sebo tem muito bom gosto de fazer dos poemas de Bandeira um travesseiro, sonhando com a rica prosa de Saramago e de Rosa.&lt;br /&gt;Escrevo, mas não tenho nenhum gato ou gata como fetiche. Na verdade, o meu animal é o cachorro, comprovando aquela tese do “melhor amigo do homem (no meu caso, mulher)”. Gato mesmo só tive um e se chamava &lt;em&gt;Cyrano&lt;/em&gt;, em homenagem ao personagem que adoro.&lt;br /&gt;Meus animais são batizados invariavelmente como nomes de personagens literários preferidos e pessoas ligadas às artes. Já tive Rei, em homenagem ao Rei Artur da Távora Redonda, também tive uma Brigite (atriz), e assim sempre foi a galeria dos meus amigos caninos. O mais recente chama-se Poeta. Como não dava para chamá-lo de “Vininha-Chico-Tom-Pessoa”, resolvi batizá-lo com um nome que resumisse meus grandes amores: Poeta. Acho que ficou bom.&lt;br /&gt;Poeta agora precisa de uma namorada, e estou pensando em procurar uma que tenha cara de Flor. Sim, porque Poeta não pode viver separado de uma Moça e uma Flor, conforme já dizia aquela música de Vinícius de Morais.&lt;br /&gt;É muito importante que o meu bicho tenha cara do nome que quero lhe dar. Já conheci um buldogue chamado Apolônio, e sua digníssima esposa tinha a alcunha de Isabel . Um casal bárbaro! Pois eles tinham mesmo cara de Apolônio e Isabel, do mesmo jeito que Íris também tem cara de Íris. Adoro nomes! Nomes bonitos, exóticos, diferentes, engraçados. Nomes e também sobrenomes. Por isso, escolho com todo o cuidado um que combine com o meu bichinho de estimação. Aliás, não é só bicho que precisa de nome adequado. Conheci um menino de cinco anos chamado Capristêneo. Claro que ele tinha um apelido: Tetê. Não sei o que é pior, o nome ou o apelido. Imagine quando tiver maiorzinho o quanto sofrerá com as piadas, não só pelo nome próprio, mas também pelo apelido, pois normalmente é uma abreviatura feminina. Coitado. Os pais criaram um inimigo em casa.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-9148662057911157465?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/9148662057911157465/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=9148662057911157465&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/9148662057911157465'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/9148662057911157465'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2008/04/ris.html' title='Íris'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-522490678131767943</id><published>2008-04-03T08:57:00.000-07:00</published><updated>2008-04-03T08:58:03.760-07:00</updated><title type='text'>Pedido</title><content type='html'>Por favor, não me peça para escrever poesia.&lt;br /&gt;Minh´alma se enche de pudores, ruborizada com a impossibilidade de falar das estrias do meu coração.&lt;br /&gt;Vá lá... até admito uma prosa com uma pitada de lirismo, mas ah!......&lt;br /&gt;Não me peça para escrever poesia.&lt;br /&gt;Minha rima se perde no mundo da métrica...e a vida, o viés da existência, fica desnuda e perdida nesta linguagem que é própria dos anjos.&lt;br /&gt;Quem dera que pudesse escrever como Drummond, Pessoa, Cecília, Flora, ou mesmo Bandeira!&lt;br /&gt;Mas, ah!...as musas que os inspiraram são de outro naipe, não atendem uma reles mortal, uma artesã da palavra.&lt;br /&gt;Por isso, por favor, eu imploro, não me peça para escrever poesia!&lt;br /&gt;Só saberia falar de mundo e “Raimundos”, sem encontrar nunca uma solução.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-522490678131767943?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/522490678131767943/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=522490678131767943&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/522490678131767943'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/522490678131767943'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2008/04/pedido.html' title='Pedido'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-6181907908499301993</id><published>2008-04-01T05:51:00.000-07:00</published><updated>2008-04-01T06:00:35.514-07:00</updated><title type='text'>Calçada</title><content type='html'>Você já reparou, usando um termo da moda, o quanto de biodiversidade humana passa por uma calçada? Pois é… Tive esta consciência dias atrás, enquanto tomava  um dos quitutes gastronômicos da barraca da Tia Maria, na Rua da Lapa. Tia Maria é uma baiana &lt;em&gt;“arretada”,&lt;/em&gt; e entre os seus manjares está uma sopa de legumes com carne da melhor qualidade, de que sou fã de carteirinha.&lt;br /&gt;Estava eu lá sentado saboreando minha iguaria quando comecei a reparar em pessoas de todos os tipos,  passando pela retina. A Lapa é uma grande aldeia onde se encontram todas as tribos, isso já sei não é de hoje, mas fiquei pensando como pessoas tão diferentes poderiam circular num lugar relativamente pequeno – quer dizer, não é tão pequeno assim, mas é um microcosmo do mundo &lt;em&gt;muderno&lt;/em&gt; em que vivemos.&lt;br /&gt;Enquanto tomava cada colherada da deliciosa sopa, podia ver idosos, estudantes, jovens de diferentes estilos trafegando por aquelas ruas centenárias. O que mais me chamou a atenção foram os jovens, deve ser porque já não sou um.&lt;br /&gt;Todo adolescente traz no seu DNA o gens da contestação. Eu também já fui jovem e vivi isso. No meu tempo (aí, &lt;em&gt;tô &lt;/em&gt;ficando velho mesmo, já comecei a usar &lt;em&gt;“no meu tempo!”&lt;/em&gt; Mas fazer o quê, não é mesmo?) os jovens contestavam, mas de maneira diferente. Iam pra rua, se vestiam de preto e pintavam a cara de verde e amarelo para tirar um presidente &lt;em&gt;“collorido”&lt;/em&gt; do Planalto. Hoje, o que vejo é um bando de gente querendo ser tão diferente que acaba sendo igual.&lt;br /&gt;Quer uma prova? Vou lhe dar. Há alguns anos, e não faz tanto tempo assim, quem usava tatuagem era um marginal. É bom que se esclareça que o sentido que estou dando a &lt;em&gt;marginal&lt;/em&gt; é aquela pessoa que está à margem da sociedade, sem que este seja notadamente um bandido, ladrão ou político. É o que o sábio Drummond (salve, salve, mestre querido!!!) diz no seu poema: &lt;em&gt;“Vai Carlos, ser gauche na vida”.&lt;/em&gt; Pois bem, só usava tatuagem quem era marginal. O rapaz que portasse na pele tal símbolo de rebeldia, ou era marginal, ou, então, marinheiro. Sim, porque os &lt;em&gt;“garotos de família”&lt;/em&gt; não poderiam ostentar nenhum coração de mãe, ou o nome da mulher amada, ou, ainda, uma pequena lagartixa que se transformaria mais tarde num dragão. Mulher usando tatuagem? Nem pensar! Hoje não. Qualquer um usa tatuagem: patricinhas, mauricinhos, clubers, sambistas, executivos, empresários, gente de todas idades.&lt;br /&gt;O que me assusta na tatuagem é a possibilidade de não apagar mais, de carregar aquela imagem eternamente – e o que é para sempre sempre me assusta. Quer dizer, tem até o laser, que tira a tinta do desenho. Contudo, a filha de uma prima minha fez o tratamento para tirar a fada que tinha perto da cintura e não deu muito certo. Tirou a tinta, mas a marca esbranquiçada do ser alado até agora continua lá, no mesmo lugar. Não sei se com o tempo o &lt;em&gt;“troço”&lt;/em&gt; sai. Vamos ver!&lt;br /&gt;Quer outro exemplo? Quantas pessoas você conhece que usam mais de um brinco na orelha? Muitas, não? De todas as idades, certo? E homem usando brinco? &lt;em&gt;Vixe!&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Pois é… Há pessoas que não se contentam com apenas dois brincos, mas colocam uma fileira ao longo da cartilagem da orelha. Estremeço só de pensar no trabalho que dá tirar um por um na hora de dormir! Se o(a) dito(a) cujo(a) não tira o adereço, deve ser horrível para dormir com aqueles ferrinhos incomodando em cada virada do travesseiro. Pelo menos assim imagino, sei lá… Ontem, descia o elevador do meu prédio e entrou um rapaz alto, o que as garotas chamam de &lt;em&gt;“gato”&lt;/em&gt;: mais de 1,80 m, físico malhado, de capacete e roupa de motoqueiro. Até aí nada demais. Também adoro uma moto e sair com o vento batendo na cara. Contudo, uma coisa me chamou a atenção: ele tinha um brinco &lt;em&gt;dentro&lt;/em&gt; do ouvido! Isso mesmo! Uma pequena argola dentro do ouvido, ali, dependurada na cavidade. Este é só um exemplo. Na busca de ser original, pois todos já usam brincos em diferentes lugares, se faz uma coisa dessas! Isso sem contar com aqueles que colocam pequenas bolinhas em cima, de baixo ou ao lado da boca.&lt;br /&gt;Voltemos à Lapa. Tomando a sopa da tia Maria, passou por mim uma garota linda, com belíssimos olhos azuis, toda de negro, portando um brinco de argola na cavidade nasal, semelhante à vaca do tio Zezé. Quando era pirralho, passava as férias na sua fazenda no interior de Minas. Carrego boas lembranças daquele tempo… A vaca Miracema do meu tio era famosa na região, e consagrada campeã em vários torneios leiteiros. Uma pena! Não da vaca (que morreu de velha), mas da garota, que ofuscava sua beleza com aquele penduricalho em cima &lt;em&gt;dos beiços.&lt;/em&gt; Quem a olhasse não repararia primeiro nos seus belos olhos azuis, na sua boca bem feita, na sua beleza juvenil, mas sim naquele&lt;em&gt; troço&lt;/em&gt; que carregava, semelhante ao adereço da vaca Miracema.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Mudanças dos tempos de uma Era Pós-pós-muderna”,&lt;/em&gt; dirão filosoficamente alguns. Pode ser. Eu não me acostumo à idéia. É a velhice chegando, inevitavelmente.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-6181907908499301993?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/6181907908499301993/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=6181907908499301993&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/6181907908499301993'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/6181907908499301993'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2008/04/calada.html' title='Calçada'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-8434399946182303132</id><published>2008-03-30T06:17:00.000-07:00</published><updated>2008-03-30T06:20:56.844-07:00</updated><title type='text'>Leitor</title><content type='html'>Não. Não adianta você tentar ler estas mal traçadas linhas. Eu não vou me abrir, não vou contar as minhas dores, os meus amores, as minhas tristezas e alegrias. Por isso, sugiro que o mais acertado é você parar por aqui e ir fazer qualquer outra coisa. O dia está bonito? Então vá para a praia, o calçadão &lt;em&gt;‘tá &lt;/em&gt;aí convidando para uma caminhada descompromissada ou reflexiva. Vá para a vida!&lt;br /&gt;Silêncio.&lt;br /&gt;Mas você, hein?!... Eu já não lhe disse que não adianta tentar ler estas linhas, que nada encontrará de interessante? Mas que ser mais teimoso fui encontrar! O que espera nestes parágrafos? Alguma confidência inconfessável? Um texto que fale das desgraças de minha suposta vida? Algum amor pedido, alguma&lt;em&gt; causo&lt;/em&gt; engraçado, um fato de infância que marcou a existência? Não adianta, ficarei calada.&lt;br /&gt;Silêncio.&lt;br /&gt;Ok, admito: não gosto de intimidade. Tenho dificuldade de me expressar, de falar o que sinto e vivo, por isso, vá tirando seu &lt;em&gt;cavalinho da chuva,&lt;/em&gt; não dará certo. Desista enquanto ainda dá tempo, não perca o seu tempo lendo este texto. Não matarei sua curiosidade. Não deixarei que penetre tal qual um ladrão que adentra na calada da noite o quarto onde durmo.&lt;br /&gt;Tive um professor que sempre falava da necessidade de se expressar através das palavras. Que elas, as palavras, podem ser uma carta de alforria. Não sei. Sinceramente, não sei se a palavra pode me libertar. Às vezes, só às vezes, acho que ela me prende a um mundo concreto. Que materializa a minha emoção, e isso é assustador, porque enquanto a emoção está no campo do abstrato, tudo é fantasia, tudo é imponderável. Mas a partir do momento que ela se concretiza, ah...isso me assusta, tenho que confessar.&lt;br /&gt;Agora pára. Não adianta. Já falei muito. Vá embora, caia na vida, me deixe em paz!&lt;br /&gt;Silêncio.&lt;br /&gt;Estive pensando.... pensando em várias coisas e inclusive em você, que está aí do outro lado tentando ler este texto que teimosamente não quero escrever. Mas não consigo me desvencilhar dos seus olhos, que, imagino, percorrem esta folha branca com letras pretas. Que você é um ser teimoso, não tenho a menor dúvida, mas o que faz uma pessoa insistir em ler algo que o escritor não quer escrever? Fico imaginando como você pode ser, o que faz, se é homem ou mulher. Você sabe mais de mim do que eu sei de você. Isso me assusta.&lt;br /&gt;Ok, admito que sou um ser humano assustado, mas não muito. Tenho feito o exercício de me atirar na vida, na maioria das vezes consigo. Mas há dias, em que o sol interior está envolto em nuvens de tempestade, que fica difícil sair da cama. Saio, mas é difícil, admito.&lt;br /&gt;Silêncio.&lt;br /&gt;Seu silêncio é algo que me incomoda profundamente. Não consigo escutá-lo, e o meu monólogo interior é enfadonho, e fico a imaginar se não acha o mesmo.&lt;br /&gt;Vá embora! Deixe-me em paz! Você está me fazendo prisioneiro ao continuar lendo estas letras impressas no papel branco. Não consigo parar. Vou parar. Estou parando. Desisto. Ponto final.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-8434399946182303132?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/8434399946182303132/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=8434399946182303132&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/8434399946182303132'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/8434399946182303132'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2008/03/no.html' title='Leitor'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-3102563699835229950</id><published>2008-03-27T03:50:00.000-07:00</published><updated>2008-03-27T03:53:02.785-07:00</updated><title type='text'>Destino</title><content type='html'>Shirley Terezinha tinha acabado de sair da igreja. O bispo garantiu que Paulo Marcelo estava endemoninhado e, por isso, a largou. Ela acreditava porque apenas o demônio, o Belzebu das profundezas mais profundas, poderia ser o único responsável pelo sumiço de seu grande amor. Um romance &lt;em&gt;“muderno”&lt;/em&gt; que nasceu nas páginas de um site de relacionamento virtual, mas nem por isso menos verdadeiro. Shirley Terezinha desde que o amado tinha ido embora, há cerca de três semanas, já não era mais a mesma: triste, moribunda, avessa ao sol... justo ela que sempre ficava debaixo do Astro Rei pegando uma cor na laje, como se fosse uma nova Garota de Ipanema, só que do subúrbio. Ela, que nunca foi de ficar agarrada a nenhuma figura religiosa, agora só vivia de joelhos pedindo a tudo que era santo, de todas as religiões e mesmo até das seitas, que fizesse Paulo Marcelo voltar para sua cama, quer dizer, para sua rede virtual. Mas ele sumiu, não deixou recado, não responde mais as mensagens que ela manda para sua caixa postal. Sumiu, escafedeu-se, evaporou, virou pó nestas intricadas veredas cibernéticas. Desesperada, Shirley Terezinha saiu da Pavuna para a igreja que disseram ser um porrete: uma que fica na Rua São Clemente e que todo dia tem milagre. O Filho de Deus e seus anjos batem o ponto no local e diariamente cego começa a enxergar, pederasta vira homem, prostituta se transforma em santa e matador de aluguel vira pastor. Uma glória só! Afinal, atinou Shirley Terezinha, se tantos milagres destes calibres podem acontecer, por que Paulo Marcelo não poderia voltar, não é mesmo? Ao sair da igreja, a enamorada sofredora ainda carregava o coração pesado com medo de que as orações do bispo não fossem suficientes. Afinal, como o líder religioso bem ressaltou, Belzebu em pessoa estava administrando e tecendo uma teia maléfica em torno do seu amado, fazendo a separação de ambos. Distraída, Shirley caminhou uns 100 metros e chegou ao ponto do ônibus. Com os olhos vagando, deu de cara com um cartaz que dizia o seguinte: &lt;em&gt;“Mãe Sílvia: jogo de búzios, cartas, tarô. Trago a pessoa amada em três dias”.&lt;/em&gt; A última frase saltou aos olhos de Shirley Terezinha porque era isso que ela queria. Era o prazo máximo que conseguiria ficar separada de seu grande amor, o único de sua vida, de sua longa existência cheia de vazio e uma pilha de carnês de prestações da Casa Bahia para quitar. Discretamente, tirou o papel da conta da Light que deveria pagar naquele dia e escreveu o endereço e o telefone com o que tinha restado do lápis de olho que estava quase no final, perdido no fundo da bolsa. Olhando para os lados, para ver se algum &lt;em&gt;“irmão”&lt;/em&gt; da igreja estaria presenciando que ela estava copiando o endereço da vidente, Shirley Terezinha rabiscou confiante de que tomava a melhor solução, pois problemas extremos merecem remédios também extremos e cavalares. O consultório ficava na Zona Oeste, em Jacarepaguá, e o percurso seria longo, muito longo, principalmente para quem saiu de casa às 6h. Mas tudo &lt;em&gt;“vale a pena se a alma não é pequena”,&lt;/em&gt; como estava escrito na traseira de um caminhão de mudança que ela viu tempos atrás. Shirley Terezinha decidiu apostar e pegou o ônibus que a levaria para a solução definitiva do grande impasse de sua vida: a volta triunfante de Paulo Marcelo para sua existência, mesmo que esta fosse apenas virtual. Ao subir para o ônibus, vários lugares estavam vazios, mas ela optou – sabe-se lá Deus o porquê - de sentar ao lado de um rapaz de boné vermelho e com a camisa do Flamengo. Ela nem era muito ligada a estes tipos de coisa, times, jogos, bola e trave. Mas, por força do destino, Shirley Terezinha ficou ao lado de Davideslon. O rapaz foi o primeiro a puxar conversa ao notar que cada vez que passava um poste, Shirley meio que se inclinava para ver os cartazes pregados. É que durante todo o percurso, os anúncios xerocados de Mãe Sílvia infestavam a trajetória. Conversa vai, conversa vem....Shirley Terezinha descobriu que Davideslon era um motoboy sem moto, pois trabalhava com veículo da empresa. Que morava no subúrbio como ela, pertinho de sua casa, na Pavuna, mas que ambos nunca tinham se cruzado. Coisas do destino. Foram se conhecer na Zona Sul, quando Shirley Terezinha procurava a Mãe Sílvia. A empatia entre os dois foi forte e gratuita. Um ficou à vontade na companhia do outro, apesar de Shirley não ter tido coragem de confessar que estava indo para Jacarepaguá em busca de uma mãe-de-santo. Disse apenas que estava passeando pelas redondezas, sem ter nada o que fazer. Deixando esta brecha, Davideslon a convidou para almoçar na casa de sua madrinha, que morava na Freguesia. Ele ia visitar a Dinda no seu dia de folga. E foi assim que Shirley Terezinha deixou de lado a idéia original de ir procurar a vidente e trazer o grande amor de sua vida de volta: Paulo Marcelo. O destino se encarregou de trilhar outros caminhos em sua linha da vida.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-3102563699835229950?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/3102563699835229950/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=3102563699835229950&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/3102563699835229950'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/3102563699835229950'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2008/03/destino_27.html' title='Destino'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-2628161382721431415</id><published>2008-03-23T07:32:00.000-07:00</published><updated>2008-03-23T07:34:58.451-07:00</updated><title type='text'>O homem que não refletia</title><content type='html'>Já se passaram muitos e muitos anos desde a última vez que decidi não me olhar mais  no espelho. Ainda era um moleque de calças curtas quando resolvi que nunca mais veria a própria imagem refletida. Desde então, tenho me mantido fiel a esta resolução.&lt;br /&gt;Durante todo tempo, sinto na pele que os anos transcorreram devido os olhares dos outros. Hoje, sei que sou mais velho porque garçons, porteiros, o jornaleiro e minha empregada - ou mesmo qualquer transeunte na rua - me chamam de &lt;em&gt;“senhor”&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;Poucos sabem que não me olho. A maioria deste pequeno grupo que tem conhecimento da decisão que tomei, pertence à minha família. São primos, primas, tios e tias mais velhos, poucos da nova geração estão conscientes de que recuso a me olhar. Eles só descobrem o fato quando alguém mais velho do clã – um primo ou tia que primam pela ironia e o deboche – querendo assustar a figura mais jovem, logo dizem que sou vampiro e que, por isso, não posso ver a minha imagem refletida no espelho. Bobagens, tento não ligar. Contudo, me incomoda profundamente quando um adolescente me olha de esguelha com um olhar ao mesmo tempo de fascínio e medo, dividido na incerteza gótica de um romantismo pós-moderno. Criei a fama, agora deito na cama, conforme diz o ditado. Aliás: obrigaram-me a deitar.&lt;br /&gt;Nunca senti falta de me olhar. Acho que sou igual àquela pessoa que acorda um dia, e ao ver um bife diz: não estou com vontade de comer carne. Passam-se os anos e não se dá conta que os dias foram se somando, transformando-se em meses, e os anos em décadas.&lt;br /&gt;Porém, não olhar a própria imagem, tenho que admitir, causa pequenos transtornos. O pior que enfrentei foi quando ainda era jovem, e não tinha pêlos suficientes para compor uma impávida barba. Coisa de adulto: serrada, cheia, criada com o acúmulo dos dias. Com a chegada da idade, o que era antes um tufo aqui e outro ali, se transformou numa respeitável, primorosa e densa floresta negra que foi se modificando também, aos poucos, e hoje está dividida entre a brancura do algodão e o cinza das asas de um pombo. Resultado: hoje, vou a um barbeiro mensalmente para apenas aparar a barba, não deixando que cresça no estilo selvagem. Sempre quando estou na sua cadeira, fecho os olhos e deixo ser cuidado por suas habilidosas mãos profissionais. &lt;br /&gt;Mesmo não me olhando no espelho, consigo chegar a esta conclusão apenas olhando para os pêlos do meu peito, vejo a textura de minha pele. Não preciso ver minha imagem refletida para ter consciência de que a velhice se instalou completamente.&lt;br /&gt;Uma vez me perguntaram, era uma estudante de psicologia com pretensões filosóficas, se não querer me olhar era uma forma de fuga freudiana. Como pouco entendo sobre Freud e suas teorias edipianas ou não, nada respondi. O que sei, e isso posso garantir, é que passo muito bem a minha vida sem querer me ver. Leio muito e os livros refletem as imagens que quero enxergar. Não preciso de espelho para ver o mundo e a mim mesmo.&lt;br /&gt;Dizem as más línguas que sou anti-social. Pode ser. Não levo muito a sério, pelo menos tento não levar, as opiniões que os outros têm de mim.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5411023288808529609-2628161382721431415?l=carlagiffoni.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/feeds/2628161382721431415/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5411023288808529609&amp;postID=2628161382721431415&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/2628161382721431415'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5411023288808529609/posts/default/2628161382721431415'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlagiffoni.blogspot.com/2008/03/o-homem-que-no-refletia.html' title='O homem que não refletia'/><author><name>Carla Giffoni</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12830433045746106919</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_Z1dJj_ksDXI/R8HTla4PqdI/AAAAAAAAAAM/DoP74kdPWXU/S220/carla.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5411023288808529609.post-1024993512101632838</id><published>2008-03-20T15:12:00.000-07:00</published><updated>2008-12-05T09:25:25.698-08:00</updated><title type='text'>Conto de fadas (uma versão para adultos)</title><content type='html'>O relógio marcava 16h45 quando Cinderela chegou à casa de chá. Esperando impacientemente lá estava a Bela, batendo os dedos no tampo da mesa. Apesar de não estar atrasada, pois o encontro foi agendado para as 17h, Cinderela se sentiu culpada por fazer a controladora Bela esperar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Que demora!” – exclamou a Bela, que já nem era tão bela assim, depois de ter se casado com a Fera, tinha engordado uns 15 quilos, para dizer o mínimo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cinderela sentou-se à mesa e ficou quieta, contou até dez e tentou se concentrar no mantra que seu &lt;em&gt;personal&lt;/em&gt; de ioga havia ensinado para quando estivesse muito próxima de explodir. Depois de respirar até dez por cinco seqüências seguidas, Cinderela se acalmou e, só então, conseguiu desfrutar da companhia da amiga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Branca de Neve ainda não chegou, como sempre”, queixa-se a Bela comendo mais um merengue lambuzado de açúcar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ela sempre chega um pouco atrasada”, confirmou Cinderela já refeita da quase explosão de raiva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Como vão as crianças e o maridão?” – indagou a Bela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ah, o Júnior está terrível! A professora disse que ele está aprontando na classe e, pelo jeito, nunca se encaixará no perfil de príncipe encantado, seguindo as pegadas do pai. Eu já nem sei como fazer. Cinderelazinha tem uma agressividade que nem sei como será, ela é toda brutalizada, não gosta de brincar de boneca e sequer usa aquelas roupas lindas cheias de fitinhas e sapatinhos de cristal. Só quer saber de aprender boxes, lutas marciais! Meus filhos não correspondem a nenhum perfil de príncipe e princesa, já não sei o que fazer com estas crianças. Sinceramente, não sei onde eu errei”, disse Cinderela caindo em prantos no meio do salão de chá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem saber o que falar, Bela empurra um pedaço de bolo de chocolate dizendo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Come que logo vai passar. Mas e o príncipe não ajuda em nada? Você tem que se impor, Cinderela! Afinal, a criação dos filhos é de responsabilidade dos dois!” – argumenta indignada a Bela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ah, o príncipe já não é mais o mesmo. Sempre me deixa de lado e agora deu para chegar muito tarde. Desconfio que ele tenha um caso com uma das empregadinhas do palácio. Ele vive de cochichos pelos cantos ao celular, agora deu para querer fazer ginástica, determinou que os costureiros reais fizessem um novo guarda-roupa novinho! Ele está naquela f
